Notas iniciais
A música do capítulo é Everybody's got to learn sometime: https://www.youtube.com/watch?v=7LZxENkyAaY É trilha sonora do filme e extremamente maravilhosa.Vou dedicar toda a história p/ Mariana e Letícia, os gênios da persuasão que me convenceram a escrever mais capítulos para essa, originalmente, one shot. Espero que gostem!

–Meu nome é Molly Hooper e estou aqui para apagar Sherlock Holmes.

–E a srta. entende as implicações disso, não? — alertou o médico, se é que podia ser chamado daquela forma, talvez fosse unicamente um entusiasta de uma ciência futurística. Seus cabelos eram salpicados por um tom grisalho e começavam a rarear nas laterais. Os cansaço dos olhos azuis era denunciado pelas pálpebras ligeiramente caídas e as rugas que o cercavam. Suas feições eram acolhedoras, transmitiam conforto e confiança.

–Sim, sim, entendo com clareza o que isso quer dizer — respondeu peremptória.

–Então, srta. Hooper, comece me falando por que isto é o que deseja — indagou, franzindo o cenho para a moça a sua frente. Era jovem e bonita, porém não do tipo que fizesse com que alguém virasse o pescoço na rua para vislumbrá-la uma segunda vez. Dona de um rosto comum, poderia facilmente se misturar a multidão de tal forma que passaria a fazer parte da essência de todas as outras pessoas ao seu redor. Encontrava dificuldade em fixar o olhar em outro ponto que não fossem as mãos apoiadas na mesa que ela tanto esfregava uma na outra. — Não precisa ficar nervosa, querida, caso não esteja certa de sua decisão, reflita mais e volte, se sentir que realmente precisa fazer isso — propôs, tentando acalmá-la.

–Não — retrucou com um tom firme. Aquele era o primeiro sinal de imposição que ela demonstrara até aquele ponto. — Todo mundo tem que aprender uma hora.

–O que isso quer dizer, querida?

–Quer dizer que não se pode ter um futuro sempre moldado pelo passado. Queria que houvesse uma forma de enterrar as lembranças ruins e preservar as boas, porém isso só iria me fazer ficar, pois eu esqueceria o motivo principal da minha partida. E não posso ficar — enfatizou as últimas palavras quase como se precisasse desesperadamente se convencer de que eram verdadeiras.

Molly guardava uma passagem de avião na bolsa e, naquela manhã, pedira demissão. Solicitara ao chefe que não alardeasse a informação, entretanto, mais tarde, pensou em que ao menos cogitaria que sua ausência era motivo de preocupação. Nenhum nome lhe veio à mente.

–Tudo bem, então… Por que deseja apagar Sherlock Holmes? — insistiu o doutor.

–Porque eu o amo. E, meu deus, isso é como uma estadia no inferno!

–x-

Era de praxe ansiar por um mero vislumbre daqueles olhos, mas ao se encontrar em seu alcance, fugir. De quando em quando, esperava um momento oportuno para olhar de soslaio, somente um relance, como um animal assustado e cauteloso, entretanto se deparava com sua própria imagem refletida e isso era mais assustador que qualquer outra coisa no mundo, assistir a si afogando naquele mar e ser recebida por emoções que nunca soube distinguir. Nunca estaria apta a deduzir se havia uma pitada de interesse ou escárnio naqueles olhos, mas existia um certo ar de zombaria, uma piada eterna que foi usurpada das outras pessoas e confidenciada somente àqueles olhos.

Talvez fosse daquela forma que Sherlock Holmes enxergava o mundo, uma piada que somente ele era capaz de compreender. Somente o detetive possuía a habilidade de enxergar ordem no caos, distinguir os fios emaranhados da vida e das pessoas. Molly, além de ficar intrigada, admirava suas capacidades ao tempo que as odiava com mesma intensidade. Se Sherlock não fosse tão brilhante, talvez ela pudesse pensar que ele nunca percebera seu interesse. Mas não. Ele era um homem dono de uma inteligência incomum que deduzia a personalidade ou rotina de um completo estranho ao analisá-lo minuciosamente. Como ele poderia não ter notado a forma que Molly era ridicularizada por ela mesma toda vez que estavam no mesmo cômodo?

Ele sabia e isso era o que mais machucava.

–Molly? — ela conhecia o timbre daquela voz que soava longínqua e abafada.

