À Espada Pelo Sangue
28 Capítulo 23 – A missão e os planos.
Notas iniciais
Nossa saída do prédio foi mais tranquila do que eu esperara. Os únicos dois monstros que apareceram foram imediatamente cortados ao meio pela katana de Izumi, que nem mesmo me deu a oportunidade de identificar de que espécies eram. Mas eu não esperava que fossemos nos deter a alguma luta. Segundo o que Matt havia me explicado, nosso objetivo aquela noite era nos afastar o máximo possível do prédio em direção a oeste, para não dificultar a saída do próximo grupo.
Uma vez longe o suficiente, Izumi diminuiu o passo apressado, e então notei que havíamos chegado ao Central Park, onde passaríamos a noite. Às nossas costas estava uma rocha cheia de inscrições em giz feitas por turistas, e à frente um bosque relativamente denso, mas bem organizado. Descobri que a bola de tecido que meu pai havia deixado para mim na mochila era uma barraca de acampar encantada para ficar naquela forma compacta. Com as barracas montadas, e uma pequena fogueira acesa, Izumi abriu um mapa.
— Como esperado – começou, uma vez que todos já estávamos sentados –, nossa equipe foi designada para a missão principal. Por gerações, os demônios tentaram voltar à vida para satisfazer seus desejos de vingança e suas ambições. Mas eles sempre tentaram sozinhos. Agora parece que resolveram usar a cabeça e se uniram, sob a liderança de alguém. Nós sabemos quem os está deixando voltar: a Mãe-Terra, mas ela não está mais envolvida do que isso. Portanto, supomos que alguém mais esteja à frente da caça aos Greno. Nossa missão é descobrir quem é, e então eliminá-lo.
— Certo. – Kess falou, batucando no joelho com a mão – E por onde começamos?
— Pelo óbvio. – Matt respondeu – Precisamos de um vidente.
Izumi encostou as costas no tronco seco atrás de si e cruzou os braços.
— Qual o vidente mais próximo no momento?
Ele pôs a mão no queixo.
— Imagino que seja JJ, o vidente deste distrito. – respondeu – Embora RR também não esteja longe. Os outros estão em missão especial designada pelo Conselho.
Ian me lançou um olhar rápido, que eu não compreendi.
— JJ, não é? – Falou – Ele não é muito bem visto pelo restante da família.
Hiro quebrou um pauzinho com o qual estivera brincando e começou a jogar as partes no fogo. Como se estivéssemos discutindo o que comer no jantar, ele comentou:
— Ele ainda é o melhor vidente que temos. E ainda tem o fato de que ele é um dos líderes do Conselho. Bem visto ou não, ele é nossa melhor opção.
— Hiro tem razão, Ian-kun. – Izumi disse – Já estive com JJ-sama algumas vezes, inclusive ele foi aquele que profetizou o meu destino. Embora algumas de suas atitudes incomodem o Conselho e apesar de todos aqueles boatos, ele é muito respeitado, e um lutador poderoso. Suas previsões e seus conselhos nos podem ser úteis. E também, imagino que ele será o único a não pedir um preço muito alto por suas predições.
A essa altura da conversa, eu já não entendia muita coisa. Embora tivesse uma vaga ideia do que era o Conselho (a instituição formada pelos líderes da família), não podia entender quem eram esses videntes, ou por que se referiam a eles por letras. No entanto, preferi deixar para perguntar isso depois. Tentando fazer parte da conversa, perguntei:
— Se é assim, como fazemos para encontrá-lo?
Todos me encararam.
— Encontrá-lo? – Hiro falou – Nós já sabemos onde está. Só precisamos caminhar até a casa dele.
Pisquei.
— Simples assim?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Tá achando ruim?
Cocei a cabeça.
— Bom, não. Mas é que eu esperava que fosse mais difícil...
Minha fala foi interrompida por um coro de “cala a boca!”.
— Ah, não! – todos lamentaram – Tá de brincadeira.
— Tinha que falar? – Hiro revirou os olhos.
— Tch! – Ian exclamou – Novata...
— Pelos deuses... – Matt tinha a mão na testa.
