2012 - Fic Interativa
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ryuzaki
– Ryu, você está me ouvindo?
– Sim, continue.
– Então, você acha que o mundo acaba dia vinte e um? – perguntou a loira em tom de brincadeira.
– Claro, Alice. Mas eu vou sobreviver, vou morar junto com o Coelhinho da Páscoa.
– Posso ir com você?
– Sempre – disse Ryu, dando um beijo rápido nos lábios da namorada.
– Sem beijo no estabelecimento! – gritou Harry Fell, o gerente do pequeno mercado em que Alice e Ryu trabalhavam.
Ryuzaki Gemini não era muito sociável. Não era assim algum tempo atrás. Alice sabia que parte (boa parte) dessa mudança se devia ao fato da morte de sua irmã mais nova, Katherine. A mãe dele, Amy, morrerá no parto de Kath. Seu pai havia se suicidado quando Katherine morreu aos quatorze anos, depois de dois lutando contra o câncer. Mas isso já não era tão recente, e Alice começava a suspeitar de que ele nunca mais seria o mesmo. Ela não podia culpá-lo. O que ela faria sem seus pais? “Nada”, sua mente sussurrou, “você iria se encolher numa bola e chorar até apodrecer”. Ela tremeu. Droga, às vezes se achava tão inútil... Mas ela não era tão imprestável assim, pensou. Foi idéia dela que seus pais virassem guardiões legais de Ryu. Ele, assim como Alice, já tinha dezessete anos. Logo seria maior de idade. E era muito independente para dar trabalho.
Fisicamente, Alice e Ryuzaki não eram parecidos. Ela era loira e pequena, de olhos azuis. De cabelos lisos. Uma típica estudante americana. Ele tinha cabelos negros lisos que chegavam até a nuca, com a franja cobrindo displicentemente o olho direito. Tinha a pele claro e olhos azuis bastante profundos (puxando para um azuis anil, mas mais brilhante). Eles eram bonitos. Os dois. Não os mais “Ai-que-gato-amica!” e “Muito-gostosa”, mas ainda assim.
Alice ficou na ponta dos pés e guardou o último pacote que tinham que empilhar.
– Podemos ir agora, Sr. Fell, ou tem mais alguma coisa que precisamos fazer?
– Não, Srta. Axcel. Estão liberados, até amanhã.
Ryu achava que Alice era seu porto seguro. A única coisa sólida nesse mar de confusões que o rodeava desde sempre. Ele precisava dela. Sem ela, ela não teria algo para se fixar na realidade. Então, enlouqueceria. Mas ela estaria sempre ali para impedi-lo de se afogar.
– Vamos, vamos pra aula. Hoje temos prova de geometria.
– Ah, droga – murmurou baixinho, se lembrando só naquele instante.
– Você não estudou, né? – perguntou Alice levantando uma única sobrancelha.
– Se eu dissesse que estou com catapora, ele me deixaria fazer a prova outro dia? – perguntou esperançoso.
– Não, você teve catapora na quinta série, está no seu histórico escolar.
– To ferrado.
– Veja pelo lado bom, se o mundo acabar a nota da prova não importa!
E com esse pensamento positivo, eles foram para a aula.
Cecile
Cecile tinha vinte anos, e problemas mais longos que seus 1,60 de altura. Pra começar, seus “pais” eram terríveis. A mãe morreu quando a mesma tinha seis anos. Depois disso, o pai (que ele arda no Inferno, pensava ela) abusava de Cecile de todas as formas imagináveis. Ela não era nenhuma idiota. Juntou dinheiro e, com mais uns trocados furtados da carteira do pai, pagou para alguns contrabandistas levarem-na de Israel para os Estados Unidos. Mas, por sinal, eles acabaram querendo mais do que dinheiro. Fugindo deles (um, inclusive, agonizando no chão), ela começou a viver nas ruas. Sempre seguida pelos bandidos (idiotas vingativos). A garota acumulou experiência de vida viajando (ilegalmente) de país em país, cidade em cidade... Mas aí que bateu uma duvida. E o dinheiro? Muito necessário. Essencial, muitos diriam. Então ela conseguiu o dinheiro. Pegando dos outros. Ah, qual é, nem era roubo, quase. Eles nem precisavam! Quem precisava era Cecile. Então, ela se meteu de trabalhar num prostíbulo. Não era o trabalho mais luxuoso, mas uma garota precisa comer. E ela era bastante bonita. Quer dizer, um metro e sessenta de altura, cinquenta e cinco quilos, corpo violão, de seios e bunda fartos, pele rosada, queixo levemente pontudo, lábios recheados e vermelhos, olhos azuis como o céu, cabelos em dreads coloridos e longos até a cintura encorpada, dedos das mãos longos como a de um pianista. Mas não era como se ela tivesse muita opção no mercado de trabalho. Ela era, afinal, ilegal no país.
Hoje, especificamente, ela estava hospedada em um hotel barato em L.A., mas pelo menos ficava perto da praia. Mas agora, nesse instante, ela estava num bar, sentada no balcão bebendo whisky. Cecile notou que alguém havia deslizado para o assento ao seu lado. Sobre o torpor causado pela bebida que já estava tomando fazia já algum tempo, ouviu a voz dele pedir uma dose de whisky.
– Olá.
– Oi. – respondeu sem interesse algum.
– Qual é seu nome? – perguntou ele. Aliás, ele era muito,muuuuitooo bonito. Olhos azuis claros, um sorriso de derreter qualquer uma, cabelos negros bagunçados, e um corpo que... Okay, Cecile, Whisky+Cara-bonitão não é uma boa combinação, mesmo pra você.
– Meu nome é Não-te-interessa. E caí fora.
Uma hora (e muito whisky) depois...
– Eu já viajei pelo mundo todo... E você?
