13º Instituto Remanescência
18 Capítulo 18 - Lixeiro azul
O garoto urrava de dor enquanto sentia cada osso do seu dedão do pé esquerdo ser destruído. O Crank só poderia estar fazendo aquilo de propósito, para vê-lo sofrer. O homem olhava para o garoto sem abaixar a cabeça, de maneira arrogante e sádica. Tinha um sorriso largo no rosto.
Heloísa observava tudo em pânico, retraída perto de um carro. Maynara, que corria em direção a Jurandir, mudara o percurso e ia para perto dos lixeiros do estacionamento. Leandro seguia contra o Crank, na intenção de afastá-lo do amigo.
O Crank começava a se abaixar para atacar Jurandir quando Leandro o segura pelo braço com as duas mãos e o empurra para o lado. Ele dá a mão a Jurandir, que se levanta. De repente, o Crank que Maynara empurrara já estava muito próximo deles. Os dois já se preparavam para atacar quando Maynara coloca o lixeiro azul para papéis sobre o Crank. O lixeiro fica apertado, imobilizando seus braços.
O Crank berra dentro do recipiente de plástico. Seus gritos assustadores e caóticos aliados às suas mãos asquerosas em movimentação frenética não conseguem superar a comicidade da situação. Jurandir e Leandro soltam um sorriso com tudo aquilo. Maynara, pelo contrário, não acha nada engraçado. Sua face revela que está apavorada e que agiu por puro instinto.
A garota estava certa, não havia tempo para rir. As trevas daquele ambiente eram totalmente opressoras contra qualquer faísca de alegria. Esmagando a luz da felicidade por todos os lados, como o oceano faz pressão em algum objeto em seus locais mais profundos.
Leandro solta um grito breve, mas que representa um problema que perdurará por um longo tempo. O Crank que derrubara a pouco mordia a sua perna enquanto a segurava com as mãos, arranhando sua pele e puxando fios de tecido da sua calça jeans. O tempo para. Os garotos demoram a entender o que está acontecendo. Maynara fica ainda mais assustada. Leandro apenas pensa na dor que sente. Jurandir fica estático, sem reação.
Heloísa, que parecia nem notar o que acontecia ao seu redor, se levanta e corre na direção oposta ao Bloco A, rumo ao pátio. Jurandir parece voltar a si e ataca o Crank com um chute no rosto. Ele o chuta como se seu pé fosse um pistão, utilizando a sola de sua papete. O Crank sorri mesmo após o golpe, deitado no chão e rastejando como um verme.
— Eu não queria precisar usar isso. — diz Jurandir enquanto tira do bolso um objeto peculiar. Era uma espécie de peso para balanças com um longo barbante grosso amarrado. Na superfície metálica, havia uma inscrição em relevo que dizia "500g".
Jurandir se aproxima do Crank, que lentamente parava de rir e tentava se levantar. O garoto segura a ponta do barbante com a mão esquerda e segura em outro ponto do fio com a mão direita. Ele começa a girar a mão direita, fazendo o peso se mover em alta velocidade enquanto desenha uma circunferência no ar, de raio de aproximadamente um metro. Subitamente, Jurandir faz um movimento com os braços que faz com que o peso de metal vá de encontro ao rosto do Crank.
Jurandir volta a balançar a arma, desenhando o círculo no ar. Enquanto isso, muito sangue sai da boca do Crank, que tosse para tirar o líquido que tenta descer por sua garganta. Ele cospe no chão e é possível ver pedaços de dentes misturados ao sangue. Quando ele volta o olhar furioso para Jurandir, outro golpe. Mais sangue ainda passa a escorrer, saindo agora também pelo seu nariz. Outro golpe. O Crank tenta se arrastar, mas a dor parece tomar suas forças. Outro golpe. O peso atinge a parte de trás de sua cabeça, que vai ao chão com o impacto. Outro golpe. Dessa vez o peso atinge a testa.
— Já chega. Vamos logo. Eles não vão conseguir nos seguir. — Jurandir diz para os amigos. Ele olha para Maynara e a vê atônita. Quanto fita Leandro, vê lágrimas caindo de seus olhos.
— Eu não vou com vocês. — Leandro diz.
Jurandir e Maynara ficam sem reação.
— Não posso colocar vocês em risco. Posso me tornar um deles a qualquer momento. — Leandro diz enquanto fixa o olhar no chão.
— Qualquer um de nós pode se tornar um deles a qualquer momento. O vírus se espalha pelo ar. Eu mesmo já posso estar me tornando um deles! — Jurandir fala enquanto olha para o peso de metal cheio de sangue em sua mão.
— Eu não vou com vocês! Vão embora! — Leandro grita.
— Leo... — Maynara tenta convencer o garoto a permanecer com o grupo, mas nota que não é possível.
Leandro começa a andar em direção ao pátio e Jurandir dá alguns passos para segui-lo, mas Maynara o segura.
— Não adianta, Jurandir. Precisamos mesmo continuar sem ele. — a garota fala chorando. — Precisamos ir. Onde está Heloísa?
Jurandir não responde, apenas olha para baixo. Maynara observa o local ao redor para achar a garota. Quando seu olhar passa pelo ponto onde Leandro caminhava, ela para, olha para o chão e depois se volta para Jurandir.
— Ela deve ter ido na frente com medo. Vamos. — ela diz ao amigo.
Maynara segura o ombro de Jurandir e segue com ele em direção à escada que leva para o primeiro andar do Bloco A.
No pátio, Heloísa para subitamente de correr. Ela coloca as mãos nos joelhos e passa a respirar forte. A menina olha ao redor, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Entender como fora parar ali.
— Calma, Heloísa. Respira. Respira. Vai dar tudo certo. Você só precisa voltar para o grupo. Respira. — A garota fala essas palavras para si mesma na intenção de se tranquilizar, embora pareça não adiantar, pois sua expressão demonstra terror. Gotas de suor escorrem pelo seu rosto e sua pele está pálida.
A garota olha ao redor novamente e vê alguém vindo em sua direção. Andando lentamente enquanto manca. A garota fica parada, sem reação. Quando ela tenta voltar a correr, a pessoa grita seu nome.
— Heloísa! É Leandro! — a garota ouve a pessoa falar à medida que se aproxima.
Ela espera um pouco até poder identificar o colega de classe. Quando está a cerca de cinco metros dele, tenta falar com o garoto.
— Le-Leandro...
— Sobe as escadas e encontra os outros, não fique sozinha. — ele diz sem diminuir o passo, passado por Heloísa.
— Sua perna...
— É. Eu sei. Vai logo.
Heloísa balança a cabeça como se quisesse acordar e começa a correr em direção às escadas, olhando uma última vez para o colega que agora caminha sem destino.
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