13 Ultimatos
6 Capítulo 5 – Moro num país tropical
Contrariando a dinâmica da cidade, a inesperada chuva era fria e calma. Os pingos caíram espaçados em uma sequência alternante entre rápida e suave. Para os azarados bobeando sem guarda-chuva, a lâmina d’água era o suficiente para ensopar a eles e aquele centro urbano. A sorte foi ter durado pouco, alguns minutos. O amontoado de nuvens escuras e carregadas partiu rumo ao mar, cessando a limpeza do céu poluído de Breasal. Dando brecha até mesmo para alguns raios de luzes trazer o deslumbre. A última gota desprendeu-se de sua origem e, arremessada, chocou-se contra o vidro escuro de um edifício sem prumo. No entanto, não parou por ali, graças à gravidade. Foi ao encontro de outras gotas e, assim, acumulando, formou-se um fio de água. O trajeto só foi finalizado ao acertar o chão de concreto impermeável. Não era mais possível identificar o paradeiro da última gota, mas, quando a enxurrada acertou o asfalto quente, uma porção evaporou, voltando aos céus e completando o ciclo da água. Infelizmente, apesar da abençoada chuva, segundo os meteorologistas, aquela seria a última do mês. Uma surpresa, pois nessa época do ano eleva-se a precipitação, trazendo as fortes tempestades com trovoadas. Talvez fosse alguma anomalia.
Para a tarde de 6 de março, mesmo com todo o calor, o curto período de refresco foi importante para aqueles homens apressados e apertados em seus paletós. Não há como tirar a razão, a formalidade necessária para o trabalho, às vezes, torna-se sufocante porque o sol e os trajes finos, em um país tropical, não envelheceram tão bem. Azar de quem trabalha no centro, ou não, pois, já em outras áreas, mesmo com a formalidade podendo ser motivo de chacota, havia outros problemas a serem destacados. A periferia. Como de costume, ponha a culpa na desigualdade. Infelizes eram os periféricos. Naquele dia, as áreas mais altas da cidade não receberam nenhuma gota sequer. Chega a ser cômico, não há dúvidas. Normalmente, em Breasal, quando a chuva atinge apenas os distritos centrais ou, como muitos chamam, Cidade Grande, brincam que os Deuses estão alertando aos pobres que a classe média alta está tramando contra eles. Olha lá, a remela com inveja do cisco no olho, pensou uma criança na rua, olhando a tempestade ir embora. Quando a brincadeira surgiu? Não sabem, muito menos como essa frase difundiu-se para todos ali. De qualquer forma, o fato é, rico tramando ou não contra o pobre, o mormaço era mais uma vareta do leque de problemas o qual todos enfrentam diariamente por ali.
Não há problemas, pois são acostumados. Todos preferem o calor, além disso. Pelo menos era esse o pensamento dos vendedores de água de coco. De certa forma, quando analisado em partes, há razão em ter esse pensamento. Viver próximo à linha do Equador torna-se difícil não gostar das altas temperaturas, dado que, a maior parte do ano elas ficam em torno dos 30° C. Ao passar do meio-dia, após algumas horas, a irradiação voltou a ser insuportável. Mesmo com todas as partículas de água e gelo suspensas na atmosfera barrando os raios solares, não contiveram a massa de ar quente oceânica de esquentar Breasal. E, quanto mais o ponteiro girou, mais o calor aumentou. 35° C, a máxima do dia. A comprovação das horas para explicar a alta temperatura foi feita ao olhar o relógio. 14:27 ou 14:36? Não só o calor, como também a umidade. Tão altos que, juntos, deixam o suor insuportável. Não seca. É bem desagradável e anti-higiênico, para não dizer nojento, pensou o rapaz lavando as axilas no banheiro do serviço. Porém, enfim, aquela cidade voltou a ficar quente. O tormento era maior, ou não, quando acontecia o contrário. Quando esfria, discutíveis 4° a menos, a população, como crianças manhosas, nota a diferença e logo chora pela volta da sensação calorosa. Realmente, o que esperar de uma cidade criada próxima à praia?
