Tales of Star Wars

Uma mentira pra acreditar (Anakin x Ahsoka / Anakin x Padmé)


O som das portas do elevador deslizando tirou a senadora Padmé Amidala de seus devaneios. Atenta, ela levantou o rosto, deixando de prestar atenção no livro que lia, e olhou diretamente para o fim do corredor, de onde passos se tornavam audíveis. Poucos segundos depois, um homem estava lá, caminhando cabisbaixo.

— Ani! – ela disse sorridente, ao ver o marido chegar.

Era tarde. Não era comum que Anakin chegasse em casa depois do anoitecer.

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Ela se levantou e se adiantou até ele. Padmé o abraçou e o beijou nos lábios, mas todas as reações de Anakin pareciam mecânicas. Ele não parecia querer abraça-la de volta, muito menos beijá-la. Era como se sua mente estivesse em qualquer outro lugar, menos ali. E, imediatamente, a senadora soube o que era. Mas, ela não precisava ser sensitiva à Força para saber o quão desestabilizado ele estava naquele momento e, por isso, resolveu deixá-lo sozinho. Ela não o seguiu, deixando-o à sós com seus pensamentos.

Ela conhecia muito bem o marido. Sabia que nada que dissesse a ele enquanto ele estivesse naquele estado não seria aproveitado. Entraria por um ouvido e sairia pelo outro. Para que pudesse desenvolver uma conversa, Anakin precisaria estar mais calmo. Bem mais calmo.

Em silêncio, o Jedi cruzou a sala e se dirigiu até o corredor principal do apartamento. Alguns instantes depois, Padmé ouviu o chuveiro ligado. De volta ao sofá, a senadora retornou à sua leitura (embora não conseguisse prestar atenção em nada que lia). Toda a sua concentração estava voltada para os sons e movimentações que vinham do interior do apartamento.

— Eu não consigo, mestre – lamentou Ahsoka, ao ser desarmada mais uma vez por Anakin.

— Você consegue – Anakin tentou incentivá-la. – Eu já vi você lutar. Já vi você fazer coisas mais difíceis do que isso. Vamos... Pegue seu sabre.

Impaciente, Ahsoka deslocou seu sabre no ar até a sua mão. Irritada, ela assumiu posição de guarda e acionou o sabre, revelando a lâmina de plasma verde. Imediatamente, Anakin fez o mesmo.

Mestre e aprendiz se encararam por alguns instantes, um esperando o outro agir. Ahsoka, jovem e inconsequente (não que Anakin também não o fosse) avançou primeiro. Na defensiva, Anakin bloqueou os golpes da menina. À direita, à esquerda. Irritada com a facilidade com a qual o homem à sua frente bloqueava seus golpes, Ahsoka pulou. Ela era alta e magra, uma constituição física que lhe permitia fazer grande acrobacias enquanto duelava. Passando por cima de Anakin, ela tentou, mais um golpe ainda no ar, mas foi bloqueada.

Anakin tentou seu primeiro golpe assim que Ahsoka pousou ao solo. A jovem, pega de surpresa, viu o movimento delicado de seu mestre fazer seu sabre girar em sua mãe e, no instante seguinte, a arma estava a longe de sua mão, caída ao solo. A lâmina de Anakin, na altura de seu pescoço.

— Touché – ele disse.

— Eu não consigo, mestre – Ahsoka anunciou por fim, caminhando até um banco na lateral da sala de treino e se sentando.

Era visível que estava furiosa.

Anakin se aproximou e se sentou ao seu lado.

— Você é boa, Ahsoka – ele disse. – Muito boa, acredite em mim. Mas você quer garantir a sua vitória apenas nas suas habilidades, e isso pode ser arriscado para um Jedi quando nós temos a Força como aliada. A Força é uma companheira que está conosco em todos os momentos. Aprenda a ouvi-la a todo momento, e não a usar ele só quando for conveniente.

— O que quer dizer, mestre?

Anakin se manteve em silêncio por alguns instantes. Por fim, ele se levantou e a chamou ara o centro da sala novamente. Ahsoka obedeceu, atraindo novamente o seu sabre de luz para a sua mão com a Força.

— Feche os olhos e acione o seu sabre – pediu Anakin.

Ahsoka obedeceu.

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— Agora, se defenda do meu ataque.

Imediatamente, Ahsoka abriu os olhos e recuou.

— Como assim, mestre?! – ela estava desesperada. – Como você espera que eu faça isso?

