1000 Forms of Fear
3 Big Girls Cry
Notas iniciais

O dia seguinte não foi um dos mais fáceis.
Acordei sozinha em meio aos cacos de vidro e ainda desnorteada. Eram uma da tarde. Precisava limpar aquela bagunça. Dois meses atrás minha última empregada havia se demitido, ainda não sei exatamente o porquê, mas preferi não contratar mais ninguém. Agora minha casa estava sempre bagunçada, mas em contrapartida havia o sossego.
O sossego ou solidão. Não é fácil distinguir os dois. A princípio acreditei ser sossego. Lia meus livros durante as tardes em que estava acordada ou quando enjoava das boates. Relaxava ao som de músicas tranquilas e sons da natureza. Nunca perdi muito tempo com internet, nunca fui apaixonada por aparelhos eletrônicos no geral. Gostava de sentar na varanda do apartamento e olhar o horizonte, mas com o tempo percebi que não estava em paz... Estava só.
Era impossível não refletir sobre minha vida. Todas as vezes em que fiquei sozinha foram vezes em que eu realmente não tive escolha. Eu nunca afastei as pessoas, sempre fui afastada por elas e na maioria das vezes sem motivo. Desde minha mãe que morreu, meu pai que me abandonou até os meus empregados. Nos últimos meses quatro de meus guarda costas se demitiram, dois arranjaram empregos melhores, outros dois não quiseram admitir o que havia.
É difícil não levar para o lado pessoal situações como essa. Por algum tempo acreditei que o problema era eu. Quando vivi com minha tia, devia ter cerca de seis anos de idade, me perguntava todos os dias o porquê de meu pai ter desistido de mim. Tia Marie não parecia se importar, me ocupava com as tarefas de casa e a escola e nunca tinha tempo para mim, estava no auge de sua carreira e não vivia em casa. Era uma solteirona e nunca teve interesse em se casar ou ter filhos, mas ainda que ela não quisesse ter filhos, eu queria ter uma mãe.
Eu me deitava na cama e torcia para que acordasse daquele pesadelo e quando acordasse minha mãe estaria ao meu lado me dizendo “minha garotinha forte”. Eu a abraçaria e voltaríamos a ser uma família, mas não foi assim. Todos os dias eu acordava no mesmo quarto e com minha tia já fora de casa. Ia para a escola e voltava para o trabalho caseiro.
Na escola eu não tive muitas amizades, pois a maioria das crianças tinha uma família completa e até as famílias com pais separados eram mais bem estruturadas que a minha e eu não me sentia bem ou confiante para ser amiga de qualquer um ali. Quando completei treze anos eu já havia assumido que aquela era minha vida e admitia que não tinha família, pois Tia Marie nunca se importou e em todos esses anos meu pai nunca retornou sequer para me visitar. A garotinha forte não tinha mais tempo para perder com ilusões de que teria uma família.
Dos treze aos dezesseis eu vivi um período de apagão. Apenas existi, nesse período Mindy Gail se aproximou de mim e como foi a única em anos se tornou minha melhor amiga. Ia para a escola e voltava, quando finalmente acordei do transe decidi mudar aquilo, foi quando fugi de casa e arranjei um bico como garçonete num pequeno restaurante a uns quarenta minutos da casa de Tia Marie. Aluguei um apartamento há algumas quadras do restaurante com o dinheiro que roubei, sim e por incrível que pareça achei justo e ainda acho, de tia Marie. Ela havia me tratado como uma escrava durante todos esses anos, em minha cabeça roubá-la era pegar algo que era meu. Nos primeiros dias morando sozinha eu me escondia num beco em frente à casa de tia Marie, queria ver se a vida dela continuaria a mesma ou se ela sairia à minha procura e a resposta não poderia ser mais clara: ela simplesmente não se importou e sua expressão revelava sempre estar mais alegre, havia se libertado de um peso.
Não haveria volta. Havia escolhido um caminho de mão única. Foi então que chamei Mindy para dividir o apartamento e as contas comigo. Ela aceitou, pois também estava à procura de independência. Ela começou a trabalhar numa loja de antiguidades dos pais e eu saía para o trabalho no restaurante. Minha vida finalmente parecia estar se acertando. Aos sábados saíamos para festas em boates e sempre acordávamos em casa com alguns amigos espalhados pela sala. Foi divertido enquanto durou.
