12.06
1 O dia.
Notas iniciais
Sim! UMA DEDICAT?“RIA *o*
Se essa curta história existe hoje, é porque um rapaz super apaixonado veio me procurar... E ele me disse que sua paixão era uma leitora minha e que uma história AoKaga seria um presente perfeito para esse dia tão especial o/
Não é fofo?
Podem ter certeza que isso foi motivador demais, me deu muita inspiração para voltar a escrever (sim, o capítulo de Antepaixão veio por isso) e me fez acreditar que demonstrações de amor existem de diversas maneiras possíveis!
Por hora é isso que posso dizer!
Lá em baixo nas considerações finais temos algumas palavrinhas dele para essa moça linda ♥
Boa leitura meus anjos, nos vemos nas considerações finais...
Manhã do dia 12 de junho
Quando abriu os olhos e encarou o teto azul claro de seu quarto, Aomine Daiki sabia que aquele dia seria o dia! Sim. Seria o dia em que tomaria uma dose extra de coragem, engoliria qualquer resquício de orgulho, receio e faria o que estava procrastinando há semanas. Meses quem sabe. Bem, independente de qualquer coisa do gênero, algo no âmago do moreno dizia que não havia mais escapatória, teria que ser naquele momento... Porque, na boa, não aguentava mais aquela dorzinha esquisita dentro de si e o fato de não ter o controle da situação (e muito menos de suas ações). E outra: seria melhor a coisa toda sair por sua boca, através de suas palavras decididas, do que por meio de suas atitudes confusas, que ultimamente já não estavam mais tão discretas assim.
Sim. Hoje, depois de tanto tempo adiando algo intensamente esfregado em sua cara — e curiosamente em algum ponto nunca antes tocado dentro de si —, o individualista e fechado Aomine Daiki abriria seus sentimentos (ainda meio misturados) para a pessoa mais inesperada (e até inapropriada) da face da Terra: Kagami Taiga.
Pois é. O ás com cara de cu da Seirin. Quem diria.
Desde o primeiro ano do Ensino Médio, Daiki só conseguia pensar naquele ruivo idiota. Claro, no início tudo era o basquete, a Winter Cup, a derrota, a forma como Taiga era determinado para sempre evoluir no esporte, a admiração, a Vorpal Swords e todo aquele discurso de sempre... Mi, mi, mi. No entanto, a partir do início do segundo ano, a coisa toda tomou um rumo que Aomine jamais estava esperando. Ficara (acidentalmente) amigo do cara. Não colega. Mas amigo! E, cá entre nós, amigo demais! Do tipo que, de partidas desafiadoras de mano a mano e visitas ao Maji Burguer com o resto da galera, passaram para idas esporádicas ao cinema e até noitadas de videogame depois de um tempo... Sozinhos. Só os dois. Mano a mano, mas sem o basquete. E conseguiam sobreviver, com diálogos, risadas e coisas assim! Um verdadeiro milagre.
Em resumo, dois seres humanos que teoricamente se odiavam, passaram a criar uma afinidade quase duvidável no início, mas irreversível depois. Eram praticamente a mesma pessoa vivendo em corpos diferentes, não tinha como dar errado. Ou seja, tanta proximidade e similaridade resultou em uma verdadeira bosta na cabeça de um certo indivíduo que ainda encarava o teto azul claro do quarto naquela manhã.
Aomine Daiki nunca tinha se sentido tão próximo de alguém. Claro, havia Satsuki e Tetsu, seus melhores amigos, mas não era a mesma coisa. Não esse tipo de 'próximo'. Sabe-se lá o que isso significava. Não havia uma forma lógica e esclarecedora de explicar aquela merda que estava percebendo, sentindo, vivenciando em relação àquele cara... Mas de repente o moreno começara a ir em busca de situações e lugares onde estaria perto de Kagami Taiga, o tempo todo. E elas não envolviam só basquete. Envolviam tudo. Tipo, queria estar com ele. Só isso. Ele o fazia se sentir bem, vivo de certa forma. Não é algo estranho, é? Bem, pessoas se sentem assim perto de amigos, então foda-se. Tá tudo certo.
Tudo certo até certo ponto, afinal, mentir para si mesmo nunca é algo durável. Uma hora tudo desaba, mais cedo ou mais tarde. Com o moreno não seria diferente.