— Como eu te disse – Anakin respondeu. – Ouça a Força. Esteja atenta a ela a todo momento, não só quando você achar que precisa dela. Se você aprender a ouvi-la, ela vai te guiar da forma adequada.

Ahsoka, descrente, olhou para ele com as sobrancelhas arqueadas.

— Qual é? Me dá uma chance – pediu Anakin. – Obi-Wan fez exatamente isso comigo quando eu comecei a aprender a usar o sabre de luz. Eu sei lá qual é a lógica por trás disso, mas ele fez e funcionou. Deve ter algum motivo, não?

Ahsoka, impaciente, revirou os olhos e, por fim, os fechou.

Anakin acionou o seu sabre e se aproximou da togruta. Lentamente, ele movimentou seu sabre pelo lado esquerdo de Ahsoka. Por alguns instantes, a jovem se manteve imóvel, como se não tivesse percebido nada. Mas, quando a lâmina de plasma azul do sabre de Anakin estava a menos de dez centímetros do rosto da aprendiz, ela reagiu, levantando o braço e bloqueado o sabre de seu mestre.

—Muito bem! – disse Anakin, genuinamente feliz. – Mantenha os olhos fechados. Vamos tentar mais uma vez.

E Anakin repetiu o gesto. Dessa vez, um movimento lento de um ataque por cima. E, mais uma vez, Ahsoka bloqueou o ataque. Mas, nesse momento, ele não precisou pedir que ela mantivesse os olhos fechados. Ela o fez por conta própria. Ela esperava a continuidade do exercício.

Em seu terceiro ataque, Anakin resolveu agilizar seu movimento. Um ataque discretamente mais veloz. E, mais uma vez, Ahsoka o bloqueou.

E de novo. E de novo. E de novo!

Antes que percebessem, os dois estavam envolvidos em um duelo. Ahsoka de olhos fechados e Anakin recuando exasperado.

— Ahsoka! – ele grunhiu.

Mas a jovem parecia não lhe ouvir.

Mais uma vez ela pulou sobre ele. Seus sabres se encontraram em pleno ar e, antes de pousar no chão, o movimento realizado por Ahsoka torceu o braço de Anakin. Ele caiu deitado no chão, desarmado, com seu sabre há dez metros de distância. Antes que ele pudesse se mover, Ahsoka pousou ao seu lado e colou a lâmina de plasma verde ao lado do seu pescoço, impossibilitando que ele saísse de onde estava.

— Meus parabéns, Abusada – ele disse, arfando.

Ahsoka, por fim, finalmente abriu os olhos e viu o que havia acontecido.

Após alguns instantes, a cobertura da senadora foi tomada por um silêncio sepulcral e perturbador tão prolongado que ela resolveu agir. Anakin, preparado ou não, calmo ou não, iria ouvi-la. Lentamente, Padmé avançou pelo corredor até, por fim, chegar ao seu quarto.

Anakin estava sentado no colchão, parcialmente vestido e com os cabelos ainda molhados. Seu olhar, perdido além da janela, no céu noturno e movimentado de Coruscant.

Mesmo sabendo que ele já havia percebido sua presença ali (ele era um Jedi... como não perceberia?), Padmé avançou lentamente até a cama, como se não quisesse fazer barulho algum. Os últimos dias haviam sido tão emocionalmente instáveis que ela não queria tirar a paz dela, mas sabia que os dois precisariam mencionar o imenso elefante branco entre eles se quisessem voltar ao normal.

A mulher se sentou ao lado dele e segurou a sua mão.

— Você quer falar sobre o que aconteceu? – perguntou Padmé.

Ela queria que ele pensasse que tinha a opção.

Por alguns instantes, Anakin permaneceu em silêncio. Instantes nos quais Padmé pensou que precisaria abordá-lo de uma forma mais direta e incisiva. Mas não foi necessário. Quando ela abriu a boca para isso, Anakin respondeu:

— Ele foi embora, Padmé. O que há pra falar?

O nó na garganta dele era evidente apenas pela sua voz e isso cortou o coração de Padmé.

— Ani... eu sinto muito... – ela começou. – Eu não consigo imaginar o tamanho da dor que você está sentindo agora, mas eu seio quanto a Ahsoka importava pra você. Eu sei o quanto você amava ela.

A menção ao nome da jovem Padawan foi o último passo para Anakin cruzar a linha entre a estabilidade e a instabilidade. No momento em que uma lágrima escorreu pelo rosto dele, Padmé sabia que era um caminho sem volta. Anakin abaixou a cabeça e começou a chorar. Silenciosamente, com soluços quase inaudíveis.

