1º Desafio Sherlolly2016
1 O Dedutivo e a Gralha
Notas iniciais
A única coisa que eu me perguntava era quem, QUEM tinha inventado o Carnaval. Parado na minha própria sala eu me via vestido de pirata. Sim, isso mesmo, de pirata. E ainda segurava na mão o tapa olho que, por enquanto, me recusava a colocar.
— Escuta, Ellie, — andava até a garota de longos cabelos dourados, com um sorriso travesso no rosto e sentava-me na poltrona à sua frente — e se eu fosse fantasiado de detetive? De Sherlock Holmes, o que acha?
Ellie começava a gargalhar, claramente se divertindo com meu sofrimento, e eu não conseguia deixar de sorrir.
— Não, você prometeu. — Agora existem até lágrimas nos olhos dela de tanto que ri e mais um pouco também terei lágrimas nos meus olhos, mas de desespero.
— Mas isso faz meses. MESES!
Percebo que nada vai adiantar os meus apelos, Ellie claramente puxou a mãe e, assim como Mary, não será vencida com facilidade. Nem parece que 8 anos se passaram e é claro que eu nunca negaria um pedido dela. Desde que nascera, Ellie trouxe sentimentos novos para mim. Nunca imaginei que fosse possível amar tanto alguém que só chorava e mal cabia em meus braços.
Meses antes, em seu aniversário, ela me pedira que fosse fantasiado com ela para o baile de Carnaval do St. Barts. Eu aceitei tendo a doce ilusão que ela esqueceria ou desistiria da ideia, o que não aconteceu.
E é por isso que agora estou aqui, com essa fantasia ridícula de pirata no meio da minha sala. Vale lembrar que a fantasia em questão foi escolhida por John, que parecia estranhamente feliz em fazer isso. Talvez eu deva envenenar seu chá da próxima vez que vier me visitar.
Ellie nem dá atenção para o meu pânico e ainda sorrindo vem até mim com sua fantasia de... de... Vampiro zumbi? Olha, não fui eu que escolhi. Aliás, nem mesmo a minha eu escolhi. Enfim, ela vem até mim e tira o tapa olho da minha mão e o coloca desajeitadamente na minha cabeça, encaixando meu maravilhoso chapéu logo em seguida.
— Mas o que...
Era só isso que me faltava mesmo. Viro-me lentamente, querendo estar errado e enxergando apenas com um olho só.
— Tio Mike!
Sim, Mycroft acabou de adentrar meu apartamento. Infelizmente o olho que me restou está vendo corretamente. Até a aparente frieza dele Ellie conseguiu quebrar nesses anos, mas mesmo enquanto a cumprimenta, ele não tinha os olhos de mim e quero arrancar o sorrisinho cínico de seu rosto.
— Ora, Sherlock, não me diga que John vai fantasiado de papagaio.
Acho que eu poderia soltar raios através dos meus olhos nesse momento.
— Não, mas nós podemos testar a espada e eu posso enfiá-la...
— Sherlock!
Estreito meus olhos para Mycroft e minha vontade é cortá-lo em pedacinhos, não importando por onde iria começar.
— Vamos, Ellie, estamos atrasados. — Falo entre os dentes e acho que prefiro encarar o baile de Carnaval com ela do que ficar aqui vendo Mycroft rir.
— Mas... Tio Sherl... — Já estou passando pela porta, ajeitando meu chapéu e paro prevendo que não ouvirei palavras agradáveis. — Eu também convidei o tio Mike...
Fecho os olhos enquanto suspiro longamente, calculando a possibilidade de usar a espada em mim mesmo e cometer um harakiri.
— E eu posso saber do que você, Mycroft, está fantasiado? — Isso só pode ser um complô contra mim, por todos os anos que agi feito um imbecil.
— De executivo, é claro. Agora vamos?
Sinto-me um idiota e quero matar John. Porque ninguém, nenhuma dessas pessoas que dizem ser minhas amigas, me disse que existia a possibilidade dessa fantasia? É nesse momento que mais sofro pela espada ser de plástico.
—--
Acho que nunca me senti tão desconfortável quanto nessa festa. Pessoas vestidas com as mais diversas roupas ridículas, inclusive eu. A diferença é que elas pareciam se divertir com isso. Chocante.
— Tio Sherl! Tio Sherl! — Ellie vinha correndo à frente de um John Aladdin e uma Mary Jasmine. Meu Deus, sempre podia piorar. — Você precisa ver isso!
Não, eu sei que não preciso. A partir do momento que as pessoas falam que eu preciso fazer ou ver algo, eu sei que é melhor a morte do que seguir o conselho. O problema é que não tenho tempo de me afogar em meu copo de água antes de que algo verde chame minha atenção.
Mal consigo registrar o que estou vendo e meu cérebro traz memórias que estavam esquecidas.