Por meados do final do segundo ano, Daiki criava cenas mentais de como seria foda se o ruivo estudasse consigo na Academia Toou. Novamente, não apenas pelo basquete, mas porque passaria mais tempo com ele, poderiam matar aula juntos ao invés de ficarem trocando apenas mensagens idiotas pelo celular, fariam campeonatos bestas de quem comeria mais no almoço, copiariam tarefas um do outro antes das aulas e nos intervalos poderiam fugir de tudo e ficar ouvindo música sozinhos em um canto escuro... E aí a coisa ficou estranha, porque de repente, em um momento de tédio, os pensamentos de Daiki começavam a migrar aleatoriamente para uma proximidade física, um abraço, um selinho (?), e de repente o moreno já estava 'beijando' as costas da própria mão imaginando que era a boca de Kagami ali... E a mente de Aomine Daiki explodiu diante daquela atitude idiota e adolescente! Como assim? Como poderia estar pensando coisas do gênero? Não era gay, caralho. E Taiga era só seu amigo. Mas que merda! Mas que bosta sem tamanho. Argh. De onde veio isso? Nada a ver... E então riu. Riu muito. Riu de nervoso. E logo depois tentou esquecer tudo aquilo. Era mais fácil negar tal bosta. Era apenas uma bosta mesmo.
E uma vez mais a mentira ficou armazenada em algum ponto dentro de Daiki, porém aquele sentimento em relação à Taiga tornava-se mais evidente e cada vez mais confuso. Prestes a explodir. Afinal, estavam próximos demais, se viam o tempo todo, se falavam o tempo todo. O miserável inclusive já cozinhara (fodasticamente) para Daiki, que já pernoitara no apartamento do ruivo quando fizeram uma maratona de série e procuraram fechar o jogo The Witcher III, nas férias.
Perto demais, apegados demais. A coisa estava se tornando irreversível. Os pensamentos vinham, e de beijos idiotas em sua própria mão, Aomine começou a ter outro tipo de reação física. Coisas embaraçosas, perigosas. Pensamentos inesperados em suas punhetas no banho e mais algo do gênero.
Desespero definia bem!
Estava reparando demais, olhando demais, pensando demais. Tudo muito fora de seu controle. Estava perdendo o rumo... Deveria dar um tempo. E deu. Afastou-se de Taiga com a desculpa de que precisava melhorar as notas pra jogar basquete. E lógico, duas semanas ridiculamente sofridas, confusas e ao mesmo tempo esclarecedoras. Conclusão? Estava apaixonado por Kagami Taiga. Não havia como negar. Não quando sentia 'saudades' até mesmo do cheiro do desgraçado.
Até hoje Aomine não sabia dizer como chegara a esse ponto. Era bem inexplicável, mas ao mesmo tempo inevitável. E a dorzinha estranha em seu peito era reflexo do medo de não conseguir tomar uma atitude a tempo. Estavam na metade do terceiro ano do Ensino Médio, logo a faculdade chegaria para afastar as pessoas e a vida adulta cairia como uma bigorna em cima de seu tempo livre. Precisava agir. Não havia mais dúvidas sobre como se sentia... E o que aconteceria depois... Bem... Essa era a parte complicada. Mas não podia mais fugir, não podia mais procrastinar. Sempre fora um cara decidido, então, ao encarar aquele teto azul, resolvera falar a verdade para Kagami Taiga de uma vez por todas, mesmo que ele o odiasse depois e nunca mais fosse olhar para sua cara. Era um risco que precisava correr, ou iria ficar em um loop mental e morreria no arrependimento.
E seria hoje, segunda-feira, dia 12 de junho.
***
— Nossa. O que foi, Dai-chan? — Foi a primeira frase que Momoi Satsuki soltou, no exato momento em que o moreno pisara nos limites da Academia Toou naquela manhã.
— Oi? — Daiki ergueu uma de suas sobrancelhas, fingindo confusão.
A garota lia sua mente de alguma forma, não havia outra explicação. Ela com certeza detectara o nervosismo no fundo de suas pupilas. Aomine até treinara uma espécie de inexpressividade na frente do espelho para não cometer qualquer gafe perante a amiga, apenas no intuito de evitar perguntas que não poderia responder no momento... No entanto ela fora mais ligeira e percebera tudo. Sempre percebia. Daiki nem sabia por que ainda tentava.