Quando completei vinte e um anos, Mindy começou a se tornar apática e até hoje eu não entendo a mudança. Nós sempre fomos melhores amigas desde o tempo da escola e aquela altura eu confiara a ela minha vida, mas em seu interior ela se afastou de mim. Mindy acordava e saía de casa sem me cumprimentar, quando voltava não falava palavra alguma. Assim que notei esse comportamento, perguntei o que estava acontecendo e ela disse que não era nada, que era algo da minha cabeça, mas eu sabia que não era.
As semanas foram passando e aquilo me corroia. Deixamos de sair com os grupos de amigos, que por sinal também nos abandonaram de repente. Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Mindy era agora uma estranha para mim e eu sentia falta da minha melhor amiga, mas com o tempo deixei de tentar me aproximar, não importava o quanto me esforçasse, Mindy não fazia o esforço contrário para se reaproximar de mim e agora ela havia se tornado uma réplica de Tia Marie.
Com vinte e dois, Mindy voltou a morar com seus pais e a história até acordar em cima dos cacos de vidro todos conhecem. A garotinha forte agora não tem tempo para a família inexistente, para amigos, para o amor, para o ódio ou para sentir coisa alguma. Tudo isso me fez fechar, todo esforço que fiz para conseguir que pessoas entrassem em minha vida era sempre em vão, então preferi continuar vivendo. Eu já havia tentado me matar uma vez, mas apenas uma, fiquei aterrorizada demais com os resultados, não quero contar como foi, apenas decidi que não era assim que queria partir.
Me levantei para arrumar a cozinha. Juntei os cacos maiores nas mãos e os deixei sobre a pia. Ainda calçava os saltos. Fui até a dispensa e voltei com um aspirador de mão para os cacos mais finos. De garota baladeira para gata borralheira eu pensava. Deixei o aspirador também sobre a pia, não tinha tempo para isso agora.
Fui até o quarto. Tirei os saltos e vesti um casaco, pois era uma manhã fria. Eu não tive mais vontade de sair do quarto então. Me sentei na beirada da cama e ali fiquei por algum tempo, pensando sem pensar. Minha mente estava em branco e eu me esforçava pra que permanecesse assim, mas já havia aguentado durante a noite, sabia que os pensamentos estavam prestes a chegar.
E eles chegaram.
A essa altura eu disfarçava muito bem. Respirei fundo e voltei para a sala. Liguei a TV e então pedi uma pizza. Precisava fingir que estava ocupada. Dei algumas voltas pela sala enquanto olhava o celular, mas não havia nada interessante, então preferi apenas esperar pela pizza passando os canais de TV incessantemente. Esse teatro, porém, não funcionou. O mal estar da noite anterior era tão grande que começava a me consumir e sentada no sofá a crise na minha mente começou.
Eu podia chorar estragando o restante de maquiagem que havia ali, eu realmente não ligo se não estiver bonita, chorar fazia parte do processo. Chorar parecia lavar embora todo o passado que eu carregava comigo e todo o peso que entortava meus ombros. O peso de ser a administradora perfeita, de não ter amigos ou família, da solidão e das escolhas que eu havia feito e também as escolhas que fizeram por mim.
“Que ridículo”, disse para mim após pensar na cena com o entregador de pizza aparecendo e me vendo, mas garotas grandes choram. Nós choramos quando nosso coração está em pedaços e ainda mais quando ele não se quebrou de uma vez, mas sim em um processo lento. Esse coração vinha sendo partido há anos.
A campainha tocou.
Sequei as lágrimas na manga do casaco e o manchei com o rímel. Atendi a porta, peguei a pizza, agradeci e paguei. Não consegui olhar nos olhos do entregador. Voltei à cozinha. Havia champanhe no armário, agora eram duas da tarde e eu estaria bebendo novamente. Uma taça de champanhe e um pedaço de pizza. Um brinde à solidão.
A garotinha forte bebeu uma taça.
Depois outra.
A sua alma doía e cada taça mascarava a dor.
E essa era a diferença do sossego para a solidão. O sossego traz um momento de paz, na solidão nunca há paz, só escuridão.
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