Tales of Star Wars

Oferta (Padmé x Ahsoka)


Talvez, aquela fosse a primeira vez em muito tempo que Padmé Amidala podia se vestir com roupas mais normais. Bem... menos extravagantes que as de costume, na verdade... De qualquer forma, ela ainda vestia uma túnica, mantendo uma boa parte de seu rosto coberto. Afinal, não era nem um pouco seguro para uma senadora da República estar sozinha e sem segurança no vigésimo terceiro nível de Coruscant. Sabia que Sabé estava de prontidão, a apenas algumas mesas de distância, para lhe ajudar, se precisasse, mas a senadora temia que, se fosse reconhecida e algo acontecesse, a ajuda de sua dama de companhia não seria suficiente.

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Por isso, enquanto esteve sentada na mesa daquela cafeteria (mais limpa e organizada do que ela, por um certo preconceito, esperava), Padmé permaneceu de cabeça baixa, olhando para a mesa e para sua xícara de café e, por vezes, encarando a porta de entrada, esperando que sua companhia chegasse a qualquer momento. Sabia que estava adiantada, mas estava ansiosa. A verdade era que ela não sabia porque havia marcado aquele encontro. Não sabia o que iria dizer, o que iria fazer... Queria fazer tanta coisa, mas não sabia nem mesmo por onde começar! Temia, inclusive, que sua oferta de ajuda pudesse ser... ofensiva... Algo que, obviamente, não era a sua intenção, mas, de qualquer forma, todo e qualquer pensamento sobre os próximos minutos que passavam pela sua cabeça deixavam as pontas de seus dedos geladas e formigando.

E havia um silêncio estranho. A cafeteria parecia quieta demais, com o ar sendo tomado apenas pelos sons de talheres riscando pratos e copos sendo depositados nas mesas de madeira. Havia poucos clientes e nenhuma conversa. Um silêncio perturbador, como se estivesse antecipando algo ruim. Ansiosa, ela tentava afastar esse tipo de pensamento de sua cabeça, mesmo sabendo que esse tipo de atitude não a deixaria mais calma. Pelo menos, não tanto quanto Sabé que, do outro lado do bar, parecia apreciar seu perfumado capuccino, embora seus olhos vasculhassem cada centímetro daquele local a cada instante, em busca de qualquer coisa que pudesse ser enquadrada na categoria de “possível ameaça”.

A porta do escritório de Padmé no Senado se abriu, deslizando em um movimento suave. Curiosa para saber quem era a sua visita naquele fim de tarde, Padmé levantou a cabeça a tempo de ver Sabé passando por debaixo do arco de metal, com a porta se fechando atrás dela, logo em seguida, enquanto a dama de companhia caminhava até a mesa. Como da última vez que a viu, Sabé usava um traje que mais a fazia se parecer com uma caçadora de recompensas do que com a funcionária de uma senadora (com certeza, deve ter tido muita dificuldade para adentrar o prédio do Senado vestida dessa forma, os seguranças devem ter dificultado bastante sua passagem).

Ao vê-la, Padmé sentiu seu coração acelerar. Ela largou o datapad em suas mãos e dirigiu toda a sua atenção à recém-chegada.

— Conseguiu? – perguntou a senadora, ansiosa.

— Consegui – confirmou Sabé. – Mas acredite, de todas as missões que você já me deu, essa com certeza foi a mais difícil de todas! Essa menina parece estar querendo se esconder de toda a galáxia. Você não faz idéia de até onde eu precisei ir pra conseguir essa informação. Acho que nunca fui tão fundo assim em Coruscant...

— Ela está bem? – Padmé se adiantou, incapaz de controlar sua curiosidade.

— Eu não sei dizer – a dama de companhia parecia infeliz por ter que dar essa resposta. – Mas ela aceitou o seu convite para um café. Sugeriu que se encontrassem em um bar no vigésimo terceiro nível, amanhã, logo após o almoço. Esse é o endereço.

Sabé estendeu um pequeno pedaço de papel para a senadora e, ao lê-lo, Padmé reconheceu a letra da menina. Apesar de não saber se ela estava realmente bem, era um alívio saber que estava viva. Um alívio tão grande que a senadora, pela primeira vez em semanas, conseguiu relaxar completamente, largando-se em sua poltrona e soltando um longo suspiro.

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Ela estava viva.

A sineta tocou quando a porta se abriu, indicando que alguém entrara na cafeteria. No mesmo instante, Padmé viu Sabé levantar a cabeça e, imediatamente, a senadora se virou, olhando para a porta atrás de si. Há poucos metros de distância, havia uma figura que, assim como ela, vestia uma túnica com um capaz. As deformidades no capuz, deixadas pelos seus dois montrals, apenas denunciavam que não era um humano.

