Target. Era a loja mais próxima à sua casa que oferecia aquilo que precisava no momento. Escova de dente, frutas, sabonete, comida, até mesmo uma passada na farmácia lhe rendeu alguns produtos. Jane caminhou pelos corredores da loja e jogou dentro do carrinho vermelho de compras tudo o que precisava. Cereal, frutas do tipo mais variado, carne congelada, vegetais e legumes. Ela olhou para tudo aquilo com estranhamento. A moça sorridente do caixa que sempre conversava com ela certamente duvidaria de seu estado mental ao comprar aquilo. Jane geralmente comprava cerveja, pão, queijo, maionese, e sempre algum salgadinho — doritos, na maior parte das vezes. Agora, entretanto, tendo Maura em sua casa ela não podia ser tão imprudente com a alimentação. A mulher estava desnutrida, ela deveria comer saudavelmente. Pensando nela, Jane acrescentou três caixas de suco natural e mais um pijama rosa claro com pequenas flores estampadas, uma peça que se constituía de uma calça e camiseta de manga longa — Jane escolheu esse em particular porque achou que Maura ficaria mais confortável caso não quisesse expôr seus hematomas.

Vivian, a mulher que trabalhava no caixa, lançou um sorriso para Jane e como previsto comentou sobre como o número de alimento havia aumentado. 'Não que seja da minha conta', ela acrescentou e Jane sorriu, pegando uma caixa de Trident e colocando junto à compra.

'Eu apenas tenho uma visita. Você acha mesmo que vou me render a esse tipo de coisa?' Ela apontou para uma laranja e torceu o nariz. A outra mulher riu, balançou a cabeça e aceitou o cartão de Jane.

'Aposto que você pode colocar o que quiser dentro desse corpo, e ele vai continuar o mesmo!' Ela brincou e apontou o dedo para si mesma. 'O que não é muito justo comigo.'

Jane revirou os olhos e guardou o cartão, pegando as sacolas em seguida. 'Você é bonita assim mesmo. Te vejo daqui uns dias.' Ela se despediu e saiu da loja um tanto quanto orgulhosa por, pelo menos uma vez, pagar por algo que não a mataria.

Antes de entrar no apartamento, Jane respirou fundo. Tudo estava resolvido agora: Maura ficaria por ela por um tempo indeterminado, até que conseguissem apreender o agressor dela, ou que Kendra Coleman consentisse que ela retornasse para a própria casa por achar que ela estaria segura porque o homem não a persegueria mais.

A detetive esperou que isso acontecesse logo. Quando finalmente girou a maçaneta da porta e entrou, ela logo encontrou Maura olhando para ela. Os olhos bem abertos e braços em volta das pernas — ela ainda sentava no sofá, onde Jane a deixara — entregavam a tensão que se instalara no seu corpo.

'Oi. Eu demorei um pouco mais do que previ, fui fazer umas compras e perdi noção do tempo.' Jane disse mostrando as sacolas. Quando Maura balançou a cabeça em compreensão, Jane permitiu se mover novamente. Ela tirou o casaco, depositou as sacolas na bancada da cozinha e mordeu o lábio inferior, agora em dúvida se fizera certo ao comprar um pijama — algo tão pessoal — e pequenas coisas para Maura.

'Eu ahn... Achei que você fosse precisar de um desses.' Ela pegou a peça de roupa ainda no cabide e mostrou para a loira. 'O que você acha? Você gosta?'

Maura olhou para o pijama, rapidamente para os olhos de Jane e desviou o olhar, e então balançou a cabeça em sim.

'Ótimo.' Ela se sentiu aliviada. 'Eu comprei escova de dentes também. E... eu notei que você tem um curativo no joelho, passei na farmácia e comprei uma solução estéril e novas gazes.' E agora Jane se viu incapaz de olhar para a loira. Eu sua mente ela tinha sido evasiva demais. Para sua surpresa, a resposta da loira veio baixa, mas agradecida.

'Obrigada.'

Jane olhou para ela e ofereceu um sorriso — e dessa vez era algo misturado com esperança; de quê exatamente, Jane não sabia.

'Não por isso.' Ela respondeu e apontou as sacolas. 'Eu tenho um punhado de frutas aqui. E eu posso fazer um sanduíche. Aposto que você tá com fome. Certo?' Ela disse sem muita esperança de que Maura fosse embarcar num diálogo, mas ela precisava continuar falando para não se sentir mal.

Como esperado, a loira apenas balançou a cabeça em sim. Jane aproveitou a deixa para testá-la. 'O que você gostaria que eu fizesse?'

'Eu...' E a palavra morreu com o silêncio.

