13 Ultimatos

3 Capítulo 2 – São fantasmas que me sopram aos ouvidos


“Hey, Linc, venha! O monte está quase ali, a gente precisa achar eles.” As palavras surgiram pelo ar, mas sem sentido de direção. Ainda assim, Lincoln Meier não se importou em saber de quem era e de onde vinha a voz. Com a textura lembrando um algodão-doce e o sabor de churros, Linko agarrou a frase e a engoliu por inteira, causando-lhe uma sensação de tranquilidade e segurança no peito. Era um jovem adulto, possuindo quase vinte e três anos, porém sentia-se novo, como um adolescente, e, por isso, igual uma criança, correu com todo o impulso da juventude. Com seus passos largos, Meier atravessou aquela floresta úmida de perfume amadeirado junto aos pássaros de plasma. A estação do ano revelou-se através das árvores, algumas, sem suas folhas, formando o tapete seco e laranja no chão daquele ambiente. Sua maratona parecia durar anos e, mesmo assim, seu cansaço era inexistente. Porém, logo parou. Enfim, havia achado o que tanto buscou. Soltou-se das raízes presas aos pés, limpou o orvalho de seus ombros e jogou seus sapatos sujos fora. O jovem saiu da floresta e parou em frente a ponte que o levaria para o seu objetivo final. No entanto, antes que pudesse seguir até o monte, notou algo de errado. A ponte quebrou-se por culpa da última tempestade e não poderia ser utilizada.

“O que faremos, Linc? Precisamos chegar até lá, não podemos nos atrasar!” e novamente as palavras surgiram, caindo como uma fina chuva sobre a cabeça do rapaz. Sorriu, a pressa posta pela voz não alterou a calma de Meier. Abriu seus braços e sentiu a suavidade ao lembrar-se de um dom prazeroso. Sabia como resolver aquilo. Com os passos firmes e certo do que faria, chegou até a extremidade da ponte e saltou. Aos poucos, nuvens juntaram-se no formato de uma escada e, através delas, o rapaz desceu em segurança até o fim da montanha. Era dia, mesmo não havendo nenhum sol no céu. Como é possível? Pensou Lincoln. Só após questionar-se, entendeu que se tratou de um sonho. E, mesmo assim, não quis acordar, pois seu desejo em ver até onde tudo aquilo resultaria era maior. Quando colocou seus pés no chão rígido e estável, o cheiro de chuva direcionou seus olhos para o lado. Ao lado do pé da montanha, um rio criado através de uma cachoeira e, para ali, seguiu saltando como um coelho. Ao juntar as mãos, molhou seu rosto com a água fria e a bebeu para refrescar-se.

Em um compasso lento, até porque queriam sentir a grama molhada entrelaçar os dedos, um trio caminhou até o jovem. Em suas mãos, cestas com o intuito de realizar um pequeno piquenique.Linco não conseguia ver com exatidão o rosto das três pessoas a sua frente, apesar disso, algo o fez reconhecê-las, como uma intuição. Em uma epifania, Meier notou em suas próprias mãos um pano e uma faca. Era o modo como ele poderia ajudar naquele momento de lazer. Deste modo, para começar a diversão, estendeu o forro sobre o chão e fincou a faca no centro para que não saísse do lugar. Do trio, tomando a iniciativa, a garota sentou-se sobre o pano e de suas cestas retirou frutas.Em seguida, um rapaz alto e sem muita postura sentou-se de qualquer jeito. De sua cesta, retirou alguns doces açucarados e outras baboseiras cheias de gordura. O último não se sentou e, de suas cestas, nada tirou.

