3 Atos Para Continuar
5 Quadribol (Capítulo Bônus)
Notas iniciais
Cordélia nem se lembrava de ter concordado com aquela completa insanidade.
Havia sido sem querer. Não pensava em nada naqueles últimos meses. Se Mary queria ir às compras, Cordélia se levantava, do jeito que um inferi faria, e a acompanhava. Aceitava as sugestões quando Mary dizia o que ela devia comprar e opinava apaticamente. Se Fleur achava que ir à praia em Dorset pegar um pouco de sol era um bom programa para o fim-de-semana, Cordélia arrumava uma bolsa com uma canga, roupa de banho e a acompanhava. Ela era uma daquelas pessoas que não precisavam estar no quarto trancada para sofrer. As memórias a acompanhavam aonde fosse.
Por isso, quando Vítor sugerira que fossem ao jogo de quadribol, era possível que ela tivesse apenas acenado com a cabeça, o rosto enfiado dentro de um livro, o que ele tomara como uma anuência ao convite.
Agora, ele estava no centro de sua sala, limpando a fuligem da viagem de flú, vestido em preto e vermelho, as cores da Bulgária, e esperando que ela se vestisse. Cordélia, sem reação, havia voltado ao quarto, mas, agora que se recuperava do susto, percebia todas as formas em que aquilo era uma má ideia. Parou em seu quarto sombrio com as cortinas fechadas e acendeu um candelabro com um aceno de varinha ao escancarar a porta do armário de mogno enfeitiçado para ser maior por dentro do que por fora, como fora seu armário em Hogwarts.
Considerou sua situação por um segundo, diante de vários vestidos de veludo, tule, seda e lã. A ideia de ir a um jogo de quadribol era ruim em qualquer hora. Não gostava de quadribol e, naqueles dias, não gostava de agitação. Não gostava de saber que não era Cedrico que a levaria. Seu coração apertou. Estava prestes a virar-se e sair do quarto para avisar a Vítor que não poderia, quando ele mesmo bateu a porta de madeira com arabescos delicados. Ela a abriu, suspirando.
Vítor estava parado no portal, iluminado por trás pela luz da lareira da sala, um pote de tinta vermelho numa mão e um preto na outra, a olhando confusamente.
—Por que focê non está prrronta?
Algo em Cordélia derreteu por baixo da dor.
—Não tenho nada vermelho. –Balbuciou, inventando uma desculpa em seguida. –É a cor da Grifinória.
O búlgaro olhou para as roupas dela: um suéter amarelo e calças leggins pretas com listras verticais e acenou a varinha. Imediatamente, seu suéter passou para uma tonalidade laranja, antes de parar no tom exato de vermelho das vestes de Krum. Ele então pediu permissão para pintar seu rosto, o que ela deixou, e ofereceu um braço para que aparatassem juntos. Cordélia pegou tudo o que precisava; uma bolsinha de contas com sua varinha, alguns galeões, e identificação do Instituto Flammel, e se deixou aparatar.
Eles aparataram num largo campo vazio, onde, em alguns metros, se erguia um grande campo oval. Muitos bruxos também aparatavam. Alguns lançavam olhares para Vítor, e outros, em seguida, balançavam a cabeça para si mesmos como se achassem não ser o ex-jogador.
O casal de bruxos fez seu caminho para dentro. Cordélia viu que, do outro lado, entravam pessoas com roupas azuis e brancas, na cor da Inglaterra. Ela se voltou para Vítor, indignada.
—Você me trouxe para torcer contra meu país! –O acusou.
—Focê é escocesa! –Ele respondeu, rindo despreocupado. Cordélia não tinha como argumentar contra essa lógica.
Os dois entraram, se juntando a vários bruxos que, para Cordélia, falavam uma língua que não era a sua. Assim, encontraram seus lugares bem no alto; claramente Vítor tinha alguns privilégios como ex-jogador daquele mesmo time, pois foi cumprimentado por alguém com expressão oficial –talvez um técnico, ou patrocinador –com entusiasmo e apresentou Cordélia em búlgaro, ao que a escocesa apenas entendeu as palavras “britânica” e “amiga”.
Eles saíram de seus lugares para se apoiarem no gradil quando o time búlgaro entrou ao som do agressivo hino do time. Fora a agitação e excesso de pessoas, se considerasse apenas a altura e o vento batendo em eu rosto, era quase como estar na Torre de Astronomia, com Cedrico ao seu lado –o que significava que tudo ficaria bem. Mas quando abriu os olhos verdes, era Vítor junto dela, a olhando com preocupação. Ela desviou o olhar, tirando o cabelo cor-de-bronze da frente do rosto com um gesto da mão.
