À flor da pele
6 Para que inimigo?
Notas iniciais

Diana
Um barulho desperta-me. Levanto a cabeça para encontrar Tyler rindo no meio do meu quarto.
– Desculpa...– Ele diz e se abaixa, pega algo no chão.
Meu abajur ainda está acesso, olho pro relógio no criado-mudo. Passou um pouco das duas da manhã. Vou estar péssima na hora de levantar. Sou empurrada pro lado pelo corpo grande de Tyler. Pelo menos ele teve a decência de colocar um pijama. O quarto de hóspedes é meio que dele. Ao menos duas vezes por semana ele vem dormir aqui, por isso tem a chave da porta e uma cômoda própria na minha casa. E tudo porque ele quis. Eu não permiti nenhuma dessas coisas...
– Quer saber como foi minha noite? — Ele pergunta depois de deitar ao meu lado e apagar o abajur, apesar do cheiro de pasta de dente, ainda tem um leve odor de álcool.
– Não! Boa-noite!
Viro-me de costas para ele, mas o abusado se mete embaixo das cobertas e puxa-me para perto dele, abraçando meu corpo. Odeio quando ele vem para cá bêbado. Sem beber Tyler já é sem noção, alto, do jeito que está, ele se torna insuportável.
– Para, Tyler. — Afasto-me e ele me puxa de novo, colando minha bunda em seu corpo.
Isso é demais!
O empurro com raiva e sento-me, acendendo o abajur de novo.
– Some! — Aponto para a porta.
– Mas... — Ele encara-me com aqueles olhos pidonhos que eu odeio. Se afasta, indo para beira da cama, mas não sai. — Não saio daqui...
– Tyler...
– Promessa de escoteiro! — Ele diz com falsa inocência.
Mas que droga! E ele nunca foi escoteiro...
Apago o abajur e deito-me, na outra extremidade da cama, deixando um grande espaço vazio entre nós.
– Pergunta vai... Pergunta...– Ele começa a sussurrar.
Insuportável...
– Te odeio, Tyler.
– Vai... Pergunta...– Ele continua sussurrando com a voz irritante.
Suspiro, irritada, com sono, querendo matá-lo.
– Como foi sua noite?– Cedo.
Ele gargalha.
– Nós transamos! — Ele anuncia.
Não entendo porque homens tem essa necessidade de dividir esses fatos, e não entendo porque ele tem que dividir justo comigo. Será que ele não tem mais amigos? Amigos homens talvez?
– Agora posso dormir? — Pergunto brava e ele ri, vem para mais perto e sou obrigada a esticar a perna e colocar o pé em sua barriga, o impedindo de se aproximar mais.
– Tão chata... Prefiro você bêbada!
Só bebi uma vez a ponto de ficar bêbada e logo apaguei. Não me lembro de quase nada daquela noite, o que me impede de saber o que realmente Tyler gosta em mim nesse estado.
– Boa-noite, florzinha...– Ele diz, já de voz baixa. Mostrando que está tão quebrado quanto eu.
Mal consigo acreditar quando sua respiração fica mais pesada. Geralmente ele leva uma hora ou mais para pegar no sono quando vem. Baixo minha perna e deito-me um pouco mais pro meio, mantendo uma distância segura dele. Então relaxo e é tão bom, tão gostoso sentir seu corpo adormecer antes da sua mente, só esperando pro apagão geral. Que não tarda.
***
Abro os olhos e vejo o Sol ultrapassar a janela.
Às vezes você acorda e percebe que o Sol não deveria clarear seu quarto de tal forma. Que a intensidade da luz não está como nos dias anteriores. O barulho vindo da rua parece mais alto, ele deixa quase inaudível o barulho do canto dos pássaros que, geralmente, é o que se acorda escutando. Então, o consciente percebe tudo. Ele se dá conta que nada é como geralmente é, porque as horas não as mesmas dos dias anteriores.
Sento-me assustada, procurando o relógio. Quando o encontro assusto-me, quase meio-dia!
– Merda, merda, merda, merda! — Digo irritada. Por que a droga do celular não despertou antes? Eu nunca cheguei atrasada ao meu trabalho, especialmente depois da hora do almoço. Isso é uma tragédia!
Saio da cama, olhando em volta, movimentando-me sem saber exatamente para onde ir. Estou totalmente desnorteada e sinto uma fisgada na canela. Provavelmente pela batida no degrau da escada, ontem.
Tênis... Preciso do tênis e da roupa de caminhada.
Isso!
Caminho em direção à cômoda, para pegar a calça e o top, mas percebo, bem irritada, que estou fazendo merda. Estou atrasada, como é que vou sair para caminhar? Mas que droga, não consigo nem pensar direito.
