À flor da pele
11 Quem é você?
Notas iniciais
Diana
Petrificada é a palavra exata para me descrever. Mas apenas fisicamente. Minha mente está em chamas. Vasculho em cada canto dela atrás de respostas.
Eu dormi com Theodor? Droga!
Ele mexe algum botão no painel e uma luz surge acima de nossas cabeças. Um sorriso dança em seus lábios.
– Por que é que eu tenho a impressão que você está pensando coisas sujas, Dia?
Minha boca se abre, mas nada sai.
– Eu não disse que dormimos juntos. Você notou isso? — Ele parece estar se divertindo bastante com a situação.
– Theo... — Eu acho que entendi. Mas só para ter certeza... — Nós transamos?
A gargalhada que ele dá me assusta, mas depois se torna algo bom de ouvir. Mas não por muito tempo. O vejo passar a mão pelos cabelos, que parecem úmidos. O sorrisão continua estampado em seu rosto. Até parece algo fixo, como uma tatuagem.
– Nós não transamos, Dia. Só a levei para seu quarto antes de sair. O chão estava realmente duro e desconfortável. Dormi por dez minutos ali e tive uma dor terrível nas costelas. Não poderia ir embora e te deixar largada lá.
– Oh... — Viro meu rosto para o outro lado. Encaro minha casa através do vidro. Não acredito que perguntei algo assim a ele. E não acredito que ele riu dessa forma... Acho que talvez a minha teoria de estar em seu menu seja falha. Como eu já suspeitava, ele não se interessa por carne do andar de baixo da pirâmide. Porque só pode ser isso. Por qual outro motivo um cara riria dessa forma?
Nem foi engraçado!
Passo as unhas por cima do adesivo em minha mão e logo paro, quando a dele pousa sobre a minha. Mão quente... Me obrigo a encará-lo. Meu corpo está quente. Especialmente meu rosto. Sinto até o nariz pegar fogo. Será que vou explodir em seu carro? Isso seria... Foco, Diana!
– Dia... — E lá está a tal rouquidão do telefone.
Minhas pernas se movem, involuntariamente, com o calor e câimbras que cresce entre elas.
– Quando nós dormimos juntos, biblicamente falando. – Ele morde o lábio momentaneamente, antes de continuar — Ambos vamos estar sóbrios. Ok?
Quando? Oh, meu deus!
– Theodor, eu não acho apropriado... — Começo a dizer mas o sorriso maroto dele me cala. Por que ele se tornou tão intenso de repente? Eu sempre fui muito consciente da sua presença, mas as coisas parecem estar um pouco... Demais?
– E eu nunca farei nada que você não queira, é claro, se isso serve para esclarecer alguma coisa.
Eu vou explodir! Vai começar por minha cabeça e então meu corpo. Como em filmes de terror.
– Então, jantar? — Theo dá uma leve inclinada de cabeça. Seus olhos brilhantes me lembra aqueles desenhos para crianças, quando o personagem quer alguma coisa e seus olhos se tornam grandes e brilhantes e seu rosto a coisa mais fofa do mundo.
Apenas concordo. Não estou em condição de abrir a boca ainda. A coisa está completamente fora de controle no meu interior. Um outro cara me dizendo essas coisas iria, definitivamente, conhecer meu lado educado pelo meu pai. Mas, é o Theo. Eu o tenho visto algumas vezes por alguns meses e ele nunca foi desagradável ou qualquer coisa. Sem contar que ele é amigo do meu “melhor” amigo. E lindo de morrer. Não quero causar problemas.
Ele liga o carro e então sai da frente da minha casa.
– Gostou do carro? — Pergunta animado.
– Sim, é lindo.
– É um Bentley Hunaudières, W16, faz 350. — Ele dá uma olhada rápida para o lado, para mim. Aquele sorriso sempre estampado nos lábios. — E você não faz a menor ideia do que eu tô falando, mas é engraçado falar, mesmo assim.
Dessa vez sou eu que rio. Me sinto ridícula também por nunca ter me importado em aprender algo sobre carros. Tyler ama falar sobre isso e sempre tem alguma novidade desse mundo. Se eu tivesse sido uma amiga mais interessada, saberia o que W16 significa, ou o que diabos o carro faz com 350...
– Sinto muito pela ignorância!
– Não se preocupe, não entendo nada daquela coisa de menininha em que você trabalha. — O olho indignada. Ele não pode ter dito isso. — Mas ainda gosto de você. Viu? É possível coexistirmos!