– Eu não, baby, mas o que eu queria mesmo... posso te contar um segredo? – sussurrou a última parte.
Cecile abriu bem os olhos e acenou animadamente com a cabeça.
– Eu queria, nesse instante... – se aproximou mais e sussurrou rente ao ouvido dela, seu hálito fazendo cócegas na garota. – É te beijar.
Mesmo no seu estado bêbado, Cecile quase caiu do bando de tanto rir.
– Qual a graça? – perguntou o homem, Luke.
– É que... háhahaha... eu não...
– Esquece – resmungou.
Depois de um tempo, Cecile e Luke se despediram, e trocaram telefones. Cecile não entendeu o porque de dar seu número. Ela raramente fazia isso. Mas ela sentiu uma confiança estranha com Luke. Afastando esse pensamento da cabeça, Cecile culpou o Whisky. Sempre o Whisky.
Kimberly
– O que você acha da Eliza, Kim? – perguntou Adam.
– Ela é legal, porque?
– Ah, sei lá, ouvi dizer que ela está afim de mim. Afinal, quem não está? Eu sou lindo e fodão e maravilhoso...
– Esqueceu do humilde – disse Kim, tentando disfarçar o ciúme.
– Outra qualidade minha.
– Você não tem jeito, mesmo – disse ela, rindo e jogou uma batata frita nele.
– Ei! Não desperdice, um dia as batatas do mundo todo vão acabar e você vai ficar se lamentando por esse belo exemplar crocante e gorduroso com que você me agrediu.
– Duvido muito.
– Que as batatas acabem ou que você se arrependa?
– Que eu um dia lamente ter feito isso.
– Ai, assim você me magoa. Vou acabar acreditando que quer me ferir.
– Só se for no ego, Adam. Não sei que estrago vou fazer com uma batata frita.
Kim Webb tinha uma quedinha por seu melhor amigo. Eles tinham sido colegas e amigos inseparáveis desde a pré-escola. Alguns boatos de namoro tinham se espalhado na sexta série, mas foi tudo esquecido. Eles eram amigos. Só amigos. E Kim preferia que fosse assim. E se ela contasse a ele que gostava dele e o clima ficasse todo estranho? Não, era melhor deixar tudo como estava. Mas não era à toa que Kim gostava dele. Adam era engraçado, sempre fazendo piadas, mas também sabia quando ficar sério. E ele era bonito. Com os cabelos lisos bagunçados, uma bagunça de fios acobreados claros e escuros, e olhos castanhos mel. Ele tinha um bronzeado bem leve. E músculos. Bastante. Ela tinha observado isso atentamente quando começou a se interessar por garotos. Ele era o mais próximo dela. E ela começou a se aproximar mais dele, a vê-lo de um jeito diferente de como se vê um amigo. Mas ele ainda a via como uma pirralha, ou até uma irmãzinha. Uma palavra: de-pri-men-te.
Enfim, ela também era bonita. Um pouco, pelo menos. Era magra, mas tinha algumas curvas. E tinha uma pele ótima. Cor de caramelo, mas um pouco mais clara. E seus olhos verdes eram chamativos. Sabe, brilhantes e tudo mais. E ela tinha cabelos de um castanho rico, no tom do chocolate ao leite. Eles eram cacheados, e ficavam na altura dos ombros de Kim. Junte tudo isso, e ela era bonita e de aparencia saudável. Como alguns diriam, ela "dava pro gasto".
– Sabe o que eu vou fazer quando o mundo acabar?
– O que, Adam?
– Vou me esconder dentro do esgoto.
– Eca, que nojo! Pra quê? Você vai morrer de qualquer jeito, e ainda fedendo.
– Háhahaha... Eu pensei que você tinha dito fuden...
– Cala a boca!
– Okay, eu... – Adam fechou a boca e começou a ficar meio azul, até que começou a rir tanto que caiu da cadeira do refeitório, de bunda.
– Há, bem feito!
– Com uma amiga dessas, quem precisa de inimigo.
– Tá, e o esgoto?
– Ah, é. Eu viraria um ser mutante similar a uma barata, então eu sobreviveria. Todo mundo sabe que no fim só as baratas existirão, aprenderão a ler e escrever, a falar, criarão uma nova civilização do zero e...
– Ai, Adam, você me dá dor de cabeça de tanta bobagem que fala.
– Okay, esqueça as baratas.
– Ei Adam, Kim!
– Oi, Kathy – disseram em uníssono.
– E então, você viu que está prevista uma chuva de meteoros hoje?
– Ah? – disse Kim usando todo seu intelecto brilhante.
– Quer dizer que vai cair meteoros na gente? – perguntou Adam.
– Vocês não pensam no que falam? É claro que não, Adam, se não hoje não teria aula, né!
– Nos pensamos no que falamos! Mas eu estou com fome, não consigo pensar com fome, o barulho do meu estomago encobre meus pensamentos – filosofou Adam.
– Acho que peguei essa hábito dele. Eca, fui contaminada com o germe da burrice! Katherine, socorro!
– Deus, como você é dramática.
– Obrigada – Kim disse sorridente.
– Não foi exatamente um elogio, mas tanto faz.
– E então, quando que vai ser essa “chuva de meteoros”?
– Na verdade, nos vamos estar na aula.
– Ei, mas é dia! Não vai dar pra ver! – reclamou Adam.
– Azar o seu. Tchau, Kim, Adam.
– Tchau.
– Até depois.
Os alunos entraram na escola quando o sinal bateu. Seus pensamentos eram simples: estudar coisas chatas e voltar pra casa, e assim por diante até chegar as férias (que estavam a menos de uma semana de distancia). Mal sabiam eles que depois daquela tarde tão normal, tudo seria diferente. Pra sempre.
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