Uruha's P.O.V.

Não conseguia dormir, por mais que quisesse. Também não tinha coragem de me aproximar, por mais desesperado que eu estivesse por algum contato. Continuei encarando as costas do sofá na sala escura, ponderando se Yuu já teria dormido ou não. Uma tempestade horrível desabava do lado de fora do meu apartamento, parecendo combinar com tudo o que estava acontecendo.

- Kou? Você esta aí?

Suspirei, finalmente saindo do lugar e dando a volta no sofá. Um raio cortou o céu, me permitindo ver o rosto de Yuu por breves segundos. Ele parecia tão cansado, tão perdido. Tão exausto de tudo o que estava acontecendo. O moreno foi para mais pra trás, abrindo espaço no sofá, num pedido mudo para que eu me sentasse. Mordi o lábio, ainda pensando que aquilo não era inteiramente certo, mas acabando por me sentar ali. Yuu estava deitado de lado, encarando a televisão desligada.

- Eu não sei o que fazer, Kou.

- Bom... não é como se houvesse alguma escolha... não é?

Ele não respondeu, apenas pensando em tudo o que o rodeava. Quase instintivamente, uma das minhas mãos foi remexer em seus cabelos. Eu tentava a todo custo não tirar conclusões precipitadas, embora quisesse saber o porquê de tudo aquilo. Afinal...

- Você sempre quis ser pai, não é mesmo, Yuu?

O mais velho acenou afirmativamente com a cabeça, sem dizer uma palavra.

- Então... por quê?

- Porque... eu me apaixonei por outra pessoa.

Outro trovão, ecoando tão alto que acabei por me encolher um pouco. Sentia uma pontada no peito, extremamente parecida com a que senti quando Yuu batera na minha porta, desesperado, dizendo que havia brigado com a sua namorada, Mayume. Ninguém da banda nunca havia visto os dois juntos, já que o nosso tempo era muito corrido e Yuu sabia ser discreto quando queria – só quando queria, mas sabia. E de repente, eu me via sem chão, sem apoio. Já sabia a um bom tempo que o que eu sentia por ele era um pouco mais que amizade. Bem mais.

- Yuu... você tem que conversar com a Mayume, ao invés de discutir. Pode ficar aqui o tempo que precisar, mas sabe que vai ter que fazer isso uma hora.

Novamente apenas acenou com a cabeça, em silêncio.

- E... se você não a ama... – continuei, um pouco mais hesitante – É melhor não continuar... não é? Quero dizer... só faria mal pra você, pra ela, pra criança... e pra pessoa pela qual você se apaixonou.

Ele sorriu de canto, a amargura de certa forma visível.

- Pois é. Antes éramos só nós dois. Agora são quatro pessoa afetadas por isso.

Yuu virou-se no sofá, me olhando tão profundamente que chegava até a assustar.

- Obrigado por me socorrer. Como sempre. Mesmo depois de tudo.

Foi a minha vez de sorrir, bagunçando seus cabelos.

- Não precisa me agradecer. E eu já falei... pra deixar essa história quieta, Yuu.

Não, eu não queria remexer naquelas lembranças turvas que a todo custo eu tentava manter firme na minha mente. Por mais masoquista que isso seria. Por mais que houvesse sido apenas uma única noite, fruto de muito álcool... eu não queria esquecer. Não queria me esquecer dos toques dele, o calor da sua pele. Yuu mordeu o lábio cheio, sentando-se no sofá, extremamente próximo a mim. Extremamente.

- Eu nunca esqueci, Kou.

- Yuu...

Ele nem se quer me deu tempo pra pensar ou respirar, uma de suas mãos indo até o meu rosto, me puxando pra mais perto ainda. E antes mesmo que eu percebesse o que estava acontecendo, seus lábios estavam nos meus com tanta necessidade, com tanto desejo, que por um momento eu até fiquei perdido. Mas foi só por um momento.

Continua...

Notas finais
Só pra constar que ao longo da história haverá sempre menções de dois virando quatro.