13º Instituto Remanescência
9 Capítulo 9 - Armários
O professor desceu as escadas que ficavam entre os blocos C e E. Logo atrás, os alunos faziam o mesmo em meio a tropeços e empurrões involuntários. Vitor, Leandro e Luiz estavam na retaguarda, ainda tentando olhar para trás e ver como estavam Vico e Thaís, mas sua visão era bloqueada pelos Cranks que os perseguiam. Todos seguiam o professor, confiando nele. Desceram a escada e seguiram em frente rumo à enfermaria que ficava no bloco central, o Bloco D. Ao invés de dobrarem para o pátio do Bloco D, viraram à esquerda, passando pelos vários arbustos floridos. Desceram os degraus que levavam a uma rua que separava o Bloco D do F. Atravessaram-na e subiram mais alguns degraus até o Bloco F. Os seis Cranks estavam se distanciando um pouco.
O professor vira à direita e segue para a parte frontal do bloco.
— Subam as escadas! — grita Vitor do fundo do grupo — Confiem em mim! E bloqueiem a passagem lá em cima!
O professor fica receoso, mas obedece. As escadas do Bloco F eram diferentes das demais. Ela tinha paredes onde nas outras havia apenas corrimãos metálicos. As escadas do Bloco F pareciam túneis ascendentes com dois lances de escadas em sentidos opostos e paralelos. A parede que dividia os lances tornava impossível quem estivesse em um lance visualizar o outro.
— Luiz, espere um pouco para subir. Deixe-os verem que você subiu a escada. Não se preocupe comigo e com Leandro, apenas bloqueie a passagem lá em cima- aconselha Vitor enquanto corre.
Os garotos sobem, mas Vitor puxa Leandro para trás da parede da escada bem no momento em que os Cranks viram no corredor e veem Luiz subir as escadas. Eles chegam barulhentos ao primeiro degrau e começam a subir. Luiz já havia chegado ao primeiro andar antes de os Cranks alcançarem a escada. Cláudio e Jonathan seguravam um armário com várias portas que servia para guardar os materiais escolares dos alunos.
— Podem fechar! — grita Luiz enquanto pisa nos últimos degraus da escada.
— E Vitor e Leandro?! — pergunta Jonathan.
— Fechem! — ordena Luiz.
Jonathan e Cláudio ficam nervosos com a situação, mas logo levam o armário até a escada. Os barulhos de passos e gritos de uma multidão alucinada ficavam cada vez mais altos. Quando iam posicionar o armário como um bloqueio, algo se choca contra as portas do armário. Os garotos são empurrados para trás, mas logo se recompõem. Empurram com força o armário contra a entrada da escada. Jurandir corre para dar suporte, empurrando pelo meio. Fernanda, Maynara, Eliza e Juliana também vão empurrar. Os braços dos Cranks se projetam entre o armário e a parede, balançando loucamente e tentando arranhar e puxar os garotos. Jonathan e Cláudio se afastam, segurando o armário por trás. As outras meninas correm e batem nas mãos dos Cranks com seus objetos de metal.
Os Cranks lentamente recolhem suas mãos para dentro do túnel-escadaria. Quando havia apenas mais uma mão para fora, o professor a ataca com a furadeira. A dor da broca giratória sobre sua mão associada à dor causada pela pressão do armário sobre seu antebraço fazem o último Crank se recolher. Ainda é possível sentir batidas no armário. O professor manda os garotos pegarem outro armário e colocarem-no deitado contra o outro.
Jonathan e Cláudio fazem isso enquanto os outros empurram o primeiro armário e é possível notar que o bloqueio se tornou mais firme. Era praticamente impossível empurrar os armários por dentro. Os garotos respiram fundo para recuperar o fôlego. De repente, as batidas cessam e todos ficam curiosos com a desistência dos Cranks. Escutam passos se afastando e logo depois mais gritos e batidas em algo metálico.
— Os garotos devem ter fechado a outra entrada da escada. São espertos. — fala o professor dando sua risadinha característica. — Agora vamos embora.
Ele corre pelo corredor superior do Bloco F e os garotos os seguem. Deixando para trás um armário bloqueando a escada como uma porta, deixando uma passagem de apenas meio metro acima de si.