Paro e respiro fundo.
Banho. Trocar de roupa. Sair. Inventar desculpa no caminho.
Agora sim!
Pego a roupa separada no guarda-roupa. Roupas íntimas e então vou pro banheiro. Penduro tudo em um gancho na parede e entro no box, ligo o chuveiro e deixo a água em temperatura morna. Um banho é a única coisa capaz de me despertar totalmente e me acalmar, mesmo que momentaneamente.
Não me demoro ali, estou sem tempo. Saio apressada do box, secando-me com uma toalha branca e logo me visto.
O vestido preto, colado, entra com dificuldade pela pele úmida. Depois acrescento o casaco branco e saio do banheiro, indo direto para frente da penteadeira, junto o cabelo bagunçado em um coque e o prendo com um palito. Como os fios não são longos, algumas mechas escapam e as coloco atrás da orelha.
Pego os saltos e saio apressada do quarto, mas ao chegar à escada volto correndo. Esqueci o celular, o relógio, o pen-drive.
Pego o relógio, um par de brincos e o pen-drive, mas não acho o maldito celular. Não é à toa que ele não tocou. Será que deixei no cômodo de baixo, com o susto que Tyler me deu? E por que esse maluco não me chamou? Não acredito que ele foi trabalhar sem me chamar.
Maldito Tyler!
Vou para sala, sento-me no sofá e coloco os saltos brancos. Pego minha bolsa e guardo o pen-drive. Coloco o brinco de pérola que peguei e o relógio prata. Então me levanto, olho em volta, atrás do meu celular. Não o acho. Mas que se dane. Ando para o corredor, assustando-me com a fisgada forte que sinto. Paro para estudar a canela e vejo a pele começando a mudar de cor. E a batida não foi tão forte, mas com essa pele branca é fácil ficar com hematomas.
Vou à cozinha, que está uma bagunça. Saco de pão aberto na bancada, farelos na mesa e no chão. Manteiga aberta na pia e xícara suja.
Fecho os olhos e respiro fundo.
Depois Tyler ainda pergunta o porquê eu não moro mais com ele.
– Se acalma... Se acalma... — Repito para mim mesma. É só limpar depois e tudo fica certo de novo.
Abro meus olhos e olho em volta, procurando o maldito aparelho de celular. Não o acho e quer saber? Não tenho tempo! Posso perfeitamente viver bem sem o celular por um dia.
Vou pro corredor e procuro a chave do meu carro no aparador. Não está ali.
Não acredito, não acredito, não acredito!
Respira, Diana. Calma!
Pego a chave de casa e destranco a porta, indo direto para garagem ao lado e não encontrando o meu carro.
Tyler bagunça a minha vida. Desde o primeiro momento que o vi e a cada dia, as coisas só ficam piores. Às vezes sinto que sou capaz de matar aquele maluco, tão propenso à bagunça e a deixar-me irritada. Não sei como ele consegue sobreviver sendo como é.
Táxi! Preciso de um táxi.
Entro e vou pro telefone, percebo um envelope ali, é uma conta. Tyler deve ter recolhido de manhã.
Tiro o telefone do gancho e começo a discar o número, mas um barulho no portão chama atenção. Coloco o telefone no gancho e vou até a porta.
Tyler está no portão, mexendo na tranca. O meu carro está estacionado na frente.
– Tyler! — Digo furiosa. Não queria soar dessa forma, mas sai naturalmente.
Meu amigo, que usa uma camiseta e um jeans velho, sorri para mim. O cabelo dele não está impecável como sempre. Nem uma gota do tal produto milagroso, o que faz os cabelos negros ganharem cachos e um pouco de volume. Os óculos escuros escondem os olhos e nos lábios um sorriso.
– Bom-dia, querida! Cheguei! — Ele abre os braços e espera que me aproxime para arrebatar-me em um abraço. Abraço que recuso. O empurro.
– Por que não me chamou? Tô atrasada! Te odeio tanto Tyler Becker! – Tento dar um tapa nele, mas ele segura minha mão e ri.
– Olha, você caiu, torceu o pé e foi ao médico. Dony entendeu.
O olho confusa e ele aponta para minha canela meio roxa, meio amarelada.
Meu amigo é, e sempre foi, um observador. Uma prova disso é ele ter percebido algo assim tão rápido. Mal nos vimos de ontem para hoje. Mas espera um pouco... Volto as palavras dele em minha mente... “você caiu, torceu o pé e foi ao médico. Dony entendeu”.
Puxo o ar para meus pulmões e depois os solto. Parece algo tão simples momentaneamente, mas logo uma dor no peito e uma tontura me deixam um pouco vacilante, fazendo do simples ato de respirar algo nada natural.
