13º Instituto Remanescência

15 Capítulo 15 - Efeito Doppler


Vico se aproxima lentamente da porta enquanto o Crank cai no chão. Vico observa aquele corpo sujo e ferido indo em direção ao chão em um ritmo menor que o do sangue escorrendo do seu olho até suas vestes. De repente, a barra de ferro se movimenta com rapidez na direção de Vico. É tudo muito rápido, mas Vico consegue segurar o pedaço de ferro com a mão direita, deixando o pedaço de vidro cair. Vico puxa a barra de ferro com uma expressão furiosa no rosto, mas logo algo puxa a barra para dentro da sala, levando consigo o braço de Vico, que é cortado nos pedaços de vidro que restaram no quadrado da porta.

O garoto solta um gemido de dor, mas consegue ver o que há lá dentro. Uma garota de cabelos negros e cacheados segura o pedaço de ferro.

– Eu não sou um deles! — Vico se explica.

– Cala essa boca. — a garota fala com uma expressão fria no rosto. — Ninguém vai cair nessa.

– Eu só vim ajudar! — Vico insiste. Ele fica atônito tentando convencer a garota até que solta um grito de dor.

Algo rasgava sua perna de baixo para cima. Era como se uma minhoca andasse lentamente por sua carne enquanto pegava fogo. Vico reage e olha para a perna imediatamente. Ele logo vê o Crank sorrindo enquanto empunha o caco de vidro. Vico cambaleia para o lado na intenção de fugir daquele ataque. O Crank se arrasta com o sangue escorrendo em sua face, tentando se levantar. Vico cai sentando no chão e coloca as mãos no ferimento da perna. O corte no braço esquerdo lateja como uma brasa. O corte da perna foi fundo, ele consegue notar, embora não tão extenso quanto achou que fosse.

Mas ele não tinha tempo para analisar seus ferimentos. O Crank já estava praticamente sobre ele novamente. Vico rola o corpo pro lado e desvia do ataque que o homem desfere com o caco de vidro, que se choca contra o chão e faz jorrar sangue da mão do Crank. Vico se arrasta para trás, na tentativa de se afastar e se levantar, mas o Crank puxa sua camisa. Vico se debate no chão, acertando chutes e socos aleatórios, mas o Crank logo consegue aproximar o pedaço de vidro do pescoço do garoto.

Tudo parece ficar em câmera lenta. O Crank se esforça para estraçalhar o pescoço de Vico, que afasta os braços do Crank empurrando-os. Vico não consegue se segurar e chora com a situação. O Crank ri histericamente de toda a cena, que se encerra abruptamente.

A barra de ferro atravessa novamente o crânio do homem. Dessa vez, de fora para dentro. Vico continua em choque com tudo e demora a notar a garota segurando o cano de metal. Mais atrás, três garotas um tanto retraídas.

– Você está destruído... — diz a garota enquanto dá a mão a Vico para que ele se levante. — Realmente achei que fosse um Crank. Me desculpe.

– Não. — Vico segura na mão da garota e se levanta, confuso. — Quer dizer! Sim! Não tem problemas. É difícil de confiar mesmo.

– Vico! — fala uma garota que corre e abraça Vico de uma maneira quase sufocante. — Que bom ver um de vocês.

Vico se desvencilha um pouco, enxugando o rosto e olha a face da garota na fraca luz do local.

– Joana! Que bom ver um de vocês, digo eu! — ele olha para as garotas ao fundo e reconhece uma delas. — Bia! Você também! Isso é ótimo!

– Essas são Taciana — Joana aponta para a garota de cabelos cacheados — e Aline — agora apontando para uma garota de anatomia semelhante ao das mulheres pintadas por Botticelli e de cabelos negros, volumosos e ondulados em um corte chanel.

– Olá. — Vico responde para as garotas que acabou de conhecer. Ele deixa de lado as apresentações e tira a camisa, rasgando em seguida a manga que sobrara. Ele faz novamente uma atadura, dessa vez na perna. — Espero que segure... Eu não aguento mais. Não aguento mais essa intimidade com Cranks. Esses abraços. Essas puxadas na perna. Não dá. Realmente, não dá! — ele pragueja furioso enquanto dá o nó no tecido.

As garotas olham com um pouco de estranheza para a atitude um pouco inconstante do garoto, achando, de certa forma, engraçada a situação. Joana e Aline oferecem ajuda, mas Vico diz que está tudo bem. Ele veste novamente a camisa e olha o próprio corpo, dos pés ao peitoral. Cortes e arranhões por todo o lugar.

