1000 Forms of Fear
6 Eye of the Niddle
Notas iniciais

Eu corri até a academia, ele deveria estar lá, não havia outro lugar. Ao entrar perguntei à recepcionista sobre Hal, mas ela não soube informar, sabia apenas que não havia ido trabalhar. Pensei em ir até seu apartamento, mas nesse tempo eu não sabia onde ele morava. Pedi para que a atendente me dissesse, mas ela se recusou... Normas da empresa, fazia sentido no fim das contas. Então me lembrei de Margareth e Jonas, os amigos de Hal, talvez eles soubessem de algo.
— Alô? — Eu disse desse lado da linha.
— Pois não?
— Margareth? É a Ophelia! Você viu o Hal em algum lugar?
— Não... O que houve? Você parece assustada...
— Eu não o encontro em lugar algum... Eu, eu não sei mais onde procurar.
— Calma, onde eu posso te encontrar?
— Eu estou na academia.
— Estou indo aí.
Quando Margareth e Jonas chegaram vieram correndo em minha direção e ao abraçá-los eu não pude conter as lágrimas. Eu estava nervosa. O fato de Hal ter sumido em minha casa, sem deixar pistas me fazia, de certa forma, me sentir responsável, ainda que de fato não o fosse.
— Se acalme Ophelia, ele deve ter ido a algum lugar e deve estar sem sinal. Nós vamos encontrá-lo — disse Jonas.
— Sim... Nós vamos — eu disse secando o rosto.
— Não é melhor contatar a polícia? Já faz quanto tempo que ele desapareceu? — perguntou Margareth.
— Umas sete ou oito horas...
— Meu Deus... Vamos direto para a delegacia! — exclamou Jonas correndo para fora da academia.
Eu os segui. Ao sair pela porta vi por sobre um muro, do outro lado da rua a figura branca ora assustadora, ora serena, a coruja que havia pousado sobre meu peito na madrugada passada. Ela me observava e me seguia por onde quer que eu fosse desde que aquilo havia acontecido, agora não seria diferente. Eu corri para o carro e pude vê-la levantando voo. Tentei acompanhá-la com o olhar, mas o limite da janela do carro de Jonas me impedia.
Chegando à delegacia de Bishopsgate me dirigi até o balcão de informações onde havia uma policial organizando alguns papéis. Ela era negra, tinha os olhos caídos e parecia cansada, era bastante troncuda e usava uns óculos próximos à ponta do nariz. Eu olhava para ela esperando ser atendida, mas ela fingia não me ver. Tirei as luvas e acenei para ela. A mulher apenas lançou um olhar indiferente o que fez com que eu e todos os outros nos sentíssemos invisíveis.
— Com licença. — eu disse na tentativa de chamar a atenção dela novamente em um tom de voz um pouco mais agressivo.
— O que foi? — ela retrucou impaciente.
— Eu quero fazer uma denúncia... Meu namorado desapareceu — minha voz começava a falhar.
— Só um minuto... — O semblante da mulher mudou levemente, agora ela parecia mais interessada no que eu estava dizendo. Ela organizou os papéis numa pilha e voltou a me atender — quando foi a última vez que você o viu?
— No meu apartamento... Ele dormiu lá ontem à noite e quando acordei não estava mais lá. Ele não atende o celular. Fui a todos os cantos por onde ele costuma passar e não o encontro... Estou preocupada.
— Entendo... Qual era o nome dele?
— Hal. Harold Hughes. Ele dava aulas em uma academia... Aqui está uma foto dele — tirei o celular do bolso e mostrei para a policial. Ela observou rapidamente e começou a digitar no computador.
— Tudo bem, não entre em pânico. Nós vamos procurá-lo em hospitais e em outros órgãos de saúde. Se isso não resolver seu problema iremos abrir um processo de investigação criminal. Espero que o encontremos em breve. Você está bem?
— Sim, estou... — Margareth segurou minha mão.
— Tudo bem. Eu vou avisar o delegado sobre o caso. Não se mexa.
A policial saiu e eu me sentei em um dos bancos na sala de espera. Batia os pés impaciente... Onde Hal havia se metido?!
***
As horas se passavam. Margareth e Jonas permaneceram durante algumas horas comigo, mas precisavam resolver questões de suas vidas, eu não podia culpá-los, foram bons amigos enquanto puderam. E eu? Nesse momento só tinha Hal e agora ele também havia ido embora.
As investigações começaram no final daquela noite. Eu havia passado o dia na delegacia. Quando olhava para fora lá estava a coruja branca novamente me observando. Eu dava de ombros. Estava cada vez mais impaciente. Ia até o balcão de cinco em cinco minutos tentar buscar alguma informação nova, mas não havia. Começava a ficar irritada quando uma equipe de três policiais entrou pela porta. Me levantei em seguida.
— Ophelia? — disse um deles.
— Sim.
— Venha conosco.
