À flor da pele
71 Diz de novo
Notas iniciais
Diana
Diante do espelho da penteadeira no meu quarto, estudo meu queixo e, como já sabia, não encontro nada, nem rugas entre as sobrancelhas. Não que tenha realmente acreditado que havia algo...
Estudo meu rosto corado, olhos brilhosos e lábios inchados. Essa Diana de agora é totalmente contrária a pessoa que eu era algumas semanas atrás. Às vezes me pego pensando se toda essa mudança veio apenas dele. É difícil aceitar que alguém possa ter tanto poder sobre outro. Mas, por outro lado, eu sei que isso é possível. Já não vivo eu sob o medo constante de desapontar minha mãe? Com medo de que ela decida que precisa interferir em minha vida e que me falte coragem para fazer alguma coisa?
Ao menos essa mudança, se veio dele mesmo, foi algo bom.
Talvez relaxar tenha feito o truque.
Theodor entrou em minha vida e bagunçou tudo. Ou consertou, depende do ponto de vista.
Mas a grande coisa sobre tudo isso, é que essa é a primeira vez que olho no espelho e gosto realmente do que vejo. Não é sobre a aparência em si. É a luz que vejo refletida em meus olhos, o sorriso bobo que raramente larga meu rosto quando ele está por perto e os ombros relaxados. Eu gosto muito disso. E o Theo também.
Ou melhor, ele ama.
Ama tudo sobre mim...
Me pego sorrindo ainda mais no reflexo do espelho.
Amo Tyler, mas dessa vez realmente queria que ele não estivesse aqui. O que Theodor teria me dito se Ty não aparecesse ou demorasse apenas cinco minutos a mais para entrar?
Não quero ser a garota que se engana pensando que o um cara está caindo de amores, quando ele apenas considera só mais uma em sua lista. Mas... Theo não é assim. Talvez eu esteja apenas me enganando, no fundo realmente acho que nós nos conectados de uma forma muito profunda. Sinto que o conheço a vida toda.
Estou ansiosa. Nunca me imaginei nesse papel, como a mulher que alguém quer. Que alguém, possivelmente, ama. Não com todos os meus problemas. Mas sinto que chegar a isso era inevitável, de ambas as partes. O calor que se acende nos olhos de Theodor quando ele me vê, é tão parecido com esse mesmo brilho que encaro agora. As palpitações desgovernadas em seu peito quando ele me abraça... Tudo isso só denuncia que chegamos aquele lugar importante no coração um do outro.
Só rezo para não estar errada e me iludindo. Seria um golpe duro permitir alguém ir tão longe no meu coração só para me deixar quando se cansar.
Uma batida na porta me tira dos meus devaneios. Respiro fundo e puxo o decote da minha blusa para cima.
Admito que posso ter escolhido a blusa justamente pelo decote cavado... Mas isso era apenas para Theodor, não achei que alguém iria aparecer tão cedo realmente...
— Di? — A voz e Tyler chama do outro lado da porta. Surpreende-me que ele esteja batendo. Não consigo lembrar quando foi a última vez que ele fez isso.
Me aproximo da porta e a abro, sentindo meu rosto queimar de vergonha.
— Adorável... — Meu amigo diz ao me estudar. Ele ergue a mão e acaricia minhas bochechas. — Vamos descer, querida. Jane está ansiosa por passar um tempo com o irmão e a namorada.
Eu concordo e o sigo. Nesse momento nem sequer me lembro que ainda estou brava com Tyler por ele ter levado Peter na casa do Theo. Sem contar que ele atrapalhou algo... Mas quem pode dar bola para esses pequenos detalhes quando sua vida está indo tão bem de repente? Eu não quero estragar isso, só quero aproveitar que meu namorado saiu vivo e inteiro de um assalto violento e que está seguro e saudável em minha casa.
***
Conforme os dias passam, eu posso dizer que vejo Theodor Blake com novos olhos.
Terry me disse um dia desses, em uma conversa de garotas, que só se conhece alguém quando se vive junto por um tempo. Concordo com ela.
No meu caso, foi uma boa descoberta. Theo é ciumento, possessivo, mandão algumas vezes, e extremamente doce. Uma grande e fascinante contradição.
Ele insiste que eu não devo chamá-lo de fofo, mas não consigo pensar em outra palavra para descrevê-lo.
Ao mesmo tempo em que está reclamando comigo por ser simpática demais com seus amigos homens, ele está massageando meus pés e me olhando com profunda adoração.
Na semana passada, durante minha chamada no Skype com o Liam, ele apareceu e sentou ao meu lado. Fiquei um pouco constrangida, afinal, meu pai estava por perto e assim que ouviu a voz dele, se juntou ao meu sobrinho. Foi constrangedor, para dizer o mínimo, porém, Liam levou apenas alguns minutos para fazer amizade com ele. Foi uma chamada interessante. Até mesmo meu pai parecia confortável no final. Mas o que me pegou de jeito foram suas palavras após desligar a chamada.
