Notas iniciais
Olá, queridos leitores! Antes de iniciarmos o capítulo, gostaria de me desculpar por não ter postado ontem. Foi um dia corrido pra mim e ainda no início da noite tive que ir no hospital, me perdoem :( Mas vamos lá, ótima leitura pra vocês!

Capítulo Seis

Aurora não sabia por quanto tempo havia ficado desacordada, e seu corpo estava extremamente dolorido. Por isso, quando despertou, não abriu os olhos e tentou relaxar pelo menos por cinco minutos. Demorou um pouco pra ela se lembrar de tudo que havia acontecido. Por mais que tivesse sido aterrorizante, a mente dela parecia não fornecer as memórias muito claras, como se quisesse apagar todo aquele desespero que ela havia sentido. Quanto mais ela pensava, mais dúvidas surgiam na sua cabeça, então, ela decidiu que era hora de encarar a realidade. Ela havia sentido estar deitada, mas não sabia onde, por isso, no momento em que abriu os olhos, assustou. Estava no meio de uma floresta; ela ficou surpresa ao ver que já estava noite, por mais que tenham saído de manhã do “mundo real”. “A transição demorou tanto tempo assim ou aqui o tempo é diferente?” Novamente, mais perguntas. Aurora sentou-se devagar, se sentindo um pouco zonza.

– Vejo que acordou. – uma voz falou distante. Após um minuto ela reconheceu ser Bernardo.

Somente nesse momento notou o homem sentado em cima de um tronco um tanto longe dela. Ela assentiu com a cabeça e começou a observar melhor o lugar. Como havia visto anteriormente, ao redor deles podia-se ver uma linda floresta. Árvores altas, com as folhas bem verdes. Troncos grossos e fortes, com certeza com raízes enormes, ela imaginou. Ao longe era possível ouvir os pássaros, algumas corujas, o cantarolar dos grilos... Ela mal lembrava a última vez que havia estado em uma floresta de verdade como aquela. A grama era macia e também muito verde, como se fosse extremamente bem cuidada. Algumas flores aqui e ali das mais diversas cores e tipos: amarela, azul, vermelha, verde... Violetas, rosas, margaridas... Ela olhou para cima novamente e viu um céu repleto de estrelas, como nunca seria possível ver na cidade. Aurora abriu um sorriso ao ver a beleza da natureza intocada pelo homem ao seu redor.

Lembrando-se das suas infinitas perguntas, Aurora levantou e caminhou até Bernardo. A fogueira fornecia um calor e uma claridade muito agradável. Observou o tronco que Bernardo estava sentado e sentou-se também, porém no outro extremo. Ficava muito mais confortável a uma distância razoável dele, muito obrigada.

– Onde estamos? Chegamos em... Como chama mesmo o seu reino? – ela perguntou realmente sem fazer a menor ideia de como chamava o lugar em que estava indo.

– Íria. – ele respondeu revirando os olhos. – E não, ainda não estamos lá. – com a resposta, ela sentiu calafrios.

– Não me diga que teremos que fazer aquilo de novo... – inevitavelmente fez uma careta, a qual ele parece ter achado graça, porém, ela não sabia se estava realmente achando engraçado ou se estava brincando com a cara dela.

– Não, a transição já acabou, sinto muito se ocorreu de ser tão horrível assim. Estamos no limite das terras do reino, então ainda teremos uma caminhada pela frente até chegar realmente em Íria. Hoje, iremos acampar aqui. – ele falou com uma voz relativamente tranquila, comparado ao tom que ela estava acostumada a ouvir dele.

– Bernardo... – ela o chamou, mas ele só fez um sinal com a cabeça, sem olhá-la e ela prosseguiu: – O que era aquilo na transição? Não foi somente uma experiência horrível, foi esquisito. E você parecia em uma espécie de transe... Eu não entendo... Não era real? – ela falou confusa ao tentar lembrar todos os detalhes.

– Tudo aquilo era real, Aurora. Você viajou entre mundos. Aquelas criaturas existem, porém, no encantamento elas não podem nos fazer mal porque não estamos no mesmo plano que elas. É como se estivéssemos passando por cima deles.

– Mas um deles chegou a me atacar! Se não estávamos no mesmo plano, como é que fizeram isso? Ou como puderam nos ver?

– Aqueles que você viu são diferentes. Eles não passam de almas presas entre os mundos. Se você tivesse por algum motivo me soltado, iria estar com eles agora. – ele pausou, vendo o olhar de desconfiança dela. Suspirou e continuou: – Não irá te fazer mal, acredite. Já passei muito por isso. Demorei a aprender as técnicas que sei hoje, e, agora, me coloco em transe durante a viagem.

– Então você não vê nada? Não escuta nada?

– Na verdade... É como se eu nem estivesse ali.

Aurora ainda tinha diversas dúvidas sobre aquele assunto, mas resolveu se calar. Quanto mais ela se aprofundava, mais achava tudo aquilo uma loucura. Viagem entre mundos, criaturas enormes, um diário estranho... Lembrou-se de sua promessa e se beliscou bem forte. Quem sabe assim acordaria desse maldito sonho. Mas nada aconteceu além do olhar irritante de Bernardo achando-a boba ao ver sua tentativa frustrada. Ela bufou. As atitudes dele e o modo de falar às vezes a irritavam imensamente. Por fim, resolveu perguntar:

– Saímos de manhã. Aqui já é noite. A transição demorou tudo isso?

– Não, aqui o tempo é diferente. Chegamos ao início da noite, mas como você estava desacordada, decidi deixá-la em paz. Quando chegarmos a Íria irá sonhar por tempos tranquilos assim... E principalmente por uma boa e longa noite de sono. – Bernardo falou com um tom de voz cansado, como se falar tudo aquilo já causasse exaustão. Ele não tirava os olhos da fogueira ou da floresta, e nunca olhava pra ela.

