À Sombra da Justiça
3 Consequência
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. 13 de Maio de 1894.
Esther estava chocada. Do outro lado da mesa, estava Mr. Sparks, com um implacável olhar vitorioso, quase fulminante. Cansado de suas insistências, ele tinha lhe dado uma última chance para provar o envolvimento do Conde com qualquer coisa ilícita na Inglaterra, nos últimos tempos seu lar. Se praticasse qualquer crime na Inglaterra, o Conde estaria longe da proteção do Czar. E agora, ele tinha conseguido o que queria: um motivo para provar para Esther que ela estava errada. Sem dúvida, havia um dedo de Mr. Holmes nisso, congratulava Sparks.
–Eu não entendo... Eu testei em um sapato, era para estar azul.
Sparks bufou, impaciente.
–Mrs. Esther Sigerson, eu não consigo compreender o porquê de sua implicância com o Conde Ivanov. Talvez porque é um caso envolvendo um homem conhecido, caso consiga complica-lo em algo e isso lhe dará reconhecimento na Agência, mas o fato é que você não possui nada de concreto para me provar.
–Esses sapatos são de Mikhail, basta colocarmos nos pés dele e...
–Eu sei disso, mas o fato é que não há acusação a ser feita, se nem provar que este Mikhail esteve na casa do Conde você é capaz de fazê-lo. O seu experimento deve ter falhado e isso te iludiu.
–Mr. Sparks...
Sparks acenou para que ela se calasse.
–Eu vou te dar um período para você descansar. Uns meses, o tempo que quiser.
–V-Você está me dispensando?
–Estou apenas te dando férias. Você certamente está cansada mentalmente, por isso está tão confusa, enxergando coisas que não existem...
Esther engoliu a raiva. – Prefiro pedir demissão.
–Peça depois das férias. Não há mais o que fazer, Mrs. Sigerson. Suas férias já estão arranjadas. Um mês, que pode ser prorrogado. Por hoje, a senhora está dispensada. – ele decretou.
Esther desceu as escadas do Ministério das Relações Exteriores com raiva, trazendo na mão o papel que decretara suas férias. Ela o leu mais uma vez, com raiva. “Sophie Sigerson está temporariamente afastada no período de trinta dias, em caráter de férias, prorrogável se assim for solicitado.”
Assinado no dia anterior?
Como ele poderia saber que ela iria fracassar? Mr. Sparks era um homem muito sério e jamais cometeria uma leviandade daquelas, uma vez que não era possível voltar atrás com aquele tipo de documento. O que o poderia fazer ter tanta certeza de seu fracasso a ponto de se comprometer a assinar um documento tão sério?
Estranho, muito estranho...
Ela retirou o sapato de sua pequena bolsa, rapidamente. Parou e examinou sua sola, com maior atenção a detalhes. Foi então que ela percebeu algo errado, suspeito, ali. Por toda a beira da sola do sapato, havia uma substância diferente, que não estava no solado. Ao menos, até a noite passada.
0000000000000000000
Holmes disse à Mrs. Hudson que iria até a Biblioteca Nacional para fazer algumas pesquisas e disse para que ela não preparasse o jantar, pois ele não teria hora para chegar – o que não era nada surpreendente. De fato, Holmes esteve na Biblioteca, para pesquisar, mas o que ele faria depois era algo bem diferente, que certamente jamais se passaria na mente da pobre Mrs. Hudson, ou mesmo na mente de qualquer um que fosse.
Ele andava um tanto culpado, embora não gostasse de admitir. Sabia muito bem qual seria o resultado da reunião de sua esposa Esther com o Mrs. Sparks. Embora sua racionalidade lhe avisasse o tempo todo que ele fizera a coisa certa, Holmes ainda sentia um aborrecimento afligir o coração. Maldito coração, ele pensava, que vai contra tudo que sempre defendi.
Num rompante de culpa, ele passou em uma loja e comprou uma caixa de bombons. Muitos deles eram de nozes, os preferidos de Esther. Fazê-la um pouco feliz, ainda que de maneira tão patética quanto àquela, era algo que poderia lhe fazer bem, depois que ele lhe fizera algo ruim – embora tivesse bons motivos para isso.
Esther corria riscos, se continuasse perseguindo o Conde em sua vingança louca. Ela não lhe contara, mas ele percebera a marca roxa em seu braço, quando ambos estavam deitados nos braços um do outro. Era um hematoma, certamente fruto de sua última e arriscada aventura no submundo de Londres, ou mesmo nos belos casarões da parte mais alta da cidade, vai saber, afinal Esther era orgulhosa e teimosa – tal como ele – e não o revelaria. Onde quer que ela andasse, ela não estaria segura. Realmente, bandidos não tem endereços.
