Órion
9 Perfect
—A senhora está bem? —A voz de Jeanne é delicada e ao mesmo tempo forte.
Olho para o meu próprio reflexo e não sou capaz de responder, o longo vestido azul-marinho cobre praticamente todo o meu corpo, as mangas são compridas e a gola alta, e, mesmo assim, ainda consigo sentir o frio dominando cada centímetro do meu corpo.
—Quanto tempo ainda tenho? —Quinze minutos. Posso escutar a voz dela, parecendo insegura agora. —Você pode ir agora, Jeanne. Vejo a senhorita quando voltar.
Ela faz uma reverência preocupada, me olha como se pensasse em me contrariar, mas deixa o quarto com passos curtos e demorados.
Me dirijo até a minha mesa e pego a garrafa de vinho que guardei, abro-a e me sirvo, tomando apenas goles pequenos. Quando me olho novamente no espelho e percebo que a pequena camada de maquiagem aplicada não é capaz de esconder a vermelhidão de minhas bochechas, apenas coloco o chapéu e deixo que o véu preto esconda o meu rosto.
Saio do quarto e esbarro com uma versão agitada demais de Werner, ele fala alguma coisa que eu não consigo entender, e começa a me conduzir para fora do castelo, a mão em minhas costas, toda a agitação em seu corpo parecendo transbordar com um único toque, e, mesmo que eu queira, sou incapaz de falar qualquer coisa para ele.
E então, na rua, há fotos e pinturas dos meus pais por todos os lugares, todas as pessoas, em todas os lugares, estão vestidas com roupas escuras, há olhares tristes sendo lançados para mim, alguém está tocando uma música em algum lugar distante, não consigo identificar qual, meu corpo treme e as minhas pernas parecem perder a força, agradeço silenciosamente por estar sentada.
Conforme o grande carro desfila, procuro o rosto de Darrel na multidão, ou até mesmo o da pequena Millie, e não os vejo. Penso em perguntar sobre eles para Werner, mas o garoto parece tão distraído que prefiro deixar para lá.
E assim continuamos em silêncio pelo resto do desfile, tudo o que preciso fazer é sorrir em alguns momentos e acenar em outros. Tudo está bem. Tudo. Está. Bem.
Jeanne está escovando o meu cabelo quando Werner entra em meu quarto apressadamente, me levanto em um pulo, sinto os músculos de meu corpo se agitarem.
—Ninguém sabe onde Darius está. —Ele fala rápido demais e demoro alguns segundos para conseguir processar o que ele está dizendo. —Meus pais acordaram e ele simplesmente não estava lá, eles o procuraram por todos os lugares possíveis e impossíveis, ninguém tem notícias dele. —Faço um sinal dispensando Jeanne, e presto atenção no garoto, torço para que ele não perceba o quanto estou me segurando para não chorar. —Eu não sei o que fazer, Naomi. Eu não posso perdê-lo.
—Werner…
—Meu pai não conseguirá superar perder um filho, não hoje. Minha mãe não consegue fazer nada além de chorar e Millie… —Os olhos do garoto estão cheios de lágrimas, não sendo capaz de responder, ele anda de um lado para o outro no quarto.
—Werner.
—O que eu deveria fazer, Naomi? O que eu poderia fazer? Eu nem sequer consigo organizar os meus pensamentos! Como…
—Oficial Steele. —O garoto finalmente para, em posição e em absoluto silêncio, balanço a cabeça em sinal para que ele relaxe. —Você não ajudará em nada se continuar assim. Agora olhe para mim e respire fundo. —Minha voz é mais firme do que eu pretendia, mas só assim Werner parece se acalmar. —Nós vamos encontrar o seu irmão, tudo vai ficar bem. Você acredita em mim, não acredita? —Ele balança a cabeça positivamente. —Certo, agora venha aqui. —O puxo para abraçá-lo, sinto que ele abandona todo o peso de seu corpo para que eu o segure. E então minha garganta parece queimar, as lágrimas finalmente transbordando e um soluço escapando. Todo o peso do dia parece finalmente desabar em cima de meus ombros e ele é pesado demais para que eu possa aguentar.
—Oh! Minha querida, Naomi. —Sua mão segura o meu rosto e seca as minhas lágrimas, quero fazer o mesmo com ele, quero ser forte o suficiente para confortá-lo, mas meu corpo parece não responder mais aos meus comandos. —Eu sinto muito, eu me esqueci totalmente como você devia estar se sentindo. —Ele beija a minha testa, e isso faz com que eu perca totalmente as minhas forças, desabo no chão e me encolho, os braços de Werner logo estão envolvendo o meu corpo me puxando para o seu corpo quente e confortável.
E então eu seguro seu rosto com as minhas mãos, beijo suas bochechas e sinto o gosto salgado de suas lágrimas em meus lábios, isso parece me despertar, há um sorriso fraco em seu rosto quando eu me aproximo dele e o beijo.
Suas mãos não tremem mais enquanto envolvem a minha cintura, elas parecem firmes como nunca, apenas consigo sentir o frio do chão em minhas costas por poucos segundo antes do calor de seu corpo me dominar, e há tanto Werner que eu me sinto embriagada por ele. Suas mãos mapeiam cada centímetro do meu corpo, apenas fecho os olhos e absorvo cada sensação que o toque dele causa em mim, deixando tudo o que aconteceu e o que pode acontecer para lá. Werner se torna a única coisa possível em que eu posso pensar e, pouco a pouco, sinto as lagrimas cessarem.
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