À Espada Pelo Sangue
36 Capítulo 29 - A Vidente e a Água do Poço
Notas iniciais
A casa de RR tinha um dos maiores jardins que eu já tinha visto.
Nós chegamos ao Queens ainda pela tarde, e nos deparamos com um terreno grande coberto por flores e árvores podadas em formatos impressionantes que simplesmente não se encaixava no cenário do bairro. A casa em si parecia comum, pintada de branco e com uma cadeira de balanço na varanda. A porta da frente curiosamente exibia o número 0 em dourado.
— Zero? – murmurei para Matt.
— Ela diz que é para parecer um “o” de Olimpo. – ele respondeu, achando graça – Você vai ver que RR é uma pessoa bem interessante.
Izumi foi quem bateu na porta. Bastou um segundo para que ela fosse aberta, revelando a dona da casa.
RR era bonita. Aparentava ter cerca de 30 anos, a pele negra parecia brilhar, e os cabelos cacheados estavam presos em um rabo de cavalo volumoso. Seus olhos eram escuros e atentos, e ela vestia um vestido estampado com desenhos de arte africana. Quando ela sorriu, tive a impressão de que o dia ficou mais claro.
— Ora, ora! – sua voz me fazia querer sorrir – Vejam só... Que ventos trazem Mayara Jacobs à minha porta?
Meu sorriso involuntário sumiu do meu rosto, assim como dos de meus companheiros. Não era possível que eu já tivesse sido descoberta.
— Ah, a senhora quer dizer May Chie? – Matt foi capaz de falar.
Ela riu.
— Esse é um bom nome, de fato. – respondeu – Mas não se preocupem, queridos, eu sei exatamente quem a filha de Jackie é. E claro que também sei que você não fez nada daquilo que o Conselho está te acusando. – ela gesticulou com uma mão – Um absurdo, o que eles andam dizendo por aí. Mas Jackie previu isso.
Meus companheiros e eu nos encaramos.
— Ele... previu? – balbuciei.
— Ah sim, previu. Bom, mas nós certamente vamos falar disso. Venha, querida, tenho algumas coisas a te contar. Pode entrar.
Ainda um pouco pasma, fui andando para dentro, acompanhada dos demais.
— Ah, vocês não. – RR disse para Izumi – Vocês vão querer uma previsão, não é? Eis o meu preço: uma Harpia roubou alguns dos meus livros há alguns dias. Eu a deixaria ficar, mas acontece que entre eles há um livro que não pode ser substituído. Não a posso perseguir, pois não posso deixar a casa por muito tempo. Portanto, peço que peguem os livros de volta. Não a matem, é só uma pobre criança. Ofereçam algo em troca.
A equipe trocou olhares entre si.
— Precisa de nós seis para isso? – Kess perguntou.
RR deu de ombros.
— Desde que seja feito, tanto faz quantos de vocês vão. Mas, quanto à casa, só posso permitir a entrada de dois. Vocês sabem, muitos semideuses assim num lugar só... O cheiro vai ficar impregnado por dias, monstros vão destruir o jardim!
— Izumi Nee-san... – Ian começou.
— Eu sei. – ela disse – Você quer ter certeza.
Ela o olhou por alguns segundos, e então disse algo em japonês com um tom duro, ao que Ian respondeu lançando-me um olhar rápido, antes de retrucar com uma entonação insistente.
Izumi suspirou.
— Bom, então vá e tire suas próprias conclusões.
Ele assentiu e então caminhou para o meu lado, e eu compreendi que ele iria me acompanhar.
Lancei a Matt um olhar de socorro, esperando que ele entendesse que preferia que ele estivesse comigo, mas ele deu de ombros, desculpando-se.
— Kess, Charlotte e eu vamos atrás da harpia. – falou.
Izumi deu um suspiro.
— Bom, Hiro e eu vamos esperar nos arredores, então.
Hiro nos deu as costas.
— Fale por si. Preciso recarregar.
Ele então caminhou para a sombra de uma árvore e desapareceu. Sua irmã revirou os olhos, o que eu pensei ser algo impossível de ver no rosto da nossa líder, sempre tão serena e firme. Imaginei que Hiro fosse a única pessoa que poderia provoca-la tão tranquilamente desta forma.
— Droga, ele sabe que fica vulnerável quando está recarregando... – Izumi murmurou antes de segui-lo.
Matt acenou para nós e então também correu para longe, acompanhado pelos outros dois.
— Bem, vamos nessa. – RR disse.
Ela nos conduziu até sua sala de estar e nos fez sentar em um sofá de dois lugares. A vidente ficou nos encarando por longos cinco segundos, o que quase me fez perguntar se ela era do tipo que lia o futuro no rosto das pessoas ou algo assim, mas então ela bateu palmas, assustando-me, e disse animada:
— Então é café! Como esperado dos filhos de Jackie e Kai. – ela nos deu as costas e caminhou para a cozinha, elevando o tom de voz – Sintam-se em casa! Já venho com o café de vocês.
Eu e Ian trocamos olhares um pouco confusos. Olhar para ele me fez lembrar de sua discussão com Izumi.