Jane se sentiu mal por vê-la em conflito. Aparentemente ela queria pedir por algo, mas ela não sabia se podia. A morena então afastou-se da bancada e ofereceu. 'Por que você não vem aqui e confere o que comprei? Fica mais fácil para escolher, certo?' Maura hesitou. Jane achou que ela iria dizer não e se afastar, e ela contou até dez porque quão difícil era andar até ali e simplesmente escolher algo? Mas então ela se lembrou de como tudo foi difícil para ela quando Hoyt machucou suas mãos, seu ego. Droga, ela pensou, Kendra estava certa sobre a empatia.

'Maura...' Ela nem acreditou que estava prestes a fazer isso. 'Eu sei que deve estar sendo terrivelmente difícil para você. Eu só quero que você saiba que vai melhorar, e que eu prometo que enquanto você estiver aqui você vai estar salva e protegida. E você vai ficar bem. Eu fiquei.' E então ela mostrou as mãos — palma e dorso — as cicatrizes brilhando numa linha clara à luz do dia.

A mulher encarou-a com olhos abertos, e pela primeira vez desde que se encontraram ela segurou o olhar de Jane. De repente, os olhos dela se enxeram de lágrimas e ela abraçou a si mesma. 'Eu quero ficar bem.' Ela murmurou o que era quase um pedido.

Jane sentiu a garganta apertar. Ela agora entendia porque mostrara resistência ao receber a mulher ali: ela não suportava pensar em si mesma como Maura estava agora, e como ela estivera assim, uma vez. Doía trazer à tona as lembranças das cicatrizes de Hoyt. Doía ver uma mulher tão bonita como Maura nessa situação. Maldita Kendra, Jane pensou, ela fez de propósito em me escolher porque ela sabia que eu poderia lidar com Maura, ela apostou tão alto na minha empatia!

'Você vai. Mas é um processo. Você pode começar por se alimentar bem.' Ela ofereceu de novo, mas não estava muito crente de que Maura aceitaria. Para sua surpresa, a loira andou alguns passos e examinou, apenas com o olhar, o conteúdo das sacolas.

'Eu posso comer uma banana?' Ela perguntou timidamente.

Jane sorriu. 'Você pode comer a banana enquanto eu faço um sanduíche para nós. Soa bem?'

Ela concordou com a cabeça. Jane sorriu de novo e indicou que se servisse da fruta. Quando Maura esticou o braço para pegá-la, a manga da blusa subiu um pouco no braço e a detetive viu o punho enfaixado. Ela desviou o olhar rapidamente e suspirou.

'Acho que devo mencionar que Kendra vem te visitar hoje, mais para o final da tarde.'

'Oh.' Ela disse num murmúrio. Delicadamente ela descascou a banana, Jane esticou a mão para pegar a casca mas Maura a depositou na bancada olhando com pesar para a morena — ela estava com medo de se aproximar de Jane, ainda que por um segundo. A detetive não levou para o lado pessoal, era de se esperar que a mulher estivesse evitando qualquer contato pessoal. Lentamente, Jane observava pelo canto dos olhos Maura comer lentamente a fruta enquanto ela preparava um sanduíche para cada uma.

As horas seguintes se seguiram quietas; Jane abriu o laptop para conferir o preço de uma cama de casal nova — ela teria que comprar uma de qualquer jeito, e Maura não poderia ficar dormindo para sempre naquele sofá. A loira, por sua vez, se sentiu confortável o suficiente para tomar um banho (ou arrumou a desculpa para fugir da presença de Jane, foi o que a morena pensou), e apareceu minutos depois, cabelo ainda úmido, pijama novo e cheirando a sabonete de flores. Jane abriu um sorriso inconscientemente ao notar que a outra parecia um pouco mais renovada, fresca, entretanto seu sorriso morreu no momento em que Maura se remexeu sobre os pés, claramente incomodada. A princípio a detetive achou que ela não se sentia bem — talvez uma dor de estômago porque a mulher não tinha nem tocado o sanduíche que ela tinha feito. Ela se levantou preocupada, Maura deu um passo para trás.

'Há algo de errado?' A morena correu a mão pelo cabelo.

Maura balançou a cabeça em não. Jane ficou parada, olhando para ela enquanto a outra olhava para o chão. Ela parecia tão submissa. Ela só falava quando algo era perguntado diretamente à ela. Ela só se mexia quando Jane sugeria que o fizesse. Em um fluxo subito de irritação, Jane decidiu que odiava o homem que tinha transformado Maura nisso; num rascunho apagado de si mesma. Com um estalo, Jane percebeu que diante de Maura ela mesma poderia, e certamente, representava uma figura autoritária, o que deixava Maura ainda mais insegura sobre si mesma.