–O que está fazendo aqui, Sherlock? — sentia-se traída pelo tom urgente que sua voz adquiria sempre que estava perto dele.

–Bom, eu sou fruto de uma alucinação sua, então… Responda você mesma. — inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e a fitou com olhos perspicazes — O que estou fazendo aqui, Molly?

–Se despedindo — confessou.

–Mas por que eu estaria me despedindo se não vou a lugar nenhum? — questionou.

–Não é você que está partindo, Sherlock. Sou eu.

Sem parecer dar importância ou crédito àquela informação, Sherlock levantou-se e tamborilou os dedos na face, como se estivesse tramando algo.

–Olhe ao redor. Onde estamos?

Molly olhou para os lados tentando distinguir todas aquelas cores e formas embaralhadas, mas o esforço foi vão. Não podia dizer onde estavam.

–Vamos, Molly — estimulou — Você está somente olhando. Não faça isso. Observe.

Ela empertigou os olhos e se empenhou ao máximo em encontrar um padrão em meio ao caos. Uma luz oscilante invadiu o lugar e finalmente permitiu que ele fosse visto com clareza.

–Baker Street — disse, por fim, com uma voz opaca.

–221b, Baker Street. Para ser mais exato — concordou Sherlock enquanto apanhava seu violino e começava a dedilhar uma melodia — E por que estamos aqui?

–Droga, Sherlock! Eu não sei! Não sei por que estamos aqui, não sou um gênio da dedução como você. Talvez estejamos aqui porque eu sou uma mulher estúpida que se comporta como uma adolescente assustada perto de você até quando estou inconsciente! — vociferou e esfregou as têmporas, exausta.

–Resposta errada — ele murmurou em meio a música, com o queixo colado no instrumento e sem olhar na direção de Molly.

–Não vou entrar no seu jogo doentio de superioridade, Sherlock. O John faz isso porque realmente aprecia. Ele gosta de ser instigado. Mas não vou fazer isso.

–Estamos aqui, Molly — o detetive prosseguiu como se não tivesse escutado uma palavra que ela dissera anteriormente — porque esse é o seu palácio mental.

Molly, que estava andando de um lado para o outro, estancou quando Sherlock disse aquilo. Era naquele apartamento que ela se refugiava do mundo exterior?

Eu realmente sou muito estúpida, pensou.

–Não você não é.

–Ah, agora você também desvenda o pensamento das outras pessoas? — disse com um tom de zombaria que, na verdade, era amargura.

–Estou na sua mente, lembra? — ele lhe lembrou e, em seguida, forjou um sorriso cínico com uma pitada de brincadeira infantil. Molly desatou a rir, em parte por tristeza e outra por arrependimento. Acordaria no dia seguinte e não lembraria daquele rosto. Dos olhos, do sorriso ou do tom de voz grave.

–Por que você quer me apagar, Molly? — Sherlock interrompera a música que estava tocando e aproximou-se dela.

–Não é você quem está na minha cabeça? Então responda isso sozinho — deu uma risada amarga.

–Está errada sobre mim — falou com um murmúrio rouco.

–Só está dizendo isso porque é fruto da minha imaginação e isso é exatamente o que eu gostaria que você falasse. Porque, lá no fundo, ainda há uma parte de mim que espera que eu esteja errada.

–Você vai me esquecer — queixou-se enquanto continuava andando em passos lentos — E depois vai embora.

–Sim, é algo que eu preciso fazer por mim.

Naquele instante, Sherlock Holmes erguia-se a sua frente. Molly precisou levantar o rosto para encará-lo.

–Você só esqueceu de com quem está lidando — ele sorria enquanto falava.

–Como assim?

–Eu sou o ser mais impertinente, inconveniente e insistente que jamais existiu. Já morri uma vez, lembra? Vou encontrar um lugar nas suas memórias onde eu possa ficar e você não vai fazer resistência — disse enquanto segurava o queixo de Molly, a impedindo de desviar o olhar — Sabe por que não? Porque nunca realmente quis me deixar esmaecer completamente da sua mente. Baker Street não é seu palácio mental, Molly Hooper. Eu sou.



Notas finais
Espero que tenha ficado bom e, mais uma vez, queria agradecer a Mariana e a Letícia por todo o incentivo (porque lá no fundo, eu to adorando ter que escrever mais UHEUHE) Beijão e até o próximo capítulo!