10 coisas que eu odeio em você
19 Capítulo 18 - Caixinha de surpresas
Notas iniciais
Aquele não seria um bom dia. Erza começou a apertar meu braço e eu achei que ficaria roxo se ela continuasse com isso por mais alguns segundos, mas graças a Kami, Jellal finalmente deu um tchauzinho à Minerva e veio ao nosso encontro e a ruiva aliviou o aperto.
— Hmm, o que aquela garota da Saber queria? – Natsu provocou, obviamente que ele não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, já que ela agora era uma garota da Fairy Tail, e havia a possibilidade de nossa amiga Erza arrancar meu braço se ela fosse o assunto da roda, coisa que ele parecia ignorar, mas era só uma opinião minha.
— Ah, ela só queria saber onde era a diretoria.
— Bem estranho, não acha? Já que ela esteve aqui na escola não faz nem uma semana e os alunos de outras escolas tem que passar pela secretaria para entregar a autorização, ela deveria se lembrar – Levy apontou numa vã tentativa de abrir os olhos do idiota que não percebia as reais intenções da outra.
— Às vezes ela só queria confirmar – ele rebateu de forma calma. Não tinha a mínima ideia mesmo...
Fomos poupadas da continuação daquela situação desconfortável pelo sinal que bateu. Todos se levantaram e fiquei mais para trás com Juvia a fim de me explicar. A azulada tinha o hábito de ser um pouco ciumenta e desconfiada em relação às meninas que ficavam em volta de Gray, e bom, geralmente ela tinha razão em estar preocupada, mas não era o caso.
— Então Juvia, aquilo que você viu hoje cedo foi apenas uma coisa de amigos. Eu torço por vocês, você sabe.
—Eu sei, Lucy. É só que vocês se aproximaram meio de repente, fiquei curiosa.
— Não precisa se preocupar. Digamos que ele esteja me ajudando com o Natsu – falei como desculpa, já que prometi guardar o segredo de Gray.
— Resolveu admitir, então?
— Admitir o que? – falei rindo e ela me acompanhou – eu só não aceito dizer isso em voz alta.
Chegamos à sala e nos sentamos em nossos respectivos lugares. Pensei em várias coisas inúteis como quão perfeito era o contraste que cabelo de Dragneel fazia com sua pele bronzeada e em como minha respiração parou quando o vi chegando ao pátio, claro que teve o fator vergonha e medo/ansiedade atuando no momento, porém não era apenas isso. Ele estava agindo normalmente comigo e isso era, de certa forma, um pouco frustrante. Como era terça-feira, tivemos o primeiro horário de dança, e nesse dia a aula veio acompanhada de uma revelação bombástica, pelo menos para mim.
— Bom, já faz seis semanas que estamos ensaiando praticamente e eu marquei uma data para a apresentação com o diretor. Como cada turma tem uma coreografia, decidimos fazer o espetáculo num sábado à noite, vai ser aberto a qualquer um que queira ver além dos pais. Daqui a três semanas mais ou menos estaremos no palco e poderemos finalmente terminar o trimestre de dança e começar música – Aquarius-sama anunciou a pior coisa que eu poderia ouvir. Isso mesmo, eu, Lucy Heartfilia estaria em um palco em três semanas e agora a cidade inteira poderia ver. Se isso não era a morte, eu não sabia mais o que era.
— Levy, é hoje que eu morro – falei cutucando a baixinha.
— Lu-chan, você é tão exagerada. Você só precisa fingir que não tem mais ninguém lá e mesmo que você erre ninguém vai rir para sempre disso. Relaxa.
— Não me conformo. Ela fez isso só porque eu disse que meu cachorro comeu meu dedão do pé, não é justo – choraminguei.
— O que eu acho mais legal é que você não reclama mais do seu par – Juvia provocou, óbvio que depois do que eu disse mais cedo ela não perderia a oportunidade.
— Eu reclamo sim.
— Aaan, deixe-me ver, não reclama não – Levy concordou com a outra rindo.
— Vocês... Eu... Nada a ver, ok?
— Ahaaam – elas concordaram extremante irônicas.
