10 coisas que eu odeio em você
28 Capítulo 27 - Um tiro doeria menos
Notas iniciais
As pessoas queriam segurança. Procuravam encontrá-la em um amor, na família, entre amigos ou até na fé divina, seja qual fosse a que professassem. Por isso quando Lucy Heartfilia decidiu ignorar as mensagens veementes de Natsu, o que lhe faltou foi segurança em suas palavras. Ela realmente não sabia o que dizer. E foi por isso que quando Natsu Dragneel proferiu as palavras que deram início a essa catastrófica sequência de ações, o que lhe faltou foi segurança para admitir o que realmente sentia.
Mas quem poderia culpá-lo? Quando se depara com algo tão arrebatador e avassalador quanto o amor, o mais seguro dos seres humanos pensa duas vezes antes de agir. Faz parte de nossa natureza. Então são nessas circunstâncias que o nosso referido casal se encontra. Separados por menos quilômetros do que podiam imaginar se desconsiderassem as coisas pendentes entre eles.
Natsu estava aflito sentado no sofá de sua casa em Acalypha. Lucy não respondera suas mensagens como já citei. Ele iria tomar medidas drásticas, porque situações desesperadas pedem medidas desesperadas ou algo assim. Pensou que deveria ligar para as amigas dela, suas também, alguma devia ter o número da casa de Lucy em Crocus. Discou o número de Levy e esperou.
— Levy? É o Natsu – falou quando ela finalmente atendeu.
— Natsu? – a garota estranhou, mas esperou que ele continuasse.
— Então, eu precisava do número da casa da Lucy em Crocus. Você tem? – Dragneel disse de forma que pensou ser despreocupada. Mas não era.
— Já tentou o celular dela? Para que precisa do telefone? – Levy questionou o óbvio.
— Ela não está atendendo e eu realmente preciso falar com ela.
— Pra sua sorte eu tenho. Te mando por mensagem, mas você precisa me explicar essa história direitinho – Levy afirmou, já que havia percebido pelo tom de Natsu que se tratava de algo importante.
— Obrigado, Levyzinha. Te devo uma.
As esperanças de nosso protagonista foram renovadas. Ele que sempre afirmara que sorte era coisa de otário, foi pego dizendo as palavras “que sorte” em voz alta. Mas se você perceber bem, quando ele finalmente disse uma coisa decente para a loira Heartfilia, essa mesma palavra estava inclusa.
(flash back on)
— Você! – ela não pode evitar dizer, a voz carregada de desgosto.
— Você! – disse ele, com um tom completamente diferente do dela – Não posso nem acreditar na sorte que estou tendo.
(flash back off)
E ele de fato não sabia. Ele não sabia que iria gostar dela mais do que podia imaginar gostar de alguém, não sabia que iria se sentir tão desesperado para ter alguma coisa de volta. E não pense que nosso personagem era ignorante, pelo contrário. Ele era deveras inteligente, só pecava em se tratando de amor. Um pedaço de pão talvez soubesse lidar melhor com esses assuntos do que Natsu Dragneel.
O rosado decidiu ligar para o número fornecido por Levy. Após torturantes segundos, ele pode ouvir a voz de uma mulher no outro lado da linha. No caso, Virgo, mas isso também era uma das coisas que Dragneel desconhecia.
— Residência Heartflia, em que posso ajudá-lo?
— Aqui é Natsu Dragneel, e eu gostaria de falar com a Lucy. Ela está? – ele disse formalmente.
— Natsu? – Virgo falou meio distante, isso na verdade foi ela pensando alto, coisa que fez questão de consertar rapidamente – a princesa não está aqui, me desculpe.
A verdade era que Lucy havia explicado a situação a Virgo fazia poucos minutos, deixara os detalhes de fora, mas prometeu que iria voltar para visitá-la e contar a história inteira. A empregada sempre trabalhou para os Heartfilia e era como uma segunda mãe para Lucy. Conhecia a garota mais do que a si mesma. E foi por isso que quando o jovem Dragneel afirmou que precisava muito entrar em contato com a loira, Virgo cedeu sua localização, pensando que aquele podia ser o “príncipe” que a loirinha sempre quis encontrar.
— A princesa voltou para Magnólia hoje à noite. É só o que posso dizer, espero ter ajudado – concluiu a empregada.
— Ajudou e muito. Obrigado.
Depois de desligar o telefone anunciou para sua família que era um grandessíssimo idiota e que precisava ir atrás de Lucy naquele exato momento. A família toda concordou que ele era, de fato, um grandessíssimo idiota. E com esse “apoio moral”, Natsu partiu ao encontro dela. E se ele pretendia se declarar? As chances variavam entre 90 e 100%.