Alguns meses antes. Laboratório do St. Barts. Eu no microscópio, alheio aos outros funcionários. Molly e algum residente novo estão discutindo sobre um corpo, entre risos e piadas. É, não faz sentido. Aposto que morreu envenenado, diz Molly. E eu aposto que foi natural, diz o menino com o rosto cheio de espinhas. Quem acertar escolhe a fantasia do outro, diz Molly. Fechado, responde o rapaz. Molly perde.
Molly está fantasia de... PAPAGAIO!
Tudo faz sentido agora. A escolha de John. Quero enforcá-lo. Quero que ele caminhe sobre a prancha e os tubarões o coma. Mycroft não para de rir, penso em fazer uma chacina no meu navio. Opa, entrei no personagem.
Molly está com uma terrível fantasia de papagaio que incluía uma roupa toda verde, e seu rosto está vermelho como um tomate, piorando ao me ver. Ela ri e eu não consigo evitar um sorriso de canto, estamos formando uma dupla sensacional.
— Vamos inscrever vocês para o concurso de melhor fantasia de casal!
Meus olhos voam para Ellie e já não sei mais se a amo. Será que piratas tinham algum critério quanto a crianças? Ela corre antes que consiga pega-la. Molly parece estar num misto de vergonha extrema e diversão. Passo por John e falo de modo que só ele escute:
— Eu sei que isso foi coisa sua. — O máximo que consigo com isso é arrancar mais risadas.
Claro que chego depois que Ellie já entregou nossos nomes para uma Sra. Hudson extremamente alegre. Encaro Ellie e passo o dedo pelo pescoço, sinalizando que ela está em maus lençóis. Pareço tão perigoso que isso só faz ela rir ainda mais, ao que parece é a única coisa que todos fazem hoje. Rir.
Desisto de alcança-la e volto para mesa. John e Mary sumiram, para sorte deles. Graças a Deus, Mycroft também se foi.
— Então...
— Então...
— Não, não, não, Molly! Não comece! Não comece a me imitar! — Isso não pode estar acontecendo.
— Foi sem querer, Sherlock. Você acha mesmo que com tantos ombros, seria no seu que eu iria pousar?
Percebo que ela finge indignação, mas está se divertindo com isso. Para mim é um mistério como ela consegue tirar algum proveito disso tudo. Não sei porquê, mas de alguma forma me sinto ofendido.
— Não ia, não? Pois saiba que não há pirata melhor que o grande Sherlock, o Dedutivo.
Ela pronuncia o nome apenas mexendo os lábios antes de gargalhar. Sorrio também, acho que estou mais confortável agora que tem alguém para compartilhar comigo esse vexame. E convenhamos que minha fantasia é até estilosa.
— Então eu posso ser Molly, a Gralha. — Mais risadas. Agora ela está tão vermelha e mal consegue respirar. Acho que nunca a vi rir assim, e gosto disso. De braços cruzados e sentado displicentemente na cadeira, observo como seus olhos se fecham quando ela ri e como até assim ela ainda parece um pouco tímida, como se não gostasse de se revelar na frente de todos.
Aos poucos ela vai voltando ao normal, enxugando as lágrimas que se formaram conforme ela ria e tentando respirar normal novamente. Sorri sem jeito para mim e eu continuo observando-a, pensando como seria se não fossemos Sherlock Holmes, o detetive e Molly Hooper, a legista.
Ouço ao fundo uma voz anunciar que daria início ao concurso de fantasia e nem pela solução de todos os crimes do mundo eu ficaria aqui para ver — participar — disso.
— Ei, gralha... Que tal se pegássemos meu navio e fossemos em busca de uma nova aventura?
Ela ergue a sobrancelha pra mim e sorri em seguida. Acho que também não está com vontade de se expor para todo o salão.
— Seu desejo é uma ordem, O Dedutivo.
Nos levantamos com pressa, ouvindo o anúncio sobre a fantasia de casal.
— Vamos, Sherlock! Esqueça a espada, droga!
Agora o desespero de Molly em sair dali era evidente. E o meu também.
"Concorrentes número 7 — Sherlock Holmes e Molly Hooper."
— Rápido, Molly!
Puxo meu papagaio pela mão, digo, puxo Molly pela mão e nós atravessamos o salão o mais rápido que conseguimos.
"Por favor, Sherlock e Molly, poderiam vir até o palco?"
Escuto-a rir atrás de mim enquanto praticamente corremos.
— É a nossa primeira aventura, O Dedutivo!
Viro-me para olha-la e percebo que também estou rindo.
Sim, foi a nossa primeira aventura.
—--
Sherlock e Molly ganharam o concurso principalmente pela brilhante encenação de um feito pirata.
Sherlock nunca recuperou sua espada, largada sobre a mesa.
Molly perdeu o penacho dos seus cabelos ao correr.
Apesar do que disse, Molly nunca escolheu outro pirata.
E Sherlock? Ah, Sherlock nunca a deixaria voar para longe.
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