“Mal vejo a hora de conhecê-los”.
Minha família sempre foi meu calcanhar de Aquiles. E isso por muitos motivos variados. Minha mãe pode ser tão dura quanto uma rocha e eu nunca soube se poderia apresentar alguém especial para ela. O medo de sua desaprovação sempre me perseguiu. Os poucos amigos que apresentei acabaram se distanciando, o único que ficou por perto, Tyler, ela não suporta.
Papai e Julie são o completo oposto. Meu pai adora Tyler, assim como Julie. No entanto, eles podem ser bem excêntricos... Provavelmente Liam é o único normal.
De qualquer forma, em nenhum dos meus relacionamentos deixei minha família fazer parte. Ah não ser com Tyler, mas é algo platônico, ele é meu melhor amigo e meu pai praticamente o adotou quando se conheceram.
Theo é o primeiro a invadir essa parte da minha vida e não estou assustada por isso, só... Encantada. E ansiosa.
Outra coisa que tem agitado as coisas é a reforma no apartamento de Theodor. Eu fiz tantos desenhos, com estilos variados, inspirado em sua personalidade gentil e dominante. No fim, ele não sabia o que escolher e eu simplesmente queria fazer todos os projetos. Acho que foi a primeira vez em muito tempo que realmente me animei com alguma coisa. O fato dele ser meu namorado pode ter ajudado, mas foi, especialmente, pela liberdade criativa que ele me deu desde o primeiro momento.
Depois que finalmente escolhemos os desenhos, comecei a entrar em contato com as pessoas que costumo contratar no trabalho. Mas, é dezembro e conseguir moveis planejados nessa época do ano é impossível. Mas não para Theodor. Ele não pensou duas vezes ao oferecer o dobro para ter sua casa pronta antes do natal. O que eu realmente duvido que vá acontecer... Mas estou até que positiva sobre a coisa toda.
Vou para o quarto, atrás de Theo, que está muito quieto desde que subiu.
O encontro na cama, encostado nos travesseiros, lendo uma revista.
O médico que o está tratando esteve aqui ontem de tarde, ele nos levou em sua clinica, que estava fechada, e fez exames em Theodor. Segundo ele, esta tudo bem, mas ainda é cedo para fazer muito esforço. Minha língua coçou para contar sobre todas as coisas que ele anda aprontando, mas fiquei quieta. Embora lhe tenha lançado um olhar que disse tudo.
Theo abre um sorriso malicioso, baixa a revista e me dá uma boa visão do seu peito nu. Os cabelos estão úmidos.
O médico disse que ele pode tomar seu banho sozinho, contanto que evite ficar erguendo os braços. Então, eu prefiro estar por perto nessas horas, mas não é como se ele realmente se importasse com isso.
Theodor Blake faz apenas o que quer e quando quer.
— Venha aqui, namorada. — Ele diz mandão.
Eu sempre estou fugindo de suas investidas, mas sinto falta dele e de todo contato que estava me acostumando a gostar tanto. Cada vez é mais difícil me afastar e deixá-lo tranquilo para descansar e sarar. Hoje parece que será uma dessas noites...
Cruzo os braços e o encaro.
— Precisa colocar uma camiseta, está frio.
Por um momento me sinto mal por não ficar mais atenta a ele. Eu poderia ter o ajudado depois do banho. Vai saber quanto tempo ele ficou descamisado passando frio, mas, logo descubro ser só mais uma de suas artimanhas. Ele enrola os braços em minha cintura assim que me aproximo e me puxa para seu colo, se contorcendo levemente no processo.
— Meu deus, Theo! Você vai piorar seus machucados assim.
— Eu estou bem, Dia. Mas eu vou ficar muito doente se você não começar dar a devida atenção à outra parte do meu corpo.
Coro até a ponta dos pés.
Depois de quase um mês juntos, ele ainda consegue me deixar completamente corada.
Levo a mão ao meu rosto, apenas querendo sentir sua pele, mas o teimoso ergue seu braço e captura minha mão com a sua e começa a distribuir beijos pela palma, então pelos dedos. Ele é sempre tão carinhoso e gentil ao me tocar. Isso sempre me quebra, me empurra para a borda da necessidade.
— Homem teimoso.
Sua mão livre vai para meus cabelos e ele me puxa em direção a ele. Espalmo minha mão livre na cabeceira, para que meu corpo não force seu peito.
— Mulher teimosa...
Seus lábios quentes tocam os meus. Eu me lembro, automaticamente, das palavras que ele quase me disse em um momento semelhante alguns dias atrás. Ele nunca mais foi por esse caminho. O que me desaponta um pouco. Eu não quero admitir isso, mas esta me machucando essa espera. Tyler diz o tempo todo que me ama, mas não é o mesmo. Isso me faz sentir como uma adolescente de novo.
