À Espada Pelo Sangue

2 Capítulo 2 - Calças Pinicam!


Notas iniciais
Oi, gente :) Então, aí está o segundo capítulo Espero que gostem, e nos vemos lá embaixo :3 Lah Chase

Eu jamais tive uma viagem como aquela.

Para começar, Kyle olhava para trás o tempo todo, como se tivesse medo que alguém o apunhalasse pelas costas. Ele nunca fora exatamente quieto, mas dessa vez estava demais. O comportamento dele parecia chamar a atenção do Sr. Farrel, que trocava olhares com ele constantemente. Achei aquilo muito estranho. Era comum ver os dois juntos, mas Kyle dizia que tinha uma monitoria especial. Eu sempre caía nessa, na verdade achava bem normal, porque ele tinha muitas dificuldades na escola e eu não tinha muita paciência para ajudá-lo. Mas aquelas entreolhadas deles não me pareciam nada normais.

Para piorar, ás vezes, enquanto Shayla e eu conversávamos, ela parava, olhava para um ponto no vazio por alguns segundos e depois voltava a falar. Eu podia ver que ela estava tentando esconder o nervosismo, sem sucesso.

Eu estava sentada entre os dois, que pareciam estar tendo um treco. Mas mais que isso. Havia aquela sensação se que tinha algo que ia dar muito errado. Não era uma sensação que a gente sente e depois esquece. Parecia mais uma voz insistente na minha cabeça, repetindo aqueles sussurros que eu ouvira pela manhã, um aperto no coração, um frio no estômago.

Mal percebi que tremia até descermos do ônibus, a alguns metros da entrada do parque. Pensando agora, talvez tivesse sido melhor se eu tivesse ficado lá dentro, mas naquele momento eu achei ótimo. O calor e o barulho do ônibus bloqueavam minha mente, já o ar fresco da praia me ajudava a pensar melhor. Percebi que estava com medo, nervosa e o pior: estava desmoronando. “May,” pensei ”você precisa relaxar, garota. Está enlouquecendo”. Então Shayla falou como se lesse meus pensamentos:

— May, é sério. Alguma coisa vai dar muito errado hoje. E Eu sei que parece loucura. Mas não é. Ou então, estamos todos enlouquecendo juntos.

Aquilo me assustou tanto que fiquei sem palavras. O frio que sentira mais cedo voltou a percorrer minha espinha e meus músculos enrijeceram. A voz desta vez parecia distante, e estava indistinguível, mas eu sabia que estava lá. Não. Aquilo não era uma pegadinha. Aquilo era bem real. Garras frias envolveram meu coração.

Então foi minha vez de explodir em nervos. “Fuja!” Algo em meu cérebro gritou e eu perdi de vez o controle. Virei na direção do outro extremo da praia e corri, corri o mais rápido que pude. “Fuja!” Eu ouvia Shayla gritando meu nome e pedindo que eu voltasse, mas meu subconsciente estava no comando do meu corpo, e ele ordenava que eu corresse. Senti o vento batendo em meu rosto, tudo a minha volta ficando borrado. “Mais rápido! Fuja!” Minhas pernas se moveram mais rápido, mesmo quando eu pensava ter atingido meu limite. Tudo começou a ficar em câmera lenta, senti minha pulsação em meus ouvidos, como uma batida profunda e assustadora. “Mais rápido!”

Eu teria continuado aquela correria insana se não houvesse tropeçado. Rolei na areia, machucando os braços com o atrito. Deitada como estava, fiquei, respirando pesada e desesperadamente. Meus olhos percorriam a praia ao redor, alertas, como se eu pudesse ser atacada a qualquer instante.

Algo fez um barulho atrás de mim. Levantei tão apressada que caí novamente, apenas para encarar uma lagarta pequena, movendo-se assustada entre as folhas. Arquejante, de repente me dei conta do meu estado. Estava fugindo de uma lagarta.

Obriguei-me a sentar, apoiando as costas num coqueiro.

Eu já tivera ataques como aquele antes, quando eu era menor. Os médicos diziam que acontecia quando meu corpo estava tão inquieto que eu não tinha controle, e precisava fazer alguma coisa para descarregar tudo aquilo. Então, eu ficava pulando, gritava, ou corria feito louca. Tinha muito tempo que não acontecia. Eu fizera um tratamento com remédios e exercícios físicos. Mas tinha tempo que eu abandonara os remédios, pois eles pareciam aumentar minha dislexia, e agora os ataques pareciam estar de volta.

Mas em nenhum deles eu havia sentido tanto medo.

Respirei fundo, segurando minha cabeça entre as mãos, e pensei em um jeito de me acalmar. Pensei na escola, na minha casa, em meu pai e por fim pensei em minha mãe. O frio gélido foi deixando meu corpo aos poucos. Estava funcionando. Mamãe. Disse a mim mesma. Sim, mamãe. A mulher cujo brilho nos olhos conquistou o homem que hoje era meu pai. Ele dizia que ela era inteligente e bonita, com cabelos pretos e olhos cinza. Apesar de ela tê-lo deixado, ele não guardava nenhum ressentimento contra ela. Ele continuava a elogiá-la e me contar que ela era incrível. Meu coração diminuiu seu ritmo frenético.

