Épica

3 A Beira do Paraíso


Belfast, 1893

A Lua brilhava imponente no céu, mas ainda assim, Ariel não conseguia enxergar nada. Era como se a únicas coisas existentes fosse o espírito dele e o grande satélite com seu brilho prateado. Lentamente, algo atrapalhou sua luz. Olhos. Olhos amarelos. Olhos vermelhos. Olhos negros. Olhos demoníacos o encaravam. Pouco a pouco, ele conseguiu visualizar uma silhueta na qual os olhos pertenciam. Era um homem, porém, em suas costas, um grande par de asas que se abriram abruptamente bloquearam o luar, deixando-o em completa escuridão.

Um segundo após, ele estava de volta ao quarto da estalagem. A Lua também brilhava do lado de fora, mas dessa vez ele conseguia enxergar e não havia nenhum par de olhos e asas. Tentou respirar fundo, acalmando-se do sonho. Já deveria estar acostumado. Era só o que ele sonhava desde que tinha deixado Londres. Sempre essa silhueta misteriosa, atormentando seu espírito.

Levantou-se e perambulou pelo quarto, completamente sem sono. Por que estava tendo aqueles sonhos? Se fosse uma vez, seria normal, duas vezes, ele deixaria passar, mas isso já estava acontecendo há anos e essa era outra coisa que não encontrava explicação.

Lá estava ele novamente, procurando respostas.

Essa vontade de saber sempre o porquê o levara a lugares tão longínquos por tanto tempo que ele já se esquecera do som da voz de Helena. O dia de sua despedida não era nada mais do que uma lembrança evanescente.

Por cinco anos, Ariel tentara procurar outras formas de ser feliz além dos braços da amada, porém, a cada gota de álcool ingerida, cada abraço de outras mulheres, a cada tragada de ópio, parecia que sua vida perdia a força.

Parecia que sua vida perdia o sentido.

Sentou-se na sua escrivaninha, apoiando os cotovelos na madeira e segurando sua cabeça. Quando levantou a mesma, uma gravura lhe chamou a atenção. Era um desenho na qual retratava um ancião com uma luz brilhando atrás de si, em cima do globo terrestre e embaixo do mesmo, nas sombras, um humanoide com patas de bode, chifres e cauda.

Deus representando o bem e o Diabo representando o mal.

Ariel se perguntou quem tinha criado essa convenção. Afinal de contas, não era Deus que destruiu duas cidades inteiras? Não foi Deus que quis que Abraão matasse seu próprio filho somente para testar a fé do mesmo? Claro que ele o impediu, mas ainda assim, é um ato um tanto duvidoso. Até onde Ariel sabia, Deus matara milhares de pessoas enquanto Lúcifer levara somente uma.

Abruptamente, levantou-se da cadeira, olhando horrorizado para o livro. Como ele podia duvidar de Deus? De sua própria religião? Voltou a deitar-se na cama, pensando nos olhos em seu sonho. Não queria dormir. Não queria ter sua alma perfurada pelas orbes misteriosas que invadiam seu subconsciente todas as noites.

Mas ainda assim, nas profundezas de seu ser, ele gostaria de saber à quem pertenciam aqueles olhos e a silhueta que lhe visitavam todas as noites.

No fundo, ele gostaria de sentir o abraço sombrio daquele grande par de asas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.