– Di, respira. — Ele fala sério, segurando-me pelos ombros. Estou hiperventilando. — Respira... devagar. Me acompanha... — Ele começa a puxar o ar pelo nariz e soltar pela boca, bem devagar, para que eu o imite. — Isso.
Sinto a pressão no meu peito diminuir e então sou guiada para dentro de casa. Empurrada para sofá e em instantes tenho Tyler levando um copo de água à minha boca. Tomo o copo de sua mão e dou um gole, depois deixo na mesinha de centro. Meu amigo encara-me preocupado, está de joelhos ao meu lado.
– Você... — Começo a dizer, mas aquela pressão no peito começa a voltar. Fico quieta, só concentrando-me em respirar adequadamente. Quando sinto-me melhor, recomeço a falar, mas bem devagar, para não perder o controle de novo. – Cadê meu celular? — Digo e ele faz um biquinho, segura o riso e então fica em pé, retirando o aparelho branco do bolso de trás e entrega. O coloco na bolsa. — Ok... Você ligou pro Dony?
Ele concorda. Fecho os olhos.
Respira, Diana, respira.
– E mentiu para ele?
Abro os olhos.
– Qual o drama, princesa? Precisamos de um tempinho para cuidar dessa casa. — Ele se senta no sofá de frente para o que estou. Se esparrama e sorri. — E ele não ficou bravo, disse que tudo bem e desejou melhoras. Ele é um fofo, não é? Pena não ter uma barriga tanquinho... — Meu amigo pisca. Ele leva-me ao limite. Está para nascer pessoa que me deixa mais nervosa que Tyler Becker.
– Tyler... — Levo a mão ao rosto. Ele está passando dos limites. Alias, já passou faz muito tempo. — É meu emprego, eu não posso faltar dessa forma. Eu tenho uma programação a seguir. Tinha clientes a receber hoje, prazos a cumprir. O que há de errado com você?
– Agora já tá feito, relaxa e goza! – Ele ri.
São inacreditáveis as merdas que ele faz.
– E seu trabalho? — Pergunto não conseguindo mais esconder toda a minha chateação.
– Tive uma dor de estômago graças a algo estragado que comi ontem, dá para acreditar?
Começo a negar. Pego minha bolsa e atravesso a sala, indo em direção à porta atrás do sofá maior. Abro e entro na pequena biblioteca e escritório que mantenho. Não posso ficar perto de Tyler agora, quero matá-lo. Tranco-me no cômodo.
Deixo a bolsa em cima da mesa e respiro fundo.
Como uma pessoa pode ter a audácia de fazer tais coisas? Tyler não tem um pingo de vergonha naquela cara. Isso não é coisa que se faça. Posso perder o emprego, ou ele. Respiro fundo e pego o celular, tem uma mensagem, mas ignoro. Procuro o número do celular meu chefe e disco. Pela hora ele deve estar saindo para almoçar.
Me sento numa poltrona creme que tem no cômodo e relaxo momentaneamente.
– Alô? — Ele atendo no primeiro toque. Cedo demais, deixando-me nervosa de novo. As pessoas não deveriam atender o telefone antes do terceiro toque. Fico com a impressão que estou atrapalhando. Que ele estava prestes a ligar para alguém, ou usando para trocar mensagens, por isso estava tão fácil atender.
Estou sentindo meu rosto quentíssimo. Não sei se digo a verdade, ou se continuo a mentira. Nunca menti sobre algo tão grande assim. Isso pode custar meu emprego, que embora não seja dos melhores, é o que paga minhas contas.
– Dony? É Diana...
– Oi querida, está melhor?
Droga, e agora? Ele vai me demitir se eu disser que só dormi demais?
Pensa rápido, pensa rápido, pensa rápido!
– Estou melhor... — Digo, envergonhada.
– Que bom, descanse. Espero que não seja nada sério. Seu namorado disse que foi uma torção.
Namorado?
Tyler, Tyler, Tyler!
– Não chegou a tanto, mas ficou bem inchado. — Minto. Pelo menos tenho o roxo da batida para me acobertar. — Escuta, eu acabei ontem o projeto do Hoen e tenho algumas ideias pro projeto do Harold. Se estiver tudo bem para você, eu gostaria de continuar a lidar no esboço aqui em casa e te envio o do Hoen concluído.
– Não há necessidade, Diana. — Dony é a gentileza em pessoa, o que torna tudo pior. Sinto-me um lixo por mentir para ele. – Tire o dia para descansar, querida. Vamos sobreviver sem você por algumas horas.
Ele ri do outro lado.
