13º Instituto Remanescência
22 Capítulo 22 - Bancos traseiros
Havia abacaxis espalhados por todo o chão. Muitos deles esmagados pela queda. Haviam caído da carroceria após o impacto causado pelo acidente. A van estava presa entre a muralha de metal e o segundo veículo, um Gurgel branco sujo de lama. Sua carroceria tinha vários abacaxis, uma lona e uma longa corda azul. Sua cabine comportava apenas duas pessoas e tinha uma porta à direita e uma à esquerda, perto do volante. Essa última estava sendo aberta. Seu trinco preto balançou de maneira a evidenciar a dificuldade que o motorista estava tendo para abri-la. A porta é empurrada com força, sem nenhuma delicadeza, e por ela passa um homem. Suas botas pretas de borracha, típicas de uma fazenda repleta de lama, tocam o chão. Elas se aliam a uma calça jeans e uma camisa de botão e mangas longas, abotoada até certo limite que permitiam mostrar um peito com pelos brancos e curtos acima de uma barriga redonda. Um cinto com uma fivela extravagante de metal segurava a calça e a camisa ensacada. O visual, por incrível que pareça, caía bem naquele homem quase careca e de olhos azuis. Sua feição era assustadora, principalmente devido ao sangue em seu pescoço, que escorria lentamente por seu corpo. Sua face repleta de traços retos e marcados em união ao sangue aspergido no rosto o faziam parecer um militar. Um militar que trabalhava com tortura, segundo a aliança entre o brilho de seus olhos azuis, o sorriso aberto em dentes amarelados, as sobrancelhas finas e arqueadas e o facão em sua mão.
O homem passou a observar a cena. A frente de seu carro em contato nada amigável com a lateral direita da van. O Gurgel parecia bastante resistente, visto que quase não sofrera danos se em comparação com a van, que tinha a carcaça completamente amassada na lateral, principalmente perto da parte dianteira, que foi o ponto de maior impacto. O carro branco do homem apenas tinha um pouco do vidro rachado e do para-choque amassado, por onde saia um pouco de fumaça.
Dentro da van estava um clima de caos flutuante. Após o susto da colisão, tudo estava calmo em seu interior, mas ainda assim confuso. Linda e Jacob estavam no meio do veículo. O garoto havia sido jogado para cima da menina, que tentava se levantar, afastando o corpo de Jacob. Mais atrás da van, estava Luana, ainda auxiliando a amiga Rayane, que tinha ainda dificuldades para respirar. Elas sentiram o impacto de maneira relativamente mais leve e já se punham em estado de alerta. À frente, Thaís estava caída sobre o volante, sua cabeça sangrando após ter batido na janela ao lado. No lado do passageiro, o braço de Victor pendia para o chão e sua cabeça caía para o ombro esquerdo. Sua mão e antebraço direitos estavam ensanguentados sobre a mochila em seu colo. O restante do braço estava preso nas ferragens. O Gurgel havia atingido a van principalmente onde o cientista estava.
Luana tenta agir, mesmo estando nitidamente desesperada. Ela olha pela janela para ver o que há no exterior. Rayane começa a fazer o mesmo, de maneira debilitada e enquanto deixa a mão direita sempre sobre a garganta. Linda vai até Thaís e Victor e os olha. Ela toca seus ombros na esperança de acordá-los. Jacob também se aproxima e observa os dois ali, seus olhos demonstrando espanto. Thaís começa a levantar a cabeça lentamente, atordoada. Ela leva à mão até a testa e a acaricia, espalhando o sangue que escorria ali.
— O que houve? – pergunta a motorista.
— Um carro bateu na gente, pelo que parece. – responde Linda.
— Isso não faz o menor sentido. Como... – Thaís tenta entender a situação.
— Galera, acho que ele morreu. – diz Jacob apavorado olhando para as garotas enquanto segura o pulso de Victor.
— A gente precisa sair daqui! Rápido! O barulho vai atrair Cranks e mais Cranks para cá! – diz Luana, nervosa.
