Quase um mês

Capítulo 4


Mas que porra é essa?

Katsuki já tá acostumado às loucuras da velha, sabendo que sempre pode esperar a decisão mais imprevisível vindo dela, sempre foi assim e dificilmente vai mudar. Ele também sempre espera poder contar com o velho pra trazer um pouco de razão quando a mulher pira demais, isso também costuma ser bem previsível. Seu pai pode até falar manso, mas tem lá sua firmeza em determinadas situações, e deu pra ver isso bem quando o tratamento que a velha dá pra Uraraka visivelmente tava diferente nos últimos dois dias. Ele com certeza conversou com ela e disse a mesma coisa que tinha dito pra Katsuki sobre a importância de se manter profissional e pipipi popopó, e a velha provavelmente acatou, usando de bem menos gracinha quando manda a Uraraka fazer seu trabalho.

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Aí veio uma tempestade e fodeu com tudo, não só em relação à velha, mas ao velho também. Que caralho! De onde veio a ideia de deixar a Uraraka dormir aqui? Cadê o tal profissionalismo que ele falou que queria que todos eles mantivessem? E a velha nem precisou falar nada! Os dois só entraram num acordo silencioso de que não era pra Uraraka sair na chuva e que ela passaria a noite lá já que não tem trem nem jeito de pegar táxi. Tá chovendo pra caralho mesmo, e ele viu o guarda-chuvinha de merda que ela tem, então sim, faz todo sentido, mas porra, é um saco como os dois mudaram de ideia por causa da porra de uma chuva.

— Bota sua mochila ali, Cara de Lua. Vai ficar andando com ela por aí por quê? Você não vai embora tão cedo. — ele diz quando termina de colocar a colcha na cama do quarto de hóspedes, ciente da encheção de saco que a velha arranjaria se tivesse deixado pra Uraraka arrumar tudo ela mesma.

— É que eu tava pensando… o Deku-kun mora a uns dois quarteirões daqui, não mora? Naquele prédio perto do parque.

— E eu vou lá saber onde esse idiota mora? — ele dá de ombros.

— Ele não é idiota! E sim, é lá que ele mora, eu já fui lá. Eu… tava pensando em mandar uma mensagem e ver se posso ir pra lá. Acho que… eu incomodaria menos… o que você acha?

— Faz o que você quiser, Bochecha. Mas quero ver você convencer a velha a te deixar sair.

— São só dois quarteirões, eu nem vou me molhar muito.

— Você viu a chuva que tá lá fora? A ventania? Você vai ser arrastada, Cara de Lua! Para de ser trouxa e aquieta o rabo aqui!

— Mas… você disse pra eu fazer o que eu quiser. — ela franze o cenho.

— Tsk, pode fazer, ué. Mas não é problema de ninguém aqui se cair um raio na sua cabeça ou o escambau só porque você ficou de gracinha!

— Tá bom, tá bom! — ela ergue as mãos como se estivesse se rendendo, depois cruza os braços e… faz biquinho? — Foi só uma ideia pra não atrapalhar vocês, eu nem tinha certeza se ia mesmo.

— Se você quer tanto correr pra ficar com o Deku, vai, ué. Mas é o que eu falei, é problema só seu se você pegar uma pneumonia ou alguma coisa assim.

— E-eu não ia correr pra ficar com o Deku-kun! Do que é que voc-

— KATSUKI, VEM FAZER O JANTAR! — o grito estridente da velha ecoa pelo corredor e faz a Uraraka dar um pulinho de susto, os olhos ainda mais arregalados e as bochechas vermelhas fazendo ela parecer um tomate inchado. Tsk, que ridícula! É só falar no nome do nerd idiota que ela perde toda a valentia.

— Faz o que você quiser, não tô nem aí. — ele resmunga e a deixa sozinha no quarto.

