Tales of Star Wars

Incertezas (Ahsoka)


“Não olhe para trás”, ela disse enquanto caminhava.

A jovem não precisava olhar para trás para saber que seu mestre (agora, ex-mestre) ainda estava ali, parada, observando-a se distanciar cada vez mais. Estava, na verdade, surpreendida que ele não a estava seguindo: Anakin era uma pessoa muito insistente e seria mais do que esperado que ele a segurasse pelo pulso e tentasse convencê-la (mais uma vez) a não ir embora. Apesar de desapontada por ele não ter feito isso, Ahsoka estava agradecida: sabia que, se ele o fizesse, ela jamais conseguiria negar o pedido. Não olhando nos olhos deles e vendo o arrependimento e o amargor por trás deles. Não teria coragem de lhe dizer não, mesmo sabendo que a sua decisão, naquele momento, era a mais sensata (mas, nem por isso, a que ela mais queria seguir).

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“Não olhe para trás, não olhe para trás”, a moça continuava a repetir essa frase em sua cabeça como um mantra quando começou a descer os degraus do templo Jedi, ao mesmo tempo em que uma lágrima se formou em seus olhos.

Orgulhosa, ela não a limpou. Deixou que escorresse. Não queria que Anakin sequer a visse enxugando a lágrima. Não queria que ele pensasse que estava incerta de sua decisão. Ela sabia que era a decisão certa e não queria que ninguém pensasse que ela estava relutante (o que, de fato, ela estava). Muito menos Anakin. Ele era uma ótima pessoa, mas, se visse esse tipo de coisa, com certeza não pensaria duas vezes em chamá-la mais uma vez. Ele saberia que a sua insistência poderia ser decisiva. Que poderia fazê-ela voltar atrás. Mas Ahsoka tinha que sair daquele lugar com a cabeça erguida. Eram os Jedi que perdiam com a sua saída, não ela.

Pelo menos, era o que ela queria acreditar. Mas, no fundo, sabia que as perdas eram mútuas: os Jedi eram uma família. Uma família esquisita, disfuncional e completamente fora dos padrões. Mas uma família. Foram as pessoas que viram ela crescer e as pessoas com as quais ela aprendeu tudo o que sabia. Fora da Ordem, ela estava solta na galáxia. Não tinha para onde ir. Não tinha onde dormir, o que vestir ou o que comer. Tudo à sua frente era um território hostil, um oceano de incertezas. No Templo, ela estaria mais segura. Mas ela sabia que a família que ela tanto admirava já não mais existia: havia sido desestruturada quando o Conselho e julgou e a expulsou, entregando sua cabeça ao Senado e rompendo a relação de confiança e apoio que sempre existira. Mesmo ali, ainda haveria apenas incerteza. E, uma pela outra, ela preferia a solidão do que a companhia daqueles que não acreditaram nela.

Por fim, ela desceu o último degrau.

Insegura, Ahsoka olhou por cima do ombro, temendo ver Anankin vindo atrás dela (mas algo dentro dela queria que isso acontecesse, um desejo que ela não conseguia reprimir). Mas o Jedi não estava lá. Talvez, pela primeira vez na vida, Anakin optara por não dar voz à sua teimosia: diante de tudo o que havia acontecido nos últimos dias e da quantidade imensurável de erros que a Ordem havia cometido com a antiga Padawan, ele havia decidido respeitar a sua decisão sem insistir.

Um misto de ódio e gratidão atravessou o coração de Ahsoka. Um misto de ódio e gratidão que ela não conseguia e nem queria entender. Gratidão por ter tido sua escolha respeitada e ódio por ter sido deixada tão facilmente. Ela não conseguia entender isso, pois sabia que, se ele viesse atrás dela, ficaria igualmente furiosa. Talvez porque, no fundo, ela apenas queria estar brava com ele, não importando o motivo. Então, não importaria o que ele fizesse, a raiva existiria. Ahsoka tinha plena consciência de que Anakin não tinha poder algum para evitar sua expulsão da Ordem ou seu julgamento pelo Senado, mas lhe doía o fato de que ele, que sempre burlara todas regras na menor oportunidade, apenas decidiu ir atrás da verdade no último instante. No final, ele a salvou. Mas não sem que ela fosse exposta e humilhada frente ao Senado e à República em um julgamento injusto e execrável.

“Talvez porque ela sabia que burlar a regras num momento como esse só lhe traria mais problemas”, Ahsoka tentava reprimir a voz de sua consciência. “Ele apenas agiu da forma mais responsável possível numa situação delicada demais pra improvisar. Ou você queria que ele te ajudasse a fugir da prisão? Seu único destino seria se tornar uma caçadora de recompensas e viver na informalidade o resto da vida.”

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Mas nenhum argumento lógico era suficiente. Talvez, pudessem amenizar a raiva, mas não a decepção. Sentimentos que ela havia reprimido durante a vida toda, tentando manter sua cabeça centrada para sempre tomar a melhor e mais imparcial decisão, mas que, naquele momento, explodiam em seu peito com a força de uma bomba. Todo o conflito emocional que fora instruída a evitar em seu treinamento apenas haviam a levado àquele momento: uma expulsão injusta e um julgamento humilhante para uma inocente. Talvez, raiva e decepção não fossem sentimentos tão ruins, afinal. Naquele momento, era o que lhe trazia conforto.

Ahsoka manteve o olhar firme para o alto da escada, sem saber porque ainda se mantinha imóvel e com alguma esperança de que Anakin fosse aparecer.

Mas isso nunca aconteceu.

Apenas nesse momento, ela se permitiu enxugar as suas lágrimas, longe dos olhares de seus algozes e, principalmente, de Anakin. Ela inspirou fundo e se virou, afastando-se do Templo Jedi e esperando jamais ter que pisar naquele lugar novamente em sua vida.

À sua frente, apenas incertezas.