A amargura fez os olhos de Linko encherem de lágrimas. Que triste. Sentiu a aflição em seu peito ao ver seu amigo sem nada a oferecer. Os olhos poderiam entregar-se aos sentimentos ruins, pois lembrou-se, estranhamento, de outro momento. Talvez, até mesmo de outro sonho.Como uma fotografia sem história, a falta não era apenas na cesta. E, sem nem ao menos notar, a montanha, que outra hora esteve perto, viu-se longe do grupo. A paisagem era outra. O piquenique instalou-se ao centro de um campo bem chamativo, pois, nele, havia diversas flores contemplando o espectro visível. Uma pintura. Nem viram o pôr do sol e o dia chegou ao fim com o horizonte pintado num crepúsculo. As conversas enrolaram-se como um rocambole. O aroma de pipoca amanteigada saia por baixo do pano. A lua surgiu como um flash, sonolenta após dormir por horas. As flores belas e brilhantes do jardim começaram a queimar e, como algo raro, todos puseram-se em pé para admirar. “Não se preocupem, esse fogo não nos queima”. O alerta de Lincoln para os seus amigos pareceu banal, até porque, eles entendiam o fenômeno melhor que o próprio. A cena era algo comum por ali, mas o garoto nunca acostumou-se, na verdade, sempre o encantou. O rapaz colheu uma das flores em chamas e, ao soprá-la, as pétalas carbonizaram e as cinzas seguiram distantes, brilhando como purpurina. O coração acelerou após uma voz o chamar por trás. Eduardo?

Ao abrir os olhos, comprovou o sonho. O suspiro longo raspou a garganta seca. Com a cabeça ainda em repousou sobre seus braços, os olhos de Linko analisou o remédio colocado à sua frente, o qual tomou antes de dormir. Hemitartarato de zolpidem. Nos últimos dias, Lincoln percebeu um aumento de sonhos com pétalas em chamas e, por isso, acreditou ser culpa do remédio. Não podia reclamar, pois não havia outra escolha. Há alguns anos, o rapaz desenvolveu uma insônia e só após medicar-se conseguiu voltar a dormir mais que seis horas diárias. Ainda assim, suas olheiras não sumiram e muito menos o seu cansaço.Um dos motivos da exaustão era do próprio Meier. Novamente dormiu na mesa de madeira da sala dos funcionários, contabilizando mais de dois dias sem ir à sua casa. Preso ao seu trabalho? De fato, havia muito serviço por ali, mas nunca o bastante para tomar essa medida, pelo contrário, o garoto adotou a rotina apenas por comodismo.

O gemido de dor fez seus olhos fecharem e marcar o rosto em uma careta. Os braços dormentes, por suportar a cabeça a noite toda, e os ombros rígidos, encolhidos por muito tempo, foram a causa do incômodo. Levou um tempo até recuperar os movimentos dos braços para realizar uma massagem em si. O nariz assou. Ao virar seus olhos para o alto, notou o ar-condicionado ligado. Com um resmungo, imaginou a bronca que levaria do superior por ter virado a noite com aquele ar. Porém, o pior foi seu enjoo quando sentiu o cheiro de formol em suas mãos. Jurou ter lavado-as corretamente, mas, ainda assim, aquele cheiro impregnante permaneceu. De qualquer forma, como já começaria a trabalhar, não perdeu tempo com lamentações e levantou para trocar-se. Após retirar seu moletom verde-musgo e sua calça jeans, colocou o uniforme branco guardado no armário da sala. Diante de um espelho, ajeitou seu binder por baixo da roupa e arrumou seu cabelo. Por último, olhou as horas em seu celular. 07:12.

— Estranho não ter ninguém aqui ainda. – ao colocar seu celular no bolso do uniforme, agarrou o molho de chaves ao fundo do armário e seguiu para fora da sala.