— Não se faça de sonso. Você está com uma cara estranha. — A garota deu-lhe um tapa enérgico no braço, esboçando descontentamento e ao mesmo tempo preocupação. — Tá acontecendo alguma coisa!
— Ah, pare de ser sarna. Não é nada. — Rolou os olhos, impaciente com tanta perspicácia.
— Fala de uma vez. — A garota insistiu, inflando as bochechas em sinal de protesto.
— Depois eu te falo, prometo. Mas agora não dá. — Deu o braço a torcer ao falar aquilo, bufando, já seguindo seu caminho até o prédio da escola para fugir de mais interrogatório.
— Espera Dai-chan! — Ela veio logo atrás, apressada.
Satsuki sabia de tudo sobre essas confusões de Daiki em relação à Taiga. Chegou um momento em que precisara contar à amiga... E ela tornara-se sua maior aliada, como sempre, como era de se esperar. Momoi dava os melhores conselhos para que não ficasse louco ou perdido demais naquele labirinto estranho — ela era seu chão —, no entanto não queria que a amiga soubesse que iria fazer aquilo 'hoje'. Se contasse que iria se abrir com Kagami naquele dia, só iria ficar mais nervoso ainda, porque ela iria dar um milhão de dicas, enumerar palavras que deveria dizer, atitudes que deveria tomar e tudo o mais... No entanto dessa vez Daiki iria tentar por si só, à sua maneira, sem nada como empecilho, sem nada bloqueando sua mente. Estava decidido.
E seria hoje, depois da aula. Mataria o treino e iria até a Seirin. Taiga estaria lá.
***
Horas mais tarde
Após um dia mais longo e arrastado do que normalmente era — ou aparentava ser —, o moreno começou a guardar os materiais com pressa na mochila. O sinal estava prestes a bater, precisava voar para fora daquele lugar. Sentia-se tão ansioso que já não aguentava mais aquelas paredes. Parecia claustrofóbico. E o tédio das aulas apenas colaborava para a criação de cenários mentais. Imaginara pelo menos umas cem vezes como seria quando fosse falar a verdade para Kagami... Cada vez uma catástrofe diferente, porém o final era sempre o mesmo: A amizade de ambos estaria acabada. Ia dar merda, com certeza.
Aomine cogitara desistir daquela empreitada suicida umas pares de vezes, mas no final sempre mudava de ideia. Seria hoje! Não podia deixar sua imaginação negativa o amedrontar, era mais decidido que isso. Não sabia o que esperar do ruivo, porém antes vale uma verdade do que ficar mentindo e camuflando aquele troço de si mesmo. Era algo que estava consumindo o interior de Daiki há um longo tempo, tinha que se livrar daquela sensação de impotência e dúvida... Seja para um resultado bom (caso Kagami correspondesse — pouco provável — ou ao menos não desistisse da amizade de ambos) ou para um resultado ruim (the end, game over, fatality, 'finish him').
E o sinal tocou. E Daiki correu, despedindo-se parcamente de Satsuki, prometendo que mais tarde explicaria todo aquele conjunto de coisas estranhas. E o medo deu um soco na boca do estômago de Aomine assim que pisara fora da Academia Toou. E a vontade de abandonar o navio vinha em ondas constantes conforme avançava em direção à Seirin.
— Meu pau, idiota. Se concentra. — Suspirou, percebendo que suas mãos estavam ficando úmidas na mesma medida em que sua garganta secava. — Puta merda, não é o fim do mundo. — Disse em voz alta para convencer a si mesmo. Não deu muito certo. A proporção da situação parecia aumentar em progressão geométrica.
Caralho! Iria confessar seus sentimentos confusos a Kagami Taiga, seu melhor amigo, que provavelmente o odiaria daquele ponto em diante ou pelo menos ganharia alguns quilos de repulsa por sua pessoa. Era complicado, no mínimo. Um cachorro de três cabeças que iria fatiar a dignidade de Aomine em pedacinhos, caso nada desse certo. E provavelmente nada daria certo... Quer dizer... Aquele idiota nunca demonstrou nada que deixasse o moreno com um sentimento positivo e promissor. Taiga provavelmente não fazia ideia de como Daiki se sentia, porque é lógico que não se sentia da mesma forma. Ele o via como amigo, merda. O que diabos estava pensando?