Jane não conseguiria. Ela simplesmente não conseguiria baixar a própria guarda para benefício daquela mulher. Ela não conseguiria manter a paciência quando mais necessitaria. Ela não sabia se comportar de outra forma senão sendo a pessoa espontânea e barulhenta que era. Aquela mulher em sua frente precisava de tudo aquilo: paciência, quietitude, alguém disposto a lhe ouvir mesmo quando pedisse em silêncio.

Aquele pessoa não era Jane, definitivamente. Ela poderia ser empática, é verdade, mas não era um traço suficiente por si só para fazer aquilo funcionar. Quando Kendra tocou a campainha de sua porta — e Maura se sobressaltou e abraçou a si mesma — Jane tinha decidido pedir, implorar que a levasse dali. Ela não queria arruinar a vida daquela mulher ainda mais. Era isso que iria acontecer se Maura ficasse por mais um dia. Ela não podia ser responsável por isso.

'Nós precisamos conversar.' Jane murmurou ao abrir a porta, mas Kendra não esperou o convite para entrar, ela simplesmente o fez. Jane revirou os olhos e fechou a porta atrás de si.

'Olá, Maura. Como você se sente?' Ela perguntou suavemente, colocando algumas sacolas que carregava consigo em cima da mesinha de centro, e Jane se perguntou o que havia acontecido com aquela mulher que tinha praticamente a atropelado segundos antes.

'Melhor...?' Ela respondeu com completa incerteza, e Jane teve que se segurar para não revirar os olhos. Como alguém podia não saber se estava melhorando ou não?

'Rizzoli?' Kendra a chamou e a morena levantou uma sobrancelha, como se dissesse estou ouvindo. 'Sei que esta é tua casa, mas você se importa de nos dar uns minutos a sós?'

A morena deu de ombros e procurou com o que se ocupar em seu quarto. As paredes finas do apartamente facilitavam muito ouvir a conversa do outro lado.

'Eu trouxe as vitaminas que você precisa tomar, tenho certeza que você consegue administrar a dosagem certa. Maura, eu sei que você sabe melhor do que eu, mas é importante que você coma também, você precisa recuperar seu peso, os resultados dos seus exames médicos foram alarmantes.' Jane ouvia Kendra dizer do outro lado da sala.

'Eu preciso tomar as vitaminas duas vezes ao dia, e eu estou tentando comer.' A voz fraca de Maura veio, e Jane ficou pasma ao descobrir que a mulher podia dizer uma frase coerente e com mais de cinco palavras.

'Isso mesmo.' Pelo tom da voz, Jane imaginou que a outra estava sorrindo em simpatia. 'Como estão seus ferimentos?'

Ok, quem era aquela nova Kendra? Jane jamais ouviu ela falando macio daquele jeito, como se de fato importasse com alguém. Então ela se lembrou de Frost dizendo que ela era simpática, e ela revirou os olhos achando que, talvez, Kendra não fosse simpática apenas com ela.

'Eu não consigo enfaixar.' Maura murmurou tão baixo que Jane quase não ouviu.

'Certo, eu também teria problema em usar minha mão esquerda para fazer algo na direita. Nós somos destras, afinal de contas. É por isso que pago para pintarem minhas unhas.' Um barulho de sacola, e então, 'posso te ajudar com isso?'

Maura deve ter concordado, porque depois de um minuto em silêncio... 'Pronto.' Veio a voz de Kendra, mais uma vez.

O resto da conversa não foi lá muito reveladora. No momento em que terminaram a conversa a sós, Coleman chamou por Jane e deixou ordens claras para que a detetive se certificasse de que Maura tomasse as vitaminas todos os dias, alegando que era essencial para a saúde dela. Se por dentro Jane queria gritar leve-a daqui imediatemente, por fora ela apenas concordava com a cabeça, tentando a todo custo ignorar como Maura se sentia mais a vontade perto de Kendra.

Kendra. A mulher que fazia Jane se sentir minúscula, mas que fazia Maura se sentir confortável mesmo considerando sua situação. Eu devo ser muito terrível mesmo, Jane pensou, ou talvez ela só sinta que eu não a quero por aqui. Se sentindo culpada, com um nó na garganta que não a deixaria em paz pelo resto do dia, Jane acabou desistindo de confrontar Kendra de novo.

Por conta do peso da culpa, ela decidiu que faria um útimo esforço; ela viveria um dia de cada vez, sabendo que cada hora dele seria crucial para a recuperação de Maura.