– O que quis dizer com isso?

– Você irá treinar muito. Terá que se esforçar pra poder aprender tudo que você tem capacidade de aprender.

– Já que tocou nesse assunto... Pode me explicar tudo que queria saber em Londres? Você disse que poderia me contar quando chegássemos.

– Desculpe se me expressei errado. Eu disse que iriam te contar e não eu. Não possuo permissão para tal. – ele disse firme e prontamente. – Já falei demais e se descobrirem estou ferrado.

– Me fale sobre você então! – ela disse após o silêncio durar por cinco minutos, enquanto sua mente trabalhava a todo vapor, pensando em uma forma de fazê-lo contar mais.

– Muito esperta. – Bernardo comentou com a voz mais baixa e a garota não sabia se ele havia dito realmente pra ela ouvir ou se estava falando consigo mesmo. A única coisa que se podia perceber de longe é que ele sempre mantinha um rosto sem expressão quando tocavam nesses assuntos e um olhar perdido. Ele suspirou e falou: – Como eu havia dito, eu sou um Guia, assim como Faith. Na verdade, somos como anjos. Anjos pecadores e que não moram nos reinos dos céus.

– Anjos?! – ela perguntou surpresa e ainda mais interessada. Nas alturas do campeonato, ela já não duvidava de nada.

– Não fique tão espantada. Anjos estão por toda parte, mas vocês, humanos, não podem ver. Os homens tem a irritante mania de achar que só porque não veem, não existe. –ele comentou. – Mas nós não somos esses tipos de anjos que está pensando. Morávamos nos céus, tínhamos afazeres como qualquer ser e visitávamos a Terra em períodos muito curtos. Mas se tem uma coisa que você pode dizer com a certeza de sua vida é que um Guia um dia foi banido de lá por conta de pecados imperdoáveis. Pecados que os homens cometem.

Aurora ouvia com atenção, mesmo não duvidando, tentava imaginar como tudo isso poderia ser possível. Como tudo isso poderia existir sem que tivessem nenhum tipo de ideia. Se comentasse isso no orfanato com certeza iriam dizer que estava ficando maluca. Bernardo, como sempre, falava com o olhar vidrado nas chamas da fogueira, mas o tipo de seu olhar tinha mudado. Aurora tinha a sensação de que ele estava tendo muitas lembranças naquele momento e algo ficou subentendido; obviamente que ela não saberia dizer o que e nem iria perguntar. Ele não falava de si propriamente dito, mas, se ele estava ali, também havia cometido algum pecado pra ser banido.

– Vocês não podem se redimir?

– Não. Um anjo nunca deve pecar. A partir do momento em que ele se torna um pecador, deixa de ser um ser merecedor do mais puro ar. Ele se torna praticamente um homem. E homens devem aprender com seus erros. Então, somos enviados para permanecermos o resto da eternidade na Terra, com o único objetivo de ser alguém melhor. De trazer paz. E é isso que fazemos em Íria. – ele pausou e depois continuou com uma voz certamente irônica: – Fazemos parte da Aliança, um grupo que trabalha para fazer a paz acontecer.

– Você não concorda com eles? – ela perguntou ao notar o tom debochado dele.

– Não em tudo... Mas falamos demais, Aurora. – ele falou sério e pela primeira vez olhou para a garota. – Vou nos arrumar algo pra jantar e depois iremos dormir.

Algumas perguntas que Aurora tinha haviam sido respondidas, mas não podia parar de pensar em mais. Ela observou o homem se afastar gradativamente até desaparecer entre as árvores. O olhando de costas ela pôde ver o quanto ele era forte, e ela ficou curiosa para saber se ele ainda possuía asas. Perdida em pensamentos, mal se deu conta quando Bernardo retornou, com alguns peixes cravados em gravetos. Internamente, ela se divertiu com a imagem daquele homem tão formal fisicamente, em algum rio ou lago, pescando. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, viu, com seus próprios olhos, exatamente o que Faith havia feito em seu sonho.

– Está tudo bem? – Bernardo perguntou levantando as sobrancelhas ao ver o olhar espantado dela. Ele estava materializando alguns pequenos troncos, com alguns espaços no seu centro, para poder assar os peixes na fogueira.

– Está, é só que você... – ela mal conseguiu terminar a frase. Balançou a cabeça e se tocou de que agora iria ver coisas muito mais assustadoras do que essa. – Nada. Está tudo bem.

– Você ainda tem muito que aprender, garota. – ele disse com um sorriso irônico no rosto e voltou a se concentrar na fogueira.

– Já percebi... – ela murmurou. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu-se completamente perdida, sem rumo, sem chão; por um segundo pensou que havia cometido um erro e não havia nem como sair dali. A única companhia que tinha eram as lembranças e as lágrimas que começavam a se formar em seus olhos, que ela cuidadosamente escondeu.

Algum tempo depois, os peixes estavam assados e os dois puderam jantar. Aurora se surpreendeu ao não achar desagradável, mas não sabia se, na verdade, era somente a fome falando. O silêncio reinou até o momento em que Bernardo levantou-se e iniciou um encantamento, que ela imaginou ser de proteção, no local onde estavam. Novamente, falava em uma língua que Aurora não conseguia entender, ela mal se mexeu, não queria dar motivos a ele para falar com ela. Por fim, resolveu deitar-se próximo ao tronco, de costas para Bernardo, e deixou-se adormecer. Não foi uma tarefa fácil, mas acabou conseguindo.

Notas finais
Entããão, o que acharam? Quero saber a opinião de vocês!! :)