— Mas o que...? – comecei.
— Ah, qual é, gente. – Charlotte interviu – Vocês sabem que alguém sempre acaba dizendo isso, sabendo ou não. Se May-chan não falasse, Kess falaria, com certeza.
O garoto piscou um olho para ela.
— Se você pedisse...
Ian o fuzilou com o olhar. Matthew deu um tapa na cabeça do irmão.
— Qual é o problema afinal? – Perguntei.
— Dizer que tudo está fácil demais é provocar o destino. – Matt respondeu – Agora ele com certeza vai fazer questão de dificultar tudo.
Franzi a testa.
— Você não pode estar falando sério.
— Ah, estou sim. – ele balançou a cabeça acompanhado dos demais.
Fui tentada a revirar os olhos, mas me segurei. Eles pareciam levar bem a sério essa história, mas não fazia muito sentido acreditar nesse tipo de coisa. Decidi fechar a boca.
— Voltando ao que importa. – disse Izumi – JJ vive nessa região.
Ela apontou no mapa. Era próximo de onde um prédio estava marcado com o nome “Reunião”.
— Então teremos que fazer o caminho de volta. – Charlotte falou.
— Não exatamente. – Matt disse. – Não podemos arriscar estar por perto quando alguma equipe sair, então vamos contornar por aqui. – Ele marcou a trajetória.
— Há um porém. – Hiro falou apontando uma área em vermelho no mapa – E quanto a isto aqui? Está bem no meio do caminho.
— Um Covil de Ciclope? – Charlotte falou – Achei que eles haviam sido derrubados naquela operação.
— Desde então já tivemos tempo suficiente para que voltassem – Izumi respondeu – Afinal, já fazem mais de dezesseis anos. Custaria ainda mais tempo contornar... De qualquer jeito, podemos lidar com um ciclope. O problema é se houver mais de um. Matt-kun, você já tem nossa formação?
Ele assentiu e pegou um papel em branco.
— Essa seria a formação original. – Começou, fazendo três bolinhas: uma à frente e duas flanqueando a primeira – Hiro, Ian e Izumi na linha de frente. Hiro vai à frente, Ian à direita e Izumi à esquerda. Assim, Izumi pode ter uma boa visão da batalha, mas sem sobrecarga, podendo lutar e liderar. Kess e eu ficamos no meio, agindo nas aberturas e cuidando dos flancos – Ele desenhou mais dois pontos e então outros dois logo atrás – May e Tori ficam com a retaguarda. May será útil no caso da necessidade de um ataque de longo alcance, suas habilidades de luta desarmada e seus reflexos são bons para cuidar de um ataque surpresa pelas costas. A magia da Terra de Tori cai bem na defesa e no reforço.
Izumi balançou a cabeça em aprovação.
— E quanto à mobilidade?
— Bom, caso precisemos, podemos dividir a equipe, fazendo duas duplas e um trio: May e Ian, Hiro e Izumi, Kess, eu e Tori. – Ele fez uma pausa. – Outra possibilidade seria utilizar May e Ian num ataque surpresa pela retaguarda, deixando nossa formação principal com Kess, eu e Hiro na vanguarda, e Izumi e Charlotte na defesa.
— Ei – Ian interrompeu – estão me separando da minha irmã? E por que essa insistência em me colocar para trabalhar com a novata?
Eu cruzei os braços, aborrecida.
— Não posso dizer que estou feliz também.
— Vocês têm habilidades complementares. – Matt declarou – É uma boa combinação.
Ian bufou.
— Ian-kun. – Izumi repreendeu – Espero que não tenha problemas em trabalhar da forma que beneficiará nossa equipe.
Com o canto do olho, vi Hiro revirar os olhos e Charlotte apertar os lábios, como se temesse algum problema. Pensei que Ian permaneceria em sua posição, mas ele baixou a cabeça.
— Claro que não, Izumi Nee-san.
— Ótimo. – Ela disse e se colocou de pé – Bom, agora vamos descansar. Eu fico com o primeiro turno. Hiro, você é o próximo. Depois Kess, May, Matt, Tori e Ian. Temos bastante gente, então uma hora e quinze minutos para cada um é suficiente. Saímos às seis, então recomendo que durmam logo.
