13º Instituto Remanescência
12 Capítulo 12 - Workpads
Os garotos já esperavam por aquilo, mas mesmo assim se assustaram. Jurandir estava mais perto da porta, praticamente dentro da sala, e entrou logo após Jonathan. Vitor, Juliana e Luiz fazem o mesmo logo em seguida. Cláudio olha para os lados, para se certificar de que ninguém os viu, e entra. Os jovens fecham a porta e colocam o birô novamente. A sala está totalmente escura, mas Juliana liga um Workpad e direciona sua tela para cima, iluminando um pouco o local. A luz atingia os rostos por baixo, dando-lhes uma aparência assustadora.
— Se a escola permitisse que carregássemos nossos próprios Workpads, todos nós teríamos uma fonte de luz agora. — diz Cláudio.
— Celulares já seriam úteis. — completa Juliana. — Essa rigidez nas normas apenas está dificultando nossas vidas.
— Sim. Mas dá para entender. Quem imaginaria que esse caos viria acontecer? — conclui Cláudio.
Enquanto isso, Maynara e Jonathan fornecem apoio às meninas, ainda abaladas com o desaparecimento de Rafaela. Heloísa está em um canto, sozinha. Luiz, Leandro, Jurandir e Vitor formam uma roda com Cláudio e Juliana.
— Poderíamos mandar um email usando o Workpad. — sugere Vitor.
— O sinal a internet está inexistente. Provavelmente a rede foi desativada junto à energia elétrica. — responde Cláudio. — Se tivéssemos tido sossego, poderíamos ter tentando algo antes de cortarem a energia.
— Claro. Faz sentido. — Vitor reflete.
— Quantos Workpads temos no total? — pergunta Jurandir.
— Eu peguei um. — diz Leandro.
— Tenho três comigo. — diz Luiz.
— Eu não peguei nenhum. — responde Cláudio.
— O que peguei é esse que está aceso. — fala Juliana.
— Temos cinco, pelo menos. Os outros podem ter também. — conclui Vitor. — Vamos perguntar. É bom que cada pessoa tenha um.
Juliana se aproxima de Heloísa e pergunta se ela tem algum Workpad, mas ela responde que não. Depois se dirige a Jonathan e às garotas e faz a mesma pergunta. O grupo tinha mais dois.
— Sete Workpads e doze pessoas. Seria bom ter mais alguns. — diz Juliana ao retornar. — Será que não tem nenhum nessa sala? Naqueles armários. Sei lá.
— É bom darmos uma olhada. Pode haver algo útil neles. — diz Cláudio.
— Toma. — Juliana oferece um Workpad aceso a Cláudio.
— Não precisa. É bom economizarmos bateria. Só o seu já é o suficiente. — ele responde.
A menina desliga o equipamento e continua andando. Vitor segue os dois, enquanto Leandro, Jurandir e Luiz observam. O Workpad que Juliana segura reforça a luz daquele que está no centro da sala. A cena chama a atenção do outro grupo e de Heloísa. Juliana segura a maçaneta do armário e abre a porta.
Algo pula sobre a garota, deixando-a imóvel no chão. Seus braços são segurados por uma forte mão. Seu peito é pressionado por alguém sentando sobre ele. Vitor e Cláudio investem contra o novo inimigo. Mas outra pessoa que sai do armário empurra Vitor sobre Cláudio. Os dois caem no chão. Leandro, Jurandir e Luiz se levantam assustados. Heloísa, com medo, se encosta nas paredes do canto da sala. Eliza, Fernanda e Débora ficam tensas e desnorteadas com tudo o que está acontecendo. Maynara se apavora com a cena e se aproxima das garotas. Jonathan também fica confuso e olha a movimentação sem entendê-la nos primeiros segundos.
Juliana empurra o corpo que estava sobre ela, atacando-o com as pernas. A luz do Workpad que estava em sua mão e agora está caído ao seu lado ilumina o rosto de uma menina de lisos cabelos negros e corpo esbelto. A pele branca a tornava assustadora, principalmente devido à sua expressão de raiva. As duas giram e Juliana fica por cima da garota. Juliana desfere socos em seu rosto, mas a menina se protege com os braços. A outra pessoa se aproxima e puxa Juliana pelos ombros, tirando-a de cima da garota e derrubando-a no chão.
Cláudio e Vitor se levantam no momento em que outros do grupo se aproximam. A garota e a segunda pessoa recuam para perto do armário.
— Não se aproximem! — grita a garota dos cabelos negros.
A outra pessoa também é um garota, contudo mais baixa, mais forte e de pele mais escura. Seus cabelos castanhos eram curtos e ondulados e ela usava uma tiara para segurar os fios da franja. Elas param ofegantes e encaram os outros. Luiz ajuda Juliana a se levantar e Cláudio e Vitor estão à frente do grupo. Fernanda e Eliza agora também estavam integrando a multidão. Débora e Heloísa ainda estavam afastadas.
— Estamos sóbrias! E vocês? — pergunta a garota.
— Estamos ainda mais. — responde Claúdio dando um passo à frente, na direção das garotas.
