200 quilos de amor
16 Quando as coisas se ajeitam
Notas iniciais
Logo após a discussão terrível com Edward e de ter meu coração novamente destroçado, sai correndo do estúdio de gravação fui para o estacionamento. Queria ir embora dali o mais rápido possível. O sangue que corria da minha mão ia pingando conforme eu corria, mas eu não estava me importando muito com isso.
–Bella! Espera! – Ouvi Edward me chamando aos gritos. Continuei meu caminho sem olhar para trás.
Entretanto ele era mais rápido do que eu e infelizmente conseguiu me alcançar. Segurou-me pelo braço para que eu parasse de caminhar e virou-me de frente para ele.
–Espera... – Pediu quase sussurrando, estava ofegante.
–M-Me deixa.
–Você precisa ir ao hospital... Está sangrando muito.
–Vou ficar bem – Soltei meu braço do aperto dele bruscamente.
–Me deixe levá-la ao médico.
–Só quero ficar sozinha... Não quero ficar perto de você.
–Bella... Por favor!
–PARA DE ME CHAMAR DE BELLA! — Gritei com raiva, Edward encarou-me de olhos arregalados, desviei meus olhos dos dele, pois se o encarasse me quebraria mais do que já estava, amansei a voz e voltei a falar — Anabella não está mais aqui... Eu sou a Isabella então para de me chamar por esse apelido que pertence a outra pessoa... Que pertence a uma farsante!
–Pelo amor de Deus – Ele me segurou pelos ombros – Por favor deixe-me levá-la ao hospital. Você está sangrando demais.
–Não está doendo – Sussurrei baixinho – Acho que nada mais pode me fazer sentir dor... Você esgotou toda a minha cota.
–Pare de me punir dessa forma... Você vai me deixar louco!
Eu sabia que estava sendo muito melodramática... Mas o que eu podia fazer? Era o que estava sentindo.
–Eu não vou ficar tranquilo enquanto você não curar essa mão.
–Hei pessoal – Phill nos chamou aparecendo sei lá de onde – O que estão fazendo aqui fora? Caramba – Exclamou ao ver o sangue em minha mão – O que houve?
–Ela se machucou – Edward respondeu por mim. Àquela altura minha voz havia desaparecido completamente.
–Temos que levá-la ao hospital – Phill disse.
–Sim.
–Só vou se você não for – Falei para Edward, ainda sem encará-lo.
–Vocês dois tiveram algum problema?
–Não é da sua conta – Edward resmungou com raiva.
–Certo – Phill riu – To sentindo um clima bem esquisito no ar... Bom, vamos lá minha estrela. Temos que curar suas mãozinhas de princesa.
Desde que passei por todo o processo da cirurgia plástica prometi a mim mesma que nunca mais pisaria num hospital de novo e se ficasse doente daria um jeito de ser atendida em casa. Infelizmente não pude cumprir a promessa.
E então eu estava lá... sentada numa maca na enfermaria do hospital observando meu braço ser costurado.
–O corte foi bem feio – A enfermeira que realizava o procedimento comentou – Vou ter que dar vários pontos.
Apenas assenti. Eu estava num estado “zumbificado”, não conseguia falar ou raciocinar direito.
–Você é aquela cantora famosa, né? – Ela voltou a falar – Minhas sobrinhas amam a sua música... Elas não vão acreditar que eu cuidei de você... Será que podia dar um autógrafo para elas?
–C-Claro – Respondi baixinho, mesmo no estado catatônico em que me encontrava eu ainda era capaz de ser gentil com um fã – Você tem papel e caneta?
–Tenho, vou só terminar o procedimento — Ela se apressou em fazer o curativo e quando terminou começou a revirar a bolsa – Aqui está – Entregou-me o papel e a caneta.
–Qual o nome delas?
–Mirela e Sônia.
Escrevi uma dedicatória bonita e assinei “Anabella” embaixo. Será que elas ficaram muito decepcionadas quando descobrissem que eu era uma farsa?
–Pronto – Devolvi a ela.
