À flor da pele
82 Enfrentando o inimigo
Notas iniciais
Diana
— Não precisamos fazer isso agora. — Theodor me diz. Mas eu preciso, sim.
Olho para cada foto minha encontrada onde fui mantida. Fotos de momentos privados, enquanto eu dormir, fotos nuas, foto com Theodor e Tyler. E as cartas que recebi sem remetente. Se as tivesse aberto, talvez tivesse visto isso chegar. As poesias bonitas foram trocadas por fotos e ameaças.
Recebi alta há três dias atrás e desde então Theodor tem sido minha sombra. Sei o que ele está esperando, que eu quebre. Só que ele não sabe que já o fiz. Isso aconteceu quando eu estava sendo espancada por aquele homem. Eu fui estilhaçada e então reconstruída naquela noite. E esse homem? Agora ele tem um nome.
Bernard Mayfort.
Dado como morto no ano de 2000, quando a casa que hoje moro pegou fogo. Um homem que não vai pagar por seus crimes atrás das grades, porque seu advogado entrou com um pedido de adiamento de julgamento, porque ele é mentalmente incapaz. Como alguém que consegue planejar tudo isso, se manter escondido por tanto tempo, enganar dezenas de pessoas, pode ser mentalmente instável? Para mim é um psicopata brilhante.
— Eu quero falar com ele. — Peço ao detetive responsável pelo caso.
— Claro que não, Diana. — Theodor se manifesta.
— Sim, eu quero. Eu preciso fazer isso.
Theodor me disse que está preocupado que não tenho sido eu mesma. É difícil ser quanto tem tanta coisa reprimida dentro de mim. Tantos sentimentos, emoções, ideias, tanto tudo.
— Isso precisa ser feito hoje, se é o quer mesmo. Ele será transferido amanhã para um manicômio judiciário onde vai esperar pelo julgamento. Se sair.
Theo senta-se ao meu lado e segura minha mão.
Quando recebi alta, ele me levou para sua casa. Terry me deu algumas roupas suas. Eu não poderia usar as minhas, não poderia pisar naquela casa depois que meu pai me contou o que estava acontecendo. Hoje é o dia que vim dar meu depoimento. Imaginei que fizesse diferença, mas o estado já tinha tomado sua decisão e depois do julgamento, eles provavelmente vão mantê-la.
— Eu não quero que se machuque. — Ele me diz, com a voz embargada de dor. Me deixa triste vê-lo dessa forma, mas a nova Diana precisa resolver seus problemas e enfrentar seus medos. Claro, não é fácil. Eu quero correr e me esconder em algum canto, gritar até que me sinta melhor.
— Eu vou me machucar, Theodor. Olhar para ele, falar com ele, sabendo o que passei. De como ele invadiu minha vida... — Aponto para as fotos. — Mas eu preciso disso para me curar.
Ele me abraça forte e beija minha testa. Sei que ele se culpa, mas eu preciso aliviar o que estou sentindo antes de poder libertar ele disso.
Um passo de cada vez, como disse Thomas.
— Vou ver o que posso fazer. — O detetive diz e se afasta. Ele não volta antes de uma hora depois, com o advogado de defesa.
— Eu sou contra isso. — O homem alto e sério diz. É simplesmente errado que um cara tão bem afeiçoado e de aparência sã defenda um criminoso, pego em flagrante, e com tantas provas. Mas acho que é apenas assim que a “justiça” funciona.
— No entanto seu cliente deseja vê-la. — O detetive diz autoritário.
— Ele não é capaz de decidir isso.
— Ainda não foi aprovado isso, até que venha uma ordem direta de um Juiz, isso não é verdade.
— A ordem já foi emitida, vai chegar a qualquer momento...
— Mas não chegou. Diana, me acompanhe.
Me levanto com Theodor e somos guiados para uma sala no final de um longo corredor.
— Vou entrar com ela. — Theo diz, mas começo a negar.
— Eu vou entrar com ela e com o Advogado. É o que a lei permite no momento. O Sr. espera e assiste daqui. — O detetive abre uma porta para Theodor, que entra, mas não sem me dar um beijo na testa e um abraço apertado.
Então vou para porta do lado. Com o detetive.
Meus medos deslizam por minha pele, arrepiando minha meu corpo.
O meu atacante está sentado, algemado a mesa. Seu advogado se aproxima e senta ao lado dele, começa a falar. Mas não sei o que diz, só consigo olhar para esse monstro que quase destruiu tudo.