E se você acredita nesse tipo de coisa, pode dizer que foi o destino, ou os astros que se alinharam, mas o fato é que Natsu e Lucy chegaram praticamente ao mesmo tempo em Magnólia. Se apenas o local de desembarque do trem de cada um deles não fosse em lados opostos da estação, iriam definitivamente se esbarrar. Iriam ter aquele reencontro emocionante em que a mocinha fala “Ah, Carlos Eduardo! Nunca imaginei que você viria ao meu encontro!”, e o mocinho diz “Cristina Maria, eu iria a qualquer lugar por você! Iria até os confins do mundo, apenas para provar o meu amor!”. A estação toda se comoveria ao invés de mandá-los tirar as malas do caminho. Mas isso não foi o que aconteceu aqui. Cada um seguiu seu rumo.
Enquanto Natsu ia a pé, Lucy pegou um táxi até sua casa. Se você está familiarizada com a habilidade que um adolescente possui para fazer más decisões, vai entender perfeitamente porque pareceu uma boa ideia ir ao MacLaren’s Pub quando Lucy não suportou o vazio de sua casa. Aquele espaço a recordava de muitas memórias que construiu juntamente ao rosado. Talvez ela devesse ter ficado em Crocus, no final das contas.
Claro que sendo o MacLaren’s o lugar em que o primeiro beijo do casal ocorreu, voltar lá iria ocasionar lembranças que seriam doloridas para Lucy no momento, mas pelo menos haveria distrações. Mais uma vez os deuses não estavam do lado de Natsu, enquanto ele batia na porta de Lucy, a garota já puxava um banco próximo ao balcão e se sentava enquanto um barman atendia ao seu pedido, o qual era manter um copo em sua mão durante toda a noite. E isso, meus amigos, é o que chamamos de receita para desastre. Não façam em casa.
Ela havia feito uma maquiagem rápida e mantido a mesma roupa, que não era inapropriada para o ambiente, não que estivesse preocupada de verdade com sua aparência. E quando todo o esforço pareceu inútil aos olhos de Natsu, ele teve um estalo. Parecia uma ideia fora de propósito, um tiro no escuro, mas depois de tanto tempo sentado na porta dela decidiu que não custava checar se estava certo. Enquanto isso, no bar...
— Mas o que temos aqui, uma loira bonita bebendo sozinha. Alguém tem noção do tamanho desse crime? – uma voz surpreendeu nossa protagonista, que largou o copo e voou no pescoço do dono daquela frase.
— Graaay! – sim, nossa loira estava precisando de um abraço. Só que ela não se permitiria chorar, por mais que aquele vazio no peito persistisse.
— Quanto você já bebeu? – ele questionou rindo e lhe retribuindo o abraço.
— Quase nada. E por que você está aqui em Magnólia? O feriado só acaba terça.
— Minha mãe brigou com o vovô e nós tivemos que voltar mais cedo. Aqueles dois são como cão e gato, você acredita que eles brigaram porque ele achou que o cabelo da Ur estava curto demais, sendo que minha mãe sempre teve o cabelo daquele tamanho. Ele confundiu a Ultear com ela na última vez que o visitamos sem minha mãe. Caduco – Gray contou animadamente pedindo um copo da mesma coisa que Heartfilia estava bebendo, enquanto a mesma ria da história.
— Eu estava te devendo uma bebida, não é verdade? Se você não ficasse com a Juvia, nós prometemos sentar aqui e afundar as mágoas da forma mais clichê, bebendo – Lucy lembrou-lhe.
— Verdade, mas ela disse que nós ainda podemos ficar juntos. Juvia só precisa de um tempo e eu posso esperar. Só não entendo o que você estava fazendo bebendo sozinha aqui.
— Eu não quero falar sobre isso. Mas em resumo, deu ruim. Deu muito ruim. Eu gostei do Natsu mais do que deveria e agora estou aqui, deploravelmente bebendo, porque ele só me vê como amiga – revelou de forma rápida – não diga nada, por favor. Só me acompanhe e distraia minha mente. E em hipótese alguma me chame de Luce.
— Como desejar, Lucy-sama.
— Pare de ser tão debochado, Fullbuster – Lucy brincou lhe dando um tapa fraco.
Gray, mesmo sabendo que o rosado arrastava um caminhão pela loira, manteve silêncio em relação a isso. Não cabia a ele revelar isso a ela. O que ele não sabia era que em questão de minutos o rosado iria adentrar aquele recinto com essa exata intenção. O moreno apenas seguiu contando suas histórias com Juvia e Lyon. Se não fosse tão triste, aquilo seria um bom material para seu livro, Lucy refletiu.
— Desculpe-me interromper, mas você é a loira da colher, não é? – Lucy ouviu pela terceira vez no dia uma voz a surpreendendo. Virou o rosto e deu de cara com um loiro de olhos azuis e um sorriso simpático. Sem duvida, bonito. E com alguns segundos conseguiu se lembrar de onde o conhecia, mas foi Gray quem anunciou seu nome:
— Sting?