–Muito obrigada. A senhorita é tão linda e tão gentil por isso tem tantos fãs.
–Obrigada – Agradeci com um sorriso fraco e sai da sala.
Voltei para a recepção e vi Phill falando ao telefone, supus que fosse Edward perguntando onde nós estávamos e como eu não queria vê-lo, dei um jeito de sair do hospital pelos fundos, peguei um táxi e fui para casa.
Tudo que eu precisava naquele momento era ficar sozinha. Por isso quando cheguei em meu apartamento, Tomei banho e desliguei todos os telefones para evitar qualquer ligação indesejada. Estava me dirigindo para o quarto quando ouvi a campainha sendo tocava repetidamente. Tapei os ouvidos desejando que a pessoa fosse embora e parasse de me incomodar, mas ao contrário disso continuou apertando o maldito botão, provavelmente acordando todos os vizinhos, mas mesmo assim não atendi. Quando finalmente parou de tocar pensei que estava livra, mas então a pessoa começou a bater na porta... Na verdade diria que estava socando-a.
Caminhei lentamente até a sala, parecia estar no piloto automático... Não ia abrir a porta, então não faço ideia do que realmente fui fazer lá.
–Você está ai? Me deixe entrar – Ouvi a voz dele e senti uma pontada de dor no estômago. Edward era a última pessoa que eu queria ver naquele momento, mas ainda assim caminhei até a porta, me sentei no chão e escorei-me na parede.
–Por favor – Ele implorou – Eu só preciso saber se você está bem... Me deixe saber se você está bem.
Eu não estava nada bem, mas não lhe respondi. Ainda no estado de torpor em que me encontrava – como se tivesse tomado doses cavalares de calmantes – Me levantei e fui para o quarto, me joguei na cama e fiquei encarando o teto. Por incrivel que pareça meu coração não doía mais. Acho que passei tanto tempo sofrendo que todo o meu estoque de dor fora utilizado e tudo que restara fora um vazio... Um vazio tão grande quanto um buraco negro no espaço. Sentia que faltava um pedaço em mim e temi nunca mais ficar inteira de novo.
[...]
Passei dias trancada em casa, mal comia ou bebia. Alice me visitou algumas vezes e contei a ela tudo que havia acontecido, ela cuidou de mim por todo o tempo que pôde, afinal ela também tinha uma vida... Ou pelo menos estava começando a construir uma já que conhecera um rapaz na festa e estava de rolo com ele... Bom, fiquei feliz por ela ter superado o canalha que quase a matou.
A minha sorte fora os cinco dias de folga que Phill havia me dado por causa do corte, pois assim poderia curtir minha fossa em paz. Eu não tinha a ilusão de que ele gostava de mim e estava preocupado, com certeza toda aquela gentileza era apenas para preservar a “estrela” que mantinha sua gravadora de pé. Era só nisso que todos eles pensavam: Dinheiro. O lado bom era que sua ganância me rendera uns dias longe de Edward, eu ainda não estava pronta para encará-lo de novo... Pelo menos não como a Isabella presa no corpo da Anabella.
O meu último dia de folga havia terminado e eu precisava voltar ao trabalho, tinha um show muito importante naquela noite. Eu não sabia se podia fazer aquilo, Edward já sabia que eu não era Anabella coisa nenhuma... Como poderia dar certo? Na verdade eu estava farta de toda aquela mentira, mas o que podia fazer? Enquanto eles mantivessem meu contrato eu estaria lá... Precisava do dinheiro para o meu pai, ele era a coisa mais importante do mundo para mim e eu jamais o abandonaria.
Há poucas horas antes de minha apresentação recebi uma ligação da gravadora solicitando minha presença para uma reunião de emergência. Eu não fazia ideia do que podia se tratar e isso me deixou bastante apreensiva.
Eu estava no meu quarto em frente ao espelho sem saber se aquela escolha de roupa era aconselhável. Eu estava um caco. Devia ter emagrecido uns dois quilos, tudo que eu vestia ficava folgado e no final optei por um vestidinho florido simples que me deixou com ainda mais cara de abatida... O que um coração partido não faz! Acho que não existe no mundo dieta melhor.