– Ah Dony, obrigada! Mas estou péssima em casa sem nada para fazer. Eu prefiro dessa forma. Ocupa minha mente com algo útil.
Ele suspira.
– Bem, então tudo bem. Mas, não se esforce demais. Vou esperar o projeto do Hoen.
– Obrigada. — Digo, com a culpa liberando um pequeno momento de paz.
– Eu que agradeço! Melhoras!
Desligamos e apesar de sentir-me um pouco melhor, ainda estou com a culpa corroendo-me por dentro. Automaticamente minhas unhas começam a arranhar as costas da minha mão. Eu até tentei não fazer, segurar-me. Mas acaba sendo um jeito tão automático e, momentaneamente, libertador. Até que vem a dor.
Percebo que tirei uma das casquinhas e um fio de sangue vai se formando.
Ordem! Preciso impor ordem a toda essa bagunça, ou o pequeno fio de sangue vai acabar em uma noite no hospital levando alguns pontos.
Ok, é exagero. Até mesmo porque antes de me machucar, eu iria querer é machucar Tyler. Despedaçar todo aquele rostinho e corpinho de modelo de cuecas.
Começo a contar até dez. Depois recomeço, dessa vez até vinte. Sempre recomeçando e acrescentando mais dez. Até que paro no cinquenta. É estupido, mas ajuda meu cérebro a manter o foco. Às vezes.
Saio do escritório, descalça, e vou para cozinha, de onde vem barulho. Ao chegar, sinto-me aliviada. Tyler assovia uma canção qualquer enquanto enxuga a louça. A mesa e bancada estão limpas e o chão varrido.
– Ainda te odeio. — Anuncio e ele para a canção, se virando e sorrindo.
– Mas agora um pouquinho menos.
Faço bico, mas concordo com ele. Um pouco menos agora. Mas bem menos.
– Olha. — Ele deixa o pano de lado e descansa o prato que enxugava em cima da pia. Se aproxima da mesa e pega minhas chaves, que não lembro de ter deixado ali. — Essa aqui... — Ele ergue uma chave pequena, nova, que não estava ali antes. — É do cadeado do portão.
– Eu tenho um cadeado agora? — Sorrio.
– Sim e deveria ter comprado na primeira vez que falei, anos atrás. Peguei o carteiro na porta hoje de manhã. Por que diabos ele vem até a porta se a caixa fica na rua?
Dou de ombros.
– Deve ser um carteiro das antigas.
– Ou um maluco. Diana... — Ele para em minha frente, sério. — Você tem consciência de que é uma garota indefessa vivendo sozinha em uma selva, cheia de feras assassinas e famintas?
Começo a rir. Exagerado, como sempre.
– Estou bem, papai! — Desvio-me dele e vou para a bancada, retirando uma maçã da cesta e a lavando na pia.
– Por enquanto. Sabia que seu sistema de alarme não está funcionando?
– Bem, tem uma placa no muro, não importa se ele funciona, as pessoas só tem que saber que tenho e pensar que funciona. E não tá assim tão mal, ele funciona no andar de cima.
Verdade! A última vez que entrei sem desligá-lo, ele apitou só quando terminei de subir as escadas. Mas, de qualquer forma, são preocupações à toa do lado velho do Tyler. Esse bairro é tranquilo, por isso o escolhi. A taxa de criminalidade aqui é quase nula.
– Relaxa, acaba de guardar a louça e some. De verdade, Tyler. Você já me deixou muito nervosa hoje.
Como a maçã ali, de frente para pia.
– Por que tá comendo uma fruta? E o almoço, Diana? — Ele muda de assunto, um pouco bravo. Quando ele inventa de deixar o lado responsável vir a tona é um tal de “salve-se quem puder”.
Termino a maçã com grandes mordidas e jogo o miolo. Lavo as mãos.
– Tyler, eu não tenho mais 10 anos! — Afasto-me dele, partindo pro corredor e subindo as escadas. O escuto reclamar atrás de mim, mas o ignoro. Vou direto para o quarto e fecho a porta, a trancando.
Já que vou ficar em casa nada mais justo que fazer isso ao estilo...
Tiro minha roupa e coloco no cesto, mantendo apenas as peças íntimas. Encontro um pijama largo e confortável e o visto, colocando um roupão por cima, encontro no armário minhas pantufas peludas e confortáveis em forma de garras, presente do Tyler, pego meu notebook, carregador de celular, mesa de desenho e vou pro escritório. Coloco o celular para carregar, enquanto ligo notebook e arrumo a mesa. Tranco-me ali, para ter um pouco de paz.
Paz...
Como é bom poder desenhar sem terceiros em volta incomodando. E o fato desse planejamento ser livre no primeiro momento só torna tudo mais prazeroso.
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