Finalmente chegamos ao intervalo. Novamente a mesa se encheu, porém dessa vez Lisanna não se encontrava e eu estava secretamente feliz por isso (embora jamais admitiria tal coisa), de qualquer forma o loiro alto apareceu novamente. Sério, quem era ele? Erza me puxou para a fila do lanche e o que ela fez lá me fez segurar a risada.
— E o que vai querer? – perguntou a tia da cantina.
— Bolo de morango – a ruiva pediu. Quando a tia foi para cortar uma fatia do bolo que ainda estava inteiro, Erza a interrompeu dizendo – eu quero o bolo inteiro.
— O que?
— Isso mesmo que a senhora ouviu. Pode anotar que eu pago amanhã – nesse ponto eu já estava no limite, iria rir alto a qualquer momento se aquilo não acabasse logo. Eu sabia que ela estava com raiva por Jellal ter defendido a Minerva, mas não sabia que era a ponto de comer um bolo inteiro. Leve em conta aqui que bolo de morango era a versão de sorvete para Erza. Jellal era estranho, ao mesmo tempo que era popular com as garotas, tinha essa extrema dificuldade de ver o que estava bem em sua cara, aposto que as garotas acabavam chegando nele por conta de sua beleza e nesse momento ele finalmente percebia o que estava acontecendo e naturalmente aceitava. Pelo menos era o que eu achava que acontecia, não pude observá-lo por tempo suficiente.
Erza colocou o bolo na bandeja como se nada estivesse acontecendo e seguiu para a mesa novamente, eu carregando apenas um sanduíche acompanhado de suco na minha, andando logo atrás dela. Juvia e Levy iriam levar o lanche dos meninos naquele dia e Mira até se dispôs a ajudar.
— Você vai comer isso tudo sozinha? – questionaram Jellal e Gajeel ao mesmo tempo.
— Sim, algum problema? – respondeu calmamente, calma até demais.
— Nenhum – apressaram-se em dizer. Erza os encarou por instantes e voltou a dar uma garfada no doce em sua frente. E as coisas poderiam ter permanecido normais depois disso, mas preste atenção ao que eu disse: esse não seria um bom dia. Eis que brota do inferno Minerva, que abre a boca para proferir a seguinte frase:
— Erzinha, tem certeza que vai comer tudo isso? Vai ficar gorda, querida.
A mesa que conversava animadamente se calou. Erza respirou fundo, depositou o garfo na bandeja e se virou para encarar a outra que sorria debochadamente. Ainda bem que ela não tinha ficado em nossa sala, porque tenho certeza que nesse caso as tretas começariam muito antes.
— Não se preocupe, eu não tenho esse problema, querida – respondeu dando ênfase na última palavra – posso comer o quanto quiser.
— Não é o que me parece, mas tudo bem – fez uma pequena pausa e completou – só passei aqui para falar com Jellal que foi realmente uma pena não ficarmos na mesma sala. Não é mesmo, Jellal?
— Ah isso... Hai – ele falou baixo, de forma talvez um pouco forçada. A morena simplesmente saiu andando depois de balançar os dedos indicando adeus a todos da mesa que a encaravam naquele momento.
— Uau, o que foi isso que acabou de acontecer? – Gajeel questionou e levou um leve soco de Levy. Ele estava sendo completamente inconveniente.
— Gajeel... – ela censurou.
— Juvia acha que aquela Minerva está se achando muito para quem acabou de chegar.
— Deixa ela, Juvia. Não sabe com quem está se metendo – Erza disse simplesmente, dando em seguida outra garfada no bolo.
— Eu daria tudo para assistir uma briga dessas duas – Natsu cochichou para Gray. Ele não disse para que todos ouvissem para não provocar Erza ainda mais. Depois disso continuamos a conversa de onde paramos para evitar maior constrangimento para a ruiva ou Jellal. Já que uns tinham mais ideia que outros dos motivos para tal rivalidade.
— Laxus, estamos te esperando ali na mesa faz tempo. Você vem? – uma voz interrompeu a conversa. Pertencia a uma loira de estatura média e cabelos ondulados, usava óculos, bonita, mas que claramente era uma deusa para Elfman que só faltava babar na mesa assim que a viu. Ela chamava o loiro alto. Então Laxus era o nome dele.
