3 Chances

2 2º Chance - Parte 1


Notas iniciais
Gosto muito desse capítulo e foi o que eu escrevi primeiro, originando a idéia geral da história.

Aoi olhou para a janela, percebendo que já estava escuro. Sentiu suas costas fisgarem um pouco. Maldita idade, seu corpo já não tinha a resistência de antes.

– Então ele se mudou e vocês não se viram mais? — Aoi perguntou se espreguiçando.

– Eu tinha me esquecido dele depois de um tempo. E quando me lembrava era com um pouco de nojo. — Reno tossiu algumas vezes, forte o bastante pra inclinar seu corpo para frente.

– Está bem mesmo?

– Claro, amanhã recebo alta, esqueceu? — Disse bebendo um gole da água que estava no copo ao seu lado.

– Por que nojo?

– Eu era hétero, Aoi. Aquela lembrança só fazia com que eu me sentisse menos homem. — Aoi não conseguiu segurar a risada — Mas sempre me fazia acreditar que aquilo foi somente algo de criança, que não sabíamos o que aquele gesto significava.

– Lembro que você era bem rabugento na escola.

– Minha personalidade não mudou. — Sorriu, se lembrando dos tempos de faculdade.

*O*O*O*O*

Eu era mais um daqueles estudantes que começava várias faculdades, mas nunca terminava nenhuma, sem saber o que eu queria da vida. Apenas com aquele pensamento infantil de que “Algum dia eu seria rico e importante”.

Peguei o metro lotado aquela manha, e sem paciência de descer no ponto certo, pois estava ficando sem ar, resolvi descer duas estações antes, tendo que ter uma boa caminhada até minha universidade.

Eu morava agora em Kyoto, consegui passar em uma ótima universidade então tive que me mudar. O curso da vez era direito, porque certa vez ouvi alguém falar que isso dava dinheiro.

O dia estava muito mais frio do que o normal, e logo uma fina garoa começou a cair.

– Droga, vou chegar molhado. – Exclamei baixo cobrindo meu rosto com o cachecol.

Sempre sai de casa despreparado pra essas coisas. Tem coisas que não mudam nunca.

Comecei a andar um pouco mais rápido conforme a garoa foi tornando-se chuvisco, e logo virou uma chuva. Sabendo que não me deixariam entrar na sala molhado, entrei no primeiro café que encontrei. Era melhor esperar a chuva passar.

Era um lugar muito aconchegante e o cheiro do café fresco de certa forma me acalmava. Olhei ao redor e percebi que o lugar estava relativamente cheio. Suspirei, teria que dividir a mesa com alguém. Encontrei uma mesa com apenas um garoto, talvez com a mesma idade que eu, concentrado em sua leitura.

Fui até lá e pedi licença, me sentando a sua frente. Este pareceu nem ao menos reparar que eu havia ocupado o lugar, tamanha sua imersão naquele livro. Pedi um café e fiquei a olhar a rua pela grande janela de vidro, esperando que a chuva ao menos ficasse fraca o bastante para que eu pudesse ir à universidade sem me molhar tanto.

Me surpreendi quando escutei o garoto a minha frente rindo, uma gargalhada gostosa daquelas que te da vontade de rir junto. O motivo da sua risada? Aquele estranho livro que começou a me chamar a atenção. Ele estava encapado, fazendo com que eu não pudesse ver seu título.
Ele riu novamente, e minha curiosidade aumentou.

Passei então a reparar no garoto, desistindo momentaneamente de ler a capa. Era muito bonito e tinha a aparência delicada, mas seu sorriso foi o que me chamou mais atenção. Era de certa forma infantil e totalmente sincero. E sem perceber, eu estava sorrindo junto com ele. Não era difícil eu ficar reparando nas outras pessoas, eu sempre gostei de fazer isso. Mas aquela situação era um tanto diferente.

Passei exatamente uma hora olhando para ele, e pude presenciar mais emoções em seu rosto do que já vi em qualquer outro lugar, as vezes fazendo uma careta e escrevendo alguma anotação no canto da página ou espremendo os olhos parecendo não acreditar no que estava escrito. Sua reação ao livro era tamanha que fez minha curiosidade aumentar ainda mais, mas os compromissos sempre nos chamam de uma forma injusta pra realidade.

Olhei para fora, percebendo que a chuva já havia acabado. Meio a contra-gosto, me levantei e saí do café, caminhando até chegar à universidade.

A aula era sobre psicanálise, que de certa forma era bem legal, mas aquele garoto do café não saia da minha cabeça. Eu queria vê-lo novamente para apreciar a forma como ele se alterava a cada página que lia. Quer dizer, aquele livro tinha me chamado a atenção, então eu queria perguntar qual era. Isso é totalmente normal, certo?

É, talvez.

Fiquei assim a semana toda, voltando naquele café praticamente todos os dias. E para minha decepção não o encontrei mais lá.

Um dia, que por um acaso também chovia e por incrível que pareça, dessa vez eu estava de guarda-chuva. Em uma vontade estranha de entrar na biblioteca com a esperança de encontrar um livro parecido com aquele que ele estava lendo, acabei o encontrando.

Ele estava em um canto mais afastado, com o olhar perdido na janela observando a água escorrendo pelo vidro. Senti meu peito se inflar de algo que eu poderia comparar com euforia. Mas não acho que era isso. Já teve um déjavu e quando viu aquilo acontecer, um frio subiu a espinha de uma maneira meio assustadora?

Então, é isso.

– Você! — Não consegui me controlar, precisei ir até ele pra saber ao menos seu nome.

