13º Instituto Remanescência

14 Capítulo 14 - Escadas


Não era possível ouvir nada além de um zumbido e de um barulho de rangido metálico alto e distante. A vista estava embaçada e o corpo todo doía. Vico lutava para conseguir se mexer. Seu corpo parecia estar desligado. Aos poucos seus sentidos foram retomando e ele logo pôde ver destroços e manchas de sangue ao seu redor. Seu braço esquerdo doía mais que o restante do corpo. Logo ele notou que lá havia um corte fundo com um caco de vidro. Sobre seu corpo havia o corpo de outra pessoa. Ele, então, percebe que é o corpo do Crank contra quem lutava há alguns segundos. Ou minutos. Ele não sabia.

Vico empurra o corpo do Crank para o lado com o braço bom, que também serve de apoio para que Vico se levante. Muitas coisas se passam pela cabeça do garoto até que, de seus olhos determinados, escorrem lágrimas. Ele ignora os ferimentos e começa a andar. No começo sente muita dificuldade, mas logo toma um ritmo mais acelerado. Vico sentia dores nos músculos e tinha alguns arranhões, mas nada que o impedisse de seguir em frente. Pensou em agradecer ao Crank que serviu de escudo para ele, mas logo passou a achar que seria melhor que estivesse desprotegido e que tudo acabasse ali na escada.

O garoto dobra à direita e segue até o Bloco H, passando por um espaço aberto entre os blocos C e B. Ele desce cinco degraus que levam ao plano do Bloco H, que é mais baixo que o plano dos demais blocos. Vico se dirige a entrada do bloco, passando pelo pátio a sua frente. Nesse momento, um Crank o avista e passa a persegui-lo com um sádico sorriso no rosto.

Vico entra no prédio mais alto da escola, o Bloco H, e procura pelas escadas. Basicamente o prédio tem todos os andares idênticos. São um retângulo com salas em seu perímetro, um corredor de quatro eixos acompanhando também o perímetro e várias salas no centro. O prédio tem dois feixes de escadas, cada uma no meio de uma das partes compridas do corredor. Ao lado de cada um dos feixes há um elevador.

Dentro do prédio a iluminação é precária. Há algumas fontes de luz que vêm da luz da lua e passa pelas janelas das salas periféricas e pelos vidros das portas dessas salas até alcançar o corredor. Mas no geral, tudo é escuro.

Vico segue até as escadas e começa a subir. O Crank já bastante próximo.

Vico sobe um. Dois. Três. Quatro. Cinco degraus. Tenta ir o mais rápido possível. Chega ao primeiro andar. Sobe a escada novamente. Três. Sete degraus. Segundo andar. Um feixe. Outro feixe. Terceiro andar. O Crank se aproxima cada vez mais. Vico pensa em "brincar", tomando coragem para fazer o que costumava fazer, de uma maneira mais inocente, com os amigos. Ele se esconde ao lado da escada e aguarda. O Crank está mais perto. Mais. Vico ouve risinhos. É possível ver um pé no último degrau. Vico coloca o seu pé. O Crank tropeça. Vico não perde tempo. Vai até o Crank e chuta seu rosto com toda a força. Depois, chuta o Crank novamente. O Crank cai degraus abaixo. Vico se dá por satisfeito e continua a subir.

Quarto andar. Vico vê um Crank em frente a uma porta. A luz iluminando seu rosto. O Crank tentava quebrar a porta enquanto gritava. Seu braço já havia destruído o quadrado de vidro que havia na porta e estava dentro da sala, tentando abrir a fechadura. Vico pausa, mas logo começa a subir. Seus passos nervosos, porém, acabam sendo mais chamativos ao Crank, que passa a persegui-lo. A história parece se repetir. Degrau por degrau. O Crank em seu encalço.

Em um momento, o Crank salta contra sua perna, fazendo Vico cair. O garoto pensa que não aguenta mais passar por essa situação e, com raiva, chuta o Crank para baixo, dando continuidade a sua corrida degraus acima.

