Órion
1 Castle
Notas iniciais
O garoto se afasta rapidamente, ele está arfando e olhando indignado para o que costumava ser seu bastão de madeira e então balança a cabeça como se me repreendesse, mas sorri.
—Não ache que você ganhou, pois a única coisa que você fez aqui, foi me dar uma arma a mais. —Ele volta a posição, agora com as duas partes do bastão prontas para atacar e corre em minha direção.
Os golpes parecem vir de todas as direções, mas mesmo assim consigo defendê-los, bato com a ponta do meu bastão em sua perna e aproveito para me afastar e respirar fundo. É a minha vez de atacar, movimento o bastão rapidamente em minhas mãos, distribuindo vários golpes, que, infelizmente, ele consegue defender. Recebo um golpe em meu quadril, mas não recuo, apenas continuo a atacá-lo e me defender de seus golpes.
—Vossa Majestade. —Paro imediatamente e retomo a minha postura, o garoto ao meu lado já está assumindo sua posição logo atrás de mim. —O rei e o príncipe da Nova Itália, solicitam a sua presença… —Antes que ele possa terminar a sua frase, dois homens entram na sala, fazem uma reverencia e dispensam o meu mordomo com um gesto, o pobre Willis me olha com seus grandes olhos castanhos, como se não soubesse a quem seguir, apenas confirmo com a cabeça, avisando que ele está liberado.
—Ora, ora, se não é a querida rainha Naomi. —O rei me olha com certo desprezo, consulto o relógio na parede, treinei quase duas horas seguidas e meus braços estão queimando. —Espero não ser rude, mas por que Vossa Majestade precisaria treinar esses tipos de atividades? Há guardas espalhados por todo o castelo, não acho que isso seria algo necessário.
—Nunca se sabe o que acontecerá no futuro, e, caso algo aconteça e eu estiver sozinha, gosto da ideia de que eu possa me defender devidamente. —Falo tentando manter a calma. —Mas afinal, o que os traz até o país, não seria apenas uma visita, não é? —Levanto a mão antes que ele comece a falar. —Bem, onde estão meus modos. —Chamo novamente por Willis. —Por favor, acompanhe nossas visitas para seus respectivos quartos, e os leve algo para comer, a viagem deve ter deixado-os exaustos. —Me aproximo e falo o mais baixo que posso. —Enrole bastante, precisarei de um bom banho e uma massagem se quiser aguentar esses dois. —Posso ver o rosto alegre dele, e sorrio, volto a falar no tom normal. —Espero que me perdoem, mas eu terei que tomar um banho e colocar uma roupa adequada, mas, logo que eu estiver pronta, poderemos continuar a conversa.
Os dois não discutem, apenas fazem uma reverência e seguem Willis.
Assim que eles se afastam, me viro para o meu guarda, que continua em sua posição.
—Werner, —Posso ver seus ombros relaxarem. —vá tomar um banho e depois me espere na porta de meu quarto, esses dois me trarão algum problema e eu quero que você fique por perto. —Ele confirma com a cabeça. —Não tão perto enquanto esse banho não rolar. —Posso ver que mesmo tentando segurar, um pequeno sorriso está estampado em seu rosto.
—Com todo respeito, Vossa Majestade, a senhoritanão está com um cheiro muito melhor.
Respiro fundo mais uma vez antes de sair do quarto, penso que, se eu repetir que minhas mãos não estão tremendo, elas talvez parem e fiquem quietas.
Assim que saio do quarto me deparo com Werner, ele está na guarda de meu quarto e a sua presença me deixa mais calma, o garoto faz uma pequena reverência e me acompanha, mantenho as mãos cruzadas na frente de meu corpo e sorrio enquanto entro na grande sala de reunião do palácio, evito os quadros dos antigos reis e rainhas e me dirijo a minha cadeira. O rei dispensa todos os outros empregados, mas não se atreve a se dirigir a Werner, que continua como uma estátua em meu lado, a postura perfeita.
—Rainha Diana, como eu sei que o seu tempo é curto e o meu e de meu filho também, irei direto ao assunto. —Etros está querendo atacar a Nova Itália novamente, e, com os estragos da ultima guerra, eu realmente não sei se teríamos condição de contra-atacar. Eu estava pensando que talvez Vossa Majestade possa nos ajudar financeiramente. —Olho para suas roupas caras e as joias em seu pescoço, tenho que me segurar para não revirar os olhos. —Ter Órion como um aliado seria algo ótimo.