Ainda assim, mesmo as temperaturas podendo chegar a graus alarmantes, não conteriam o calafrio pelo corpo ao ver tanto horror. Nem mesmo soube por quais motivos deu-se o suor em sua testa. Do tremor, jamais poderia ser frio. Do coração, o erro era no ritmo por bater tão forte. Sua boca aberta, quase soltou um choro de sofrimento. Os olhos da garota, ao ver seu apartamento naquele estado, registraram o momento da forma mais traumática.Vandalizaram. Destruíram todos os móveis, quebraram os vidros e sujaram as paredes com tinta preta. Doeu a alma ao sentir-se insegura. Foram quatro anos guardando o dinheiro. Tudo para realizar o sonho de comprar e mobiliar um espaço localizado na Cidade Grande. Destruído. Ao deparar-se com a cena, percebeu como os sonhos não andam com a realidade. Todo o aconchego existente, cedeu o espaço para o desolamento. Por quê? O que ela fez para merecer isso? Não era justo receber tal castigo. Os pensamentos juntaram em fileira e arrastaram-se um a um. A primeira vista, realmente a destruição de uma realização foi chocante à menina, mas a explicação veio rápida, ou parte dela. Encontrada dentro de seu apartamento. Não era uma tentativa de roubo. Era um aviso. Invadiram seu lar para deixar uma mensagem: a ratazana decapitada e de cabeça para baixo, pregada na parede em cima da cama.
Costume provavelmente incorporado da época dos escravos, os quais, depois de livres ou após fugirem, ameaçaram os antigos donos de fazenda. A tática mais usada era a decapitação de animais e, com estacas, penduravam as carcaças pela casa como sinal de ameaça. O ato permaneceu até mesmo nos tempos atuais, com algumas alterações, por grupos de extermínio ou até mesmo entre máfias. O propósito é fixo. A cabeça a qual deita-se sobre a cama está marcada à morte. E por essa exata razão deu-se os calafrios de Jung. O medo incontrolável a fez relembrar a sensação de anos atrás. Fazia quanto tempo desde a última vez a qual meteu-se em uma enrascada de vida ou morte? Cinco anos? A grande tragédia marcada em sua história. Poderia ela estar de volta à sua realidade? Com a mentalidade mais madura, sabia o quanto sua paz nunca encontrou-se tão ameaçada. Quem foi? Poderia ser qualquer pessoa, mas depois de tudo vivido, só conseguia imaginar dois responsáveis. Ambos entendiam o valor de sua cabeça e, por isso, jogariam da maneira mais baixa possível.
— Eu irei descobrir quem fez isso, Jung. – em uma tentativa falha de acalmar sua amiga, Mister Nö colocou-se em frente a ela, buscando os olhares da mesma, porém sem êxito, a garota só conseguiu prestar a atenção ao rato morto.
— Não precisa… – a voz da mulher falhou, não queria mostrar fraqueza, ainda mais na frente de alguém, mas as mãos trêmulas ao pegar o celular, denunciou-a. – Eu já imagino o porquê. – a mulher seguiu até a carcaça e tirou fotos do bicho morto, a circulação rápida do sangue quase a impediu de notar o odor impregnante. – Só não entendo, por que logo hoje o apartamento está dessa forma?
— Para ser sincero, não acho que isso foi feito hoje. – o rapaz passou seus dedos sobre a tinta preta e checou o odor forte de decomposição. – Provavelmente fizeram isso têm uma semana já.
— Estou ficando tonta só de ficar aqui. – após tirar todas as fotos necessárias, retirou-se do cômodo com pressa.
— Jung, quer ajuda com algo? – logo atrás, seguiu o fiel amigo, preocupado com o estado de Hee, mas nenhuma resposta veio da mesma, pois parecia desnorteada. – Você está pensando em encontrar com ele?