— Vejo que não se esqueceu – comentou de maneira displicente e voltou a olhar Lucy – se lembra de mim?
— Me lembro de você no jogo, mas não sei que história de colher é essa – ela respondeu, porém tinha uma vaga ideia do que poderia se tratar.
— Você estava muito bêbada mesmo. Eu tinha comprado um sorvete naquele mercado 24h e saia de lá quando dou de cara com uma loira meio perdida e bêbada. Você parou, pegou minha colher, encheu de sorvete e comeu. Agradeceu e simplesmente começou a andar, eu estava meio chocado para perceber que você tinha levado a colher junto. Depois desatei a rir – Sting contou puxando um banco e se sentando ao lado da loira.
Nesse momento, foi como se uma noite da vida de Lucy finalmente fizesse sentido completo. O mistério da colher estava resolvido. Ela havia roubado uma colher de um completo estranho, e como ela não era boba nem nada, uma parte do sorvete também fora incluída. Corou por vergonha, o que ele iria achar dela agora? Segunda vez que se veem e novamente ela está bebendo. Pelo menos dessa vez ela não estava roubando nada.
— Me desculpe, não foi minha intenção – falou meio sem jeito.
— Eu vou dar licença para vocês, se precisar de mim estou naquela mesa – Gray apontou para um grupo de pessoas sentado numa mesa do fundo.
— Obrigada, Gray – a loira agradeceu – por antes.
— Que tipo de amigo eu seria se não te acompanhasse em uma fossa? – sussurrou para que apenas ela ouvisse, fato que deixou o loiro ao seu lado um pouco menos contente.
Depois de alguns minutos de conversa Lucy já havia tirado algumas conclusões sobre Sting, que apareceram na seguinte ordem: 1. Ele era muito agradável 2. Ele definitivamente estava flertando com ela 3. O sorriso dele era perturbadoramente parecido com o de Natsu. O terceiro pensamento levou alguns segundos para ser retirado de sua mente. Mesmo assim Lucy se permitiu rir das coisas que o loiro falava para ela e podia-se dizer que estava tendo um tempo mais agradável do que esperou ter.
Quanto a Sting, bom, este estava de fato interessado na loira. Pensou que além de linda, ela era simpática. Mas não se enganem, Sting não é tão bom moço assim. Era da mesma linha que Dragneel, bonito como o diabo, sexy e mulherengo. Um típico bad boy. Lucy definitivamente tinha um tipo. Sting entrou no jogo para ganhar e foi nesse momento que ele decidiu se inclinar em direção ao rosto da loira para lhe pedir um beijo.
— Lucy, posso te dar um beijo? – perguntou em um tom sussurrado e bem difícil de resistir. Mas uma pessoa com o coração desgraçado como o de Heartfilia, certamente pensaria no caso antes. E foi o que ela fez.
— Não sei, Sting... – falou ela timidamente.
E se você ainda não percebeu o que estava por vir, agora as coisas ficarão bem claras. Se existe uma lei que rege o universo e influencia em acontecimentos mundanos, essa lei estava decidida a não facilitar as coisas para o lado do nosso casal principal. No exato momento em que a loira disse essas palavras, Natsu Dragneel adentrou o MacLaren’s Pub e qual não foi sua surpresa ao ver a tão procurada Lucy Heartfilia sentada próxima ao balcão. E ela não estava só. Naquele momento o garoto de cabelos rosados pode sentir algo ferver dentro de si. Aproximou-se do casal de loiros para ter certeza do que estava vendo e Kami-sama sabe como ele desejava que seus olhos estivessem o enganando.
— Luce? – perguntou e quando ela virou surpresa para ele, sentiu algo se partindo dentro de si.
— Natsu? – falou tentando registrar a presença do garoto e as implicações que aquilo trazia. Entretanto Natsu não forneceu muito tempo para que pensasse, já foi se retirando do local antes que fizesse alguma loucura. Em desespero, Lucy saiu de seu lugar e pôs-se a ir atrás do rosado pedindo desculpas a Sting enquanto se levantava. O loiro apenas assistia à cena sem entender bulhufas do que estava acontecendo. Já do lado de fora do bar ela chamou por Natsu. Ele virou-se para ela com um olhar carregado e não esperou que ela falasse.
— Você ia beijar aquele cara se eu não tivesse aparecido, Lucy – e isso não fora uma pergunta. Ele afirmou categoricamente.
— Claro que não! Não é nada disso... – ela fez uma vã tentativa de explicar que nem se quisesse, conseguiria fazê-lo. E de fato, ela não teria beijado Sting naquela noite, mesmo que Dragneel não tivesse interrompido.
— Não precisa explicar, Lucy – ele a interrompeu – se for para ser sua segunda opção, eu prefiro não ser nada seu – concluiu após alguns segundos. E Lucy só pensou que um tiro doeria menos.
— Nat-su... – falou baixinho, mas ele já estava longe.
Continua...
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