O professor para subitamente antes de chegar a um cruzamento de corredores. Se encosta na parede de uma sala e coloca lentamente a cabeça para o cruzamento. Olha para o lado direito e vê a passarela que leva ao Bloco A. Vê o corredor do Bloco A ladeado por salas e, ao fundo, no final do bloco, a uns trezentos metros, vários Cranks. Do lado esquerdo, é possível ver, além dos armários do corredor em que está, a entrada para outra área do Bloco F, com um corredor escuro com salas dos dois lados. Antes dele, uma escada igual a que acabaram de subir.
— Tem muito deles, mas estão longe daqui. De lá do final do Bloco A acho difícil que nos vejam. De toda forma, vamos nos dirigir com cautela até a escada. Sigam abaixados e devagar. — diz o professor enquanto dá os primeiros passos quase engatinhando.
Os garotos, como sempre, o imitam. Eles viram à esquerda e descem o primeiro lance de degraus. No segundo, veem dois vultos. Pensam em atacar, mas logo percebem que são Vitor e Leandro. O professor faz um sinal sutil de agradecimento.
Descem o segundo lance cuidadosamente. Reúnem-se ao pé da escada e observam a área. Do lado esquerdo, assim como no primeiro andar, um corredor escuro do Bloco F com salas dos dois lados. Do lado direito, portanto, havia salas ao invés de um caminho ao Bloco A. O professor anda lentamente atrás de arbustos, olhando ao seu redor para ver se não há nenhum Crank. Já é possível visualizar todo o estacionamento que fica na parte frontal do Instituto. Alguns postes de luzes brancas espalhados por toda sua extensão e outras fontes de luzes verdes que iluminavam coqueiros dispostos em fila paralelos à frente da escola. Andam um pouco mais até que as paredes do Bloco F passam a se afastar, dando lugar, lentamente, à frente de um ônibus verde. Haviam chegado.
Todos correm silenciosamente até o ônibus. Era possível avistar a parte exterior do bloco administrativo, o A. Ver mais acima a passarela que ligava os blocos F e A. Ver o estacionamento menor entre os blocos A e D, além de pequenos arbustos floridos e o pátio do Bloco D. Acima do pátio, as janelas de vidro da biblioteca. Mais no fundo, muito distante dali, era possível avistar os blocos B e C, onde tudo começou. Atrás do bloco B, o prédio mais alto do Instituto, o Bloco H, das engenharias.
De onde estavam, boa parte da escola podia ser vista.
O professor foi o primeiro a chegar ao ônibus. Ele mexe na porta e os garotos vão se reunindo atrás dele, ansiosos. De repente, ele soca a porta do veículo e fala furioso:
— Está fechada!
Todos ficam desesperados. Haviam chegado até ali para nada.
— Usa a sua furadeira para arrombar a fechadura, professor! — sugere Maynara.
— A trava é larga, mesmo se eu conseguisse furá-la, demoraria muito para conseguir destruí-la por completo. — responde o professor, ficando nervoso.
— Quebra a janela! Não sei! Alguma coisa dá pra se fazer! — insiste a garota.
— Precisamos que esse ônibus esteja vedado quando sairmos da escola. — responde o homem com um tom de preocupação e, ao mesmo tempo, pensativo.
— Eu acho que sei dar um jeito. — fala Fernanda — tem como abrir a porta apertando uma alavanca atrás do para-choque do ônibus.
Fernanda era a que mais entendia de tecnologia entre os garotos, o que serviu de consolo a todos. Ela foi até a frente do ônibus, colocou a mão no espaço onde havia a alavanca e a puxou. Os garotos esperaram ansiosos, mas nada aconteceu.
— Está desativado o sistema. Para ativá-lo, apenas apertando um botão na chave. O que seria mais viável utilizá-la para abrir a porta. — ela conclui.
Todos perdem a esperança que havia surgido. Alguns passam a ter lágrimas nos olhos e outros a ficarem vermelhos de raiva ou nervosismo.
— Por que não saímos a pé? — sugere Maynara novamente.
— Tenho certeza que seríamos mortos assim que nós colocássemos os pés lá fora. Somo um risco para a cidade. Lidem com isso. — responde o professor.