— Ela tem razão. – conclui Linda. – Precisaremos deixá-lo aqui. – ela diz enquanto se sente muito triste e indelicada ao olhar o corpo imóvel do cientista.
Jacob e Linda ajudam Thaís a sair do banco do motorista e passar para a parte de trás. Luana vai até a porta que fica à direita do veículo, aperta seu botão para destravá-la e a puxa para o lado. Mas a porta não se arrasta. Estava emperrada após a colisão.
— Por trás! Vamos sair por trás! Pelo porta-malas! – diz Linda.
— Eu abro! Pode deixar! – fala Jacob antes de se dirigir para o banco do motorista, se abaixar até perto dos pedais e puxar uma alavanca que destravava as portas traseiras.
Luana vai até o fundo da van e se abaixa, por debaixo dos últimos bancos. Ela empurra as duas portas, que se abrem, cada uma para um lado. Sem pensar duas vezes, começa a se arrastar por baixo do banco até a parte de fora do veículo. Suas duas mãos tocam o chão e aproveita para puxar o resto do corpo com mais força, caindo sentada. Thaís e Linda logo começam a passar por baixo dos bancos também, enquanto Jacob e Rayane esperam a sua vez, olhando para todos os lados, nervosos. Na frente do Gurgel, ao lado da janela de Victor, a fumaça começa a ficar mais intensa.
Luana observa apreensiva ao seu redor, enquanto tenta ajudar as garotas a sair, sua visão limitada pela porta traseira aberta à sua direita. De repente, um homem a puxa pelos cabelos. Ele parecia estar abaixado ao lado da van até investir como um raio contra a garota, que não teve tempo de reagir. Ele levanta Luana pelos cabelos e a joga para trás. A garota se apoia com as duas mãos para não se ferir. Linda e Thaís tentam se apressar, mas o homem é mais rápido e fecha as duas portas com o máximo de força possível. A primeira porta a ser fechada, a da esquerda, atinge em cheio os dedos da mão esquerda de Linda, que já estava começando a sair da van. A garota dá um grito agudo de dor.
Jacob corre para perto das garotas para tentar ajudá-las. Nesse momento, na frente da van, a fumaça fica mais intensa ainda, porém, dessa vez, iluminada por uma luz amarelada. Jacob olha para trás e vê a luz.
— A van vai pegar fogo, Meninas! – ele grita.
A porta da esquerda ainda se mantém aberta, graças aos dedos de Linda. A garota empurra a porta e começa a sair o mais rápido possível. Agora Thaís também está na fila de espera, pois a porta da direita continua fechada.
Enquanto os quatro tentam fugir da van, Luana tenta fugir do homem careca de olhos azuis. Ela começa a se levantar novamente, na intenção de correr, mas o homem logo está de volta segurando sua cabeça e a jogando para o lado. Luana cai com as costas no chão e tenta novamente se levantar. Seus braços e pernas se movem para todos os lados buscando a forma mais rápida de se pôr de pé. O homem se aproxima e pisa lentamente a barriga da garota com sua bota de borracha. Luana não consegue segurar o choro e deixa as lágrimas escorrerem enquanto pede “por favor”.
— Você acredita em Deus? – pergunta o homem.
A garota não consegue responder, apenas tosse, como se tivesse se engasgado em lágrimas.
— Você acredita em Deus?! – dessa vez, ele grita, demonstrando impaciência.
— Sim! – responde a garota, chorando. – Eu acredito!
— Resposta errada... – o homem fala aquelas palavras demonstrando a mais profunda decepção. Após isso, ele observa a garota, que chora descontroladamente enquanto segura sua bota de borracha, com o objetivo de tirar o peso de sua barriga e fugir. Sua face séria de decepção dá lugar a um sorriso enorme no momento que ele fura o peito da garota com o facão. Ela tosse, colocando sangue para fora da boca. Fecha os olhos com força enquanto as lágrimas caem pelas laterais do rosto. Ela quase não consegue sentir os outros golpes em seu corpo e deixa a cabeça cair para a esquerda quando o facão a fura pela quinta vez, agora na garganta.
