Índigo

3 Capítulo 3


No fundo, eu já sabia disso. Mas eu não queria admitir.
THE já tinha conversado abertamente comigo antes, mas nunca tão abertamente como naquela manhã. Mas naquela conversa, ele me convenceu de que era uma criança normal. Talvez até uma criança melhor do que as outras. Mais madura e desenvolvida.

Eu pedi que THE me esperasse na sala de jogos. Fui ao biombo e coloquei meu jaleco e meus sapatos. Resolvi deixar o cabelo como estava.
– Uau – disse THE quando me viu. Ele nunca tinha me visto com minha roupa normal de doutora. Eu ri, levemente constrangida.
– Vamos. Temos um assunto a resolver.
Saimos juntos do consultório e passamos pelo corredor até chegar à sala de espera. Os pais de THE se levantaram para ir embora.
– Rosalyn, pode cuidar do TH... Do Tgonk por um instante enquanto eu converso com os pais dele?

Os Hall-Ether se entreolharam, curiosos. Assim, até pareciam ser pais centrados de uma família normal.

– Claro que sim, Dra. Spark – disse Rosalyn. — Pode sentar ali, Tgonk.
Tgonk sentou-se de frente para a televisão.
– Podem me acompanhar, Sr e Sra. Hall-Ether.
Os dois pareciam nervosos ao me acompanhar até o escritório. Sentei normalmente atrás da mesa e indiquei que eles sentassem nas cadeiras de frente para mim.
– O que houve, doutora? — Perguntou o Sr. Hall-Ether, que parecia um típico homem de negócios em seu terno. — Há algum problema com o Tgonk?

– Eu receio que não, Sr. Hall-Ether. Tenho conversado com ele bastante, e me parece tudo bem. Ele contou que os senhores tem discutido.
Os dois se olharam de maneira nervosa.
– Ele contou isso? — Perguntou a Sra. Hall-Ether, entregando os pontos.
– Olhe, tente nos entender...
– Por favor, Sr. Hall-Ether... Eu trabalho apenas com crianças. Não cabe a mim entender o senhor, mas sim o seu filho. E essa tarefa eu já cumpri. — Peguei o meu bloco ao lado e comecei a escrever. — Eu vou indicar para vocês um amigo meu, excelente profissional que conheci na faculdade de psicologia, e trabalha com...
– Espere aí, Dra. Spark. — Interrompeu o Sr. Hall-Ether. — Está insinuando que precisamos de tratamento psicológico? Por acaso acha que somos malucos?

– Não estou insinuando nada, senhor. Estou afirmando. Mas o senhor está cometendo um erro comum ao confundir Psicologia com Psiquiatria. O psiquiatra é o profissional que cuida de gente com problemas mentais, que o senhor chama de “malucos”. O psicólogo cuida do comportamento e do sentimento de um paciente. Discussão não é um comportamento adequado, principalmente para adultos maduros como os senhores. Outro engano dos senhores foi achar que seu filho precisava de tratamento comportamental. O Tgonk é uma criança excelente, mas os senhores precisam se tratar. Isso apenas será útil para que haja entendimento entre vocês. Para que convivam harmoniosamente. Esse é o caminho, se querem voltar a ser uma família normal e feliz. Como eu dizia, vou encaminhar vocês para meu amigo que trabalha com adultos, Dr. Thomas Lencher.
Arranquei a folha do bloco e entreguei para eles.
– Realmente acha que devemos, doutora?

– Mas é claro que sim, Sra. Hall-Ether. Escutem. Tgonk está em um ambiente nada saudável para uma criança da idade dele. É por ele que vocês tem que fazer isso. Hoje mesmo ligarei para Thomas explicando tudo. Não deixem de ir.
– Então vamos interromper o tratamento dele?

– Ele não precisa ser tratado. É o melhor a se fazer. Apenas deixem que eu me despeça, está bem?

– Então eu nunca mais vou te ver, Angel?