Quando cheguei ao local do show, procurei a secretária de Phill e assim que ela me informou seu paradeiro, precisei reunir todas as poucas forças que tinha para criar coragem e entrar na sala de reunião improvisada, pois eu sabia que teria de encarar Edward e não estava nem de longe pronta para isso.
–Até que enfim chegou – Phill disse ríspido, visivelmente irritado assim que entrei. Todos já estavam lá.
–Desculpe o atraso – Respondi baixinho olhando para o chão, não queria erguer a cabeça e encarar Edward. Desde que ele descobrira tudo, “Anabella” meu alter ego confiante e destemido evaporara e ali só sobrara a tímida e retraída Isabella. A gordinha que nunca se encaixou em lugar nenhum.
–Não seja tão grosseiro – Edward o repreendeu e o som rouco de sua voz fez meu coração estúpido acelerar... Burra, mil vezes burra, era isso que eu era!
Phill suspirou.
–Sente-se, garota.
Assenti e me sentei tentando ficar longe de Edward — sem muito sucesso já que eles estavam sentados envolta de uma mesa pequena – Respirei fundo e levantei a cabeça, meu trabalho precisava vir em primeiro lugar naquele momento.
–Bom – Phill pigarreou – Vamos começar, serei rápido e objetivo. Tome – Ele me estendeu uma folha de papel.
–O que é isso? – Peguei a folha hesitante.
–Veja por si mesma.
Abri a boca num formato de O quando li as informações contidas no papel... Lá contava tudo sobre a ligação entre Isabella e Anabella.
–Mas... Isso...
–Já sabemos de tudo, Isabella – Phill disse secamente.
–C-Como?
–Alguém nos enviou isso ontem e... Edward confirmou a história.
Não me contive e lhe lancei um rápido olhar magoado. Ele não se abalou, continuou sério.
–Por quanto tempo pensou que fosse nos enganar? – Phill ralhou tomando o papel da minha mão – Por acaso acha que somos palhaços?
–Não... Eu...
–Sorte sua que somente nós três sabemos disso... Pelo menos por enquanto. Vamos cancelar o show e abafar esse caso.
–Eu não acho que seja uma boa ideia — Edward comentou – Isso não é justo com os fãs lá fora... e ainda tem o prejuízo de todo o dinheiro gasto... Está muito em cima da hora para cancelar.
–E o que propõe? Hã? Que simplesmente deixemos rolar?
–Sim. Acho a melhor opção... Eu sinto muito por toda essa confusão, assumirei todas as responsabilidades.
Encarei-o chocada.
–O quê? – Phill bradou – Está falando sério? Vai mesmo fazer isso? – Ele riu amargo – Você é um estúpido! Cancele essa porcaria de show agora!
–Não posso... Não dá!
–Phill... Eu posso subir lá no palco e dizer que não estou me sentido bem e... – Ele pegou o copo de água que bebia e jogou na minha cara – Cala a boca sua vadia mentirosa que eu não falei com você!
–Seu cretino! – Edward gritou se levantando – Não fala assim com ela!
–Você não vê que a pessoa que nos enviou isso pode ter enviado também para a imprensa? Se não cancelarmos esse show agora eles podem acabar contanto para todo mundo e seremos todos linchados! Aqui diz claramente que ela fazia dublagem para a Tanya! Isso vai arrasar conosco!
–Phill... – Edward tentou intervir mas foi rudemente cortado.
–Dá mais uma olhada – Ele tirou um papel do bolso e jogou sobre a mesa – Você conhece esse contrato de trás pra frente! Tem certeza que vai dar conta de todo o prejuízo, Edward? Vai conseguir arcar com os processos que abrirão contra nós? Esse povo lá fora pagou para ver Anabella e não uma farsante! Então te aconselho a pensar muito bem na minha proposta. Ou você cancela essa porra de show ou ela vai ter que fazer aquele serviço para garantir meu dinheiro caso a gravadora vá para o espaço.