O homem observa a garota por um tempo. Vê aquele corpo estático abaixo de si e sorri antes de virar-se. Ele caminha lentamente até o fundo da van, onde Rayane se esforça para passar por debaixo do banco. O homem caminha sorrindo em sua direção e a garota tenta recuar, se arrastando para trás. Ele ri ainda mais e se aproxima, ficando em pé olhando para ela. A garota tem seu corpo inteiro dentro da van novamente, nenhum dedo saindo do veículo, quando o homem segura a porta aberta.
Ele se prepara para fechá-la, mas algo se joga contra o seu corpo. Linda havia pulado contra ele, fazendo-o bater na porta, que, por sua vez, bateu na muralha. Jacob não pensa duas vezes e puxa a cabeça do homem pela brecha entre o encosto de cabeça dos bancos e o teto da van. O homem fica furioso e balança os braços tentando fugir. Com a mão direita, ele tenta puxar os dedos do garoto de maneira a fazê-lo soltar sua cabeça. Ele levanta a mão esquerda, na qual estava o facão, para tentar golpear o garoto. Na frente da van, o fogo se torna mais evidente.
Linda segura o braço do homem mesmo com seus dedos latejando de dor, impedindo-o de atingir Jacob. Thaís ajuda a garota e segura o pulso do inimigo, limitando ainda mais seus movimentos. O homem fica furioso e se debate para fugir daquelas mãos que o prendem. Com uma joelhada, ele atinge Linda na cintura. A garota cai para o lado e, embora retomando rapidamente o equilíbrio, não é capaz de impedir que o homem se livre de Thaís, arranhando seus braços com a mão direita. Mas, nesse momento, Jacob morde a mão esquerda do rival com tanta força que o faz derrubar o facão. O homem, na mais pura fúria, arruma forças para livrar-se do garoto, que ainda segurava sua cabeça. Linda tenta pegar o facão, mas na luta entre ela, Thaís e o homem, algum pé faz o facão ser jogado para longe. O homem é mais forte que as duas garotas e consegue machucá-las, jogando uma contra a outra. Thaís cai, batendo as costas na porta fechada da van. Jacob começa a passar por baixo do banco. O fogo atinge a parte de dentro do veículo, queimando os primeiros bancos e o corpo de Victor. O homem segura o pescoço de Linda com as duas mãos e pressiona a garota contra o chão. O fogo começa a se espalhar rapidamente pelo interior da van. Jacob consegue colocar a mão para fora do veículo. Ele continua se arrastando. Thaís se põe de pé com dificuldade. Sua perna ainda dói. O homem sufoca Linda, que dá socos em seus braços. Jacob encosta a mão no chão. O fogo atinge os últimos bancos. Thaís se afasta da van e observa a luz saindo por suas janelas. Olha para Jacob, que começa a gritar enquanto puxa o corpo para fora. Olha para Linda, que começa a bater cada vez mais com menos força no assassino. Thaís se decide e parte para cima do homem. Mas é tarde. O facão perfura a sua cabeça.
Rayane, que estava sobre o corpo de Luana até o momento, na esperança de que a amiga pudesse sobreviver, havia pego o facão que foi parar perto dela e atacou o homem, para vingar a amiga.
O sangue pinga na testa de Linda e Rayane empurra o corpo do homem para o lado, evitando que ele caísse sobre a garota. Thaís ajuda Jacob a sair da van e a livrá-lo do fogo em suas pernas. O garoto tira os sapatos e a calça jeans o mais rápido que pode e ajuda Thaís a se afastar da van. Linda e Rayane fazem o mesmo. Os quatro param para descansar enquanto olham a cena. O corpo de Luana ensanguentado, o corpo do homem mais atrás, e a van em chamas ao fundo. O fogo jorrava como uma cachoeira ascendente, fazendo um barulho enorme de cascata.
Dentro da van, Victor tossia, engasgado com sangue. Seu corpo não se mexia, mas seus olhos observavam as chamas ao seu redor, desesperados.
Aquela situação nem um pouco discreta resultaria em algo que Luana havia previsto: um grupo de Cranks se aproximava correndo pelo estacionamento, vindo do Bloco A.
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