No corredor, pensou em cada detalhe a seguir para realizar todos os seus afazeres pela manhã, mesmo sabendo o quão difícil seria cuidar de tudo aquilo sozinho. Já cedo e o rapaz possuía um serviço a espera em outra sala, bem mais fria quando comparada à sala dos funcionários. Ao chegar na porta, pegou a prancheta escorada sobre um apoio e,antes de adentrar, analisou a situação do corpo. Mais uma morte súbita? Pelo jeito a disritmia anda ultrapassando o limite aceitável para a vida, pensou o rapaz. Ao menos, o primeiro cadáver seria um trabalho rápido. Seguindo a metodologia, seria necessário apenas a coleta do coração para a análise computacional do órgão. Uma folga. Poderia deixar a parte tecnológica com outro funcionário e seguir suas análises. Além disso, ter o necrotério só para si, com certeza, aumentaria sua concentração,tornando o seu desempenho ainda mais satisfatória.

Não perdendo mais tempo, destrancou a porta metálica e adentrou no cômodo com a prancheta. Deixou-a junto ao molho de chaves em cima do balcão à sua esquerda e agarrou o avental semi-descartável jogado sobre a mesa à sua direita. Em uma das gavetas do móvel, tirou uma máscara e um par de luvas descartáveis. Após vestir-se e colocar os óculos de plástico, viu-se pronto para começar o dia. Como de costume, olhou à sua volta para checar se o ambiente permanecia igual desde a sua última vistoria. Seus olhos turquesas finalizou sua ronda após fixar-se na maca com um corpo de proporção adulta coberto por um pano branco. E, novamente, preso aos hábitos, retirou seu celular para a escolha de alguma música a ser tocada como plano de fundo. Entendia que aquele momento era um dos seus maiores atrasos ao realizar seu trabalho, porém nunca conseguiu bani-lo de vez e, de certa forma, qualquer pessoa compreenderia. Lincoln possuía músicas específicas para cada contexto e, pela manhã, deu preferência a uma melodia instrumental, calma, porém nada melancólica. O momento menos fúnebre torna-se mais respeitoso. Em sua brincadeira, passaram-se quase dez minutos concentrado na escolha da música.

De súbito, um farfalhar vindo por trás o fez retirar sua atenção do celular por culpa do susto, obrigando-o a olhar imediatamente para os lados e para trás, cogitando algo ter caído. Permaneceu assim, parado por um tempo, olhando de forma atenta para cada canto do necrotério. Tudo encontrou-se do mesmo jeito desde a sua última inspeção. Nada mudou. Então pensou ter sido sua imaginação ou alguma geladeira estalando. Após o susto, Meier chegou a sorrir olhando para o defunto. Quase que paro na mesma situação que você, pensou o rapaz. Ao trabalhar em um necrotério, torna-se difícil o medo de mortos. Porém, não houve tempo para o coração desacelerar, pois o sopro em sua nuca o fez arrepiar de maneira estranha, extinguindo seu sorriso de uma vez. Seu corpo tremeu-se sem compreensão. Como se jogasse cara ou coroa. Tremeu graças ao frio da sala ou algo incomum o cercando? Novamente, o mesmo som surgiu, porém, dessa vez, ignorado. Outro evento incomum ocorreu ao mesmo tempo. Os olhos do jovem focaram na tela do celular. As inúmeras mensagens e ligações perdidas o surpreendeu, já que, não havia escutado o som das notificações, mesmo o portando em mãos. Eram tantas a ponto de impedir qualquer ação no aparelho. Vieram do mesmo contato, sua amiga Jung Hee. Tudo seguiu de forma tão estranha, aleatória e inesperada, o deixando bem agitado com aquele excesso, sem contar o mau pressentimento.