— Se afastem! Eu já disse! — a garota fala alto, mas ainda com cuidado para não chamar a atenção de pessoas fora da sala.
— Acho que nós somos maioria aqui. — Cláudio fala de maneira intimidante.
— Acho que somos nós que temos uma arma aqui. E somos nós que não vamos pensar duas vezes antes de atirar em qualquer pessoa que seja uma ameaça. — a garota diz.
— Esperem! Estamos todos em perfeitas condições. Não somos uma ameaça. Só queríamos buscar alguns Workpads nos armários e ficar protegidos aqui na sala. Ninguém aqui foi ferido por um Crank ou algo do tipo. — Luiz tenta acalmar as coisas.
— Não precisariam estar feridos. Vocês já devem ter o vírus. Ele se propaga lentamente pelo ar. — a garota mais baixa fala a última frase vagarosamente.
— Se unam a nós. Tenho certeza que seria melhor para todos. — sugere Luiz. — Vamos sair juntos dessa escola agora mesmo.
As duas garotas soltam um riso que incomoda os demais.
— Sair da escola? Você não consegue enxergar que, se as coisas estão assim por aqui, isso significa que elas estão bem piores lá fora? — fala a mais baixa das garotas.
— Mas planejamos sair em um ônibus. — diz Vitor. -Depois decidiríamos o que fazer lá fora.
— Transportal. — fala a garota de cabelos escuros.
— Como? — pergunta Vitor.
— Há um Transportal aqui na escola. Não sabia? Há um aqui e um na prefeitura. É o único jeito de fugirmos. — a garota conclui.
Os jovens ficam chocados por não terem pensado nisso antes. Transportal era algo para a mais alta classe, mas eles tinham uma oportunidade no momento. Hierarquia era algo que não funcionava mais naquela escola.
— Acho que podemos funcionar muito bem juntos! Nós estamos em grande número e seremos de boa ajuda. Vocês nos levam até o Transportal. — sugere Luiz.
— Não precisaríamos de ajuda. Só precisamos entrar aqui na sala porque vocês vieram como loucos, com um bando de Cranks em seus calcanhares. Se não fosse por isso, já estaríamos em outro Polo Remanescente. — diz a garota.
— Onde fica o Transportal? — pergunta Cláudio.
— Não sabemos ainda... — responde a garota envergonhada.
— Bastante útil... — Cláudio resmunga. — Vamos pegar o que for preciso e dar o fora daqui. Precisamos sair rápido dessa escola.
As duas garotas ficam um pouco nervosas, mas logo a mais baixa quebra o silêncio.
— Mas nós sabemos onde descobrir a localização do Transportal. Estávamos indo para lá. Aqui mesmo no Bloco F, nas salas que ficam atrás da parede de vidro. Elas têm computadores com informações a respeito da planta da escola. A questão é que a energia não existe mais por aqui... não vamos poder acessar nada.
— As coisas estão muito complicadas, mas vamos dar um jeito! Peguem logo os Workpads do armário e vamos sair daqui. — fala Juliana nervosa.
Os jovens vão até os armários e vasculham. As duas garotas ficam quietas e afastadas. O grupo acha mais dois Workpads. O resto dos itens dos armários eram apenas papeis. Depois disso, eles param por um tempo para se prepararem para partir. Vitor se aproxima das duas garotas, que estão sentadas perto dos armários.
— Vocês não têm arma nenhuma, não é?
As meninas ignoram a pergunta.
— Vocês têm nome, pelo menos? — ele insiste.
— Adrielly. — responde a jovem de cabelos negros.
— Andreia. — diz a garota mais baixa.
— Estamos juntos agora. Seria legal se fossem mais amistosas. — diz Vitor. — Mas vocês se soltam com o tempo. Somos pessoas legais.
— Vocês perderam muitos? — pergunta Adrielly depois de uma pausa relativamente longa.
— Somos do curso de Química e estávamos tendo uma aula de reposição. Quando tudo começou, nós corremos e então o grupo se dividiu. Bem, das pessoas que ficaram conosco, temos certeza de que quatro pessoas morreram. — responde Vitor de maneira triste.
— Por isso elas estão daquele jeito? — pergunta a garota, apontando para Eliza, Débora e Fernanda.
— Na verdade elas estão chorando porque uma amiga desapareceu. Não podemos dizer se ela está morta ou não.
— Entendo. Deve ser triste. Somos só eu e a Andreia mesmo. Estávamos largando do estágio na sala de projetos para a edificação o Bloco I quando as coisas começaram a acontecer.
— Mas agora vocês estão com a gente. Podem confiar. — Vitor tenta convencer as garotas de que estão do mesmo lado.
As duas dão um sorriso leve, mostrando que estavam bem mais calmas e que sabiam que os garotos eram realmente de confiança.
Todos estavam descansando um pouco na sala. As garotas já haviam se recomposto; pararam de chorar, embora ainda estivessem preocupadas com Rafaela. Muitos conversavam baixinho, assim como Vitor fazia com Adrielly. Portanto, todo o momento de descanso foi interrompido por uma série de barulhos metálicos muito altos. Grandes engrenagens pareciam ranger do lado de fora da sala.
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