Verdade seja dita, nem ele sabe de onde veio isso de falar do nerd, só saiu sem pensar. Vai ver seria melhor se a Cara de Lua metesse mesmo o pé daqui, ela não tá confortável e dá pra ver pelo sorrisinho sonso que deu quando o velho disse que ela podia ficar à vontade, o que com certeza não vai acontecer. Não faz a mínima diferença pra ele o que ela faz ou deixa de fazer, apesar de achar ridículo como os dois velhos mudaram de atitude por causa disso, mas… foda-se se ela quer ficar ou não, só parece meio idiota sair nessa chuva e andar por dois quarteirões quando ela já tá debaixo de um teto. De toda forma, a cara de bocó que a bochechuda fez quando ele falou do Deku seria hilária se não fosse tão ridícula! E o Deku sendo paspalho como ele é, receberia a tonta de braços abertos caso ela saísse mesmo na chuva, dois imbecis! Katsuki só supõe que a Uraraka não pode ser tão imbecil assim de arriscar ficar doente ou coisa pior só pra se enfurnar na casa do nerd maldito! Tem uns boatos aí sobre esses dois que ele ouve contra sua vontade quando a Rosinha e os idiotas começam a futricar sobre a vida dos outros, mas… mesmo se for verdade, a Uraraka não pode ser tão burra assim, pelo menos nunca pareceu ser pelo pouco que ele sabe dela.

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— Já separou um pijama pra ela, filho? — o velho surge na cozinha, colocando os óculos e deslizando a toalha que estava nos cabelos para os ombros.

— Merda, esqueci! — ele murmura — Deixa eu só refogar isso aqui e já vou.

— Sem pressa, a Uraraka-san nem foi tomar banho ainda.

— Tá.

— Espero que você não esteja pensando que eu sou hipócrita.

— Quê?

— Sobre abrigar a Uraraka-san por hoje depois daquilo que eu te disse sobre mantermos o profissionalismo.

— Ah tá.

— São circunstâncias excepcionais, e eu diria isso para qualquer funcionária da sua mãe… bom, imagino que você tenha chegado a essa conclusão sozinho, você tem maturidade e discernimento o bastante pra isso.

— Que seja. — ele dá de ombros, sabendo que o velho não está debochando nem nada, mesmo que até poderia parecer. Katsuki não chegou a pensar assim, mas a Uraraka ficar aqui era mesmo inevitável — Não sou eu que você tem que convencer, é ela.

— Por quê?

— Ela tava com uns papos de ir pra casa do Deku.

— Deku… ah, o Midoriya-kun. Ele mora aqui por perto, né? — ele para e pensa — Mas eles são amigos?

— Até demais.

— Hummm, entendi. — ele parece reflexivo, e abre um sorriso quando a Bochechuda chega na cozinha com a velha — Ah, Uraraka-san, o Katsuki estava me contando da sua ideia de ir para a casa do Midoriya-kun.

— O quê? Por quê? — a velha se vira pra ela com tudo — Não precisa ir, Ochako-chan! Pode ficar com a gente!

— A-ah, eu não vou! Não se preocupem, foi só uma ideia que passou pela minha cabeça, mas o Bakugou-kun me convenceu a ficar. — ela explica, balançando as mãos.

— Ele convenceu? — os velhos perguntam com espanto.

— Convenci? — ele ergue uma sobrancelha.

— É, eu só não queria atrapalhar vocês. Bom, eu também não ia querer atrapalhar a Midoriya-san, mas… enfim, mesmo que sejam só dois quarteirões, ainda tá chovendo muito, né?

— Pois é, e não tem previsão de parar. — a velha concorda e então olha pra ele — Finalmente fez algo que preste e botou juízo na cabeça dela.

— Eu nem falei nada demais. — ele dá as costas e volta a atenção para a panela no fogo — Fica de olho pra não queimar aqui, vou lá pegar um pijama. — e se retira da cozinha, estranhamente satisfeito pela Uraraka ter percebido o quanto a ideia dela era estúpida.

***

— Oh, até que ficou bom! — a velha diz quando a Uraraka volta à cozinha depois de tomar banho — Você tinha o quê? Uns 12 anos quando eu comprei esse, Katsuki?

— É. — ele responde ainda com os olhos na panela.

— Ah, é por isso que serviu direitinho, então. — a Uraraka ri.

— Pois é, acho que os pijamas atuais dele ficariam enormes em você. — o velho comenta com uma risada — Acho que ficariam grandes até em mim.

— Não… — Katsuki se vira para colocar a bandeja na mesa e finalmente põe os olhos na Cara de Lua usando seu pijama velho: uma camiseta vermelha e shorts azul de tons berrantes que fazem alusão às cores do uniforme do All Might. Ele não sabe o que tinha na cabeça de vestir um troço feio desses, quase não dá pra ficar olhando pra essa aberração. Quase. — Não exagera, velho.