Os alunos ficam confusos e nervosos. Débora Costa chega a culpar o professor.
— Você trouxe a gente para cá só para ficarmos do lado de fora!
O professor olha para a garota, o rosto rubro como fogo, e se aproxima dela.
— Cale essa boca, mocinha! — ele fala calmamente antes de dar-lhe um forte soco no rosto.
A garota cai no chão, pondo as pequenas mãos sobre o ponto onde foi atingida. Seus cabelos lisos e castanho-claros ficam ainda mais assanhados com a queda. De sua boca, é possível ver um filete de sangue escorrer. Os garotos ficam atônitos com a cena. Fernanda se lança em direção ao professor, mas Jonathan a segura. Entretanto, ninguém consegue segurar Eliza. A menina alta e de pele bronzeada costuma ter um pavio curto, mas dessa vez era algo além. Ela estava tão assustadora quanto um Crank. As sobrancelhas sendo puxadas pelo centro entre os olhos e o nariz mexendo furiosamente enquanto ela bufava. Seus cabelos lisos e castanhos balançavam no ar a cada passo firme que dava em direção ao homem.
Ao se aproximar, ela o dá um tapa monstruoso. O som do impacto reverberando finamente no ar como um estalido.
— Você atraiu aquelas coisas para o laboratório. Eneri, Thaís e Vico morreram por sua culpa. Você nos trouxe até aqui para ficarmos vulneráveis em um lugar onde qualquer um consegue nos ver. Você sabe de coisas demais e parece não querer nos explicar nada. — Eliza estava sentada sobre o professor, prendendo-o com o corpo. A cada frase que dizia, dava um tapa em seu rosto.
O professor tentava se libertar daquilo. Soltou a furadeira e segurou os ombros da garota para empurrá-la. Não foi necessário. Cláudio já a puxava de cima do homem.
— Isso é para você aprender a nunca mais encostar um dedo em algum de nós! — fala a menina com tranquilidade e frieza.
Maynara e Heloísa consolam Débora, enquanto Cláudio e Jonathan seguram Eliza e Fernanda, respectivamente. Jurandir, Vitor, Juliana e Leandro ficam de prontidão, olhando ao redor se a cena não chamou a atenção de alguém e se preparando para agir.
— Vamos para alguma sala aqui do Bloco F, lá pensamos no que vamos fazer. — sugere Vitor. — E você vai ficar longe da gente. — conclui apontando para o professor.
O homem pega a furadeira e sai em direção ao centro da escola.
— Eu vou me virar sozinho. Vou achar essa chave e vocês vão morrer dentro dessa escola. — diz o professor enquanto enxuga o sangue do rosto e caminha para longe dos garotos.
Vitor convence os garotos a saírem dali o mais rápido possível. Eles seguem em direção às salas do Bloco F. Débora ainda sentindo dores no rosto e seus olhos lacrimejando.
— Rafaela! — ela fala nervosa — Onde está Rafaela?!
Os garotos se entreolham confusos. Fernanda, Eliza e Débora, que eram mais próximas de Rafaela, se desesperam. Não conseguem acreditar que ela ficou para trás sem elas perceberem. Vitor se sente angustiado, mas continua a missão de achar uma sala aberta. Ele tenta abrir porta por porta. Ele gira a maçaneta de uma e a empurra. Dessa vez, estava aberta. Sente algum obstáculo impedindo a abertura da porta. Juliana e Jurandir o ajudam a empurrar, e eles conseguem deixar uma brecha.
— Entrem aqui. Depois conversamos sobre Rafaela e tudo o mais. — aconselha Juliana.
A sala estava escura, mas Jurandir entra pela brecha e acende a luz. A sala tinha cadeiras bagunçadas, dois armários grandes de duas portas e um birô, que se apoiava na porta de entrada da sala. Jurandir afasta o birô, para aumentar a passagem. Os garotos vão entrando um a um. Débora, Eliza e Fernanda transpassam a porta chorando. Maynara, Leandro, Heloísa e depois Jonathan.
Mas, subitamente, quando apenas cinco deles ainda estavam do lado de fora, as luzes se apagam, assim como os postes do estacionamento.
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