O peito apertou e por um momento o garoto pareceu perder levemente seus sentidos. Voltando só após farejar um cheiro de queimado. Mais especificamente o de carne queimando, odor o qual conhecia muito bem. O sopro em sua nuca voltou junto a uma sensação de presença, como se o rapaz não estivesse realmente sozinho no necrotério. Em volta de Meier, uma fumaça formou-se, cobrindo seus pés e o chão do local. Constatou a presença após a respiração pesada e quente em sua nuca. Sua pele branca ficou mais pálida e a temperatura do necrotério lhe pareceu despencar. Sem virar-se para trás, Linko fechou seus olhos com força e repetiu para si um mantra aprendido. Seus músculos tornaram-se rígidos após dedos magros, carbonizados e longos pressionarem seu braço esquerdo e seu pescoço. Como uma estaca, algo parecia encostar no rumo de seu peito, pressionando-o ao ponto de perfurá-lo. Era apenas uma ameaça, pensou. Não havia como matá-lo, ele acreditou. Em seus pés, uma sensação de formigamento ou, pior, insetos o traçando. Como um animal farejando o medo, a presença criou tamanho e aproximou-se cada vez mais perto do rosto de Linko, parando com sua boca no ouvido do rapaz. Antes de qualquer som ser emitido, Meier tomou partido.

— Vá para a luz, sua alma não pode ficar mais nesse plano. – o tom moderado de voz deu-se na tentativa de despistar qualquer pavor que poderia ser detectado pela presença.

Permaneceria estático ali mesmo, mas abriu os olhos ao notar outro barulho incomum. O cadáver deitado na maca começou a movimentar-se.Ao centro, na região da barriga, algo queria liberdade, erguendo até mesmo o pano. Era uma mistura de sons fino e animalesco junto ao de pele rasgando. A presença atrás havia sumido. Nada de fumaça, nenhum inseto, somente a maca. Seu instinto de sobrevivência queria mantê-lo distante, mas, ainda assim, de forma estúpida, seguiu até o defunto. O celular ainda em mãos, foi solto sobre a bancada ao lado da maca e, com cautela, pegou as pontas do pano e o puxou delicadamente. Os olhos arregalaram-se. O corpo possuía uma marca imensa e profunda de cortes formando uma frase no peito: você é o próximo. Aquilo não fazia o menor sentido, pois nas informações lidas minutos antes não disseram nada sobre o cadáver incluir marcas. Além disso, uma fenda na barriga costurada fragilmente era o principal destaque. Movia-se, criando forças. Por um minuto de curiosidade, o rapaz esticou-se para frente, querendo analisar o que havia ali dentro, ao aproximar-se, um novo susto. Um olho. Ao arremessar-se para trás, caindo por cima da bancada, jogando os bisturis e até mesmo o seu celular no chão.

Agachado, sem mais coragem para manter-se calmo, o rapaz rastejou-se em busca de seu celular até pegá-lo. Em um alto gemido, a barriga abriu-se em um rasgo de carne e, enquanto Lincoln buscou reiniciar seu celular, o ser preso revelou-se. Uma cabeça de um gato preto, todo ensanguentado e dopado. De forma reativa, o animal mordeu a carne podre em uma tentativa de retirar-se de sua prisão. Linko ao conseguir ligar seu aparelho, discou o número de um amigo em busca de socorro.

— Vamos, Detyr, por favor. – seus olhos não se desprendiam da criatura, com medo de ser atacado.

Enquanto esperou ser atendido, Linko observou nitidamente o nascimento daquele felino negro de dentro daquele corpo morto, como um parasita chegando ao fim de seu ciclo de vida. O gato desprendeu-se e, ainda bambo, falhou na pisada ao pular, acertando o chão de maneira errada. Seus miados eram altos e o estresse da cena também. Suas patas debatiam-se pelo chão na esperança de criar forças para manter-se em pé. O sangue escorria pelo pelo, sujando o chão ao arrastar-se para longe da maca. Ao notar o estado do animal, movido por uma preocupação, Meier esticou-se até àquele criatura. Ao tocá-lo, houve uma reação rápida e desesperada do felino, arranhando a mão de Lincoln. O ataque parou após perder as forças. Afobado, o gato clamou por ajuda através de seus miados.

—Iae, Lin, tudo bem? – enfim, Detyr, no outro lado da linha, o atendeu. – Que que você precisa?