–Q-Que serviço? – Perguntei temerosa.
Phill sorriu malicioso e me olhou de cima abaixo.
–Pelo menos uma coisa boa você fez que foi acabar com aquela pança de baleia assassina que tinha. Agora você está até gostosa, então para garantir meu dinheiro irá pousa nua para a playboy e relevar esse belo corpinho plástico para o mundo! Vamos lucrar enquanto não descobrem que você na verdade era um monstrinho que se escondia debaixo do palco.
–Seu desgraçado! – Edward gritou puxando Phill da cadeira e o empurrando contra a parede – Eu avisei pra não faltar o respeito com ela! Eu só não quebro sua cara agora mesmo porque você precisa dessa boca maldita para pedir desculpas!
Phill olhava para Edward em choque, provavelmente era a primeira vez que o via com tanta raiva, assim como era para mim.
–Vamos – Ele o sacudiu – Peça desculpas ou eu te arrebento inteiro.
Phill seria louco se não obedecesse. Edward era muito maior que ele, muito mais musculoso e naquele momento estava assustadoramente perigoso.
–D-Desculpe – Phill pediu assustado.
–O nome dela! Diga o nome dela!
–Desculpe Isabella!
E então Edward o largou. Passou a mão nos cabelos e ajeitou o paletó. Caminhou tranquilamente até a mesa e pegou o meu contrato nas mãos. Rasgou e jogou na cara de Phill.
–Nunca mais na sua merda de vida ouse ofendê-la... E tampouco fazer propostas indecorosas ou eu juro por Deus que acabo com a tua raça!
Ele veio até mim, segurou minha mão e me arrastou para fora da sala.
–Edward... –Chamei tentando acompanhar seus passos apressados.
–Você vai fazer esse show e será um sucesso. Acho que foi Tanya que enviou esse arquivo, mas vou dar um jeito nisso.
–Por que você confirmou tudo?
–Porque estou cansado de mentiras. Já chega.
–V-Você acha... Você acha que eu vou ter mesmo que... Que fazer aquilo?
–De jeito nenhum – Senti sua mão apertar a minha com mais força – Não vou deixar que ele te obrigue a se expor! Sem chances!
Só quando funguei que percebi que estava chorando. Edward parou de andar e segurou meu rosto em suas mãos.
–Hei, não chore. Vai ficar tudo bem.
Assenti e voltamos a caminhar. Fomos para o camarim, onde encontrei Alice. Quando me viu naquele estado ela foi logo acusando Edward.
–O que fez com ela dessa vez seu canalha?
–Ele não fez nada – Respondi por ele.
–Então o que foi?
–É uma longa história – Suspirei – Mas para resumir... Phill descobriu que sou Isabella.
–Puta merda! – Ela me puxou para um abraço – Sinto muito amiga.
–Foi melhor assim, Alice.
–O que faremos agora, Edward? – Ela perguntou a ele.
–No momento o show.
–Mas ela...
–Por enquanto ainda é Anabella. Depois do show decidimos o que fazer.
–Certo – Alice respirou fundo- Então vamos começar a te aprontar. Temos que chamar a cabeleireira e o maquiador. Seu figurino já está todo ali.
–Ok – Sussurrei.
–Eu trouxe o seu pai... Se você não se importa – Minha amiga comunicou.
–Jura? – Sorri contente – Isso é muito bom.
–Ele gosta de te ouvir cantar – Ela deu de ombros e piscou – Quem não gosta, não é?
–Isso é verdade – Edward completou – Ninguém canta como você.
Não olhei para ele... Meu coração ainda estava fragilizado e um simples olhar me faria despedaçar na frente dele e a ultima coisa que eu precisava naquele momento era voltar a chorar.