— Ai, porra! Chega de pensar. — Parou de caminhar, notando que o sinal estava fechado para pedestres. Nunca se sentira assim, tão idiota e débil. Parecia haver borboletas do tamanho de pterodáctilos passeando por seu estômago, que realmente começava a doer. Era um sinal de que deveria largar aquela idiotice para ir cagar em casa? — Não! Foco, Daiki. — Rosnou para si mesmo, notando que uma senhorinha o olhava de canto, provavelmente porque falava sozinho ao esperar o momento de passar na faixa de pedestres. — Vamos em frente. — Ignorou tudo o que o levava a desistir e continuou seu caminho.
Se havia algo que o moreno abominava, era ter as coisas confusas em sua mente. Por mais que fosse alguém bastante desinteressado e alheio ao mundo, precisava de sua cabeça funcionando direito, dependia exclusivamente dela para não cair no buraco... E desde o momento em que Kagami Taiga passou de amigo para 'crush', como Satsuki costumava dizer, tudo se transfigurara no mais puro caos. Precisava de sua sanidade de volta, e só teria isso se abrisse o jogo com Kagami, independente do que poderia vir a acontecer depois. Eram amigos, mas caso tudo desse errado e o ruivo decidisse se afastar para sempre, Aomine ficaria bem com sua própria companhia. Era egoísta de primeira, individualista as fuck, então não sofreria tanto.
Tanto...
Dessa vez era um pouco diferente do que estava acostumado. Se apegara demais.
— Daiki?
O moreno ergueu os olhos e, ao lado da praça, um pouco mais a frente, viu ninguém mais, ninguém menos que o próprio bloqueador de sua estabilidade mental. Kagami Taiga. Ele andava enérgico, apressado em sua direção, fazendo com que os músculos do corpo de Aomine travassem na mesma hora. O que diabos...? Puta que pariu! Puta. Que. Pariu! Era só o que faltava...
— T-Taiga? — Gaguejou sem querer. Não se preparara psicologicamente para isso, para um encontro do nada. Puta merda. — Oquevocêtáfazendoaqui? — Lançou a pergunta em uma lufada de ar tão grande que tudo saiu confuso e quase monossilábico.
Merda, por que ele mexia tanto consigo? E justo agora? Qual é.
— Ah... Eu... — Kagami pigarreou, olhando para os lados. Agora que Aomine notava bem, ele parecia tão ansioso quanto o próprio moreno. Estranho. Deve ter dado alguma coisa de errado com alguma engrenagem que fazia a vida dele funcionar, já que era todo paranoico com tudo. — Eu tava indo atrás de você, na Toou.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — Perguntou, percebendo a mão suar mais e mais... E não apenas as mãos. Se não se acalmasse, logo federia a sovaco. Bem, dane-se, se entupira de desodorante naquela manhã. Foco no agora! E o agora estava bem esquisito. Nunca iria encontrar uma abertura para falar de suas bostas confusas, sendo que Taiga tinha suas próprias bostas confusas pra contar. E ele era bem mais confuso... Paranoias e tal. Uma verdadeira menininha ruiva com quase dois metros de altura.
— Nada... Só... Tá, calma. Deixa eu pensar. — Taiga respirou fundo, como se estivesse realmente escolhendo as palavras, talvez ordenando as coisas aleatórias que tinha naquela mente lerda.
Agora era a hora, era a deixa de Aomine. Ali, naquela rua mesmo, agora! Hoje! Foda-se o resto. Não tinha muito tato pra achar momentos perfeitos, e se não fizesse isso hoje, não faria nunca mais. Que se foda!
— Taiga, eu também estava indo atrás de você, na Seirin. — Falou com a voz meio baixa, atraindo o olhar dele. Travara. Merda. Como iria soltar a verdade assim? Nunca conseguiria. Não se ele ficasse encarando daquele jeito... Daquele jeito 'normal', mas que na verdade causava todo o tipo de tempestade no estômago já turbulento de Daiki. Precisava de um banheiro. Não, era ilusão, uma medida desesperada do seu subconsciente para sumir dali o quanto antes.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele foi rápido em perguntar também, ajeitando a postura.
— Não... Só... Precisava falar com você. — O moreno comentou, brincando com a alça da mochila no ombro. Parecia uma anta. Nunca fora realmente tímido. Bosta!
— Eu também. — Kagami respondeu em voz alta, muito rápido, quase como um latido distorcido, já que engolira um pouco de ar. — Nossa, que merda. — Riu de sua própria voz estranha.