– Não estou tão certa... — Entro em sua brincadeira – Coisa de menininha? Sério, Theo? Bem você trabalha com coisas de menininho então.
– Fraco! — Ele zomba.
Penso por um momento.
– Bem, você é um garotinho que cresceu apenas de corpo, mas continua brincando com carrinhos!
– Carrões! E sim, eu ainda brinco. E essa foi pior ainda. Ah Dia, preciso te ensinar a arte de fazer pessoas chorarem.
– Você não me fez chorar! — O interrompo.
– Fiz sim, por dentro você está encolhida, toda ranheta, chorando.
– Oh, claro!
– Sabe — Ele não me olha dessa vez, fica com os olhos fixos na rua. — Não tem um dos modelos que vendo em que eu não andei. São máquinas fascinantes. — Ele diminui perto da praça que estou acostumava a correr e entra no estacionamento do prédio que mora. — Sabe quando você está passando pela vitrine e vê algo que te interessa? Então você se imagina entrando e obtendo aquela coisa, mas não o faz. Bem, eu o faço. Acho que minha coleção pessoal ultrapassa a frota da empresa.
Ok, totalmente desnecessário e até mesmo engraçado. Ele está tentando me "conquistar" com seus bens?
– Isso foi muito, muito, vulgar! Seu exibido!
Outra gargalhada. Estou me acostumando com esse som gostoso, ele passa pelo meu corpo todo e morre em meus lábios, em sorrisos largos.
– As vantagens de ser um milionário!
– Um convencido, eu diria.
Ele estaciona em uma vaga perto de um elevador.
– Que nada, sou bem humilde! — Ele pisca para mim, sai do carro e logo está do meu lado, abrindo a porta.
– Pensei que íamos jantar. — Digo nervosa. Ele mora nesse prédio, eu o vejo sair daqui todas as manhãs durante a semana. Não há equivoco quanto a isso. Será que eu devo inventar uma desculpa e fugir?
Ah caramba, que bobagem! É o Theo, Diana estúpida!
– E vamos! — Ele me oferece o braço. Um cavalheiro à moda antiga. Ou talvez os bons modos sejam apenas porque ele ainda não tirou uma “casquinha”.
– Você mora aqui. — Comento. Espero que ele não diga que eu fico o vigiando.
– Você anda me espionando, Dia?
Meu deus, ele é um telepata. Só pode ser isso!
– É você quem está dizendo.
Ele me leva para o elevador, me surpreendo ao ver que ele aperta "cobertura". Se bem que não poderia esperar algo diferente de uma personalidade tão conhecida e rica.
– Quando as pessoas convidam outras para jantar, geralmente, elas a levam para algum restaurante, sabe? — Digo tentando parecer engraçada, mas a verdade é que não teve graça nenhuma. Estou parecendo uma adolescente ansiosa para ir ao baile com o garoto popular.
Oh, deus, estou divagando.
– Dia?
Olho para Theo à minha frente. Ele já saiu e gentilmente usa sua mão para segurar a porta do elevador. E eu... parada feito uma idiota o encarando.
– Oh... — Saio do elevador. Estamos em um pequeno espaço. Um hall de entrada. Atrás de nós o elevador, a nossa frente uma porta de madeira grande e larga.
Theo volta a descansar a mão em minhas costas e me guia em direção à porta. Ele tira chaves do bolso da calça e destranca. Sou guiada para dentro de um cômodo escuro, que logo ganha luzes quando dou meu segundo passo.
Ele tranca a porta e isso me traz um certo sentimento de agonia. Sozinha com um quase estranho em sua casa.
– Por favor. — Ele me direciona através do piso branco de mármore. Entramos em uma sala ampla, com dois ambientes. Primeiro a sala de jantar, com uma enorme mesa de madeira para oito pessoas. Um lustre, grande e cheio de cristais, pende sobre o centro dela. E em cima, três bolas de vidro, de tamanhos diferentes, enfeitam. As paredes são brancas, mas uma delas, a que está atrás de mim, é um painel preto e branco da Marilyn Monroe. Seu rosto ocupa a parede toda.
Desvio o olhar e sigo para a próxima sala.
Dois sofás brancos e duas poltronas negras, dispostas lado a lado, formam 3/4 de um quadrado, estão virados para uma parede de vidro, que tem uma varanda do lado de fora. A mesa de centro, de madeira é um tom mais claro que a mesa de jantar e está sobre um tapete cor creme. Na parece, onde um dos sofás brancos está encostado, há um quadro de cores fortes. E ao lado do sofá uma folhagem.