Quase que imediatamente, Padmé o abraçou, sentindo-se culpada por aquilo. Mas ele precisava passar por aquilo. Ela apenas não o deixaria passar sozinho. Jamais!

— Dói demais – foi o que Padmé conseguiu ouvir Anakin dizer por entre os soluços. – Principalmente em saber que ela estava decepcionada comigo.

— Não foi sua culpa, Ani! – Padmé emendou no mesmo segundo. – Você fez o que pôde!

— Mas não foi o suficiente! – ele rebateu. – Não chegou nem perto...

— Claro que foi suficiente, Ani! – Padmé não deixaria ele vencer aquela discussão com aquele tipo de argumento. – Você salvou a vida dela! Você evitou que ela fosse condenada! Se não fosse você, a essa altura, ela já estaria na cela dela, esperando pela execução.

Mas, apesar de as palavras da senadora serem verdadeiras, ela sabia que havia uma brecha por elas. Uma brecha pela qual Anakin se esgueirava e se culpava ainda mais pelo que havia acontecido.

— Mas eu não consegui evitar que ela fosse julgada, consegui? – ele perguntou. – Ela foi perseguida pelos clones, foi expulsa da Ordem e foi humilhada naquele julgamento... Se eu tivesse sido mais rápido, nada... nada disso teria acontecido... e ela ainda estaria aqui.

O que Anakin dizia era verdade...

— Você está sendo duro demais com você mesmo, Ani – respondeu Padmé. – Nós não temos tudo ao nosso controle. Podemos agir sobre o que temos, mas muitas coisas não dependem de nós...

— Então que queria ter – ele respondeu, e Padmé pode identificar em sua voz algo que já havia visto antes, poucos anos antes, logo após a morte de Shmi Skywalker. Fúria. – Eu queria ter controle sobre tudo. Se eu tivesse, nada disso teria acontecido. Eu jamais teria deixado! Jamais...

Ele se levantou da cama, afastando-se de Padmé e aproximando-se de cabeça baixa contra a parede.

— Eles traíram ela, Padmé – Anakin murmurou. – Traíram ela quando a expulsaram da Ordem sem dar ao menos a chance de se explicar. Sem provas! Nada!

E Padmé sabia exatamente a quem o marido se referia. Conseguia sentir a raiva em sua voz porque já estava cansada de ouvir Anakin reclamando do Conselho Jedi. Mas aquela devia ser a primeira vez que ele reclamava por uma injustiça não cometida contra ele.

Mas, mais do que isso, ela sentia a mesma raiva que ele. Como, em toda a sua sabedoria, aqueles mestres Jedi puderam agir tão erroneamente? Como, em todo o seu poder, eles não se levantaram para defender Ahsoka no momento em que ela mais precisava? No momento em que Anakin não estava conseguindo fazer isso sozinho...

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— Ani...

Padmé foi até ele. Ela pousou delicadamente a mão sobre o seu ombro e o acariciou.

— Eu persegui ela, Padmé – ele se voltou para a esposa. – Com os clones, no complexo prisional. Eu fui atrás dela, eu persegui ela... Eu... eu...

— Ani, não é mais o momento de achar culpados – Padmé sussurrou. – O que está feito, está feito. Bariss foi presa. E Ahsoka tomou a decisão que achou certa para ela. Você fez o que pôde com os meios que tinha. Não vale mais a pena se culpar por isso...

— Então, como vou fazer pra essa dor passar?

Novamente, Padmé sentiu seu coração partir. A dor da qual Anakin falava estava presente em cada uma de suas palavras. Mais uma vez, ele havia perdido alguém que amava. E, mais uma vez, ela se culpava por aquilo.

— Não vai – ela disse, por fim, pousando a mão sob o rosto úmido do marido. – Mas, mais cedo ou mais tarde, você vai se acostumar com ela dor. Vai dor por muito tempo. Mas, um dia, você vai descobrir que ela é apenas mais uma cicatriz com a qual você aprendeu a conviver. E, até lá, eu vou estar aqui por você.

No silêncio perturbador que dominava o apartamento, os dois se abraçaram. Anakin se perdeu no meio dos cabelos de Padmé, desejando, por um instante, que nada mais na galáxia existisse além dele e dela. Que tudo aquilo fosse apenas um sonho ruim do qual ele poderia acordar a qualquer momento.

E, mesmo sabendo que não era, por alguns instantes ele preferia acreditar nessa mentira.