Se bem que na minha adolescência, eu disse ao meu segundo namorado que o amava depois de dois encontros. Acho que isso o assustou, já que não tivemos um terceiro encontro...
De qualquer forma, nunca ansiei tanto por essas três palavrinhas. Eu acho que de certa forma, isso será como um novo patamar na nossa relação. Invés de ser o tal do nome da lista, eu serei algo mais. Ou talvez só queira, desesperadamente, saber se meus sentimentos são correspondidos.
De qualquer forma...
— … Você.
Pisco confusa.
— O que você disse? — Pergunto, tentando me manter no agora.
Ele sorri e então morde o lábio. Parece ansioso.
— Eu disse... — Ele escova seus lábios nos meus. — Que eu... — Puxa meu lábio inferior com seus dentes, fazendo uma onda de prazer atravessar todo meu corpo. — Estou apaixonado...
Me afasto dele, em choque completo. Até uso minhas mãos em seu peito para ganhar impulso para trás. Me esqueço que ele ainda está machucado, mas lembro no momento que ele arfa com dor.
— Me desculpa! — Saio de seu colo e me sento na cama, ao seu lado. — Você está bem?
Ele respira fundo e mantem os olhos fechados por um momento, então os abre e sorri, mas não é genuíno, posso ver que ele ainda sente dor.
Droga!
— Estou bem, amor.
Amor...
Ele disse... Não o que eu queria realmente, mas bem perto. E... Eu não ouvi.
— Theo...
Sua expressão muda ligeiramente. Eu sei que ele está chateado, mas ele mantém a calma e sei que isso é um esforço tremendo para sua personalidade.
— Olha, Diana, você não tem que ficar tão... Nervosa com isso. Não é grande coisa, estamos juntos há pouco tempo. Temos tempo para aprofundar nossos... Sentimentos.
Ai, meu deus!
— Não! — Eu uso minha mão para fechar sua boca, com evidente força demais. Ele se encolhe quando minha mão não apenas o cala, mas empurra seu corpo para trás.
— Droga! — Me afasto de novo. — Desculpa!
Que confusão maldita!
— Eu correspondo! Totalmente! — Agora sim, adolescente desesperada modo on. — Quer dizer... Eu... Não estou nervosa. Estou feliz. É só que... — Seus olhos mostram confusão. Eu não poderia me enrolar mais nem se quisesse. — Diz de novo. Por favor.
Suas sobrancelhas se estreitam, um sorriso começa a nascer nos seus lábios e a confusão em seus olhos é substituída por um leve brilho de diversão.
— Ok...— Ele senta mais ereto, se apoiando nos travesseiros e então me puxa para seu colo de novo.
Deixo minhas pernas uma de cada lado de suas coxas e o encaro, ansiosa. Tento desligar minha mente para não perder o momento de novo.
— Eu... Não vou dizer. — Ele começa a rir. — Você totalmente viajou no nosso momento, não é?
— Não ria! Você me distraiu!
— Eu vou dizer, ok?
— Ok... — Estou ansiosa e envergonhada.
— Mas não agora.
Uma onda de decepção varre pelo meu corpo. Estraguei tudo.
— Isso tem que ser especial. Não algo esperado. — Ele diz docemente.
Theodor sempre me quebra com sua doçura.
Deito minha cabeça em seu ombro, mas uso minhas mãos apoiadas na cabeceira para não deixar meu peso sobre ele.
— Tudo bem. — Digo resignada.
Ele acaricia minhas costas. Ficamos em silêncio, mas não de uma forma desconfortável. Talvez algumas semanas eu ficaria paralisada por essa conversa. Mas a Diana de antes meio que está se aposentando. Eu me sinto à vontade para dizer qualquer coisa a ele. Bem, nem tanto assim. Falar sobre Eleonor não é algo que eu possa ainda. Mas, no momento, sinto que essa é a única coisa.
— … mo você...
Levanto minha cabeça, ele está sorrindo.
— Você perdeu de novo...
— Ah, meu deus! Repete, agora mesmo, Theo!
Ele começa a gargalhar e me vira, me fazendo tombar na cama, então ele está em cima de mim, fazendo caretas pelo incomodo de seus ferimentos, mas logo está sorrindo.
— Eu estou apaixonado por você. — Meu coração bate tão rápido, talvez ele ate possa ouvir. Eu juro que estou ouvindo... Tum tum tum tum... — Te amo... Te amo... Te amo... Será que me ouviu agora?
Mordo o lábio.
— Talvez você possa repetir mais uma vez...?
Seu sorriso aumenta.
— Diana Weber... Eu te amo.
E é isso. Estou oficialmente no céu, e pela primeira vez na minha vida, acho que nada pode estragar isso.
— Eu também... Te amo, Theodor Blake.
Ele suspira, relaxa e sorri.
Ele está feliz.
Eu estou feliz.
Parece que a vida está sorrindo para mim finalmente.
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