Eles andaram por um corredor e dois deles entraram numa sala, eu os seguia. Me sentei numa cadeira de metal. À minha frente havia uma mesa e acima de mim apenas uma luz baixa.
— Quando foi mesmo a última vez que viu Harold? Nos conte desde o início. – o policial perguntou.
— Bem... Como eu disse, ele foi até o meu apartamento. Jantamos e dormimos lá. Eu acordei por volta de duas ou três da manhã e não o vi. Saí para procurá-lo hoje e não o encontrei em lugar algum.
— Você o chamou até o seu apartamento? — disse o outro policial.
— Sim... Eu o convidei para o encontro. Nos encontramos na academia e de lá fomos para minha casa.
— Por que escolheu encontrá-lo na academia?
— Por que eu... — como dizer “sou rica” sem parecer uma idiota? — bem, eu moro na One Tower Bridge... Ele não sabia e eu não queria assustá-lo.
— Ah! Você é a jovem que herdou a grana da avó?! A dos jornais?!
— Sim... Podemos falar sobre Hal? – disse incomodada.
— Tudo bem. Então, Ophelia, vocês estavam juntos há quanto tempo?
— Acho que pouco mais de um mês...
— Você não tem nada mais sobre esse Hal que possa nos fazer encontrá-lo? Alguma coisa relevante?
— Não... Só as pessoas que conhecíamos em comum, Jonas e Margareth.
— O que tem eles?
— Eles pareciam ser próximos ao Hal... Mas não sei, só nos vimos uma vez. Hoje eu os encontrei para perguntar sobre ele, também não sabiam muita coisa. Estavam comigo até vocês chegarem.
— Entendi. Vamos investigá-los. Sugerimos que vá para casa e tente se acalmar. Assim que tivermos notícias dele nós entraremos em contato com você.
— Tudo bem... — ainda não acreditava que não o tinham encontrado.
Saí pela porta da delegacia e me deparei com a rua gelada. E foi tão de repente, mas agora eu sentia aquilo me derrubando. Por um momento, pela minha mente, passou um flash de pensamento que dizia “e se eu jamais encontrar Hal?”, eu precisaria seguir em frente e admitir que ele se foi, mas não era isso que eu queria. Eu precisava lutar por ele, não podia deixar a desesperança me parar, mas era tão difícil pensar que Hal não sumiria da minha vida como todos os outros sumiram.
As lágrimas voltaram aos meus olhos. As sequei antes que escorressem pelo meu rosto e me segurava para não continuar chorando. Quando levantei os olhos lá estava a coruja. Ela havia me esperado do outro lado da calçada durante todo aquele tempo. Por um momento me perguntei por que vê-la ali me incomodou, mas depois a sua imagem se tornou bastante reconfortante.
***
Pedi o táxi e subi para o meu apartamento.
Eu havia demorado a me acostumar com a ideia de eu e Hal termos alguma coisa entre nós, mas assim que aceitei a ideia, tudo pareceu claro como a água e agora entrar no apartamento onde eu fantasiei que estaríamos juntos para sempre e não vê-lo era um desafio. Estávamos juntos há pouco mais de um mês, mas para mim pareceu uma eternidade, ele foi a primeira pessoa em anos a realmente se importar comigo, nossa história não podia acabar assim.
A coruja pousou em minha janela. Assim que a vi quis atacá-la, não aguentava mais aquele animal me perseguindo por onde quer que fosse, mas seu olhar era tão penetrante que me fez recuar. Estava irritada com o sumiço de Hal, aquilo me fazia querer descontar minha raiva no que estivesse na minha frente: foi um copo arremessado e quebrado na parede.
Eu não aguentaria a ideia de perder alguém novamente. Eu realmente não estou pronta e naquele momento, minha maior vontade era de ter Hal em meus braços. Será que realmente não o veria de novo?
***
Passaram-se dez dias.
Todos os dias a minha rotina havia se tornado acordar e procurar por Hal. Ofereci uma recompensa por ele. Corri atrás de pessoas que poderiam estar de alguma maneira ligadas a ele e nada. Fui praticamente a todos os lugares que ele havia frequentado em todo tempo em Londres, mas não foi suficiente. Por mais que eu o conhecesse, parecia que Londres inteira não fazia ideia de quem ele era, mas eu era incansável.
A coruja continuava me seguindo. Onde eu olhava lá estava ela, aguçando a minha paranoia, pois cheguei a pensar que a perseguição do animal poderia estar relacionada ao desaparecimento dele. Sempre que ela me olhava eu sentia algo dentro de mim queimar, era como se ela pudesse ver a minha alma e seu olhar dizia tudo que eu estava sentindo. Uma estranha ligação que eu ignorava após alguns segundos procurando por ele.
Em um de meus dias procurando por Hal, encontrei com Margareth e fomos tomar um café. A cafeteria era bem escura e reconfortante. O cheiro do café se espalhava pelo ar nos deixando embriagados. Margareth me perguntou se já o havia encontrado, ao que respondi que não.