Apesar do entusiasmo e da Bulgária estar ganhando, Vítor não deixou de a checar nem por um segundo durante o jogo, vendo se estava se divertindo. Cordélia fez um esforço para ficar alheia ao fato de que sentia como se traísse Cedrico –indo ao jogo com outra pessoa. Mas parecia isso. Torcer a fazia se sentir mal, não torcer a fazia sentir como se estivesse chateando Vítor sem necessidade e, ao fim da partida, com a Bulgária pegando o pomo e ganhando, ela estava tão aliviada que até mesmo conseguiu abrir um sorriso como se houvesse se divertido.
Os dois recolheram as garrafas vazias de cerveja amanteigada e suco de abóbora, Vítor colocou em suas mãos o resto dos doces que ele havia comprado e que haviam sobrado e os dois começaram a descer com os demais torcedores, exceto que era um pouco mais difícil para eles, com muitos bruxos parando Vítor para apertarem sua mão ou darem palmadinhas em seu ombro. Ele segurou a mão de Cordélia para que não se perdessem um do outro na descida, o que a fez se sentir ainda pior.
No andar mais baixo, Vítor a deixou por um segundo para assinar os chapéus cônicos de duas adolescentes búlgaras, e Cordélia se aproximou de um quadro de avisos cheio de cartazes, onde o fluxo era menor e ela provavelmente não seria carregada para fora contra sua vontade. Um dos cartazes era laranja-brilhante e a bruxa se aproximou, curiosa.
Quando Vítor se aproximou de novo, ela se virou para ele.
—Os Cannons vão jogar na próxima semana. –Disse, a voz baixa, mas sabia que ele poderia ouvi-la mesmo assim. Vítor conhecia o timbre de sua voz bem o suficiente para que a ouvisse entre cem outras.
Outro bruxo também tinha ouvido seu comentário.
—Há! Eu vou morrer antes que os Cannons ganhem mais um jogo, garota. –Era um velho bruxo com um dente dourado no sorriso torto. –Você é muito nova para passar a vida esperando um milagre!
Sabia que os dois não estavam pensando na mesma coisa, mas Cordélia não pôde deixar de se perguntar se seu rosto não era muito fácil de ler.
—Cordélia Bloxam? –Outra voz soou atrás dela quando o velho bruxo se afastou e ela começava a andar para a saída com Vítor.
Oliver Wood vestia uma roupa de torcedor da Inglaterra. Estava mais forte do que fora durante o colégio, mas o cabelo curto e os olhos castanhos eram o mesmo e ela poderia tê-lo reconhecido em qualquer lugar. Ele também lançou um olhar desconfiado para o bruxo ao redor dela e Krum apertou o braço ao redor de sua cintura. A sonserina se desvencilhou dele num instante e avançou para abraçar o ex-namorado, que a esperou com os braços estendidos.
—Você está torcendo para a Bulgária, sério? –Ele torceu o nariz para ela, mas sorria. –Você não torcia nem para a Sonserina.
—Eu fui convidada. –Ela explicou. –Oliver, esse é Vítor Krum. Vítor, esse é Oliver Wood, goleiro reserva do Puddlemere United e ex-aluno de Hogwarts.
Os dois jogadores apertaram as mãos com expressões amistosas, embora Vítor houvesse se postado junto de Cordélia de modo que os dois estavam de um lado e Oliver do outro. Cordélia não deu atenção ao comportamento; parecia aquela coisa que garotos faziam quando estavam perto de uma garota bonita, e ela não daria incentivo.
—Bem, de qualquer forma, Délia, deveríamos tomar um café qualquer dia. –Sugeriu Oliver. –Eu sempre posso aparatar em Londres.
—Isso seria bom, Ollie. –Respondeu Cordélia, sabendo que era pouco provável que conseguisse reunir energia para sair com qualquer pessoa, especialmente com Oliver, que a lembrava de namorar e a lembrava de Hogwarts, e ambas as lembranças tendiam a ser dolorosa em sua mente.
Os três bruxos se despediram e, ao lançar um último olhar para o grifinório, Cordélia se sentiu quase nostálgica por um tempo mais simples. Vítor a deixou em casa, e aceitou uma xícara de chá, enquanto, ainda com as vestes de torcedores e os rostos pintados, discutiam as diferenças entre Acônito Licônico e Acônito Lapelo. Ele não ficou até muito tarde, e Cordélia se viu desejando que ele tivesse demorado. Mas, então, antes de aparatar, ele virou os olhos escuros para ela:
—Quer ir ao jogo dos Cannons?
Cordélia quase não se sentiu culpada ao responder com um sorriso discreto.
—Eu vou comprar os ingressos.
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