1995

1 Capítulo único


Notas iniciais
Obrigada Marin, por me inspirar a escrever essa história e a pregar o headcanon em que o Benedict é santista e a Sophie é botafoguense

Sempre que pedia a Deus por um amor, Benedict nunca se preocupava com qual time queria que a pessoa amada torcesse, ainda que o futebol fosse a sua vida e a sua rotina girasse em torno da Vila Belmiro e da boemia daquele lugar com os amigos. Ele nunca quis um par exclusivamente santista. Lá no fundo, porém, ele achava que seu fanatismo e sua dedicação ao Peixe o levariam naturalmente aos braços de uma alvinegra.

Quis o destino que ele se apaixonasse por uma mulher que torcesse para um clube preto e branco, mas do Rio de Janeiro.

Ele ainda lembrava como foi engraçado conhecê-la no aeroporto após voltar de um jogo do Santos no Rio de Janeiro contra o Botafogo. Eles conversaram sobre a partida, sobre como a igualdade no placar acabou sendo frustrante para os dois times, mas foi só quando ele falou que se sentia mal por não ter arrancado mais do que um ponto do time responsável pelo seu primeiro trauma futebolístico — o Brasileirão de 1995 — que Benedict percebeu que tinham estado em lados opostos da arquibancada naquele dia.

Já era tarde demais para voltar atrás, no entanto. O jeito que Sophie falava sobre seu amor ao futebol, ainda que agora morando em Santos tivesse que se distanciar do Glorioso de General Severiano, fez com que ele soubesse, ainda naquele voo de volta para casa, que aquela seria a mulher da sua vida. Ela, que curiosamente tinha se tornado botafoguense por conta do título brasileiro que o Botafogo conquistou em 1995 diante do Santos.

Ele sentia como se o Botafogo tivesse, pela segunda vez, tirado algo que ele queria para si. Dessa vez, no entanto, ele decidiu dividir aquela obsessão com o clube carioca, porque aquela mulher valia a pena o sacrifício.

Foi somente com a gravidez do primeiro filho que isso apareceu como um empecilho interno para Benedict. A princípio, os dois combinaram que comprariam roupinhas em preto e branco sem qualquer distinção entre os dois clubes alvinegros e que os filhos escolheriam por quem torcer ou mesmo se gostariam de futebol.

Mas logo Benedict passou a ganhar dos amigos da Vila uma montanha de camisas santistas com o nome de Charles. Para não deixar a esposa amada — e grávida — irritada, ele se sentia na obrigação de comprar sempre uma camisa do Botafogo para compensar. No entanto, se via igualmente irritado sempre que via um débito em seu cartão associado ao clube que jurou odiar na infância. Ver a esposa um pouco feliz amenizava essa dor, pelo menos.

Mas só esse trato não adiantou.

Quando a gravidez já estava saliente o suficiente, Sophie começou a dançar com as mãos na barriga, cantando suas músicas favoritas para relaxar, e acabava, por tabela, cantando músicas do Botafogo. Isso fez com que Benedict, de forma infantil, mas tão passional quanto pode ser o amor pelo futebol, se sentisse excluído. Sophie, percebendo isso, o deixou cantar músicas do Santos. O que ela não lhe contou, para não magoá-lo, é que Charles sempre a chutava agressivamente quando escutava o pai cantar as músicas do Peixão. O destino já estava selado. Três vezes.

Entre Charles, Alexander e William, Benedict se esforçou — e Sophie deu liberdade para isso —, mas no final, as crianças queriam mesmo era ver o “Botacogo”. Ele amava vê-los tão conectados com a mãe. Viajavam ao Rio regularmente e se divertiam no processo, mas, de certo modo, Bene se sentia sozinho quando ia aos jogos do Santos. Mesmo que Sophie e os meninos tivessem um trato de fazer companhia a ele como a família dedicada que eram, parecia que eles nunca compartilhariam aquele mesmo amor com Benedict e isso o frustrava.

Tudo mudou — e Benedict sentiu isso desde o primeiro momento — com a chegada de Violet. Quando Sophie contou que estavam esperando a menina dos seus olhos, a tão desejada filha que levaria o nome de sua mãe, ela o fez com um exame positivo ao lado da camisa do Santos. Naquele instante, Benedict já soube que o destino deles estava selado. Era ela quem o faria companhia em suas idas até a Vila Belmiro. Era ela quem sentiria o coração acelerar e arder como ele sentia quando pisava naquele terreno sagrado, onde Pelé e Neymar haviam feito história.

Diferentemente dos meninos, Violet não chutava Sophie quando ele cantava qualquer canção santista — e tinha uma reação totalmente oposta ao ouvir qualquer música do Botafogo. Parecia um sinal claro, mas, traumatizado pelos meninos, Benedict tentou não se iludir.

Quando ela nasceu, era apenas o hino do Santos que a acalmava quando nem mais sequer o Mundo Bita dava jeito. Mas ainda assim, Benedict não quis acreditar de imediato, até que o destino tornou isso inevitável.

Era uma quinta-feira comum que os dois decidiam como seria a comemoração dos dois anos da menina, quando Violet falou pela primeira vez: “Santos!” e aplaudiu de maneira engraçada. Para Benedict, que rapidamente se emocionou, ouvir aquela pequena palavra saindo da boca de sua filha pela primeira vez parecia uma profecia de Deus confirmando que ele havia sido abençoado, e ele foi.

Porque mesmo quando o Santos foi rebaixado num momento em que o Botafogo vivia suas maiores glórias, Violet não soltou sua mão. Aquela menininha, tão pequena, muitas vezes o levou de volta ao Peixe, insistindo para que o pai a levasse aos jogos, para que vivesse a Vila nos maus momentos, garantindo que um dia valeria a pena. E um dia valeu.

Porque quando o Santos conquistou sua terceira Libertadores, ele pôde abraçar Charles, Alexander e William, pôde beijar sua esposa Sophie, que parecia genuinamente feliz pela sua felicidade, mas também pôde abraçar sua filha e saber, ao olhar naqueles olhos tão belos, tão semelhantes aos da mãe, que ele já não estava só. Finalmente, alguém o entendia quando se tratava do amor incondicional ao Santos Futebol Clube.

Notas finais
Me deixe saber o que você achou dessa loucura!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!