— Por agora não, mas preciso fazer umas perguntas ao Angus. – suspirou. – Se isso for arte dele, vou fazê-lo pagar da pior forma, mas ficarei mais aliviada. – as imagens do animal morto surgiam de uma forma realística. – Caso não seja ele, eu já não sei o que fazer. – o celular ainda em mãos, parecia quente, pulsante e guardar algo de grande valor. – Queria tanto que Yeong estivesse aqui…
A porta fechou-se, selando a desordem ali dentro. Enquanto Jung e Mr. Nö perdiam-se no longo caminho até o elevador, os passos escandalosos no chão de taco alertaram os vizinhos. De uma lâmpada, um pingo caiu por culpa de um vazamento nunca consertado na estrutura do prédio. Piscante, a lâmpada tentou ao máximo trazer alguma luz àquele local mofado e escudo. As janelas, tão pequenas e distantes, deram ao corredor uma horrível iluminação. A garota ao chegar no fim do percurso, apertou o botão gorduroso do elevador. Só após entrar no cubículo de metal, notou a falta de seu companheiro. Não ligou, era melhor. Até porque, tinha tantas coisas a pensar, como a lista de afazeres, os preços a serem pagos por cada serviço e até mesmo o dinheiro necessário para coletar as informações do crime. Por isso precisou de silêncio. A cada andar descido, algo era acrescentado em seu bloco de notas. A cabeça ferveu em pensamentos e o estômago começou a doer por culpa da ansiedade. Quando a porta do elevador abriu, o ar frio e pesado chocou-se contra o ar quente tentando entrar.
Para onde foi Nö? Pensou. Tentou achar algo em seus bolsos, no entanto, nada encontrou. Mais suspiros incontroláveis. A fadiga mental esgotou quase ao máximo de suas energias. Com os braços escorados sobre o balcão da recepção, Jung alterou-se ao lembrar do maço de cigarro no bolso de Mister. Fumar era a única forma de laçar aquele turbilhão interno. O gatilho para o surto. Seus olhos foram ao encontro dos olhos do porteiro. O medo tornou-se ódio. Era tarde para qualquer autocontrole. Teve sorte, o homem, se não, Hee jogaria-se em cima dele. Limitou-se a gritar, foi o bastante para bombear os sentimentos ruins de seu corpo para fora. A discussão deu-se pelo fato de um estranho ter entrado no prédio. Ela não julgou os vizinhos. Primeiro porque não tinham nada a ver com a situação e, segundo, por causa de suas mudanças no apartamento para melhorá-lo. Ao causar tanto barulho, os vizinhos acostumaram-se. Quebrar vidros, por mais estranho, passou despercebido por eles. Porém, não encontrou explicações justas para o erro do vigilante.
Uma válvula. O real motivo era ter uma vítima, ou uma desculpa, para extravasar os sentimentos borbulhantes em seu peito, pois não podia chorar em hipótese alguma. Os cabelos espetados, tingidos com vermelho e laranja, pareciam brilhar e crescer ainda mais graças à aura explosiva de Jung. Não sabia quanto tempo durou aquela discussão, aliás, se aquilo poderia chamar-se como tal, até porque, o porteiro, sem reação, permaneceu travado o tempo todo sem poder retrucar. Como realizar alguma defesa sobre as graves acusações? Nem compreendê-las ele conseguia. Aslan Fernandes, o homem em questão, havia voltado naquele exato dia de sua licença a paternidade e, por isso, não sabia de nada ocorrido por uma semana. A baixaria só terminou com a chegada de Mister, acalmando a situação.
— Me desculpa… – enfim, calma, a garota dirigiu-se a Aslan com leveza. – Estava chateada com o que aconteceu e descontei em ti.
— Sem problemas, mas, sério, eu não sei de nada do que aconteceu por aqui esses dias, eu tava fora por causa da licença paternidade. – suplicou. Para um porteiro e pai, parecia bem novo, uns vinte e cinco anos, analisou Hee, e, com certeza, precisando do emprego.