Percebendo que eu não responderia, Edward saiu do camarim inventando uma desculpa qualquer e Alice e eu começamos a nos aprontar para o show. Depois de algumas horas eu estava finalmente maquiada, penteada e vestida. Sentei-me de frente para o espelho da penteadeira e me encarei. Aparentemente tudo parecia pronto para o inicio do show... Tudo, menos meu estado de espírito. Eu estava tão abalada que temi não ter voz para cantar, temi decepcionar todas aquelas pessoas que pagaram para me ver. Imediatamente o pânico começou a tomar conta de mim e senti uma enorme vontade de vomitar, e o pior é que eu estava sozinha no camarim... Se passasse mal não teria ninguém lá para me socorrer.
–Oi – Quase como se ouvisse meus pensamentos Edward apareceu. Olhei para ele através do espelho.
–Oi – Respondi com a voz baixa e rouca.
–Você está linda — Senti minhas bochechas corando e o ar me escapando... Mas que merda, eu já estava nervosa e ele piorava tudo. Eu queria lhe dizer o quanto também estava lindo, mas não podia fazer isso.
–Todos estão esperando... Você precisa ir para o palco.
–Eu não consigo – Encarei minhas mãos – Não posso...
–Por que não? – Ele se aproximou... Droga, eu ia acabar morrendo de uma vez.
–Não consigo, Edward – Me levantei e caminhei para o outro lado do camarim. Meu coração batia tão rápido...
–Vai dar tudo certo... Eu estou com você, não vou deixar nada de mal te acontecer...
–Não posso... Não posso – Comecei a ofegar quase chorando.
–Escute – Edward acabou com a distância entre nós e segurou-me pelos ombros – Isso não é pela gravadora, nem pelo idiota do Phill, nem por mim... É por você. É o seu show, seus fãs lá fora...
–T-Tudo... Tudo bem.
Respirei fundo algumas vezes.
–Vamos lá então – Ele sorriu para mim. Um sorriso lindo de morrer.
Assenti e caminhei com ele para fora do camarim. Comecei ao ouvir o som das pessoas gritando meu nome... Da banda tocando e quando o assistente de palco me entregou o microfone notei que estava tremendo.
–Edward...
–Estou aqui – Ele segurou minha mão e me ajudou a entrar no elevador que me levaria para cima do palco – Vai dar tudo certo.
–Promete?
–Prometo, vai lá e arrasa minha linda...
Se o elevador não tivesse começado a subir me afastando dele eu teria desmaiado ali mesmo. Estava na hora... Não tinha mais jeito. Conforme eu subia podia ouvir os sons do público cada vez mais alto as luzes se apagaram de uma vez ... A banda começou a tocar a introdução da minha nova música, os backings vocals começaram a cantar e várias luzes coloridas e faíscas começaram a piscar e quando finalmente cheguei lá em cima o público foi a loucura. Era para ser meu momento de glória... Era minha obrigação aparecer graciosamente... Como uma diva popstar, mas eu tinha certeza que não parecia nada glamurosa naquele momento. Eu apertava o microfone com força nas mãos e tremia feito vara verde, toda encolhida e retraída, entretanto o público parecia ter notado, todos estavam eufóricos demais. Desci as escadas que me levariam para mais adiante do palco tentando não tropeçar em meus próprios pés e cair de cara no chão. Eu precisava reagir, precisava me recompor, mas não conseguia.
Olhei para minha direita e vi Edward junto ao sonoplasta, ele me observava preocupado e fazendo gestos que eu não conseguia compreender, acho que queria dizer “Faça alguma coisa”. Só então percebi que eu estava petrificada no meio do palco parecendo uma débil mental... tentei dar mais alguns passo, mas não consegui... Minha mente estava uma bagunça... Eu estava uma bagunça. O som era muito alto, as luzes piscavam rápido demais, fiquei tonta, enjoada... Estava entrando em pânico.
–CHEGA! – Gritei com toda a minha força e minha voz saiu estridente pelos alto falantes, ecoando por todo o local.
No mesmo instante a banda cessou e o público também. Todos me olhavam assustados.
–Eu não posso... – Sussurrei, mas como estava com o microfone super alto todos ouviram – Não posso... – Já chorando olhei para o público embasbacado – Me desculpem... Sinto muito de verdade.
Desatei a falar tudo que me estava preso na garganta. Eu estava tão cansada, não aguenta mais aquilo...