Ou o nome do livro, que seja.

Ele virou seus olhos para mim parecendo um pouco assustado. Erguendo levemente uma sobrancelha ao perceber que não me conhecia.

– Posso ajudar?

– Eu... Quero dizer, não se lembra de mim?

Ele fez uma cara estranha. Claro que não se lembrava, ele nem ao menos tinha me visto naquele dia. Mas o que eu podia dizer? Que estava fascinado com ele e que precisava conhecê-lo melhor? Essa definitivamente seria a pior aproximação possível. Eu provavelmente iria parecer um psicopata.

– Seu rosto não me é estranho. Mas desculpe, não lembro.

– Nos encontramos em um café um dia... Eu... ia pedir o nome daquele livro que você estava lendo. Com capa azul. — Encontrar desculpas e mentir nunca foi meu ponto forte. Acabei meio que contando a verdade mentindo. Isso faz sentido?

Não tenho certeza se ele se lembrou de alguma coisa que havia realmente acontecido em um café, ou se percebeu que eu mentia e teve dó de mim. Mas acabou sorrindo meio infantil e indicou para que eu falasse mais baixo. Ainda estávamos dentro da biblioteca afinal.

– Acho que não vai encontrar aquele livro em lugar nenhum. — Ele disse e indicou um banco pra que eu me sentasse.

Eu ainda estava meio pasmo dele não ter falado nada como “Isso nunca aconteceu” ou qualquer outra coisa que me fizesse sair de lá envergonhado. Olhei pra ele interrogativo, em parte pela resposta que me dera.

– Esse é um caderno de anotações. — Quando olhei pro caderno que estava aberto na sua frente, percebi logo que era aquele mesmo livro de capa azul que ele estava lendo outro dia. Por ser um encadernado de capa dura em brochura, era realmente parecido com um livro comum.

– Mas como poderia rir tanto com o que você mesmo escreve? — Perguntei automático, percebendo o que eu falei tarde de mais.

Ele riu novamente. E eu percebi que aquele sorriso me trazia uma sensação estranha. Talvez fosse o déjavu?

– Eu emprestei esse caderno pra uma amiga, e ela acabou rabiscando nele inteiro. — Ele folheou um pouco o caderno, me mostrando as páginas. Todas tinham algo desenhado ou algum comentário nos cantos das páginas. Alguns dos desenhos eram realmente engraçados. — Você deve ter me visto quando eu tentava estudar e comecei a ler esses rabiscos.

Corei instantaneamente. Aquela devia ser a pior gafe que eu já havia cometido.

– Ah, desculpe então. — Me levantei pra sair de lá, estava envergonhado de mais e aquele assunto já parecia ter sido encerrado.

– Você já está indo? Vai ao metrô? — Ele perguntou e eu tive que me virar pra ter certeza de que ele falava mesmo comigo — É que está chovendo e eu estou sem meu guarda-chuva. Se pudesse me dar uma carona...

Eu deveria estar parecendo um verdadeiro idiota, encarando ele sem entender direito e sem conseguir responder. Quer dizer, quem pediria carona no guarda-chuva de um total estranho?

– Desculpe se estou sendo abusado...

– Não, não... Eu te acompanho. — Eu estava bem constrangido. Fiz papel de idiota na frente dele e estava me surpreendendo com aquela atitude.

A minha atitude.

Afinal, quem daria carona pra um total desconhecido?

Já estávamos a caminho do metrô e nos mantínhamos meio encolhidos pra não nos molharmos.

– Você estuda? — Shino começou com a conversa, vendo que eu estava visivelmente meio tenso com a situação.

– Sim, estou cursando Direito.

– Você não tem cara de quem quer ser advogado. — Ele disse divertido, olhando pros meus cabelos descoloridos e a maquiagem leve que eu usava.

– Não é realmente o que eu quero. Mas dizem que da dinheiro, então é o bastante.

– Não tem medo de acabar trabalhando a vida toda em algo que não gosta?

– Não. — Acabei sendo meio grosso na resposta. Mas caramba, ele nem me conhecia e já ficava dando opinião na minha escolha?

Mas ele apenas sorriu novamente e abaixou levemente a cabeça, como se desculpando pelo que tinha falado. Me senti meio mal pela forma como respondi e tentei parecer que não havia ficado irritado com aquilo.

– E você? Também está na faculdade?

– Sim, estou cursando medicina. — Ele respondeu parecendo empolgado. Algo nele me fazia ficar animado, como se ele irradiasse felicidade.

– É, também me disseram que isso traz dinheiro.

– Não faço pelo dinheiro.

– Eu sei. Da pra perceber que gosta... — Sorri vendo a cara emburrada que mantinha. Fazendo ele corar. Acho que é aquilo que as pessoas chamam de bonitinhas. — Me chamo Reno.

– Sou Shino. — Ele também sorriu, um sorriso que me dava uma sensação nostálgica.

Mas aquela altura, o nome não me soou familiar e eu apenas ignorei aquela sensação.

Continua...

Notas finais
Um dia meu irmão estava lendo "Primeira flor de Cerejeira" e falou algo como "Como é que nessa história só tem gay e todo mundo ta achando isso super normal?!" Na hora eu dei risada, mas ele meio que falou a verdade. Mesmo estando cercada de amigos gays, não é uma coisa que as pessoas aceitam numa boa e alguém se assumir gay deve ser a parte mais difícil. Foi meio que pensando nisso que eu escrevi essa fic, por isso tem uns confrontos psicológicos meio tensos, mas eles não são totalmente inventados. Reviews? ^^