— Ever – ele atendeu surpreso – eu já estava indo – ele completou se levantando. Foi então que a garota encarou Mira que estava do lado oposto a Laxus, que estava ao meu lado na mesa e disse para o mesmo quando já estavam se afastando, entretanto pude ouvir:
— Ela nem é tão bonita quanto você disse – bom, acho que todos puderam ouvir, já que ela não fez muita questão de falar baixo.
Então Laxus estava interessado na Mira! Como eu não percebi isso antes? Ele veio para nossa mesa justo quando ela veio para cá. A garota corou imediatamente, restava saber se era por causa do interesse de Laxus nela ou se era pela ofensa da tal Ever. De fato, aquele não estava sendo um dia bom para ninguém, talvez só para Elfman, no máximo.
— Tem um nome para isso, acho que é recalque – disse baixinho para Mira em seguida.
— O que está acontecendo com as meninas dessa escola hoje? – foi a vez de Levy dizer – não está nada fácil.
— Eu que o diga – concordou a ruiva, que já havia comido metade do bolo – eu que o diga.
— Agora que eu percebi, mas cadê a Lisanna, Mira? – Levy perguntou.
— Ela decidiu almoçar com as colegas da sala dela, sabe. Para fazer amigos que continuem com ela aqui ano que vem, já que todos nós formaremos esse ano.
— Faz sentido.
E assim passou o restante do intervalo, com conversas que não fossem sobre os acontecimentos anteriores, Jellal permaneceu calado e Erza também, mas creio que tenha sido por conta do bolo. Tentei conversar mais com a Mira, afinal não tivemos muita chance de começar uma amizade desde que ela chegou e tudo ia bem até que certo rosado que insistiu em sentar ao meu lado passou o braço pelo meu ombro me puxando levemente enquanto eu estava no meio de uma frase que explicava como vim parar em Magnólia, a qual tive que interromper.
— Vocês são namorados ou algo do tipo? – a albina questionou.
— Ah, não. Ele é assim mesmo – falei contendo o rubor que me subia às bochechas e dando leves batidinhas na cabeça de Natsu – esquisito, tadinho.
— Você que é esquisita, Luce – retrucou virado para mim, eu também virei para encará-lo e nossos olhares se encontraram por segundos. Acabei desviando devido à proximidade, corando suavemente.
— Como eu estava dizendo, vim por conta desse desejo da minha mãe.
E então o sinal indicou que deveríamos ir para as piscinas, já que era dia de natação. Ótimo, vamos ter que vestir aquele uniforme “maravilhoso” de novo. E novamente seria aula conjunta. Vestimos aqueles maiôs e esperamos as ordens dos técnicos Scorpio e Taurus. Hoje seria vôlei misto, deveríamos nos dividir em quatro equipes, duas em cada piscina. Já no meio do jogo, no qual não colocávamos muita vontade para ser sincera, usávamos mais o tempo para conversar e manter a bola no ar através de jogadas com intenção de acertar a mão do adversário e não a água, decidi iniciar um assunto.
— Juvia – chamei a garota. Estava curiosa para saber como havia sido seu encontro com Lyon.
— Sim?
— Como foi seu encontro com Lyon?
— Eu não contei, não é. Foi ótimo, fomos ao cinema ver Vizinhos 2, porém eu queria ver X-Men: Apocalipse. Mas como eu realmente queria ver o filme achei melhor ir sozinha depois qualquer dia.
— Hmm, então vocês não assistiram muito ao filme – exclamou Levy do outro lado da rede que ouvia a conversa. Eu só pensava que era bom que Gray não estivesse ouvindo a conversa, embora fosse um risco já que ele estava no time de Levy.
— Bom, um pouco — admitiu corada e continuou — depois fomos comer alguma coisa na praça de alimentação e a conversa fluiu bem. Descobri que ele também queria assistir X-Men, mas presumiu que eu não gostasse e acabou optando por me chamar para assistir ao outro.
— Vão sair de novo? – perguntei, era essencial saber sobre isso para o plano que já tomava forma em minha mente.
— Sim, nessa sexta.
— E quando pretende assistir X-Men? Me chame se não for ver com ele, porque também quero.