–Eu não sou Anabella, a linda cantora que vocês pagaram para ver – Falei entre soluços – Sou Isabella... A Isabella esquisitona.
Escorreguei para o chão, perdendo completamente as forças.
– Eu era... Eu era feia, feia e gorda – Continuei meu discurso sem me importar com as consequências, precisava desabafar – Ninguém nunca quis me contratar porque eu estava fora dos padrões de beleza. Minha voz não importava, mas sim minha aparência. Foi então que comecei a cantar para outra pessoa, escondida debaixo do palco... Isso era... Era tão humilhante – Solucei – Então resolvi fazer cirurgia plástica no corpo inteiro, da cabeça aos pés.
Um borborinho de vozes surgiu ao meu redor, mas não me importei. Não me importava com mais nada.
–Agora eu estou bonita... Já podia cantar no palco... Estava tão apaixonada e pela primeira vez na vida era correspondida – Outro soluço, dessa vez mais alto – Eu era feliz sendo a Anabella, mas ela não sou eu... Anabella é egoísta, sendo ela enganei todos vocês, briguei com minha melhor amiga, desprezei meu pai... Fiz mal até a mim mesma... Estraguei tudo, me desculpem... Desculpem... Eu não sei mais quem eu sou. Eu nem me lembro mais de como eu era, não consigo lembrar. Eu... Eu sinto tanta falta de ser Isabella.
Não consegui mais falar. Comecei a chorar descontroladamente. Foi então que comecei a ouvir uma voz... A minha voz cantando “Imagine”. Todo mundo apontou para trás de mim e me virei, deparando-me com o vídeo de minha primeira audição, ainda como Isabella... A gordinha tímida.
–Sou eu... – Sussurrei sorrindo em meio ao choro – Essa sou eu – Falei mais alto para o público ouvir. Olhei para o lado e vi Edward sorrindo-me carinhoso. Foia ele... Foi ele quem colocou o vídeo.
–ESTÁ TUDO BEM – Alguém gritou bem alto da platéia e de repente todos começaram a repetir.
Sorri e respirei fundo.
–Anabella não existe mais – Falei – Mas se vocês quiserem ouvir essa gorda esquisita e horrorosa cantar...
–Chega – Edward disse no microfone – Já chega disso.
Ele veio até mim e me levantou do chão.
–Ed...Edward...
–Nunca mais chame a si mesma de horrorosa, inútil, esquisita... Nunca mais. Você não é nada disso. Veja só – Ele me virou para frente do telão – Ela é tão linda... Canta com a alma, com o coração. Poucas pessoas no mundo são tão puras como ela! Eu... Eu nunca conheci uma pessoa tão maravilhosa na minha vida. Fui um estúpido por ter permitido que ela sentisse que não era especial.
Ele me virou para ele e acariciou meu rosto com a ponta dos dedos.
–Isa... Você é linda, por dentro e por fora. Eu não sei cantar mas... – Ele sorriu – Vou recitar o refrão de uma música que você conhece e que diz tudo sobre você...
Eu estava num estado de torpor tão grande que não conseguia dizer nada, nem fazer nada. Portanto fiquei apenas observando. Edward limpou uma lágrima que correu pelo meu rosto e sorriu carinhosamente, pigarreou e começou a falar.
–Quando eu vejo o seu rosto, não há nada que eu mudaria... Pois, você é incrivel do jeito que você é. E quando você sorri, o mundo inteiro para e fica olhando por um tempo, pois garota, você é incrivel do jeito que você é!
Voltei a chorar ouvindo-o recitar o refrão da música “Just the way you are” do Bruno Mars. Eu mal conseguia respirar...