Eu teria colocado a sala de visitas primeiro e a de jantar na frente da parede de vidro. Jantar sob um céu estrelado parece fantástico.
Para dizer a verdade, esse lugar não é o que eu esperava para Theo. Por algum motivo incompreendido, imaginei seu lar em preto e branco, com quadros abstratos que lembrariam, vagamente, corpos femininos. Algo mais másculo. Apesar de o lugar ser bonito, parece ter a mão de uma mulher. Talvez a decoradora dele. Ou a Jane sombria. Quem sabe até a mãe, ou uma ex...
Agora, por conta própria, ando em direção à varanda. Ultrapasso as portas francesas de correr e estou em um pequeno paraíso.
Há uma segunda mesa, tão grande quanto à de jantar e uma churrasqueira em um dos cantos. Espreguiçadeiras completam o visual. Isso definitivamente muda minha visão quanto à disposição das salas. Mas não consigo ter ideias para isso agora. Estou fascinada pela vista...
– Isso é incrível, Theo! — Digo, mas nem sei se ele ainda me acompanha. Acho que o deixei para trás ao ver tanta beleza.
– Incrível mesmo. É linda... — O encontro com meus olhos, ele não olha pra a vista. Olha parar mim, que desfio e volto a olhar a linda vista — Mas você tem que ver lá de cima. Consigo ver sua casa.
Isso gela meu corpo todo. O comentário e o fato de sua respiração surgir tão perto de minha orelha. Minha reação natural seria me virar rapidamente e o empurrar, mas se eu fizer isso, provavelmente acabarei mais perto dele do que gostaria.
Posso sentir o calor de seu corpo a centímetros do meu. Então sua mão roça na minha, e sem esperar, seus dedos se fecham sobre os meus.
– Você tem que ver... — Sou puxada quase que bruscamente, ou talvez porque meu corpo tenha demorado a responder, as coisas parecem ir rápidas demais nesse pequeno gesto.
Quando entramos, percebo um segundo andar no apartamento. Sou guiada para uma escada de mármore branco com laterais de vidro, mas não subimos, passamos por um par de portas francesas com entalhes mais trabalhados que a da varanda.
Assim que entro no cômodo, Tyler me vem à cabeça.
Estamos na sala de TV.
Os sofás negros, três deles, estão de frente para uma enorme TV. Que ocupa boa parte da parede branca. Os móveis negros contrastam com as paredes e piso.
– Tyler planejou sua sala. — Afirmo.
Ele fica de frente para mim, está sorrindo.
– Sim! Você é incrível. Com um olhar só.
– Estou acostumada a ele e suas manias. — Aponto os sofás negros sem pés. — Tyler diz que esse tipo de sofá é perfeito para homens. Não precisa se preocupar em limpar embaixo. — Theo acena em concordância. As paredes também tem algo familiar. — Os quadros... — Aponto as pinturas de mulheres nuas. Nada como eu imaginei para Theo, mas muito mais próximo do que conheci de sua personalidade até agora. — Ele tem quadros parecidos na casa dele. Embora os dele sejam muito mais vulgares. Mas aposto que são do mesmo artista.
Ele continua me observando, sorrindo.
– O tapete – Aponto o carpete peludo de tons cinza. — Eu me lembro dele dizer que quanto mais peludo melhor, para... — Fico constrangida em terminar e fico quieta, sentindo as bochechas corarem. Esse é o perigo de citar Tyler, 95% do que sai de sua boca é inapropriado.
– Para transar. — Ele completa com uma sobrancelha erguida. — T-r-a-n-s-a-r! — Soletra.
– Oh meu deus! — Levo as mãos ao meu rosto, envergonhada.
– Não faça isso, continue, estou achando muito interessante.
Não faço o que ele pede imediatamente, espero um momento, até que a vergonha diminua consideravelmente para que eu possa falar.
Céus, Theodor Blake é uma praguinha constrangedora. Não sei como sobreviver a essa noite se ele continuar assim.
– Ok...– Digo por fim. — As paredes... — As desse cômodo são trabalhadas com uma arte em relevo. A cor é a mesma por toda ela, branca, mas há relevos detalhadamente trabalhados, como aspirais. — Ele desenha todos seus projetos com essas paredes. É sua marca.
– Estou apaixonado. — Ele leva a mão cinicamente ao peito, antes de agarrar a minha mais uma vez.
– Agora vamos ver lá em cima. — Sou puxada para fora da sala e guiada para as escadas.
Quem diria que o grande Sr. Blake poderia ser tão intenso e... Adorável.
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