— Realmente, eu errei, me desculpa. – ela fechou os olhos e o cansaço tomou o corpo da garota, precisou urgentemente de um descanso para sua “auto-organização”.
— Pensando agora, realmente faz sentido eles terem conseguido entrar no prédio nessa semana, até porque não havia alguém na recepção conhecendo o rosto de cada um. – Nö colocou-se ao lado de sua amiga. – Quem fez isso já estava observando esse local por muito tempo, na verdade. – ele falou, mas a atenção de Jung permaneceu distante, tentando preservar os últimos picos de energia restantes em seu corpo. – E falhamos também em ficar mais de um mês sem vir aqui no apartamento, o pessoal da Cidade Grande não gosta de periféricos mesmo…
— Eu preciso descansar um pouco, Nö. Hoje tem o velório da Neli e preciso me recompor. Além disso, tenho que pensar no que vou fazer de agora em diante. – ainda sem abrir os olhos, a menina seguiu como um sonâmbulo para fora do prédio. O rapaz nada completou.
Seguindo de volta para Capitão-do-mato, as avenidas longas da Grande Cidade pareciam pequenas quando comparadas ao silêncio perturbador e estável o qual permanecia dentro do carro. Marisol Elza, a motorista, dirigia com calma, até porque, não havia motivos de ter pressa para chegar ao destino final, porém, um desconforto a fez entortar a boca. Por alguns momentos, agradeceu por seus pensamentos focalizarem no buquê de flores brancas guardado no porta-malas. Era um dos presentes comprados para serem entregues junto a uma caixa de chocolates à sua namorada, pois o casal comemoraria o aniversário de dois anos pela noite. Mas ao parar no sinaleiro, seus olhos, em um relance, prenderam-se no retrovisor interno do veículo, voltando a inquietação como faísca na palha. Atrás, acomodada, Jung perdia-se em um sono pesado e, ao lado da motorista, Mister imerso em seus pensamentos analíticos. Em um estalar de pescoço, Marisol tentou buscar uma postura mais correta para dirigir, porém, seu verdadeiro desejo era iniciar uma conversação para perguntar sobre o ocorrido.
— Ei, Marisol… – a iniciativa veio de Nö, surpreendendo-a. – Teria como ligar o ar-condicionado? Está fazendo muito calor hoje. – ao tentar abanar-se, o rapaz soprou por dentro de sua gola em busca de um frescor.
— Claro, chefe, pra já. – a mulher após atender o pedido, continuou a dirigir. – Será que ela vai ficar bem depois desse abalo todo? Nunca tinha visto isso rolar tão de perto e ocorreu logo com ela…
— Pra ser sincero, eu não sei. Você mesmo viu as fotos de como está o apartamento, isso é um grande problema para se resolver. – o jovem suspirou encolhendo-se no banco de passageiro. – De qualquer forma, pelo menos temos uma pista.
— Como assim? – em um espasmo, a mulher virou-se para o rapaz ao lado.
Com os olhos estreitos, talvez por esnobismo, Nö retirou de seu bolso um pendrive. Era aquela a pista necessário para ditar a direção da solução de seus problemas. No curto tempo longe de Hee, o rapaz criou uma distração a qual tornou-se suficiente para roubar da sala de vídeos as imagens de segurança do prédio. Mesmo o rapaz sendo de porte médio e beleza mediana, era branco de olhos claros e chamativos. Muitos notariam a sua presença, mas, graças à vida, acostumou-se a ocultá-la para ganhar vantagem. Houve fatores favoráveis ao furto de imagens, como o segurança indo ao banheiro e a precariedade da fechadura da sala. A soma deles resultou em uma entrada e saída rápida, tornando o crime indetectável. De fato, a sorte de Mister sempre foi motivo de ódio para os seus inimigos.
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