—E o que vocês nos dariam em troca? —O rei me olha confuso e furioso ao mesmo tempo. —Seriamos aliados, mas, ao contrário de Nova Itália, Órion tem dinheiro e muitos soldados a disposição, também é aliado da maioria dos países do novo mundo. Então, responda a minha pergunta, Majestade, o que vocês poderiam nos dar?
—Eu entendo o seu lado, claro que eu entendo, mas logo depois que Etros nos atacar, os próximos serão vocês, e uma guerra pode falir um país, acredite em mim. —Um rei irresponsável também.—Mas sabe, se os vencermos agora, com as nossas forças unidas, poderíamos detê-los antes de grandes estragos.
—É um ponto de vista interessante, mas não acho que seja o suficiente. Como eu já disse, Órion tem muitos aliados, uma guerra como essa seria fácil de vencer. —Continuo com a expressão neutra em meu rosto, por outro lado, o rei parece pronto para ter um ataque, seu rosto está vermelho e seus punhos cerrados. —Eu precisaria de algo maior.
—Vossa majestade, espero que encare com a sua mente aberta o que irei lhe oferecer e pense em todas as vantagens. —Pela primeira vez desde que o vi, o príncipe resolve se pronunciar. —Poderíamos unir nossos países, transformá-los em um só, pense em quão grande ele se tornaria, mas, para isso acontecer, eu proponho um casamento. —Sinto Werner ficar tenso ao meu lado, o que me faz, por alguns segundos, perder a calma. Mas, antes que possa deixar transparecer, me recomponho e o observo.
—E esse casamento por um acaso seria entre nós dois? —Posso ver que o príncipe tenta controlar a sua agitação, mas falha de um jeito horrível. Tenho que admitir que ele é bonito, mas não o tipo de pessoa que eu gostaria de ver ao meu lado e governando o meu país. —Um casamento não é uma opção e esse assunto não está em discussão.— Balanço a cabeça negativamente e me levanto rapidamente, apoio as duas mãos na mesa com força. —Mas eu já sei o que desejo de seu país, se vocês quiserem a ajuda de meu país, deverão abrir os portos e aceitar os refugiados. —Levanto uma mão para que o rei não fale. —Infelizmente, Órion não pode fazer muito para ajudar, pois não está em uma posição muito estratégica, diferente do seu país, que se os portos fossem abertos, ajudaria muitas pessoas. E é isso ou nada. Sem discussões.
Volto a me sentar e observo o rei, ele está furioso, mas sabe que não pode discutir comigo sobre isso, e, depois de bons minutos jogados fora, ele finalmente balança a cabeça positivamente.
—Ótimo, ficarei atenta as noticias sobre a abertura do porto. —Me levanto, dessa vez com mais calma e caminho até metade da sala, ainda mantendo distância dos dois. —Mandarei alguns soldados e armas e munições, junto com um saldo em dinheiro. —O rei se levanta, ainda parecendo furioso. —Se precisarem de algo mais, é só avisar. —Me despeço do príncipe, que parece só querer sumir dali o mais rápido possível, e me volto para seu pai. —Mas fique sabendo que, caso eu saiba que está desviando esse dinheiro para seus próprios luxos ou, quem sabe, descumprindo parte do nosso acordo, você terá guerra com o meu país, e isso não seria uma boa escolha.
O rei sai da minha sala sem falar mais uma palavra, o que me faz gostar um pouco mais dele, saber ficar em silêncio na hora certa é uma boa qualidade.
Willis logo entra na sala, faz uma reverência e fica a espera de ordens.
—Peça para que cancelem todas as reuniões de hoje e para que levem o jantar em meu quarto essa noite. —Balanço a cabeça para dispensá-lo e o vejo sair com passos rápidos, olho para Werner, que apenas me encara. —Mande apenas um número pequeno, que não nos faça falta, deixe os melhores aqui, mas também não mande os piores, eu não preciso das reclamações dele por um bom tempo. —Me viro até ficar frente a frente com o guarda, e, embora ele tente conter, sua respiração acelera automaticamente. Eu estou da altura dele com esses saltos, talvez até um pouco mais alta. —Vá me visitar hoje de noite, depois do seu turno, eu estarei te esperando.
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