Dito isso, ela caminhou para fora do círculo.
Eu estava acordada quando Kess veio me chamar para o meu turno. As dores em minhas costelas não me deixaram dormir por muito tempo. Cada inspiração de ar era dolorosa, e expirar fazia a dor se espalhar por todo o meu lado esquerdo.
Levantei com certo esforço, e caminhei para onde a fogueira, agora fraca, queimava. Esquentei as mãos por alguns segundos e depois sentei-me de costas para o fogo, voltando-me para o interior do bosque. Apesar de as pequenas chamas lançarem um pouco de luz nas árvores mais próximas, a escuridão ali parecia tão profunda que fazia meu coração bater mais devagar. Se alguma coisa tentasse se aproximar, eu jamais seria capaz de ver antes que fosse tarde.
“Sendo assim,” pensei “não posso confiar no que vejo”.
Estendendo o antebraço, dei um assovio suave e longo e esperei. Alguns segundos depois, Link, que vinha me seguindo a partir da saída do prédio e que havia esperado pelo meu chamado desde então, pousava no pedaço de couro que me protegia de suas garras.
— Olá, garoto. – eu fiz cafuné em sua cabeça – Pode me dar uma força?
Ele fechou preguiçosamente os olhos, apreciando o carinho. Eu parei e o fiz olhar para mim, e então falei de vagar, em tom de ordem:
— Prosochí! – a palavra para “atenção”.
Ele ergueu a cabeça, atento, e eu soube que ele estaria alerta a partir dali. Fiz com que ele voasse para a árvore mais próxima. Se algo se aproximasse vindo da floresta, poderia ouvir seu pio.
Mas além disso, eu fechei meus olhos, forçando a audição, o olfato. Utilizando a técnica que havia aprendido com meu pai em viagens a florestas e aperfeiçoado nos jogos no Acampamento, concentrei-me nos sons e cheiros ao redor: Grilos, dois esquilos nos galhos, talvez um gato a alguns metros, um córrego distante... O ar cheirava a grama úmida e chuva. Talvez viesse alguma chuva por aí, e perguntei-me se isso não atrapalharia a missão. Gravei cada uma dessas coisas na minha mente, e abri os olhos, sabendo que meu subconsciente me avisaria imediatamente se algo mudasse.
Varri os troncos das arvores com os olhos novamente, e uma sensação nostálgica me atingiu. Eu costumava ficar guardando a bandeira nos jogos... Parecia fazer uma eternidade desde que eu jogara Captura à Bandeira no Acampamento, mas fazia apenas alguns dias.
“Tch!” bufei mentalmente “Você está sentimental demais, Mayara”. Mas não afastei os pensamentos.
Retirei do pescoço a corrente do meu pai e a segurei em frente ao meu rosto, o pingente balançando. Era um pequeno sol dourado, que reluzia ao ser iluminado pela luz trêmula da fogueira atrás de mim. As cores pareciam dançar.
“Pai...” pensei “Esse pingente te expressa perfeitamente. Ele brilha tanto quanto você brilhou...”
Eu esfreguei o solzinho. Era quente.
Minha vista ficou turva, e eu soube que ia chorar. Dei de ombros e fechei os olhos novamente. Eu não me importava se chorasse, desde que ninguém visse. Talvez doesse menos...
Meu pai. Morto. E não importava o que todos dissessem, se não foram minhas mãos, foi por minha inexperiência e negligência que meu pai pereceu e minha família foi destruída. Se eu tivesse sido mais forte, se não tivesse deixado de lado aquele sonho que tivera, talvez nada daquilo aconteceria...
Imagens daquela manhã invadiram minha mente, todas manchadas com sangue. O carpete, a mesinha de centro, o sofá apoiando o corpo de Layla, meu pai à minha frente, mantendo-se de pé apesar da dor.
“Meu pai. Morto”. As palavras ecoaram. Lágrimas desceram.
Minhas mãos desciam a espada em direção ao seu coração. E perfuravam seu corpo...
