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1 Capítulo 1


Estou deitada ouvindo Smoke On The Water pela oitava vez, e provevelmente ouvirei de novo, e de novo. Só pra ter mais certeza que nasci na época errada.

Vou escrever à você porque sei que não vai me responder, quero te contar da minha vida sem me preocupar se vai contar a alguém, ou me julgar pelas minhas renuncias. Afinal de contas a gente não se fala mais, e eu acho que é mais fácil você se abrir com quem não sabe nada a seu respeito. Na verdade vim aqui para falar da gente, tentar me expressar através de papel e caneta, querendo que você me entenda dessa vez. Tentei fazer isso algumas outras vezes, mas desisti, assim como todas as coisas que eu começo e não termino. Vivo uma vida estagnada. Você sabe o que significa e s t a g n a d a? Estagnação nada mais é do que ausência de progresso, é tudo aquilo que não evolui, que para no tempo. E tem sido assim durante uns anos, desde que você foi embora.

Eu fico triste por não conseguir me virar com meus sentimentos depois disso, porque vivo querendo omiti-los, mesmo quando é algo que valha a pena ser compartilhado com alguém que me entenda. Ou que pelo menos se esforce pra isso. Sabe? Você acaba se sentindo mal quando está bem, só porque queria contar a alguém o motivo da sua empolgação e descobrir que não tem ninguém que possa contar, pra ficar feliz ao ver alguém feliz por você. Acho que a felicidade dos outros incomoda. Ou melhor, gente feliz o tempo todo é extremamente irritante! Soa como falsidade, na minha opinião, ninguém consegue ser absolutamente feliz o tempo todo, porque felicidade é um estado de espírito momentâneo, concorda? Você pode sorrir agora, e no segundo seguinte acontecer um desastre.

Me desculpe por ser tão negativa. Eu sou canceriana, e cancerianos costumam ser intensos quando se expressam, especialmente escrevendo. Eu acredito muito em signos. Segundo o meu horóscopo, eu sou bastante sentimental e romantica, apesar de muitas pessoas dizerem que sou um poço de orgulho e indiferença. Não sei em quem acreditar, porque até eu me confundo com quem eu sou realmente. Consigo ser a pessoa mais doce do mundo e ao mesmo tempo ignorar metade dele. Meu psquiátra já disse que tenho transtorno bipolar, mas eu acho que não. Não me sinto diferente todos os dias, na verdade me sinto igual demais. Eu até gosto de rotina, mas só quando ela é bem aproveitada. Deu pra entender mais ou menos?

Nossa, tá chovendo muito! Aqui na casa da minha avó tem telha, e quando a chuva bate parece um estrondo, e eu amo. Acho que é o único momento que eu me sinto completa aqui. Eu vim morar aqui com a minha avó a uns 6 meses, porque eu precisava entender o que aconteceu com a gente. Moro com meus avós e o Del. Você sabe, ele é legal e tal, apesar de achar que sempre está certo e que não posso questioná-lo por ser mais nova. Minha avó nem se mete quando a gente discute, e meu avô nem se fala, é capaz do mundo acabar e ele continuar dormindo. Meu avô sofre de mal de alzheimer, é uma doença que você esquece de hoje de manhã eacha que está vivendo em uma época a 50 anos atrás. Ele dá trabalho, mas nós levamos na brincadeira. Como da vez que ele sofreu um derrame e ficou com a boca torta, e começamos a chamá-lo de Rock Balboa. Foi engraçado. Aqui adotamos uma filosofia de que tudo que acontece de ruim, nós invertemos para algo engraçado, porque minha avó é da igreja e diz que Deus é mais, e não quer ver ninguém deprimido. Eu não acredito em Deus, mas acho essa uma solução boa pra quem quer viver em paz, assim como minha avó. Ela é incrível! Minha avó não aceita os meus costumes, e minhas roupas, e meus piercing. Mas ela consegue se adaptar ao tempo presente, e acaba se adaptando com minhas roupas pretas e metais no rosto. Acho que ela sabe que andar de preto não significa que você seja um drogado, inconsequente. Apesar de eu já ter passado por essa fase.

Eu me adaptei bem aqui... mas ainda não consegui achar o que eu andava procurando. O que eu ainda estou. Vamos começar do começo...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!