— Obrigada pelo pijama, Bakugou-kun. É muito confortável.

— Só pega um prato e senta aí logo. — ele balança a cabeça pra parar de olhar pra ela.

E o que se segue é um dos jantares mais longos de sua vida, com os velhos fazendo de um tudo pra não deixar essa situação parecer tão bizarra como é. A Cara de Lua tá morrendo de vergonha, mas se esforça em ser educada e manter uma conversa normal com os velhos. Katsuki se recusa a se participar dessa pataquada, só dando respostas monossilábicas e olhando feio toda vez que a velha dá um pisão no pé dele por debaixo da mesa, que caralhos ela quer? Tem é que agradecer que ele não meteu o pé assim que terminou de comer. Ele deveria ter ido mesmo, só esperando todo mundo acabar pra poder lavar a louça, mas aí a Cara de Lua se ofereceu pra lavar e não aceitou “não” como resposta dos velhos. Ele que não ia insistir também, ela faz o que quiser.

Katsuki também faz o que quiser, então não vê motivo pra ficar entocado no quarto como fez nos últimos dias, ele não se importa muito, mas considerou um pouco o que o velho disse sobre manter profissionalismo e não ficou andando pela casa, indo direto pro quarto depois de terminar seus treinos da manhã e da tarde, não cruzando com a Cara de Lua em nenhum momento.

Tsk, grande merda isso, porque acabou não fazendo diferença nenhuma, agora ela tá aqui de noite, usando um de seus pijamas velhos e lavando a louça da janta como se fizesse isso todo dia, o profissionalismo foi pro saco.

Mas ela não parece ter se tocado ainda, porque assim que aparece na sala e percebe que ele tá sentado no sofá da sala de estar, dá um gritinho de susto e começa a recuar quando Katsuki se vira e a olha.

— Tá fazendo o quê aí?

— Cadê seus pais?

— O velho deve estar no ateliê dele, a velha eu sei lá, deve ter ido ver TV no quarto. Pra quê você quer saber?

— Eu só queria falar boa noite, mas não quero incomodar.

— Já? Não são nem 8 e meia ainda. — ele murmura, olhando pra hora no celular. E só então que se toca que não tem porque questionar a hora que ela vai deitar, por que ele se importa?

— Engraçado você falar isso, lembro que no primeiro ano você ia deitar bem cedo.

— Tsk, e você sempre vai dormir tarde. E daí? — ele diz meio na defensiva.

— É verdade. Como é que você sabe? — ela pergunta, saindo do corredor e se aproximando da sala.

— Sei o quê?

— Que eu vou dormir tarde.

— Os idiotas falam às vezes. Você é sempre a última a ir dormir quando todo mundo se junta pra ver filme ou alguma merda assim.

— Você tá falando com a tricampeã de resistência a filmes chatos, não dormi em nenhum. — ela põe as mãos nos quadris e finge uma pose triunfante.

— Tsk, grande coisa.

— Hum, isso é só inveja sua porque você nunca nem tentou competir. E se tentasse, eu ganharia.

— Vai sonhando, Cara de Lua. Até parece que eu ia perder meu tempo com filme ruim.

— Não é filme ruim, é filme chato.

— E qual a diferença, caralho?

— Toda. Tem filme ruim que é tão ruim que dá a volta e você não consegue parar de assistir. Filme chato é só chato, e tem até filme que é bom e é chato. — ela explica com um tom sabe tudo que lembra o do Quatro-Olhos — Você saberia a diferença se tivesse participado de algum dos nossos cineminhas.

— Eu tenho mais o que fazer.

— Ah sim, o seu sono da beleza, é verdade.

— Vai se foder. — ele olha feio pra ela, que só dá uma risadinha — Pra quê você quer dormir tão cedo hoje?

— Ah, eu não ia dormir, só ia pro quarto que você arrumou, eu… tô bem sem graça de ficar aqui, então não queria ficar andando por aí e atrapalhando.

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— Atrapalhando o quê? O velho se enfurna no ateliê dele e não liga pra mais nada, a velha se entope de remédio pra dormir e logo capota, nenhum deles se importa.