– Ah, THE, não fique assim. É uma coisa boa.
– Coisa boa? Eu gostava de conversar com você, Angel! Você disse que estava do meu lado!
– Eu estou do seu lado. THE, escute. Seus pais concordaram em interromper seu tratamento e procurar um médico para eles. Eles entenderam que estavam errados.
– Por que não deixou eles pensarem que eu precisava continuar? Você poderia ter feito isso! Poderia ter dito que continuaria meu tratamento simultâneo ao deles.

– Isso é contra a ética dos psicólogos. Não seria certo.
THE virou o rosto. Ele não queria conversar.
– THE, preste atenção. Você não precisa fingir um tratamento para conversar comigo. Você tem o meu número e eu tenho o seu. Podemos marcar de nos encontrar para ver um filme, tomar um sorvete ou... Jogar Mortal Kombat.

– É sério?
– É claro que é! Marcamos um novo encontro amanhã mesmo, está bem?
– Está bem.
Me despedi de THE e seus pais. Quando eles foram embora e eu fechei a porta, suspirei de felicidade para Rosalyn.
– Como é bom resolver uma situação complicada como essa.
– Se saiu bem mais uma vez, doutora. Parabéns.
– Bom, agora vamos seguir... Vamos lá, Debby? — Chamei a próxima paciente, que aguardava com seus pais na sala de espera.

Mais tarde, liguei para Thomas como tinha dito. Expliquei a situação dos Hall-Ether e disse que era para me avisar caso não procurassem.
Dispensei Rosalyn na hora do almoço, pois não atenderia mais naquele dia. Tinha outro compromisso: uma palestra na Faculdade de Psicologia. Havia acontecido uma raridade. Alguma instituição finalmente havia se interessado pelo caso das índigo.
Passei em minha casa para me preparar e parti para a Faculdade. Chegando lá, fui recebida pela coordenadora de atividades, Lilith Gray.
– Angel, que prazer revê-la! Quero dizer, Dra. Angel Spark! — Nós duas rimos.
– Pode me chamar de Angel, Lilith. Depois de tanto tempo que eu passei aqui...
– Essas coisas demoram, mesmo. E então, animada para a palestra?
– Claro que sim! “Crianças Índigo” é um de meus assuntos favoritos, ainda mais se tratando da faculdade onde me formei.
– Bom, seu público já está quase lotado, e ainda temos meia hora. Há uma grande expectativa para este evento.
– Mas que bom! É ótimo saber que alguém ainda se interessa pelos meus trabalhos que eu quase abandonei.
– Não me diga... Quase abandonou?
– Sim. Na verdade, deixei os estudos sobre as índigo parados por muito tempo. Mas nunca deixei de acreditar nelas. É bem complicado. Mas se os alunos de psicologia estão interessados...
– É, na verdade, os alunos da faculdade são o público-alvo da palestra, mas ela também está aberta ao público externo. É bom para quem se interessa de fora também, mas o público externo está fraco, creio que por causa da baixa divulgação.
– Entendo.

– Quer dar uma volta pela faculdade enquanto não chega a hora?

– Depois de tanto tempo... Essa é uma proposta irresistível!
Eu e Lilith Gray demos uma bela volta de vinte e cinco minutos. Percebi como tudo tinha mudado. Deixei os cinco minutos restantes para me preparar.
Atrás das cortinas, percebia o falatório. Eles estavam agitados, o público lotado. Estava um pouco nervosa, talvez com medo de estar enferrujada... Mas eu não estava realmente acreditando que poderia me enferrujar em um assunto que estudei por tanto tempo. Ainda mais tendo dado uma lida na noite anterior.
Finalmente, Lilith Gray subiu ao palco e pediu silêncio.
– Boa tarde, futuros psicólogos e demais interessados. É chegada a hora, e com grande honra, anuncio a vocês. Nossa ex-aluna, que hoje é doutora, psicóloga, palestrante e escritora, vai falar para vocês um pouco sobre as Crianças Índigo. Com vocês, Dra. Angel Spark!
Entrei ao som dos aplausos.