02.05.1998

1 Único.


As paredes do castelo tremiam, do lado de fora e muitos andares acima explosões e gritos eram ouvidos sem interrupções.

Numa câmara secreta, ainda mais secreta do que aquela da lenda do herdeiro de Sonserina, jaziam quatro caixões intocados.

Cada um deles de uma cor diferente: azul-cobalto, amarelo-dourado, vermelho bordô e verde musgo.

A sala era circular e, atrás de cada caixão, havia uma mortalha com um animal estampado, respectivamente: águia, texugo, leão e cobra.

Mais uma vez, as paredes tremeram.

O primeiro a se abrir foi o azul-cobalto. Dele, uma mulher de cabelos negros e ondulados descendo pelas costas se levantou, piscando os olhos azuis. Demorou meio segundo para ela entender: não estava viva, não havia ressuscitado, estava ali para cumprir uma tarefa. Apenas isso e nada mais.

Em seguida, foi o vermelho bordô que se abriu e dele, um homem forte e de ombros largos se levantou. Tão rápido quanto a mulher, ele também compreendeu. Continuava tão gelado quanto um cadáver, pois era isso que ele era: um cadáver conservado. Tateava as roupas, buscando pela espada e encontrando somente sua varinha. Ele virou o rosto, encarando a mulher nos olhos. Estavam prontos.

O amarelo-dourado abriu-se, a mulher dentro dele parecendo ter acordado de uma longa soneca. Seu rosto era redondo e amável, mas ela carregava uma expressão de preocupação. Outra vez naquela noite, as paredes sacudiram, fazendo os olhos cor de mel dela olharem para o teto.

Por último, o verde musgo. Quando ele se levantou, parecia ligeiramente confuso: não se lembrava de ter sido velado ali. Ele tinha ido embora. Como podia ter voltado? Então, olhou para os outros três. A sombra do entendimento passou pelos seus olhos e, imediatamente, ele se recordou de um velho plano que tinham. Nunca pensou que teriam executado com tamanha perfeição, ainda mais sem ele.

Mas lá estavam os quatro, mais uma vez, juntos.

Centenas e centenas de anos depois.

Pois Hogwarts precisava de ajuda.

Hogwarts estava sendo destruída.

E o único propósito daquela poção complicada, que levou anos para ficar pronta, era acordar seus fundadores se Hogwarts estivesse a ponto de chegar ao fim.

Estavam muito frios, com os corpos enrijecidos, mas estavam lá.

E foram.

Não demorou muito para que chegassem nas masmorras, subissem os porões e, finalmente, encontrassem o motivo pela qual Hogwarts clamou por seus criadores: batalhas e mais batalhas estavam espalhadas por toda a parte. Haviam pedras da construção por todo o lado, feitiços cruzando o ar, quadros caídos das paredes, buracos nas paredes, pessoas mortas no chão. Pessoas usando o uniforme de Hogwarts, com o brasão de suas Casas estampadas no lado direito do peito.

A batalha continuava, sem que ninguém notasse aqueles quatro bruxos usando vestes peculiares espalhados pelos quatro cantos da escola, defendendo seus alunos e matando qualquer um que ameaçasse o propósito dela: acolher e ensinar.

O homem trajando vermelho-bordô queria sua espada, mas não a encontrava. Decidiu não se preocupar mais e continuar usando apenas a varinha: se sua espada não estava com ele, alguém que merecia estava na posse dela. E Godric Gryffindor subiu as escadas com pressa, afastando qualquer nuvem negra rodopiante que entrava rasgando o ar, jogando-os para fora outra vez.

A mulher usando amarelo dourado, parada no meio do corredor, fez todos os corpos sem vida levitarem, criando uma redoma invisível ao redor deles e agrupando-os. Ela apontou, com sua varinha, para dentro do Salão Principal, sabendo que ali estariam seguros pela última vez. Helga Hufflepuff levou cada aluno pequeno para dentro das cozinhas e trancou as portas até que soubesse que cada criança de onze anos estava sã e salva.

A mulher de vestido azul-cobalto murmurava feitiços que dariam forças para somente aqueles que tinham bons interesses no coração. Feixes de luz cintilante saiam de sua varinha e varria toda a propriedade, dando garra e energia para os bons. Rowena Ravenclaw notou, pelo canto dos olhos, que uma menina a observava com olhos cheios de lágrimas: era um fantasma. E ela a reconheceu imediatamente. Se pudesse, Rowena também choraria.

O homem de roupas verde-musgo subia as escadas com tanta rapidez que ele mesmo não diria que estava morto. Se limitou a sorrir para si mesmo, pois não conseguia rir. Não tardou para que alcançasse o segundo andar da escola: ele acordaria seu Basilisco e faria pagar cada um que estava causando tamanha desordem em sua escola, e aí daqueles que fossem de Sonserina e estivessem compactuando com tamanha vergonha. Ao chegar na frente da pia, no entanto, Salazar Slytherin sentiu, com uma ira descomunal dentro de si, que seu bichinho de estimação estava morto. Ele deu as costas e voltou, com o rosto retorcido numa expressão de fúria, não demorando para identificar os vilões e matando cada um deles sem pensar duas vezes.

Até que, por fim, tudo se aquietou.

E os quatro se reencontraram no térreo outra vez, com as roupas sujas de poeira, mas sem uma gota de suor nos rostos pálidos. Eles sabiam que ainda não tinha acabado, mas terminaria em breve.

Juntos, eles passaram despercebidos em meio a tanta dor e sofrimento.

Voltaram para a câmara e se olharam pela última vez com olhares afetuosos: não conseguiam falar, mas sentiam muito. De todas as maneiras.

Os caixões se fecharam mais uma vez, e eles voltaram ao seu estado de sono profundo, sabendo que seus alunos conseguiriam por fim no que estava acontecendo.

Confiaram neles.

E, horas mais tarde, o sol voltou a brilhar sob a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Notas finais
Afinal, qual seria o sentido por trás de ''Draco Dormiens Nunquam Titillandus'' se não esse? ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!