Agarrei minha pulseira, a única coisa que me fazia me sentir próxima a ela. A pulseira de prata tinha um pingente: uma coruja com brilhantes no lugar dos olhos. Ela tinha sido um presente dela quando eu nasci, e eu a uso desde então. Claro que ela já não devia caber no meu braço, mas a pulseira parecia crescer junto comigo. Apenas o fato de que ela era um presente da minha mãe já era o bastante para eu considerá-la especial, mas, além disso, meu pai chegou a dizer, uma vez, que essa pulseira poderia me ajudar em momentos difíceis ou perigosos, seja lá o que isso signifique.

Desde então, eu havia desenvolvido o costume de focar minha atenção no pingente quando me sentia nervosa. Sentir o contato do metal com minha pele, o peso da corujinha, seus olhos brilhantes. Tudo isso costumava me ajudar a manter a calma. Às vezes.

Quando voltei a mim ventava tanto que o coqueiro em que eu estava encostada balançava freneticamente e meus cabelos loiros voavam, ameaçando dar o fora da minha cabeça se eu não me protegesse logo. O mar, antes calmo, agora estava furioso, e uma tempestade parecia se aproximar, vindo do horizonte. Eu não podia mais ouvir as vozes distantes me chamando e pensei que era melhor voltar. O professor não ia gostar nem um pouco se eu ficasse mais tempo longe e eu também não estava a fim de ficar para trás quando eles fossem embora. Além disso, eu já estava bem mais calma e minha cabeça já havia voltado ao lugar.

Levantei-me e corri na direção de volta. De onde estava, não podia nem mesmo ver os brinquedos mais altos do parque, então deduzi que havia percorrido um caminho muito longo até ali. Mesmo assim, não esperava que fosse demorar quase dez minutos de corrida até poder vê-los novamente. Eu já estava com medo de que tivesse errado a direção quando ouvi as vozes dos alunos assustados se esforçando para falar alto. Eu não sabia quanto tempo havia se passado, mas imaginava que a turma tivesse tido tempo para entrar e se divertir no parque durante meu surto. Todos estavam reunidos na entrada, um tanto desorganizados enquanto o professor tentava acalmá-los.

Ouvi a voz de Shayla me chamar.

—Estou aqui! — gritei.

— May! — Ela gritou, tentando elevar sua voz ao som do vento. Ela correu e me abraçou – Isso é loucura! Esse vento todo...

— O que estava pensando? — disse Kyle, mancando até mim apoiado em Sekki. Sua expressão facial era irritada — Você sumiu!

— Kyle! — era o Sr. Farrel, também gritando. Ele estava segurando alguma coisa... Aquilo era uma espada? Suspeito, muito suspeito. — Leve Shayla e Mayara para aquele carro! – ele apontou para um carro estacionado.

— Mas e os outros? — Gritei — Não vai caber todo mundo lá dentro!

— Apenas faça o que eu digo!

— Mas...

— May, faça o que ele diz!- disse Kyle.

Corremos para o carro, que, por motivos que desconheço, estava aberto, enquanto o vento soprava ainda mais forte e o Sr Farrell conduzia as outras crianças para dentro do ônibus escolar. Tudo bem, agora eu estava confusa.

— O que ele está fazendo? – Perguntei – Porque nós vamos para o carro e os outros vão para o ônibus?

— Porque eles vão para a escola e nós não. – Kyle respondeu, me puxando para dentro do carro. “Ah, meu Deus! Estou sendo sequestrada!” pensei.

— O que? Como assim nós não vamos para a escola? O que está acontecendo? — E a minha calma começava a ir embora.

— O negócio é o seguinte: O jogo acabou. Eles já sabem quem vocês são! Precisamos ir!

Uma enxurrada de perguntas veio à minha cabeça.

— Espere! – Em mim, a calma já não existia – Quem descobriu quem nós somos? Não, tenho uma pergunta melhor: quem nós somos? Ir para onde?

— Uma coisa de cada vez, May. Vou explicar tudo depois. Agora apenas confie em mim.

O senhor Farrell entrou no carro.

— Segurem-se!

Ele pisou fundo e o carro disparou.

—Este carro é seu?- perguntei

— Não — Confessou, um sorriso estampado na cara.

— O que?! E o que faz com ele?

Ele fez uma curva.

— Salvando sua vida, mocinha.

— Olhe aqui, eu não me lembro de estar em perigo até entrar nesse carro, que a propósito é roubado!

— Eu não estou roubando esse carro. Só pegando emprestado. Não sou como os Stoll, O.K.?

— Stoll? Mas o que...

