Notas iniciais
Olás! Cheguei com uma songfic bem sofrência existencial porque "What's up?" é sofrência pura hahahahah Boa leitura!

"É preciso viver, não apenas existir."

Plutarco

Dizem que idade é apenas um número. Mas números pesam. Um pouco mais a cada ano.

Anna já viveu um quarto de século. E o que mais pesa nesse número é a sensação de que sua vida ficou estagnada, sem que ela sequer percebesse onde foi parar exatamente.

Ela continua se movendo todos os dias, é claro. E faz coisas que todo mundo faz todos os dias. Levanta da cama, vai trabalhar, sai com os amigos de vez em quando, caminha sozinha por aí para respirar ar puro. Ainda assim, não tem ido a lugar algum com a vida. Ela segue imóvel.

Ela espera ansiosamente por uma mudança, por uma revolução, por um destino maior, por qualquer coisa que faça sentido no meio dessa sociedade cruel e fria à sua volta. Segue esperando essas mudanças porque não sabe como buscar nada disso por conta própria.

Anna se sente presa e perdida dentro de uma existência padrão e sem graça que virou a sua vida. E gostaria muito que existisse um manual de como mudar tudo isso num passe de mágica. Gostaria de saber o que procura também.

Às vezes, ela chora. Sozinha, deitada na cama, olhando para o teto do quarto. Como fez ontem à noite, depois de um banho demorado e de ter removido a maquiagem lentamente em frente ao espelho. Ela acompanhou o reflexo e se perguntou se é alguém feliz, se tem vivido ou apenas existido.

Incapaz de chegar a uma resposta — ou talvez com medo de descobrir —, Anna se refugiou embaixo das cobertas. Mexeu-se inquieta por algum tempo. Afastou o cobertor do rosto e deixou as lágrimas virem. Em algum momento, adormeceu.

Às vezes, Anna repete para si mesma que só está melancólica e de saco cheio da rotina, mas que essa sensação vai passar e que sua vida é boa sim. E geralmente tudo passa mesmo e ela se convence de que é feliz. Como aconteceu essa manhã, enquanto ela dirigia pela cidade rumo à empresa onde trabalha. Convenceu-se de que todo mundo se sente insatisfeito com a própria vida em alguns momentos. Logo, mal se lembrava do choro na noite anterior. Tampouco do motivo.

Mas, às vezes, ela se pega pensando em tudo isso de novo. Sentindo tudo de novo. E ela reflete sobre como chegou até aqui. Ou em como foi empurrada até aqui por uma força invisível e, ainda assim, sempre tangível.

Anna pensa nas cobranças sem fim que ditam a vida de cada pessoa sobre a Terra. Nas notas exigidas assim que você pisa na escola, na faculdade que você precisa cursar para ser alguém, no bom emprego que todo mundo deve ter para sobreviver.

Anna pensa na pessoa exemplar que esperam que você seja, na filha e amiga para todas as horas. Também na família que você deverá construir enquanto houver tempo ou, do contrário, estará condenada a ser incompleta.

Ela se pergunta sobre a diferença que gostaria de fazer pelo mundo, no papel que deve ser encontrado e executado com excelência, mas que ninguém lhe explicou como.

Às vezes, Anna tem vontade de gritar. Porque ela fez tudo certo até aqui, tudo que esperavam dela, porém ainda não sabe que maldito papel é esse. E não quer construir uma família agora ou amanhã. E nem sempre consegue ser uma filha perfeita ou uma boa amiga. Mas ela tenta, tenta mesmo.

Anna percebe que só quer paz. Paz e alguma revolução. Ela só quer sentir que não é apenas mais um rosto vagando pela multidão. Quer saber aonde sua felicidade se encaixa no meio de tantas cobranças. E quer parar de cobrar a si mesma também.

Às vezes, Anna canta. Porque dizem que isso espanta os nossos males e esvazia a mente. Nessas horas, ela respira fundo e deixa a voz fluir.

— And I scream from the top of my lungs... What's going on?!

Ela canta como está cantando essa noite. Com alguns amigos, num karaokê qualquer. Canta desafinada mesmo. Canta com alma e força. Canta sem pensar se está sendo ridícula ou não.

Anna se sente melhor, mais viva e livre ao fazer isso. Ela se conecta com a música que gosta e parece entendê-la tão bem. Nesse momento, tem a certeza de que outras pessoas se sentiram e ainda se sentem como ela. Percebe que muitas delas podem estar bem ali, ao seu lado ou nas mesas ao redor. O restante com certeza está lá fora, espalhado pelo mundo, atrás de cada olhar nas ruas.

Anna não liga se, mais tarde ou daqui a alguns dias, irá se refugiar na cama, olhar para o teto e chorar de novo até esquecer o porquê. Em algum momento, as mudanças virão e tudo fará sentido. É só esperar mais um pouco. Ter mais paciência. Não se cobrar tanto.

Por enquanto que o caminho não aparece, ela continuará cantando — e clamando — pela sua revolução.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!