13º Instituto Remanescência

6 Capítulo 6 - Transgressão


Por que aquilo estava acontecendo? Os garotos não conseguiam mais ter sossego. Os minutos depois que tudo começou pareciam durar anos. Não havia pausas, só tensão. Tinham de lidar com o corpo de Eneri, com o assassinato da Crank com uma furadeira e com os outros Cranks berrando e batendo na porta.

— Peguem o que precisarem! Vamos sair daqui agora mesmo! — grita o professor, segurando a furadeira desligada e ignorando o crânio perfurado logo abaixo de si.

Era complicado para cada um dos jovens realizar qualquer atitude, mas Juliana tomou a iniciativa. Passou a vasculhar os armários apressada e logo depois mais pessoas começaram a fazer o mesmo. Thaís havia se projetado em direção à mesa, assustada com as batidas na porta e desencostando dela. Ela olhava para a movimentação, seus olhos espantados atrás dos óculos. A correria fizera alguns fios de seu cabelo desprenderem-se do coque, o que lhe fornecia uma aparência de exaustão. Naquele momento, sua autoestima estava tão baixa quanto sua altura. Thaís não tirava da cabeça que não conseguiria durar mais dez minutos viva. Porém, ela não era a única a se encontrar nessa situação. Todos estavam descabelados e apavorados.

Juliana pegou uma segunda furadeira. Os outros pegaram desde suportes metálicos para montagens de sistemas de experimentos até outras peças metálicas, as quais nem imaginavam a utilidade. Jurandir pegou um pêndulo de Newton, talvez em um acesso de desespero. O professor havia sugerido que ficassem afastados da porta, por isso estavam todos reunidos perto do centro da sala, observando atentamente a porta vibrar em um ritmo frenético.

— Essa porta não vai durar muito. Quando ela for derrubada, façam de tudo para correrem para fora da sala. De lá, sigam pelo lado direito do corredor, rumo ao Bloco E para depois pegarmos o Bloco F e chegarmos ao ônibus. Entenderam? — pergunta o professor, dando uma risadinha que sempre costumou dar.

Eles ficam parados. Olhando para a porta e esperando o momento certo de agir. Leandro se aproxima de Vico, que ainda estava no chão, e o ajuda a se levantar. Débora põe a mão no ombro de Heloísa, para dar-lhe apoio emocional.

O barulho.

A porta começa a cair, com Cranks sobre sua superfície. O professor corre em direção a eles, ligando a furadeira. Alguns garotos fazem o mesmo. Eram seis Cranks, dois estavam caídos no chão após a porta ser derrubada. O professor atinge um deles com a furadeira e usa seu corpo de escudo no momento em que outro o ia atacar. Eliza atinge a cabeça de um dos Cranks com um objeto de metal, deixando-o atordoado. Alguém dá um chute em sua perna, fazendo-a cair. Mas logo chega Jonathan, chutando o rosto de um Crank que se aproxima da garota no chão. O professor chega ao lado de fora da sala e grita apressando os garotos. Eles correm, empurrando os Cranks com toda a força possível para abrir passagem. Ainda faltava coragem para conseguir matar algum deles.

Eliza, Juliana, Jonathan, Cláudio. Aos poucos cada um está no corredor. O professor começa a correr, forçando os outros a fazerem o mesmo. Alguns Cranks têm dificuldades para se levantar e se arrastam para persegui-los. Débora, Heloísa, Juradir, Fernanda e Maynara são os próximos a chegarem ao corredor. Vico ainda está disperso, devido ao seu medo de sangue. Leandro o empurra rumo à porta. Vitor e Luiz chutam os Cranks de maneira a evitar que se levantem, então Thaís, Vico e Leandro atravessam a porta. Vitor e Luiz param de atacar os Cranks e começam a correr. Thaís, Vico e Leandro fazem o mesmo. Os Cranks rapidamente se levantam, ficando em seu encalço. Luiz olha para trás e vê que mais três dobraram o corredor a toda velocidade.

Vico via o professor bastante à frente. Alguns estudantes logo atrás dele. Vitor, Luiz e Leandro também já estavam adiantados. Vico percebe que eles estão perto. Longe. À direita. Sua vista estava embaçada e sua cabeça parecia girar. Estava tudo ficando escuro, começando pela parte superior do seu campo de visão. Suas pernas fraquejavam enquanto corria. Ele tropeça.

Thaís, que estava ao seu lado, grita seu nome. Ela para por um estante e vê que os oito Cranks já estavam muito perto. Ela fica sem saber o que fazer. Vico se apoia no braço esquerdo para se levantar.

Vitor olha para trás e, ao ver a cena, começa a correr de volta.

— Corre, Thaís! — ele grita.

Leandro também passa a correr no sentido oposto para tentar resgatar Vico.

— Leandro, Vitor! Não! Eles são muitos! Não vai dar tempo! — lamenta Luiz.

Era verdade. Um Crank salta sobre Vico. No choque, encosta seu peito contra o peito do garoto. O Crank tenta loucamente colocar suas mãos no pescoço de Vico, que ainda está atordoado, embora apresente certa resistência. Os outros sete passam batidos, ignorando a dupla no chão. Quando o Crank aproxima o seu rosto do de Vico, ele começa a bater os dentes para tentar mordê-lo. A saliva respingando como um cachorro raivoso. Só então Vico desperta. Sua visão volta ao foco e ele empurra com toda sua força o Crank, pondo suas mãos nos ombros do monstro, que rosna como um animal.

— Thaís! — Vico escuta pessoas gritarem.

Sua visão periférica o permite ver que ainda há Cranks correndo, embora haja mais um deitado no chão, tentando alcançar alguém que se arrasta enquanto grita. Mais além, a correria e movimentação continuam. Nesse segundo de desatenção, o Crank sobre ele o segura pelo pescoço e tenta enforcá-lo, balançando a cabeça de Vico para todos os lados.

— Eu vou arrancar o seu nariz com os meus dentes! — grita o Crank enquanto ri.

Com a movimentação, Vico bate a cabeça no chão. Passa a perder a consciência. Vê um vulto branco, vê um Crank puxando a perna de alguém e evitando que esse alguém escape, vê sangue pelos ares, vê mais vultos, vê manchas escuras. Não vê mais nada.