— Esquece isso. A questão é que o dono desse carrinho aqui nem vai notar que ele sumiu. Então vê se não esquenta a cabeça e me deixa dirigir.

Olhei para Shayla, que estava assustada de mais para falar.

Um poste passou voando por cima do carro. Soltei um grito esganiçado.

— Ai meus deuses!- Kyle gritou

Eu balbuciei algumas três palavras sem sentido. Tão sem sentido quanto aquela situação.

Olhei novamente para Shayla. Ela finalmente lembrou que tinha língua.

— Oh! É exatamente como a minha visão! -ela disse

Kyle sorriu brevemente.

— Apolo! Como imaginei! – murmurou, mas eu ouvi. Ele se virou triunfante para o sr. Farrell – Você me deve dez dólares.

Shayla fez cara de quem não entendeu.

— Espere! — eu disse — Você disse “Apolo”?

— Explico depois.

Perdi a paciência.

— Ah! É claro, por que eu ainda pergunto? Será que tem alguma coisa que você possa explicar agora?

— Hum... não. -ele disse- Acredite, você não vai querer saber agora. Confie em mim.

— Imaginei! – Reclamei, chateada – Cara, como você quer que eu confie em você quando você fica aí resmungando sobre deuses, Apolos e... Espere! O que você está fazendo?

Kyle começava a tirar suas calças. O Sr Farrell olhou para trás.

— Droga, isso de novo? Vocês... – Ele revirou os olhos – Kyle, já conversamos sobre isso! Essa não é a melhor forma de começar a explicar as coisas...

— Não aguento mais. — Kyle interrompeu — Ela pinica, rapaz!

— Não diga que eu não avisei, cara.

Um professor usando gírias?” pensei “O.K....”

— Não posso agir direito usando calças. Elas pinicam! – afirmou novamente, como se fosse a pior coisa do mundo — E elas saberão de qualquer jeito.

— Saber de que?- Perguntou Shayla.

— Disso.

Nós duas gritamos. Shayla quase desmaiou. No lugar onde as pernas do Kyle deveriam estar haviam... É, pernas, só que de bode, ou seja lá que bicho, só sei que aquilo definitivamente não era normal. Meu cérebro se negou a acreditar em meus olhos.

— O que...? — engasguei.

Kyle olhou para o Sr Farrell, que agora eu já não tinha certeza de que era um professor, quem sabe se ele não tinha pernas burro, ou sei lá. Outro poste voou, este acertou a parte de trás do carro, que deslizou na pista. Bati a cabeça no joelho e o mundo todo girou.

— Temos que sair daqui!- Disse o Sr Farrell.

— O que é que está atirando postes na gente?- Perguntei atordoada.

— Não importa, importa? — disse o Sr Farrell — Desçam, agora!

Não protestei, eu não estava nem um pouquinho a fim de acabar como um punhado de carne esmagado por um poste.

O Sr Farrell tirou uma espada não sei de onde. Nem para quem. Por um momento achei que ele fosse me fatiar.

—Corram até o topo daquela colina. — ele gritou, apontando para uma elevação a vários metros — Ultrapassem os limites e estarão a salvo!

Agarrei a mão da Shayla e corri em direção à colina sem nem saber por quê. Atrás de mim o Sr Farrell golpeava um tipo de mini-furacão com sua espada, o que não fazia sentido nenhum, enquanto tentava correr e Kyle balia desesperadamente, disparando com Sekki nas mãos. Shayla tropeçou e caiu. Eu a fiz levantar, tentando não diminuir o ritmo. Minhas pernas começaram a queimar pelo esforço. Depois do que pareceu uma eterna corrida desesperada, nós chegamos ao topo da colina.

Havia uma grande instalação no topo. Lá dentro havia gente andando para lá e para cá, chalés e lugares de lazer. Parecia um acampamento de verão. Ao meu lado havia um pinheiro com alguma coisa dourada pendurada. Uma pele de carneiro, mas dourada. Uma lembrança se agitou na minha cabeça.

— Você só pode estar brincando...

Eu não percebi, mas Shayla e os outros já estavam correndo para dentro do Acampamento e eu estava sozinha nos limites.

Tudo aconteceu numa fração de segundos. Alguma coisa me agarrou pelas costas. Eu gritei. As garras perfuraram meu ombro esquerdo. A dor se espalhou por todo o meu corpo e pude sentir meu próprio sangue fluindo. Ouvi vozes. Minha visão ficou turva. Senti o monstro se desfazendo em pó e eu caindo no chão.

— May!- Era a voz de Shayla- Não!

Alguém chegou perto de mim.

— Ajudem!- gritou.

Logo me senti ser carregada e então apaguei.

Notas finais
Oi de novo! Então, hoje ficamos por aqui! O que acharam? Há alguma coisa que vocês acham que precisa melhorar? Por favor, deixem seus coments lindos. Vou sempre me esforçar para fazer o melhor pra vocês ^^ Vou postar o próximo capítulo esse Sábado, então nos vemos lá! Bjs Lah Chase :3