A figura localizou Padmé quase que imediatamente, dirigindo-se até ela e se sentando à sua frente. Pelo pequeno vão deixado pelo capuz, a senadora reconheceu a pele alaranjada da amiga.

— Ahsoka... – ela suspirou, pousando a mão suavemente sobre a da ex-Padawan, que estava depositada sobre a mesa.

No rosto da jovem, ainda havia marcas claras da dor.

— Olá, Padmé – ela disse, sem graça.

As duas mulheres permaneceram em silêncio por alguns instantes. Mesmo naquele momento, Padmé não sabia o que dizer. Qualquer coisa que lhe vinha a cabeça parecia ser insuficiente.

— Como você está? – perguntou a senadora, decidindo que, talvez, fosse melhor deixar a jovem falar em primeiro momento.

— Indo.

Definitivamente, aquela a pior resposta possível. Não só confirmava que Ahsoka não estava bem (afinal, não havia motivos para ela não dizer, se estivesse) como também não lhe dava noção alguma da real dimensão da situação que Ahsoka estava enfrentando naquele momento.

Nesse momento, um droide-garçom parou ao lado da mesa. Ahsoka pediu um café e ficou em silêncio quando o droide voltou para o balcão.

Talvez, fosse Padmé quem devesse falar em um primeiro momento...

— Eu fiquei muito triste quando o Anakin me contou da sua saída definitiva da Ordem – ela disse. – Mas confesso que não fiquei nem um pouco surpresa. Eu acho que... acho que teria feito o mesmo, na sua situação. Depois de tudo o que os Jedi fizeram com você, eu não esperava outra atitude.

— Eu fiz o que tinha que fazer – havia tristeza na voz de Ahsoka, e Padmé precisou se conter para não levantar e a abraçar naquele exato instante. – Não poderia mais estar naquele lugar. Eu nunca mais seria a Ahsoka, a Padawan. Mesmo que todos soubessem que eu sou inocente, eu sempre seria vista como aquela que precisou ser investigada e julgada. Mesmo que não falassem nada, todos me julgariam com o olhar. Eles jamais confiaram totalmente em mim de novo, assim como eu jamais confiaria neles.

— E agora você não é nenhuma das duas coisas – continuou Padmé, sabendo aonde Ahsoka queria chegar. – Nem Padawan, nem pária.

Ahsoka confirmou com a cabeça, balançando-a afirmativamente em um movimento lento e melancólico.

Um calafrio percorreu a espinha de Padmé quando, após isso, um pensamento se formou. Aquele era o jeito da ex-Padawan de dizer que a Ahsoka Tano que a senadora conhecia estava morta. No lugar dela, havia surgido uma nova pessoa. Talvez, alguém que a própria Ahsoka ainda não conhecesse, mas que enterrara a jovem cheia de vida e esperança para sempre.

— E o que você tem feito? – quis saber Padmé.

Antes que Ahsoka respondesse, o droide retornou. Ele pousou uma xícara em frente a Ahsoka e saiu, deixando as duas mulheres a sós novamente.

Ahsoka ainda bebeu um gole de seu café antes de responder.

— Estou procurando emprego – respondeu. – Tenho feito alguns trabalhos aqui e ali, mas nada fixo, por enquanto.

Novamente, Padmé foi tomada por um calafrio estranho.

A instabilidade na vida de Ahsoka a deixava preocupada. Padmé se sentia impotente diante daquela situação, incapaz de saber como ajudar. Queria abraçar a jovem e resolver todos os seus problemas, mas, embora a tenha defendido, Padmé ainda era parte do mesmo Senado que a havia julgado e quase condenado. Não fazia idéia se Ahsoka lhe direcionava alguma forma de raiva e amargor. Não concordaria, mas entenderia, se fosse o caso. Afinal, tudo ainda era muito recente. Recente demais.

Tomada por um sentimento forte de amor, Padmé voltou a tocar a mão de Ahsoka, apertando-a com força. Ahsoka não retribuiu o gesto, mas também não realizou nenhum movimento esquivo. Apenas permaneceu imóvel enquanto a senadora demonstrava seu afeto.

— Você está precisando de alguma coisa?

— Por enquanto, não.

Precisaria ser mais incisiva. Mais direta.

— Ahsoka, você está precisando de dinheiro?