Abri os olhos alarmada, e o pio de Link veio logo em seguida. Em um segundo, estava apontando Prostátida para um Matthew assustado.
— Ah... – falei, suspirando e abaixando a espada – Então é só você.
Enxuguei o rosto e sentei novamente. Minhas costelas reclamaram de dor e eu me encolhi.
— Seus sentidos são aguçados. – ele elogiou.
Funguei.
— O que está fazendo acordado? – perguntei.
Ele sentou ao meu lado.
— Imaginei que nossa vigia não tivesse condições de defender o acampamento nesse estado e pensei em ajudar, mas pelo visto você está bem.
Não respondi. Os olhos de Matt mostravam que ele sabia que não era verdade.
Girei a espada nas mãos e ela voltou à forma de pulseira. Eu a coloquei de volta no pulso.
— Quer falar sobre isso? – perguntou.
Eu suspirei.
— Dói. – falei.
— É recente demais para não doer. – ele respondeu.
Assenti.
— Mesmo assim... Não queria ter que ficar aguentando isso o tempo todo.
— Eu sei. Só precisa ter um pouco de paciência. Vai ficar mais fácil de suportar.
Eu não tinha certeza se estávamos falando do meu ferimento ou do motivo para as minhas lágrimas, mas as respostas dele pareciam se aplicar aos dois casos.
Coloquei a mão no bolso do casaco, tirando de lá um pacotinho de Ambrósia. Matt o pegou das minhas mãos.
— Se me lembro bem, seu namorado disse que não era para consumir mais disso até amanhã. – falou, com um sorriso de canto.
— Já passa da meia-noite. – falei, tomando o pacotinho de volta. – E Mike não é meu namorado.
— Sei... – ele riu.
Revirei os olhos e desviei do assunto:
— Aliás, o que eu devo fazer na minha posição na retaguarda?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Sua capacidade de sair de um assunto a outro é impressionante, Mayara Greno.
— Só responde logo.
Ele sorriu novamente.
— Você vai proteger nossas costas. – Falou – Deve ficar atenta a ataques por trás, além de estar de prontidão para dar apoio ao restante da equipe. Nós não vamos estar enfrentando um monstro de cada vez, então a qualquer momento podemos precisar formar um círculo, para lutar em todas as frentes...
Nós gastamos duas horas e meia conversando sobre as estratégias e formações. Quando me dei conta, já estava na hora de chamar Charlotte.
Eu fui até a barraca dela, mas estava vazia.
— Verifique na de Ian. – Matt falou, voltando para sua própria barraca – Ela com certeza vai estar lá.
— Espere! – chamei, mas ele já havia entrado. – Droga.
A contragosto, abri uma fresta na porta de Ian e espiei. Ele estava deitado de barriga para cima, o braço esquerdo tapando os olhos e o outro servindo de travesseiro para a irmã. Ela agarrava seu casaco e encolhia seu corpo contra o dele.
Pensei que ele até parecia amigável nessa posição.
— Psiu! – Chamei baixinho – Charlotte!
Ian moveu o braço esquerdo, revelando seus olhos intensos abertos. Ele moveu a mão, fazendo sinal de silêncio e depois gesticulando para que eu saísse.
Tampei a fresta e esperei. Alguns segundos depois, ele saiu, com cabelo bagunçado e sem o casaco.
— Ela está cansada. – falou, antes que eu perguntasse qualquer coisa – Vou cobrir o turno dela. Pode ir.
Assenti.
— Não vai usar um casaco? – falei – Está congelando.
Ele não respondeu, apenas caminhou para perto da fogueira, que, eu sabia, seria ineficiente contra o frio da madrugada.
Revirei os olhos e comecei a caminhar para minha barraca, mas acabei dando meia volta e tirando meu próprio casaco. Estendi a peça para ele.
— Toma.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Não interprete errado. – falei – Eu só estou pagando minha dívida por ontem de manhã.
Ele virou o rosto para frente.
— Pode ficar então. Não fiz por você.
— Eu sei. – retruquei, e joguei o casaco em sua cabeça.
Com isso, caminhei para minha barraca.
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