— Idiota. — Aomine sorriu também, usando aqueles segundos de descontração para tentar colocar a cabeça no lugar, dando um tapa cômico no braço dele. — Vamos sentar ali então, tô com preguiça de ficar em pé. — Apontou para a praça, usando o maior ar casual e arrastado que conseguiu reunir naquele instante.
Havia alguns bancos espalhados pelo parque, então daria tempo de pensar um pouco mais nas palavras até achar um canto mais reservado... Só que o cheiro dele... Confundia. Merda. Por que tinha que ser assim? E o que diabos Taiga queria falar? Será que era melhor deixar ele falar o que quer que fosse antes de simplesmente soltar um 'eu quero você, na moral'? Cadê o manual de instruções para situações como essas, caralho?
— Nossa, que dia estranho. — Taiga riu, mostrando de leve os caninos pela lateral dos lábios. Ele decididamente estava ansioso, pois sorria mais do que o normal. Daiki notara isso com o tempo e agora decididamente sabia que era o caso. Sabia 'ler' ele.
— Nem me fale. — Aomine concordou, acentuando mil vezes mais aquilo em sua mente. Parecia prestes a explodir de tanta ansiedade, mesmo que parecesse uma verdadeira estátua de cera por fora... Mas uma estátua de cera que transpirava. Muito.
Juntos, caminharam até o meio da praça, num concentrado de árvores. Poucas pessoas passeavam por ali. Apenas mães levando suas crianças até os balanços ali perto — mas já se retiravam, pois era final de tarde —, gente fitness caminhando com cachorros, e alguns casais. Claro. Sempre casais. Isso fez o moreno olhar de canto para Taiga, imaginando se um dia realmente poderiam ser um casal. Quase riu. É óbvio que aquele idiota não iria topar, ele nem ao menos dava indícios de que era gay/bi ou de que sentia algo diferente por Aomine. Nossa, estava se metendo em um poço sem fundo, isso sim. Era nítido que iria resultar em tragédia. Ainda dava tempo de desistir.
— Não... — Sibilou para si mesmo, balançando a cabeça.
— Não o quê? — O ruivo perguntou, assim que se aproximavam de um banco encostado de uma árvore alta e magrela, sem nada de especial.
— Oi?
— Você falou 'não...'. — Taiga ergueu uma das sobrancelhas bifurcadas e exageradamente grossas, largando a mochila ao lado do banco antes de se sentar.
— Tá doidão? Ouvindo vozes agora... Tá na hora de se tratar. — Daiki desconversou, imitando os gestos de Kagami, sentando-se ao lado dele... A um palmo e meio de distância, por segurança... Caso houvesse um soco envolvido naquele cenário depois que a verdade viesse à tona.
— Você falou sim, retardado. Não se faça de idiota. — Kagami rebateu, irritando-se um pouquinho. Aomine sorriu. Fazia essas coisas de propósito, já que ele era facilmente provocável... E ficava muito engraçado com aquela cara de bicho ruim. Ficava bonitinho.
— Tá bom Taiga, tá bom... O louco é você mesmo, não é problema meu. — Falou com a voz arrastada, dando de ombros com um ar teatral. Chega de enrolar. — Mas então... Você queria falar comigo? — Lançou.
Assim que Kagami dissesse qualquer coisa que aquela mente paranoica estivesse projetando (exageradamente, como sempre), seria sua vez, e então não teria volta. Hoje era o dia de se confessar e isso não mudaria por nada.
— Ah... — A expressão dele se desfez, voltou para a ansiedade. — Ah, mano... Deixa pra lá. Não era nada. Melhor assim.
— Fala. — O moreno ergueu as sobrancelhas, tentando manter a compostura. Quanto mais ele se enrolasse, pior seria para falar sobre suas próprias paranoias. Só ficava mais nervoso com a demora...
— Não, deixa quieto. Fala voc-
— Fala. — O interrompeu, erguendo o canto do lábio em um sorriso clássico.
— Eu não vo-
— Fala. — Aomine insistiu, notando o pânico tomar conta do rosto dele. Era engraçado. Ele era muito mulherzinha. — Fala. Fala, Taiga. Fala. Fa-
— Cala a boca. — O ruivo sorriu de canto e olhou pra frente, nitidamente pressionado.
— Fala logo, Bakagami.