Sinto falta de ar, não acho que tomei a melhor decisão. Não posso nem sequer olhar para ele, tudo volta para mim, como se estivesse vivendo de novo aquele pesadelo.
— Não vá... — Sua voz grossa me assusta. Não tinha percebido, mas estou na porta, pronta para sair, mas me obrigo a encará-lo de novo.
Seus olhos estão inchados, roxos e o lábio está cortado. Isso foi Theo que fez, Amy me contou. Ele também levou vários pontos no rosto. Essa parte eu sou a responsável. Porém, gostaria de ter feito mais.
O detetive está em pé ao meu lado, ele segue cada passo meu.
Olho em volta, o lugar tem paredes manchadas, cheiro de água sanitária. Em uma das paredes tem um enorme espelho, que eu sei, é onde Theo está nos assistindo. Saber que ele está ali me acalma um pouco.
Caminho para a cadeira de frente a ele, com passos lentos e assustados. Não me sento, fico em pé me apoiando no encosto e o detetive sempre ao meu lado.
— Não diga nada. — O advogado dele instrui.
— Você está linda.
Pânico começa a me dominar, respiro fundo, não posso falhar.
— Eu não estou. — Toco meu rosto, onde sei que tem uma contusão que o cinto dele fez. — Você fez isso para mim.
— Você fez isso para você.
— Não diga nada. — O advogado repete, mas ele não tem uma chance.
— Cale a boca. — Meu atacante diz ao advogado.
— Por que me levou?
Ele sorri. Ao menos que seja um sorriso, seu rosto machucado torna isso uma careta.
— Porque você me pertence.
— Eu nem te conheço.
— Eu te conheço. Você é como eu.
Como ele? Psicopata? Acho que não!
Algo estala dentro de mim. Talvez eu seja um pouco como ele, porque acho que entendi o que quis dizer. Mas não quero que nossa conversa seja usada a favor de sua causa “mentalmente incapaz”.
— Você violentou uma das moradoras?
— Não responda. — O advogado diz, mas dessa vez sem ênfase alguma. É como se ele dissesse apenas porque o papel exige. Olho para ele, que me dá um leve aceno.
— Sim.
— E matou uma delas?
— Matei.
A mão do detetive alcança minhas costas, me incentivando.
— Por quê?
Ele olha para cima por um momento então volta a me encara e sorri.
— Elas não eram a certa.
— Certa para o quê? — O detetive pergunta, mas ele não responde. Só olha para mim.
— Certa para o quê? — Repito a pergunta.
— Para mim. Você é.
O detetive se aproxima e cochicha para mim.
— Pergunte se ele é doente, se sabe o que fez, se alguém o mandou fazer.
Não quero perguntar isso. Não quero ajudar a ele se safar caso decida se passar por louco, mas o fato é, eu quero saber também.
— Você é doente?
— Sou como você.
— Eu não sou doente. Posso distinguir o certo do errado. Você pode fazer isso?
Ele concorda.
— Eu posso, mas isso não significa que eu queira. Eu queria você, mas nunca me deu uma segunda olhada quando era seu vizinho. Por várias vezes cruzei seu caminho e nunca me olhou. Então peguei o que queria. Você vai querer quando me conhecer. Quando ver que somos a mesma coisa.
Nego e tropeço para trás, querendo me afastar dele.
Paro quando estou encostada no espelho.
— Nós não somos iguais. Eu não matei ninguém. Ou sequestrei. Não machuquei...
— Me machucou. — Me interrompe.
— Para me proteger.
— Eu nunca teria te feito mal se não tivesse me atacado.
— Nunca? Você me sequestrou! — Deixo a minha raiva vir à tona.
— Para seu bem! Nós devemos ficar juntos! É assim que as coisas são.
Lágrimas quentes escorrem por minhas bochechas, não posso mais suportar isso.
— Eu quero sair. — Digo ao detetive.
Ele pega em meu cotovelo e me direciona para a porta.
— Eu vou matar aquele seu amante. Vou castigar você e vou te dobrar. Você vai ver que somos melhores juntos. — Suas palavras são uma ameaça sombria. Por mais que eu saiba que ele vai estar preso em algum lugar, nunca vou conseguir ficar em paz, esperando que ele apareça e cumpra o que prometeu.
— Eu espero que morra...
— É o que deseja?
— Com todo meu coração.
A porta é aberta e estou fora, nos braços de Theodor, enquanto choro como uma criança perdida.
Enfrentar meus medos foi a pior decisão da minha vida.
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