— Por que veio? – murmurei.
Ele ficou calado por alguns segundos, seus olhos presos aos meus, até que sua mão se moveu em direção ao meu cabelo. Eu me afastei um pouco, sem entender, mas então ele agitou a mão no ar, e eu vislumbrei um inseto voando para longe.
— Uma abelha. – resmungou, e então ficou de pé, levando a mão à espada em suas costas.
Por um momento pensei que ele estivesse querendo matar a abelha com a lâmina, mas ele apenas desprendeu a correia de couro em seu peito que mantinha a bainha presa às costas, e segurou a arma embainhada, sentando-se novamente com ela no colo.
Observei o punho, com o cabo revolvido por um couro escuro e o guarda-mão prateado. O pomo, na extremidade do punho, tinha uma pedrinha verde-mar com uma onda entalhada. O encaixe e a ponta da bainha também exibiam a cor prateada, contrastando com seu corpo preto. A espada como um todo deveria ter cerca de um metro, e eu já havia notado que, quando Ian a segurava com o braço estendido, ela tocava o chão.
Não percebi que encarava a arma até que Ian começasse a falar, em um tom hesitante:
— Escuta...
— Aqui está! – RR interrompeu, chegando e entregando uma xícara de café para cada um – Com canela para Mayara e creme de leite para Ian.
Senti o cheiro forte do café, e abri um sorriso involuntário. Eu amava café com leite e canela.
— Como sabia da canela? – perguntei, dando um gole na bebida. Senti o líquido quente descer pela garganta, e suspirei, satisfeita.
Ao meu lado, Ian saboreava da mesma forma. Achei graça. Não pensava que pudesse haver algo em comum entre nós dois.
RR se sentou em uma poltrona à nossa frente, quieta por mais alguns segundos. Eu a observei. Sua linguagem corporal tranquila, sua expressão facial calorosa. Seus olhos pareciam emitir um brilho saudoso, quase nostálgico.
— Eu conhecia bem o seu pai. – respondeu, e então juntou as mãos – Jackie. Um dos homens mais difíceis de ler que eu já conheci.
Continuei fitando-a, ansiosa para saber o que ela queria me dizer. Com um suspiro, a vidente começou:
— Sou filha de Afrodite, e uma dentre os três Videntes do Conselho. Jeckie e eu nos conhecemos ainda adolescentes, antes de ele ir treinar no Acampamento Meio-Sangue. Éramos bons amigos, mas o Conselho esperava mais que isso. Eles queriam uma criança vidente com poderes sobre o Charme e ele tinha três opções de união para satisfazer essa exigência: Afrodite, eu ou Layla. Para mim parecia óbvio que ele escolheria Layla, mas ao invés disso, ele se negou a obedecer. Apaixonou-se por Atena – ela deu um sorriso quase malicioso, que me fez pensar em algumas garotas do chalé de Afrodite que ficavam formando casais no Acampamento – e a história ficou bem interessante a partir daí.
Seu sorriso diminuiu.
— Claro, poucos são aqueles que sabem a verdade.
Ela fez uma pausa, e olhou Ian por alguns segundos, até voltar-se para mim novamente.
— Eu era uma dessas pessoas. Quando perguntei a Jeckie o motivo de ele decidir esconder você do Conselho, ou mesmo manter-lhe ignorante quanto às suas origens, sabe o que ele respondeu? “Vai saber. Eu só quero criar minha filha o mais longe possível desta Guerra, para que um dia ela venha a se tornar a mais forte guerreira dentre os Greno”.
Ela deu um sorriso divertido.
— Ele tinha uma linha de pensamento um tanto peculiar, não acha?
Não pude responder, e ela continuou:
— Alguns anos depois, ele casou-se com Layla, e sua irmã nasceu. É a tradição levar as crianças para viver em países como Japão ou Alemanha para a fase de treinamento. O Japão é o lugar mais seguro para constituir família, porque o número de demônios lá foi reduzido drasticamente nas últimas cinco décadas. Mas Jackie decidiu ficar. Quando ele decidiu esconder dela a verdade até que fosse um pouco mais velha, o Conselho ficou louco. Sabe por que?
Esperei que ela continuasse, mas então percebi que esperava uma resposta.
— Porque eles não seriam devidamente treinados? – falei, em dúvida.
Ela bufou.
— Como se eles se preocupassem mesmo com isso. Ah, não. O motivo é um tanto menos agradável do que a preocupação com uma jovem parente. Mas isto você vai descobrir logo, visto sua natureza curiosa. Diga-me, já reencontrou o jovem Jay?
Surpreendi-me.
— Como sabe sobre isso?
— Ora bolas, eu sou uma vidente, não sou? O que eu faria se não pudesse nem vislumbrar uma coisa dessas? – ela soltou uma gargalhada – Ah, mas não é bom que eu me meta de mais, ou pessoas vão ficar furiosas. Haha! Mas você está no caminho certo, criança, é o que posso te dizer. Se as coisas realmente saírem como Jackie planejava... Hum, vão ficar interessantes. – ela lançou um olhar a Ian – Para todos vocês.