–Isa – Ele disse suavemente – Eu poderia recitar a música inteira e dizer que seus olhos fazem as estrelas parecerem que não têm brilho, que seu cabelo recai perfeitamente sem você fazer nada... Que eu poderia beijar seus lábios todos os dias se me permitisse e que sua risada que tanto odeia é tão sexy... – Ele sorriu – Mas, tem outras coisas que quero dizer... Começando pelas desculpas, me perdoe por ter sido um tolo, por não ter percebido que me apaixonei por você desde a primeira vez que te vi... Por ter confundido meus sentimentos com amizade e por ter ficado tão confuso no nosso último encontro. Você me perguntou quem eu amava, se era a Anabella ou a Isabella e agora eu sei a resposta, na verdade sempre soube. Eu amo você Isa... Sempre amei e sempre vou amar, porque você é a pessoa mais incrível que conheci na vida e eu nunca me cansaria de te dizer isso... Não importa se é cheinha ou magrinha, isso nunca importou. Me perdoe por todo mal que eu te fiz... Eu... Eu te amo!
O mundo inteiro parou naquele instante. Eu já não ouvia mais o barulho das palmas e a gritaria das pessoas, nem enxergava mais nada além de Edward... Ele disse que me amava, eu Isabella e não a farsante. Como eu poderia não perdoá-lo? Eu estava tão feliz e tão eufórica que nem percebi quando ele me envolveu nos braços e beijou-me apaixonadamente.
Não sei por quanto tempo ficamos nos beijando, só sei quando paramos eu estava sem ar. Mas, todo o medo, a dor e aflição haviam me abandonado e só sobrara a leveza da paz e da felicidade. Edward me deu mais um selinho antes de se afastar e eu resolvi que precisava terminar o show.
Naquela noite cantei num palco como Isabella pela primeira vez na vida e foi tão perfeito que por várias vezes pensei estar sonhando.
[...]
Bom, como toda história tem um final. Eis aqui o meu ( feliz como deve ser). Depois do escândalo da minha revelação a gravadora foi processada por fralde e eu por falsidade ideológica, mas como os advogados foram muito bons conseguiram que pagássemos apenas uma boa indenização e o caso foi encerrado. Para ajudar Phill com os prejuízos – E também porque ele pedira desculpas sinceras- Continuei na gravadora, mas com o contrato assinado como “Isabella”. Lancei meu CD e logo estourei nas paradas de sucesso novamente, dessas vez do jeito certo. Tanya também teve o que merecia, nunca mais conseguiu um emprego no ramo artístico.
Acho que um dia tudo acaba entrando nos eixos e minha vida não podia estar mais... Perfeita. Eu tinha meus shows, meus fãs e o meu grande amor. Íamos nos casar depois da minha turnê e eu não podia estar mais feliz, pois o sentimento que eu carregava por Edward era tão forte e tão grande que mal cabia em mim. Acho que eram uns... Duzentos quilos de amor.
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(Pov Edward)
Minha Isa era tão linda... E era só minha. Eu mal podia acreditar que tinha demorado tanto tempo para perceber que aquela era a mulher da minha vida. Felizmente acordei antes que fosse tarde demais.
Estávamos no intervalo do ensaio para a gravação do novo Cd. A turnê tinha acabado há dois meses e nós iamos nos casar na próxima semana, eu já podia imaginar o quanto ela ia ficar linda vestida de noiva.
–Dá tchau pro papai – Ela disse ao pingo acenando com a patinha dele. Pude ouvi-la pelo alto falante, já que ela estava na cabine de gravação. Eu tinha levado nosso cachorro para o ensaio porque estava meio adoentado.
Sorri para ela e acenei de volta.
–Quer que eu pegue um babador – Meu assistente disse ao meu lado. Desliguei o alto falante e o encarei.
–Quê?
–Você fica ai babando nela – Ele riu.
–Ela é minha noiva. Nada mais natural.
–E por que você gosta tando dela?
Encarei- com uma expressão de “ainda pergunta?”, mas não falei nada. Ele insistiu.
–Porque ela é bonita?
–Idiotas como você acham que sim – Respondi secamente.
Ele ponderou por momento.
–Hmm... Então, porque ela é meiga, amável e boa?
Sorri largamente e suspirei... Um suspiro apaixonado e então respondi encarando minha Isa brincando inocentemente com o cachorro.
–Idiotas como eu tem certeza que sim...
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