— Sim, mas… ainda assim, é… aqui é meu local de trabalho de dia, mas é a casa de vocês à noite, eu não posso ligar a TV e ficar tranquila na sala como eu ficaria se estivesse em casa.

— A velha não falou que você podia, se quisesse? — ele lembra dela falando durante o jantar.

— Sim, mas… ela só disse pra ser educada, né? Não quer dizer que eu posso mesmo.

— Ela não é educada, vai por mim. — Uraraka dá uma risada — Qual a graça?

— O jeito que você fala da sua mãe é igual a como ela fala de você, você não tem noção de como são parecidos, Bakugou-kun.

— Tsk, não vem com esse papo você também.

— Hum?

— Todo mundo fala isso, não tem nada a ver. Eu não sou parecido com aquela escandalosa do caralho. — ele a olha ainda em pé perto do sofá — Você vai sentar ou não? Tá me irritando você parada aí igual um vara-pau.

— Ah, eu… — ela parece surpresa, olhando pro corredor como se conseguisse ver o quarto de hóspedes daqui — Bom, se você não se importa…

— Por que raios eu ia me importar? — ele questiona, revirando os olhos quando ela se senta bem na ponta do assento do sofá, pronta pra levantar a qualquer minuto.

— Bom, porque… é meio esquisito, né? Devo estar te incomodando, lembro da Mina-chan falando que você sempre se esconde o máximo que consegue nas férias, ter alguém da sua sala aqui deve te deixar irritado.

— Vai se foder, eu não me escondo porra nenhuma.

— Tá, tá, mas mesmo assim, né? Ainda é chato eu estar aqui.

— Tsk, era isso ou ouvir um monte se a chuva te arrastasse.

— Haha… pois é. Obrigada por se preocupar com a minha segurança, então. — ela suspira — Vocês três, por sinal. Eu falei que você parece muito com sua mãe, mas também lembra bastante seu pai, viu?

— Hã?

— Não sei bem no quê, acho que é no jeito de se importar com as coisas, você parece mais com ele nisso. — essa é a primeira vez que alguém comenta alguma semelhança entre ele e o velho, todo mundo tá sempre falando o quanto ele parece com a velha em tudo, é um saco. Katsuki não concorda muito, mas não deixa de achar curioso como ela pensou nisso — Ele é bem na dele também, né? Tipo você, que não quer papo com ninguém quando não tá lutando ou usando a individualidade.

— É. — ele concorda.

— Acho que todo mundo é assim, né? Sempre tem alguma coisa do pai ou da mãe, ou dos dois, e a gente nem percebe até que algum amigo conhece eles. O Todoroki-kun ficou chocado quando eu disse que ele lembra mais a mãe dele do que o Endeavor-san.

— Tsk, ele deve é ter achado bom que alguém acha isso.

— Hahaha, é bem possível. A Tsu-chan é mais parecida com as irmãs, o Iida-kun parece com o irmão dele assim de aparência, mas é mais igual ao pai, já o Deku-kun é a mãe dele escritinho, bom… se bem que eu não sei muito do pai dele…

— E você?

— Hum?

— Você parece com quem? — ele pergunta, não tendo saco pra ouvir sobre a árvore genealógica dos amigos idiotas dela, principalmente a do nerd maldito.

— Ah… acho que mais meu pai de personalidade, mas de aparência sou igual minha mãe, quer ver? — ela saca o celularzinho dela e o estende pra mostrar uma foto de qualidade bem porca, nela tem um cara enorme de cabelo castanho claro e uma mulher de cabelos castanhos na altura do ombro cara redonda, não tanto quanto a da filha, mas ainda assim bem redonda — Igualzinho, né? — ela puxa o celular de volta quando ele não fala nada e suspira — Que saudade deles, tentei ligar, mas deu fora de área, acho que esse tufão tá bem geral, né?

— Como é que você é tão baixinha? Seu pai parece uma montanha.

Ela explode em gargalhada, o que o deixa se sentindo um idiota, por que raios ele disse isso, caralho?

— Eu vou perdoar a grosseria porque foi engraçado, mas só por isso, viu? — ela limpa o canto dos olhos quando se acalma — Ah, Bakugou-kun, você-

E então do nada a força acaba, e tudo fica no mais completo breu.