Ícarus, anjo noturno

2 Uma carta de um cara maneiro


Olá, minha querida, como você está?

Esse sou eu de novo te incomodando para falar qualquer besteira que posso gerar algum assunto. Gosto de você e é por isso que sinto o prazer em incomodar, saiba que é isso que prova o quanto gosto de alguém, eu sei que isso é chato para você, mas tente compreender o meu lado. O lado de alguém apaixonado.

Sei que tudo o que escreverei nessa carta nem chegará a você. Afinal, quem hoje em dia escreve carta? Seria mais fácil eu escrever uma mensagem e apertar ‘Enviar’ no WhatsApp, mas tenho medo de te incomodar, estranho não é? Pois esse medo é uma contradição com o primeiro parágrafo dessa carta e é isso que eu gostaria que você entendesse: não gosto de te incomodar, porque tenho medo de você se cansar de mim (assim como todos) e parar de falar comigo; mas ao mesmo tempo quero te incomodar, já que é o único jeito de poder falar contigo. Se você soubesse quantas vezes escrevi ou gravei um áudio para conversar, mas sempre apaguei. Lembro-me de quando nos conhecemos e você disse que gostava de um bom fluxo na conversa, que ela fluísse naturalmente para que você pudesse responder com entusiasmo... acho que nunca fui capaz disso, não é? E novamente por causa do meu medo de te incomodar. Devo pedir perdão por essas coisas.

Você é uma pessoa tão incrível, queria um dia pode tocar esses lábios, mas tenho a impressão que, mesmo se um dia nos conhecermos, acho que não teria um beijo entre nós, talvez um abraço e risadas. Afinal, não faço seu tipo. Você aí toda linda, corpo estonteante, brilho no olhar que atrai atenção de todos, e eu sou apenas um jovem normal, com cara de cansado, não tenho tatuagens e nem um corpo perfeito que te atrai. Às vezes vejo você conversando com outros e percebo que não tenho nem como competir, eles são bonitos e eu nem chego perto disso. Por fotos você me acha bonito e deixo que continue a pensar assim, mas meu receio é que você se decepcione com minha aparência quando me conhecer, porém sou um cara maneiro.

Venha para a minha cidade. Se não vier, talvez eu vá à sua. Vamos sair, quero fumar e ficar bêbado ao seu lado. Enquanto escrevo, imagino a gente cambaleando pelas festas, nas ruas, vomitando no táxi e rindo muito. Talvez isso fique apenas na imaginação, mas é uma esperança que eu tenho que não fique.

Queria fazer parte da sua vida. Não digo morar perto, apesar de que isso seria bom, mas ser um amigo ativo onde você me procura para pedir conselhos, fazer brincadeiras e chorar nos áudios. Queria ser um alguém para você.

Quanto mais o tempo passa, o pouco contato que temos diminui. Algo aqui dentro de mim pede para que eu me afaste e esqueça, mas o outro lado não me deixa fazer isso, mesmo que haja sofrimento em ambas as partes, sendo razão e emoção.

Para finalizar essa carta, espero que você leia, estamos quilômetros e mais quilômetros longe um do outro, mas se ela chegar até você saiba que meu sofrimento é mais pelo fato de não sermos tão próximos, já que isso ajudaria e muito a não te incomodar do jeito que eu acho que incomoda.

Beijos e abraços,

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