Abriu os olhos e levou algum tempo para adaptá-los à penumbra. Não estava totalmente escuro, o que tornava possível perceber que o cômodo em que despertara parecia abandonado. Aliás, parecia cair aos pedaços.

Seu corpo estava dolorido, como se tivesse acordado após dormir umas dez ou doze horas. Era aquela sensação de que havia tomado uma surra, em vez de dormir de fato.

Ao se levantar, bateu a cabeça em algo duro. E transparente, pois não havia nada que impedisse sua visão do estranho ambiente.

Mas... onde estava? Como fora parar lá?

Perguntas e mais perguntas vinham à sua mente, mas todas sem respostas e sem pistas. Causavam-lhe uma sensação sufocante e claustrofóbica.

Bateu com força a cabeça, o que fez ceder uma tampa de uma espécie de cápsula. E as perguntas ainda ecoavam em sua mente, aliadas a uma sensação cada vez maior de que estava dentro de uma bizarra história de ficção científica.

Fora o leve zumbido de um pequeno motor que fazia a cápsula funcionar, não havia nenhum outro som naquele ambiente ou nas suas proximidades. O cômodo lembrava, em parte, um quatro de hospital, em parte, um laboratório.

Tinha uma aparência decadente, até mais do que se via em hospitais públicos. E, à medida que o sol se punha através das grossas cortinas de tecido cru, ela sentia que, além de parecer uma ficção científica, aquele quarto começava a ganhar ares de filme ou game de terror.

Caminhou com passos hesitantes até um armário que tinha uma estrutura parecida com a cápsula onde havia despertado. Abriu-o e reconheceu nela seus pertences: roupas, calçados, bolsa e todo o seu conteúdo, tal como da última vez que se recordava.

Enquanto se vestia com suas roupas, tentava entender como exatamente fora parar naquele lugar aparentemente abandonado e deserto. Se fosse um hospital como todos os outros, certamente ouviria vozes, alguns ruídos de equipamentos ou algo típicos de hospitais. Porém, era tudo silêncio.

Um silêncio para lá de incômodo.

Assim que se vestiu, foi até a porta do cômodo. Tentou abrir, mas a porta não cedeu. Percebeu que não estava trancada. Tentou forçar um pouco, igualmente sem sucesso. Foi quando decidiu usar toda a sua força. Já que tudo parecia tão deserto, não havia problema em fazer barulho. Apoiou o pé contra a parede, próximo ao umbral e puxou a maçaneta com toda a força, jogando todo o seu peso para trás.

O resultado imediato foi ela no chão com a porta sobre si. A porta cedera até demais. Não bastou abrir, as dobradiças simplesmente se soltaram.

Caminhou pelos corredores labirínticos do prédio que, de fato, tinha todas as características de um hospital abandonado. Tudo para ela continuava sendo um estranho mistério. Por fim, conseguiu encontrar a saída para uma rua sem qualquer iluminação. Antes que terminasse de escurecer, correu até conseguir alcançar uma avenida iluminada. Nem deu tempo de contemplá-la, pois precisou se abaixar devido ao voo rasante de um drone, que seguiu seu caminho.

“Ok”, pensou. “Pelo menos foi só um drone... O dono deveria pelo menos controlar melhor esse troço!”

A avenida, mesmo naquele horário de início da noite, estava tranquila demais. Mas, quando fez menção de atravessá-la, dois veículos passaram rapidamente.

Algo ali não estava encaixando no que se lembrava...

Outro veículo passou. Foi quando percebeu que era um carro, mas sem rodas e que flutuava vários centímetros acima do asfalto. Piscou várias vezes os olhos, tentando acreditar no que via. Outros veículos passavam com as mesmas características, fazendo-a duvidar de seus próprios olhos.

― Por quanto tempo eu dormi?! – indagou, sem conseguir assimilar o que via.

Viu que a tal avenida seguia até um conjunto de arranha-céus repleto de placas luminosas e painéis de LED. Tinha cara de ser o “centrão” da cidade. Aliás, não reconhecia que cidade era aquela em que estava. As perguntas continuavam a pipocar em sua mente, mas sabia que ficar parada não responderia aos seus numerosos questionamentos.

Começou, de forma hesitante, sua caminhada. Além do temor do desconhecido, incomodavam-na os olhares de transeuntes que cruzavam seu caminho. Impressão sua ou aqueles olhares pareciam de aversão, vindos de transeuntes bem-vestidos, como se tivessem saído de filme ou série ambientados nos anos 1940-50?

Sua aparência destoava completamente, sentia isso não apenas nos olhares que lhe eram dirigidos, mas no que observava. Homens vestiam terno, gravata e chapéu. Mulheres, blusas, saias ou vestidos extremamente recatados e cabelos longos, no mínimo até abaixo dos ombros.

Encarou seu reflexo na vitrine de uma loja, mas não achava nada de errado. Tudo bem que parecia ser a única a vestir uma blusa baby-look preta e calças jeans e ter cabelos mais curtos, mas não havia nada de anormal que justificasse os olhares que recebia.

Um facho de luz forte bateu em seu rosto. Provinha de um drone, que pairava logo acima de sua cabeça e dizia, através de uma pequena caixa de som acoplada:

― Alerta! Alerta! Infratora do Código de Costumes! Infratora do Código de Costumes!

Já não entendia mais nada, então sua primeira reação foi correr. Não iria ficar parada para saber o que significava aquilo que ouvia do drone. Seu instinto lhe dizia para fugir, pois aquilo cheirava a encrenca. Correu como se sua vida dependesse disso, driblando obstáculos e pessoas como um centroavante driblava em velocidade a zaga adversária numa partida de futebol. Correu para despistar o drone que a perseguia, com a sensação de que poderia ter quebrado os recordes de atletismo estabelecidos por Usain Bolt, de tão rápida que estava.

Sua corrida só terminou quando uma mão vigorosa a puxou para um beco escuro, onde alguém tapou sua boca, abafando um grito de surpresa.

Com os olhos arregalados de medo, tudo o que conseguiu pensar foi “Estou frita!”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.