— Como meu pai planej...
— Eu já falei de mais! – ela interrompeu – Jeckie me disse para te ajudar um pouco a entender as coisas e eu já fiz isso. Não posso falar ainda mais. Vocês já terminaram de beber o café?
Eu abri a boca, mas então a fechei novamente, confusa e curiosa. No entanto, vi que RR não voltaria ao assunto, e resignei-me. Eu já deveria estar a costumada a essa altura, já que ninguém nunca contava uma história completa. Suspirando, bebi os últimos goles do café enquanto pensava em uma forma de fazê-la revelar mais.
— RR-sama. – Ian chamou, enquanto me lançava um olhar. Eu quase vi um pingo de piedade no gesto.
— Sim?
— Viemos por uma profecia.
Ela sorriu.
— Ora, profecia? Bom, eu sou uma vidente, não um oráculo. Não vou ter nenhuma rima para vocês. – ela ficou de pé – Mas vamos ver o que o poço tem a mostrar a vocês.
Ela nos conduziu pela cozinha até a porta dos fundos, por onde saímos. O quintal da casa era mais uma extensão do jardim que havia na frente dela. A diferença estava na pequena estufa situada entre as árvores e flores. Caminhamos até lá, e RR abriu a porta, fazendo-nos entrar.
A área devia ter uns quatro metros de um lado a outro, e, ao contrário do que ocorria do lado de fora, não havia uma única planta ali, apenas uma estrutura de uma pedra esverdeada, que eu imaginei ser quartzo verde. Era como um grande prato fundo, circular, erguido do chão por uma coluna de pedra escura ornamentada por fios de prata, ouro e bronze.
Dentro do prato, havia uma água tão translúcida que parecia brilhar.
— Esta é a água que ouviu a canção de Apolo. – RR começou – Uma das histórias esquecidas pelos antigos. Mais uma história dos amores trágicos do deus das profecias.
Ela deu a volta ao redor do prato, e ficou de frente para nós.
— Havia uma ninfa das águas, por quem Apolo se apaixonou. Ela certa vez pediu que o deus lhe contasse sobre o futuro, e ele, cego de paixão, concedeu-lhe o pedido, cantando para ela sobre os tempos que viriam. As águas de seu lago, desta forma, ficaram encantadas, e, sempre que uma música a agradava, imagens sobre o futuro de quem cantava apareciam em sua superfície. Os homens ficaram obcecados pelo lago, e começaram a roubar suas águas para vender. Furioso com seu filho, Zeus se negou a permitir que chovesse sobre ela, e ela secou. Apolo, no entanto, foi capaz de salvar um pouco de sua essência, e a entregou aos Greno. Ela fica numa estufa para que possa ver seu amado pelos céus todos os dias, e não seja contaminada pelas águas da chuva. Desta forma, a cada geração, uma voz é escolhida pela ninfa, e, se a canção puder convencê-la, ela mostra o futuro.
A vidente tocou as bordas esverdeadas do poço com as pontas dos dedos.
— E eu sou a voz. – encerrou, respirando fundo e começando a entoar uma canção.
Sua voz preencheu a estufa, bela e quente. As palavras pronunciadas soavam serenas, mas eu não pude compreendê-las. Ao meu lado, Ian fitava a água, quieto enquanto RR cantava as últimas notas.
Quando ela terminou a canção, a água do poço se agitou como se alguém houvesse pingado uma gota bem no centro. As pequenas ondas foram e voltaram, até sumirem. Foi quando as imagens começaram.
A primeira imagem mostrava uma luta desarmada. A rapidez dos movimentos era tanta que precisei de alguns segundos para perceber que era eu e Jayden. Nós corríamos pela rua, usávamos árvores e muros como impulso, usando o cenário, enquanto atacávamos um ao outro. Ambos pareciam estar se divertindo.
A imagem mudou, agora exibindo uma adaga de aparência mortal, empunhada por uma mão delicada. A silhueta feminina envolvida pelas sombras caminhou para a luz, revelando um rosto oriental, de olhos escuros e cabelos curtos.
— Himeko! – Ian sussurrou ao meu lado, soando alarmado.
A mulher, com cerca de 25 anos, abriu um sorriso um tanto macabro, e então seus olhos ficaram dourados por um instante. Ela caminhou um pouco mais e apontou a adaga para alguém, mas antes que pudéssemos ver quem era, a imagem mudou novamente.
Agora uma grande mesa se estendia, rostos encobertos pelas sombras pareciam nos fitar através da água. Na ponta da mesa, de pé no ponto para onde todos se viraram, estava toda a nossa equipe. Izumi, altiva, sustentava firmemente todos os olhares, enquanto os outros apertavam os punhos em fúria. De repente, eu dei um passo à frente, parecendo disposta a falar alguma coisa.
Outra cena apareceu. Eu estava de joelhos, diante da caixa que guardava A Página de Prata. Daímonas apareceu, e, com seu sorriso insano, curvou-se diante de mim.
E então a água voltou a ficar transparente.

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