— Preciso fazer um teste. — Ele soltou a frase muito rápido, como se quisesse se livrar daquilo, olhando para Aomine com intensidade. Pareceu ter se arrependido, então voltou a olhar pra frente. Mal fazia noção do quanto aquilo deixou as pernas de Daiki bambas. Merda!
— Que... teste? — Perguntou, ainda tentando parecer firme. Não podia dar bandeira do quão ansioso estava. Cadê o orgulho dos Aomine agora?
— Nada. Deixa... Pra lá. Vai ser melhor. — Ele o olhou de canto, sorrindo um pouco.
Aomine gelou na hora. Será que...? Não.
— Que teste, Taiga? — Encostou de leve no braço dele ao perguntar, um pouco urgente, mesmo não querendo ser otimista demais... Porém conhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que lançava a ele o tempo todo, até o momento em que era flagrado e voltava-se para frente com cara de desdém ou desconversando. Será que...? Não. Nada a ver. Estava viajando. Alucinando. Quem era o louco agora?
— Esquece, sério. — O ruivo olhou para a mão do moreno em seu próprio braço, e então voltou-se para o moreno. Aquele mesmo olhar.
Meu caralho! Meu caralho! Meu caralho! Que eu não esteja sendo iludido pela minha própria cabeça! Pensou. Mas claro que era ilusão. Taiga só estava com vergonha de seja lá o que for... Ele jamais...
— Não vou esquecer. Pode falar. — Daiki disse em voz baixa, como se fosse um segredo, mas na verdade sua voz apenas travara na garganta. Não queria nem imaginar como estava sua expressão agora. Já não conseguia camuflar mais nada. — Que teste?
— Não sei se seria prudente te falar, ou fazer. — Ele riu um pouco, nervoso, olhando de novo para a mão de Daiki em seu braço. — Pode dar merda.
— Tem a ver comigo? — Aomine disparou a pergunta sem pensar duas vezes. Era sua chance.
Taiga hesitou. Engoliu em seco. Franziu as sobrancelhas e olhou para frente. Estava com receio de falar. Apenas balançou a cabeça positivamente, mandando para dentro mais uma boa quantia de saliva.
— Que teste, Taiga? — O moreno sibilou com a voz quase esganiçada, mas baixa, sentindo o corpo tremer ao soltar o braço dele.
Sem aviso, o ruivo girou o rosto na direção do de Aomine e o encarou por um tempo com uma expressão diferente. Meio sério, decidido, propositalmente intrigante.
E tudo se desintegrou. O tempo pareceu parar.
Taiga era intenso demais e não fazia ideia disso... Ou fazia, porque quando ele o olhava assim, desarmava o invencível Aomine Daiki de todas as formas possíveis... E agora tudo parecia tão certo, tão óbvio, tão... Tão... Sei lá... Daiki via-se hipnotizado ao encarar os olhos castanho-avermelhados em sua frente. Ficava vulnerável, um verdadeiro idiota. Gostava da sensação, mas apenas com ele, pois apenas Kagami merecia conhecer a real alma dentro daquele corpo individualista e orgulhoso. E... Bem... Se Taiga nunca suspeitara de como Aomine se sentia, agora estava tendo uma evidência clara, porque seus olhos, sua respiração, seus lábios entreabertos não o deixavam mentir. Na verdade Daiki não queria mais mentir. Estava se confessando para Kagami sem emitir um único som.
— Esse teste. — Kagami engoliu em seco ao sussurrar aquilo, segundos depois, voltando a olhar pra frente. Parecia perdido.
Foi a vez de Aomine paralisar, completamente receoso pela primeira vez naquele dia. Entendera tudo em um piscar de olhos. O teste era tipo uma armadilha. Estava fazendo papel de palhaço naquela tarde... Ou será que isso estava acontecendo nos últimos meses? Caralho. Que idiota! Taiga já suspeitava dos seus sentimentos, lógico... Agora estava apenas tirando a prova real com aquela encarada. Então... Ele não era tão lerdo quanto aparentava. Merda! Aomine se entregara sem querer, e agora provavelmente perderia um amigo sem soltar uma mísera palavra... Restava apenas esperar pelo discurso de 'não vai rolar, valeu, até nunca mais'.
— Taiga... — Começou a falar, sentindo-se patético. Não gostava do sentimento, não condizia com sua personalidade. Talvez até estava com medo, agora que realmente beirava o precipício.