Finalmente, Vico chega ao feixe de escadas que leva do décimo andar à cobertura. O Crank já está bastante próximo. Vico chega a uma porta metálica entreaberta e a empurra. Passa pela porta e a fecha. A porta bate com força nos dedos do Crank, que solta um grito ensurdecedor e agudo. Vico empurra a porta com o corpo. A força realizada faz seus ferimentos latejarem, principalmente o corte no ombro. Vico solta um grito de dor no mesmo momento em que o Crank desiste e retira a mão. Vico fecha a porta e tranca todos os ferrolhos. Do outro lado, o Crank passa a esmurrar a porta, causando um enorme barulho de ferro e gritos que, ainda assim, não se sobrepunham ao barulho de metal rangendo do lado de fora.

Finalmente Vico para e respira. Consegue retomar os pensamentos e os planos e se dirige até a beira da cobertura. No caminho, uma imagem o assusta. Vico vê um homem meditando. Vico fica parado, esperando alguma ação do homem, mas ele continua meditando. O garoto ainda sente medo de desviar o olhar e continuar seu caminho, por isso se mantém olhando para o homem até que ele abre os olhos.

– Pensei que fosse um deles... — diz o homem.

Vico continua olhando. Respirando fundo e sem dizer uma única palavra.

– Não. Você não é um deles. Você parece estar mais perdido que cego em tiroteio e filho de mãe solteira em dia dos pais... — O homem diz isso ainda com seu olhos perdidos e, paradoxalmente, fixados em Vico. — Você pensava em pular.

Vico ignora a afirmação do homem. O barulho de rangido metálico cessa, tornando protagonista a loucura do Crank na porta. Só nesse momento Vico se dá conta e tenta perceber o que era aquele barulho. Ao olhar ao redor, nota uma enorme muralha, que chegava a ser muito mais alta que o prédio onde estava.

– O que é isso? Nos prenderam aqui? — pergunta em voz alta. Mais para si mesmo que para o homem.

– Tantas perguntas... Você quer ficar louco cedo...

Vico apenas reage com desconforto à resposta do homem.

– Os insetos chegam mais rápido à sua cabeça se você pensar demais. Beba um gole. — o homem oferece a Vico uma bebida em um recipiente metálico.

– Não. — Vico deixa de dar atenção ao homem e segue até a beira do prédio. Olha para baixo por um bom tempo e recua alguns passos, respirando fundo. — Como eu sou idiota!

Ele nota que o Crank parou de bater na porta. Vico pensa um pouco, andando de um lado a outro, e corre em direção ao homem.

– Pode me fazer um favor? — pergunta ao homem, que lhe dirige um olhar perdido. — Me ajuda a tirar esse caco de vidro do meu braço.

Vico dá o braço ao homem, que arranca o caco com uma delicadeza e uma habilidade incríveis.

– Você estava aprontando alguma coisa... — o homem afirma.

Vico tira a camisa de grossas listras azuis e brancas, arranca um pedaço de pano da manga e faz uma atadura no ferimento. Ele veste a camisa e se incomoda com a assimetria das mangas, mas ignora.

– Se eu estivesse com o casaco aqui... aliás? Onde eu o deixei? Droga. Isso vive acontecendo. De toda forma... Obrigado. — Vico agradece ao homem, pega o pedaço de vidro e se dirige apressado à porta de metal.

– Já vai embora tão cedo... Só não se esquece de deixar a porta entreaberta.

Vico destranca os ferrolhos e puxa a porta. Ao atravessá-la, a puxa um pouco pelo trinco e a deixa entreaberta, como o homem pediu.

Vico desce as escadas em alta velocidade, tendo como único objetivo chegar ao quarto andar, onde viu o Crank destruindo a porta. Passa pelo nono, pelo oitavo, pelo sétimo, pelo sexto e pelo quinto a todo vapor.

Ao chegar, Vico vê novamente o Crank lá. Na porta. Destruindo-a. Vico não pensa duas vezes e corre a toda velocidade em direção ao Crank enquanto segura o caco de vidro na mão direita. O Crank direciona o olhar para Vico e rosna. Quando Vico está próximo do Crank, o caco de vidro na altura de seu pescoço, se assusta. Um cano metálico sai pelo quadrado da porta e atinge o olho do Crank, perfurando até mesmo a parte de trás do seu crânio.