A reação de Ahsoka a denunciou. Apesar de ter respondido com um “não”, a menção à palavra foi o estopim para que a jovem levantasse a cabeça e olhasse diretamente para a senadora pela primeira vez naquele dia. Havia um brilho de esperança em seus olhos. Sim, ela precisava de dinheiro. Mas jamais poderia pedir algo assim para Padmé. Jamais poderia aceitar.

— Ahsoka, por favor, me conte a verdade – Padmé estava quase implorando. – Eu quero te ajudar. Eu não quero que você precise enfrentar algumas situações para conseguir sobreviver. Eu quero te ajudar em tudo o que for possível! Só precisa me pedir.

— Eu agradeço, Padmé, mas eu estou bem – dessa vez, havia um tom sutil e amável na voz de Ahoka. Como se ela, inutilmente, estivesse tentando acalmar a senadora. O fato era que aquele tom de voz não era convicente nem mesmo para a própria Ahsoka. – Vou ficar bem – ela se corrigiu, por fim, incapaz de continuar com a mentira que estava contando para Padmé e, consequentemente, para si mesma.

O coração de Padmé se partiu nesse momento. Não havia mais como negar que Ahsoka estava em maus lençóis e não saber exatamente o que estava acontecendo apenas fazia com que a senadora de Naboo fosse tomada por um sentimento de impotência que jamais sentira na vida.

— Ahsoka, você não... você não está se envolvendo com caçadores de recompensas e mercenários, está?

Temporariamente, Padmé sentiu um rápido alívio ao ver Ahsoka rir.

— Não – ela respondeu, com o sorriso ainda estampado sem eu rosto. O primeiro sorriso em semanas. – Não estou fazendo nada ilegal, se isso te deixa mais calma.

Não, não deixava. Mas Padmé sabia que Ahsoka não iria querer falar mais nada e ela precisava respeitar essa decisão (apesar de a curiosidade estar lhe corroendo por dentro).

— Eu só acho que eu preciso me reencontrar – Ahsoka continuou. – A vida inteira eu cresci no Templo e fui educada para ser uma Jedi. Era a única visão de mundo que eu tinha e, então, tudo e todos em quem eu acreditava me traíram. Eu só preciso de tempo. Pra decidir o que vou fazer daqui pra frente. Mas não quero que se preocupe comigo.

Apesar de tudo, Padmé sorriu. Aquelas respostas não lhe sanavam dúvida alguma, mas ela sabia que não conseguiria mais nada.

***

Quando terminaram o café, Padmé fez questão de pagar. Não apenas porque Ahsoka visivelmente enfrentava dificuldade, mas porque achava justo. “Fui eu quem te convidou, não foi? Eu pago”, ela se justificou, ficando satisfeita que Ahsoka tivesse aceitada aquela desculpa. “Mas você pode me convidar para um café qualquer outro dia, se faz tanta questão”, a senadora fez questão de emendar. Apesar de dizer isso sorrindo, Padmé suspeitava que esse convite jamais aconteceria. Na verdade, por algum motivo, ela suspeitava que aquela era a última vez que veria Ahsoka. Quase como se algo sussurrasse isso em seu ouvido.

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— Sabé lhe deu o meu contato, não é? – ela perguntou, já fora da cantina, e Ahsoka fez que sim com a cabeça.

As duas mulheres se olharam por alguns instantes em silêncio antes de, por fim, se abraçarem. Um abraço longo e apertado no qual Padmé sentiu toda a insegurança de Ahsoka: no fim das contas, a menina não passava de uma adolescente, jogada à própria sorte na galáxia com todas as suas inseguranças e frustrações, além do sentimento de abandono que, com toda razão, ela carregava em seu coração.

— Até mais, Padmé – disse Ahsoka, afastando-se.

Antes que a ex-Padawan pudesse chegar à esquina, Padmé chamou por ela.

— Ahsoka! – ela gritou, e a jovem se virou. – Sabe que pode contar comigo para o que precisar, não é? Qualquer coisa. A qualquer hora. E, se precisar de abrigo, meu quarto de hóspedes estará sempre disponível pra você.

Ahsoka sorriu.

— Agradeço a hospitalidade – ela respondeu. – Mas, no momento, não estou com vontade de me encontrar com o mestre Skywalker todos os dias. Pra ser sincera, preferia nem pensar nele por um tempo.

Sem dizer mais nada, Ahsoka continuou seu caminho, desaparecendo ao dobrar a esquina. Por alguns segundos, Padmé apenas a observou, em silêncio, perguntando-se se algum dia iria revê-la novamente. Um questionamento que permaneceu em sua mente por alguns poucos segundos, antes de ser substituído por outro.

Até que ela, finalmente, entendesse o que Ahsoka quis dizer com não encontrar Anakin todos os dias.