— Não acha que é hora de deixa-lo ir?
— Como assim?! – me indignei.
— Ophelia, ele sumiu há uma semana, talvez ele apenas tenha ido embora... Isso é falta de consideração com você e você não merece isso.
— Já parou pra pensar que ele pode estar em perigo? – disse ainda revoltada com o que estava ouvindo.
— Não é por nada Ophelia, mas ele não me parece ser o tipo de pessoa que se mete em problemas do nada e vamos recapitular a sua história: vocês dormiram numa noite, ele some no meio da noite, ainda que não tivesse motivos, e não dá notícias? Parece que ele só estava se aproveitando de você... E se ele só queria mais uma transa para a lista? – disse Margareth séria.
Me recusava a acreditar que era apenas isso. Margareth tomou um gole de café e me olhava, quase que esperando uma reação e eu não aparentava nenhuma. Esse não era o Hal que eu conhecia... Conhecia? O que eu estava fazendo?! Então, de relance, passou em minha mente que eu poderia estar enganada. Havia depositado tanta esperança em Hal que acabei confiando cegamente nele. Estava tão acostumada ao abandono que apenas a ideia de alguém se aproximando novamente me travou.
Me levantei. Margareth me perguntou onde eu estava indo, mas naquele momento não consegui responde-la. Só pensava em voltar para casa, não podia ter sido enganada novamente, não podia! Ao sair da cafeteria a coruja continuava a me observar. Andei na rua tentando encontrar um táxi que pudesse me levar para casa e a coruja alçou vôo logo atrás. Não aguentava mais aquele animal me perseguindo, então apertei o passo. Ela continuava bem acima de mim.
Comecei a correr. Já não sabia mais para onde estava indo, estava apenas correndo e fugindo da ave. Ela parecia despreocupada e voava ainda me alcançando. Entrei em um beco que parecia seguro e lá recostei em uma das paredes do prédio que o compunha. Acreditava que a havia despistado, mas mais uma vez lá estava ela, ao fundo do beco pousada sobre um latão de lixo.
— O que você quer?! – gritei em direção a coruja – Hein?! O que você quer?! Nada! Você não quer nada! Você é um animal! Um animal estúpido que me persegue! Eu quero que você pare! – ela continuava me olhando – Pare com isso! Pare de me olhar!
Peguei uma lata de refrigerantes amassada que estava no chão e arremessei na direção dela. O lance foi muito fraco e sequer chegou perto dela, mas me fez perceber o quanto eu estava infeliz a ponto de tentar feri-la. Caí no chão de fraqueza e agora estava chorando. Eu só queria Hal em meus braços. A chuva londrina começava a cair. Logo agora. Eu podia sentir as minhas lágrimas se misturando à chuva. Eu não estava pronta para deixa-lo ir, mas precisava e quanto mais eu adiava isso mais parecia que eu estava tentando roubar tempo pelo buraco de uma agulha. Não havia tempo, ou eu o esqueceria de vez ou me prenderia a ele... Prometi não me prender a ninguém. Não podia lutar contra mim e não podia me torturar assim.
A coruja, apesar da chuva se aproximou e eu pude tocá-la. Eu a sentia dizer que era o certo a fazer, ainda que eu não quisesse. Dizia para mim mesma que era só uma ideia que eu tinha de Hal, apenas uma ideia... Precisava deixa-lo ir. Precisava deixa-lo ir. Precisava... Ao abrir os olhos parecia que tudo havia mudado. Era o mesmo lugar, mas algo estava diferente. As gotas de chuva, eu podia senti-las caindo e batendo no chão. Podia sentir cada uma. Ao olhar para a coruja, seus olhos pareciam ainda maiores e mais hipnóticos. Algo estava errado. Meus dedos formigavam. Foi então que percebi que estava seca, ainda que chovesse a minha volta.
“Que sensação estranha”, lembro de falar para mim mesma. Ao me levantar, me apoiei na parede e percebi que os tijolos do prédio onde eu havia tocado agora estavam negros. Me assustei e dei um passo para trás, no que os tijolos saltaram para fora do prédio e agora levitavam em minha direção. Olhei para a coruja e de uma forma estranha ela parecia sorrir. Os tijolos caíram no chão e voltaram ao vermelho típico. Notei que o pingente no colar que Hawlleen tinha me “dado” estava brilhando. Talvez ele estivesse fazendo isso. “Isso não pode ser real! Não pode ser real!”. Me recostei na parede oposta, o prédio à frente fazia uma leve sombra sobre ela e assim que a toquei foi como se ela não estivesse ali. De repente não havia parede, não havia nada. A visão do beco chuvoso foi se tornando distante e tudo ficou negro, eu tentei gritar, mas antes que isso houvesse acontecido agora eu estava dentro de um pequeno quarto de hotel ainda sem saber o que havia acontecido. aHhhh
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