Holmes entrou da mesma maneira sorrateira, em sua casa não-oficial. Sentou-se na poltrona da sala – não à toa, bem parecida com a que ele possuía em Baker Street. Sem saber se ela estava em casa, ele pôs a caixa de bombons em cima da mesa de centro e passou a procurar por ela.
Ele a encontrou na cozinha, de costas a si. Estava preparando alguma coisa no fogão, certamente o jantar. Muitas possibilidades passaram em sua cabeça, enquanto ele se aproximava dela, ainda atenta ao conteúdo da panela.
Antes que Holmes pudesse dizer qualquer coisa sentimental, ela foi mais rápida.
–Não tente, Holmes. Eu não estou bem.
Holmes encolheu-se, um tanto tímido. – Oh... Você está em um de seus dias atribulados, não é?
Esther rolou os olhos, com a maneira formal e engraçada que ele se referia à sua menstruação.
–Não, eu não estou. Algo bem pior está me chateando...
–Deveras?
–Sim. Digamos que eu recebi um golpe da pessoa em quem eu mais confiei.
Rapidamente, como em um golpe, Esther bateu contra o peito de Holmes um frasco de plástico, ainda que com pouca força. A dor que Holmes sentiu era, na verdade, moral.
–Eu li mais a respeito de sua monografia, aquela que você me mostrou a alguns dias... E eis que me deparo com o antídoto para o composto, no Apêndice... Como pôde fazer isto comigo, Sigerson? Você faz alguma idéia do quanto o meu trabalho é importante pra mim?
Holmes se encolheu, envergonhado.
–Foi por dinheiro, ou foi por raiva, por ter a sua esposa se destacar em uma área que apenas competem aos homens? O grande machista vitoriano não poderia permitir ver sua casa ser sustentada, ainda que parcialmente, pela mulher, não é? A estas, sempre será relegada a cozinha, a vassoura, a ter filhos... No máximo, ser enfermeira, tutora ou professora...
–Esther...
–Você me desmoralizou para o meu chefe! Por sua causa, ele me forçou a tirar férias! Decerto só não me despediu por consideração ao sobrenome Katz... Um sobrenome do qual sou proibida de ostentar fora do Serviço de Inteligência por causa daquele maldito Conde, o homem que você, com sua arrogância, me impediu de derrubar...
–Esther, eu estava pensando no seu bem, eu sei do que aquele homem é capaz...
Enfurecida, Esther perdeu o controle.
–Você não sabe mais do que eu! Não sabe o que passei na Rússia, nas mãos daquele...!
–Ele está morto! – insistiu Holmes. – Não há por que você perpetuar isso, Esther! Quase um mês já se passou desde a morte de Dmitri e o Conde nada fez conosco! Dmitri se foi e agora você pode viver sua vida. Aliás, creio que até mesmo pode usar seu nome verdadeiro.
–Todos me conhecem aqui como Sophie Evans Sigerson. Tarde demais para isso.
Holmes aproximou-se dela e pôs a mão sobre seu ombro.
–Que seja, meu bem. O que importa é que você deve esquecer essas lembranças... Sendo Sophie ou Esther, o que você preferir. Agora, você pode me perdoar? — ele perguntou, segurando em sua mão. – Desculpe se lhe atrapalhei. Costumo colocar minha razão acima de meus sentimentos muitas vezes, e creio que assim o fiz. Eu pensei mais do que deveria neste caso, Esther. Pensei em seu bem-estar, mas não pensei no quanto era importante para você derrubar o Conde, atingí-lo de alguma maneira.
Esther suspirou. – Sigerson...
Os dois se abraçaram. Mas Esther ainda estava chateada.
–Acho melhor você voltar para Baker Street. Mrs. Hudson irá estranhar ver você passar tantas noites seguidas fora de casa. – ela disse, secamente, por causa da raiva.
–Então, isso significa “perdoado em partes”?
–Estou avaliando se devo lhe perdoar. O que você fez foi...
Holmes a silenciou com um beijo, entretanto a teimosia de Esther era mais forte que qualquer atração física., fazendo-a esquivar-se.
–Estes rompantes de marido carinhoso não lhe ajudarão, Holmes.
–Posso fazer melhor do que isso, se preferir.
Holmes ia cercando-lhe pela sala, como se estivesse prestes a captura-la. Um tanto acuada, Esther passou a correr pelos corredores. A raiva cedeu lugar às risadas, provocadas pela situação cômica que ambos se colocaram, perseguindo-se entre o silêncio daquela casa, até terminarem entre a maciez e o calor dos lençóis, adormecidos nos braços um do outro.
Fale com o autor