— Isso não tá sendo fácil. — Kagami permaneceu olhando pra frente, ainda confuso. — Tipo, sei que isso está acontecendo há uma caralhada de tempo... Mas... A gente é amigo, Daiki.
Aquela frase foi como uma faca quente atravessando o estômago já extremamente injuriado de Aomine, subindo para seu peito. Caramba, doeu bem mais do que o imaginado. Por mais que já tenha se preparado para o corte, o moreno sentia-se frustrado como nunca. Taiga sabia de suas intenções e o dava um pé na bunda de um jeitinho educado... E, puta merda, era ruim pra porra. Seria melhor se ele tivesse sido um filho da puta. Se bem que o teste foi golpe baixo...
— Eu não acredito que vou falar isso, mas não dá mais pra adiar. Acordei decidido hoje, então tem que ser hoje. — Kagami riu, nervoso, passando a mão no rosto. Ele estava transpirando também, porém não mais que o próprio Daiki. — Eu tô com medo de cagar com a nossa amizade se falar como estou me sentindo, saca? Você vai me socar, vai me odiar pra sempre e nem vai querer olhar mais pra minha cara... Só que vou precisar falar, porque achei que era viagem da minha cabeça quando tudo começou, mas com o teste agora... — Ele balançou o rosto. — Mano... Eu... Não consigo mais... Tipo... Ficar perto de você, porque... Eu tô sentindo essas coisas, e... Agora... Te encarando... Sei lá... Não tem... É inevitável... — Kagami riu, tapando o rosto com as mãos, em um sinal de vergonha. — Eu quero muito te beijar. Merda. Pronto, falei. Foi mal por isso. Agora pode ir em frente... Pode começar a me xingar. — Taiga voltou a encarar o moreno, desestruturado e vermelho, nitidamente morrendo por dentro.
Mas, novamente, não tanto quanto Aomine.
— Quê? — Sibilou, mal acreditando no que acabara de ouvir.
— É Daiki, eu tô afim de você, só não sei como isso foi acontecer. — O ruivo se exaltou, nervoso como nunca, balançando uma das pernas freneticamente. — Só sei que tá assim há um milhão de anos e eu não tô mais conseguindo disfarçar. Não sei como você não tá enxergando. — O ruivo voltou a olhar pra frente, curvado, roendo a unha do polegar, esperando o momento certo para sair correndo em fuga.
— Eu... — Daiki murmurou, nervoso, imaginando estar no meio de uma vertigem. Era bom demais pra ser verdade. Aquela onda de alívio e adrenalina dentro de si era melhor e mais prazerosa do que qualquer coisa que já experimentara até então. Caralho, que foda! Continuou: — Eu sempre soube que você era tapado, mas realmente não sei como você não tá enxergando.
Taiga o encarou, confuso, quase irritado. Parecia achar que era uma pegadinha... Mas no fundo Daiki também achava. Precisavam esclarecer os fatos.
— Quê? — O ruivo lançou, semicerrando os olhos.
— Idiota, eu... Eu pensei que você fez o teste pra ver os... meus sinais e me mandar à merda de uma vez. E não o contrário.
— Que sinais? — Kagami engoliu em seco, perdido como apenas como ele próprio poderia estar.
— De que eu tô afim de você também. — Simplificou, emoldurando cada uma de suas palavras. A certeza de vitória era uma sensação tão boa, parecia aliviar o corte metafórico da faca quente por seu bucho como mágica.
— Quê? — Kagami riu um pouco, completamente desacreditado, quase irritado de novo. — Você tá me zoando, né? Tá querendo fazer com que eu me sinta melhor? Porque não tá dando certo.
— Tô falando sério, retardado. — Aomine sorriu perante a reação dele, sentindo-se tão vulnerável e idiota quanto antes. — É... Sério. — Murmurou com a voz mais baixa, o encarando com intensidade e certeza dessa vez. — Era isso que eu ia te falar hoje, porque... Também acordei decidido.
— Daiki...? — O ruivo o olhou, meio assustado.