– Isso dói. É sério. — ele diz às garotas. — Acho que preciso ir ao ambulatório da escola.

– Não precisa atravessar a escola para se tratar. Há um ambulatório aqui no prédio. Estávamos indo para lá para pegar algumas coisas e sairmos da escola. — diz Taciana.

– Esse prédio é praticamente um anexo. Nem parece que faz parte da escola. — comenta Vico.

– Pessoal, o papo está ótimo, mas precisamos nos apressar. — diz Bia impaciente.

Todo concordam e seguem andando. Vico não consegue correr como antes, mas mantém um ritmo consideravelmente acelerado. Bia também não consegue correr, devido ao seu problema de saúde. Taciana, que conhece o prédio melhor que os outros, toma a dianteira. Joana e Aline ficam atrás, deixando Bia e Vico mais protegidos ao centro.

– Não me diga que a gente precisa subir mais uma escada? — pergunta Bia ao ver que o grupo se dirigia à escada. — Será que não está na hora de a energia voltar? Eu preciso do elevador!

Vico sorri da situação, pois já está acostumado com os picos de estresse da colega. Os garotos sobem os degraus tranquilamente, mas ainda com cautela. Chegam ao quinto andar e seguem a uma sala como todas as outras, contudo, havia o nome "ambulatório" em sua placa de identificação.

– Amém! — diz Bia com alívio.

Taciana tenta abrir a porta, mas ela está trancada. Os outros ficam preocupados, mas ela logo consegue quebrar a tranca usando a barra de ferro. Tudo está silencioso no local. Os garotos se mantendo sempre alertas. Taciana acende uma lanterna que havia no bolso de trás de sua calça vermelha e passa a procurar o que precisa na sala.

– O que é bom pegarmos? — pergunta Aline.

– Calma. Vamos ver se tem alguém aqui antes. Coloquem algo para manter a porta fechada, pois não podemos ser surpreendidos. — responde Taciana.

Os garotos obedecem. Fecham a porta e arrastam um pequeno balcão para bloquear a entrada. Taciana abre alguns armários e outros balcões, pegando os remédios e lendo seus rótulos. Ela escolhe principalmente analgésicos, alguns antibióticos e anti-inflamatórios. Os outros ajudam a pegar materiais como gazes, faixas e álcool em gel, tateando sob a fraca luz da lua.

– Uma tesoura. Acho que é uma boa arma para autodefesa. — diz Aline com seu típico sorriso de aparência sádica quando encontra uma tesoura ao procurar as coisas.

– Acho que pegamos o suficiente. — Taciana fala após terminar de recolher o que considerou ser o necessário.

– Pegamos até demais. — diz Joana.

– Quem garante que estará tudo bem quando sairmos. Podemos precisar até mesmo de mais do que isso. — Taciana fala com uma mórbida seriedade.

– Quanto mais, melhor, minha gente. Peguem tudo! — diz Bia, em seu típico jeito elétrico.

Os garotos conversam enquanto pegam pequenas mochilas de primeiros socorros para colocar os itens igualmente distribuídos para os cinco.

– Eita! Havia me esquecido! Isso se a gente conseguir sair daqui. — diz Vico. — Não quero ser pessimista, mas é que notei, quando fui à cobertura, que estamos cercados por uma muralha de metal bem mais alta que esse prédio. — ele conclui ao notar o olhar de reprovação das garotas.

– O barulho era isso então... Precisamos nos planejar melhor ainda agora. — diz Taciana.

Todos ficam um pouco nervoso com a nova dificuldade encontrada e logo começam a discutir uma solução, mas a conversa, de repente, é interrompida por um grito. Algo semelhante a um chamado. Aline corre para a janela e vê vários Cranks correndo em direção à entrada do Bloco H.

– Gente, temos um problema. — Aline fala assustada.

Taciana corre para a janela para ver o que houve. Joana e Bia continuam onde estavam e Vico se dirige lentamente em direção à janela.

– Fala logo o que houve! — ele pergunta enquanto se aproxima.

– Um grupo de Cranks acabou de entrar no prédio.

Todos ficam muito assustados com a possibilidade de precisarem sair do prédio enquanto fogem de meia dúzia de Cranks. Porém, até o medo se esvai da cabeça dos garotos quando um grito começa a ficar cada vez mais próximo e mais agudo e, em questão de segundos, eles veem um corpo passar pela janela rumo ao chão. O grito fica mais grave e distante até que um barulho seco de impacto soa pelo lugar.