— Eu não ia ver com ele – ela disse rindo, de certa forma parecia mais feliz esses dias, o que me fazia pensar se ajudar Gray era realmente certo, considerando que ele foi quem a colocou na posição de estar triste em primeiro lugar – vou quinta, na sessão das nove. Vamos? – estendeu o convite a Levy, Erza e Mira, que recusaram com a graça de Kami. Não seria nada bom para meus planos caso elas aceitassem.
— Vamos – respondi rebatendo uma bola.
14:30h — Sala de espera do Consultório Afrodite
Estava esperando que a médica de Erza me atendesse e por isso não pude ir ao ensaio naquele dia. Como sempre minha cabeça estava cheia, tinha que resolver várias coisas naquele dia, além de chamar meu pai para o espetáculo e provavelmente ouvir que não ando ligando o suficiente para ele. Tive minha linha de pensamentos interrompida pelo meu celular vibrando. Era do meu grupo com as meninas no Whatsapp.
Juvia: Meninas, preciso de ajuda.
Lucy: Diga.
Juvia: Você não deveria estar no ensaio?
Lucy: Tenho médico no mesmo horário hoje :/
Lucy: Mas do que você precisa?
Juvia: De uma segunda opinião.
Juvia: Eu estou muito confusa em relação ao Lyon. Ao mesmo tempo que gostei de sair com ele, fiquei em dúvida se devia dar esperanças quando ainda gosto do Gray-san.
Lucy: Eu não sei, acho que se as coisas evoluírem entre vocês, você vai ter que ser sincera com ele.
Juvia: Talvez ele me faça esquecer o Gray-san e aí não vou precisar dizer nada.
Lucy: Talvez.
17:00h – Frente da minha casa
A Dra. Daphne era boa, mas precisava demorar mais de uma hora para me atender? Sem contar que o consultório é do outro lado da cidade e eu esqueci o dinheiro do táxi de volta, tive que vir andando. E ainda tive que passar na farmácia e no mercado. Por quê? Porque esse não era um dia nada bom. Honestamente, às vezes eu questiono o motivo da minha falta de sorte. Tenho que mandar mensagem para Erza mais tarde. E arranjar um jeito de contar para as meninas sobre ontem.
— Luce!
— Natsu? O que você está fazendo aqui? – estava tão perdida que nem o percebi sentado na porta da minha casa.
— Por que você não foi ensaiar hoje? – ele questionou desviando da minha pergunta.
— Porque eu tinha médico.
— Médico? Você está bem? – preocupou-se e eu não pude evitar rir.
— Está tudo na mais perfeita ordem. Para estar melhor só me livrando dessas sacolas pesadas.
— Eu levo para você.
— Agora que eu já cheguei em casa, não precisa mais – falei balançando a cabeça em sinal de indignação, entretanto ele tomou as sacolas de minhas mãos mesmo assim.
Lá dentro eu indiquei a cozinha para que ele pudesse levar as sacolas para aquele cômodo. Surpreendentemente ao invés de ele se despedir ou algo assim ele decidiu se sentar, o encarei demonstrando estranheza à aquele ato.
— Você quer comer alguma coisa?
— Eu poderia comer alguma coisa sim – e soou levemente malicioso.
— Baka – respondi corando – vou lavar uns morangos, se você quiser pode comer.
— Aceito. Luce, como você está agora que sabe que vamos dançar para a cidade toda?
— Nem me fale disso, Natsu. Sinto que assinei minha sentença de morte – respondi já de costas para ele lavando a fruta, ele estava realmente preocupado? O rosado apenas riu do meu drama todo.
— A gente vai se sair bem, prometo.
— Você promete coisas demais – o provoquei voltando com os morangos lavados em um pratinho e me sentei numa cadeira ao seu lado, mantendo certa proximidade entre nós.
— E quando eu não cumpri o prometido?
Fiquei sem resposta. Apenas olhei para o garoto que pegava um morango do prato e comia. As cores faziam um contraste bonito naquela imagem, seus olhos se realçavam. Eu poderia olhar aquilo o dia inteiro. Para disfarçar resolvi pegar um para mim também. O comi de forma distraída e ia levar um segundo até a boca, porém parei quando percebi que ele me encarava e parecia pensar sobre algo.
— Natsu...
— Ah, que se foda... – ele disse e tomou meus lábios nos seus.
Ele não cansava de me surpreender.
Continua...
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