Na verdade o moreno também estava na mesma, provavelmente porque nenhum dos dois de fato esperava uma reciprocidade. Mas era uma sensação alucinante, aquele frio na barriga, a adrenalina correndo à solta, o coração palpitando. E então, mesmo sem entender o motivo que o levou a fazer aquilo, o moreno olhou para os lábios de Kagami... Era instinto, vontade de concretizar um desejo, beijar a boca dele ao invés das costas de sua própria mão. Pela primeira vez deixou de ser algo inalcançável. Foda-se se estavam no meio de uma praça, foda-se se eram homens, se eram amigos, se estavam com medo de como seria o depois. Apenas queria ir em frente.
E, caralho, poderia sofrer uma combustão interna a qualquer momento, pois algum ponto dentro de seu peito estava inflamando com muita força. Viu Taiga olhar para seus lábios também, e aquilo levou sua mão a suar um pouco mais, se é que isso era possível, e os pterodáctilos de seu estômago pareciam lutar entre si. Riu um pouco da própria manifestação de nervosismo e voltou a encará-lo, completamente embasbacado.
— Tô parecendo uma menininha aqui. — Revelou em voz baixa, levando-o a sorrir também.
— Eu também. — O ruivo o encarou de novo, ficando sério aos poucos. Seu olhar voltou para a boca de Daiki... Era tão claro quanto a luz do dia. Ambos queriam aquele beijo, por mais confuso que fosse.
Sem pensar em mais nada, seguindo o mesmo instinto decidido que o levou a querer se confessar para Taiga naquela tarde, o moreno moveu o rosto para frente, aproximando-se lentamente de Kagami. Esperou ele completar o movimento, para o caso de realmente ser uma pegadinha... Mas não era... E então seus lábios roçaram timidamente em um beijo rápido... Que assemelhou-se ao impacto de um raio quebrando uma árvore ao meio, porque Daiki pareceu se dividir momentaneamente em trilhões de átomos que se espalhavam pelo universo em uma questão de milésimos de segundo.
Caralho! Como era possível ambos terem acabado ali? Parecia uma verdadeira alucinação. Caralho!
Quando tudo pareceu voltar ao normal, o moreno foi atrás daquela sensação mais uma vez, juntando novamente os lábios de ambos. Surreal. Ainda faziam aquilo muito devagar, com uma espécie de receio, porém mesmo assim em uma conexão inexplicável. Entreabriram minimamente os lábios para que o movimento fluísse melhor... E era tão bom, por mais que estivesse um pouco desalinhado no início, por mais que estivessem acostumando-se um com o outro e até mesmo com a ideia de estarem compartilhando um gesto tão intenso e íntimo.
Aos poucos a sincronia fez-se presente, assim como tudo o que envolvia os dois, afinal, eram o mesmo ser humano habitando corpos diferentes. Era algo novo para ambos... Não o beijo, mas sim o fato de terem confessado seus sentimentos no mesmo dia, acidentalmente, para alguém tão próximo desde o início do Ensino Médio, do mesmo sexo, com os mesmos pensamentos e sonhos. É isso que chamam de paixão. E era exatamente isso que ambos estavam experienciando naquele instante, naquela praça, naquele cenário... E era apenas o início.
Os dois mal sabiam que ficariam juntos até o fim dos tempos, porque quando um sentimento é verdadeiro, ele evolui em conjunto com o de sua metade. Começa com uma paixão, e se torna parceria, respeito, lealdade. Se torna amor, e então enfrenta tudo... Preconceitos, medos, brigas, receios. O que é para ser, sempre vai ser, independente de quantas barreiras existam no caminho. É inevitável.
...
Notas finais
Aqui tenho a dedicatória do Johnatan, feita com muito carinho para a sua pessoa especial:
"Olá minha baixinha colorida linda!
Espero que tenha gostado dessa surpresa de dia dos namorados preparada com tanto carinho, especialmente para você.
Só queria complementar falando que você é incrível, que mudou a minha vida e me faz uma pessoa muito feliz. Eu adoro o seu sorriso, o seu beijo, o seu cheiro, a sua boca, e sem dúvidas a sua fofura.
Adoro te fazer sorrir e espero muito ver a sua reação ao descobrir o que eu e Alana preparamos para você.
Sempre se lembre que eu sou e sempre serei o seu Loiro, alto, lindo com olhos azuis, que te ama e que apenas isso importa!
Feliz dia dos namorados Patrícia!"
Achei um ato tão fofo!!! Espero que você goste, Patrícia... Assim como espero que vocês todos tenham gostado da história ♥
OBRIGADAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
Feliz dia dos namorados!
~Karen, te amo!
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