Tales of Star Wars

Dignidade (Satine x Bo-Katan)


“Leve apenas o necessário”, por detrás da porta, a jovem ouvia a sua irmã mais velha sendo instruída pela voz poderosa e serena do mestre Jedi. “Quanto menos coisas carregar, mais fácil nós conseguiremos nos mover. Principalmente se estivermos precisando fugir.” Era inacreditável que toda aquela operação estivesse sendo montada. Uma sósia ocupando o lugar da irmã, enganando todo o povo de Mandalore, enquanto a verdadeira Satine Kryze fugia pela galáxia, se escondendo tal qual uma covarde.

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Não era nem questão da quantidade absurda de recursos que tudo isso iria movimentar, desgastando ainda mais o já frágil governo mandaloriano. O que mais irritava Bo-Katan era o quão covarde um gesto como aquele era: não havia nada de mandaloriano naquilo. Qualquer mandaloriano nato se sentiria enojado de ser liderado por uma duquesa tão covarde... Era uma afronta, uma desonra! Mas essa não era a primeira vez que Satine demonstrava desrespeito à cultura de seu próprio povo.

Ela deveria ser duquesa. Se não ela, alguém que não virasse as costas para seu povo e não fugisse como um covarde. Alguém que se defendesse com a mesma fúria que prometia defender o próprio povo. Satine era uma mandaloriana, sim, mas diante daqueles ideais estapafúrdios e irreais de pacificação, ela não se tornava diferente do que qualquer outro estrangeiro. Uma pária... Uma mancha no nome nobre da família Kryze e na história de Mandalore.

— Se vai fugir como uma covarde, ao menos renuncie! – Bo-Katan gritara para a irmã, na noite anterior. – Entregue o poder para alguém que tenha a coragem que você não tem!

— Você? – Satine se referiu à irmã com desdém.

— Aceitaria esse dever com prazer!

Satine revirou os olhos nas órbitas e desviou o olhar, afastando-se da irmã mais nova como se Bo-Katan fosse indigna de sequer ter uma conversa com ela.

— Não dê as costas pra mim!

Bo-Katan avançou.

Nesse instante, dois soldados da guarda da duquesa, até então parados em suas posições, avançaram. Os dois se posicionaram ao lado de Satine, suas lanças apontadas para o peito de Bo-Katan, impedindo que ela dessa mais um passo à frente sem se ferir.

Lentamente, Satine se virou.

— Sabe, eu até cogitei abdicar – ela disse. – Você seria a próxima na sucessão se eu não indicasse ninguém para me substituir. Juro que considerei isso. Você é inteligente, mas usa sua inteligência dessa forma... – Satine olhou a irmã de cima para baixo, com desdém em seu olhar - ... desequilibrada e instável. E Mandalore já sofreu demais nas mãos de pessoas assim. Quer você queira ou não, você representa o último suspiro de uma tradição que está no fim dos seus dias. Por isso, eu resolvi me manter no poder. Não vou abdicar. Porque, mesmo que eu passe os próximos meses ou anos sendo caçada, ainda assim estarei construindo uma coisa que Mandalore nunca teve. E, pelo visto, você também não. Estabilidade.

Bo-Katan se afastou, quase tropeçando na barra de seu vestido. Sabia que a irmã podia ser uma pessoa dura quando fosse preciso. Já tinha visto ela agir dessa forma antes. Uma qualidade em meio a tantos defeitos que ela tinha, mas uma qualidade de um verdadeiro líder. Mas jamais imaginaria que Satine seria capaz de agir dessa forma contra ela.

Talvez, no fundo, Satine tivesse uma parcela de razão. Mas, a partir daquele momento, após todas essas palavras, a questão já não era mais política. Era pessoal.

— Eu espero que eles te encontrem – murmurou Bo-Katan, rangendo os dentes. – Espero que esses caçadores de recompensa achem você e te tragam pra cá. Para que você tenha o julgamento e a pena que merece. Eu mesma enviarei alguns. Eu prometo!

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— Pois que venham! – Satine a afrontou. – Estarei preparada!

Nesse momento, a duquesa virou as costas definitivamente para a irmã, deixando o grande salão do palácio em Sundaria para trás. E, em seu centro, ela deixou Bo-Katan e toda a sua amargura e orgulho.

Da janela de seu quarto, Bo-Katan viu quando a irmã e os dois Jedi entraram naquela nave velha. Tão velha e mal cuidada que se misturaria muito bem à naves de qualquer lugar da galáxia. Eu seu peito, seu coração batia com fúria ao ver a nave se afastar do palácio de Sundari, fazendo circular o seu sangue fervente. Mas Satine não era mais um problema. O problema era muito maior do que a duquesa. O problema era o ideal que ela representava.

Irada, Bo-Katan despiu seu vestido, rasgando cada centímetro do tecido com as próprias mãos, despedaçando-o e o desfigurando até que tudo o que restasse ao chão fossem trapos. Incapaz de se conter, a jovem avançou até a penteadeira e agarrou a tesoura. Em frente ao espelho, ela fez o mesmo com seus cabelos, reduzindo o comprimento dos fios até que estivessem na altura dos ombros. As longas mechas ruivas e onduladas de Bo-Katan Kryze caiam aos seus pés enquanto uma revolucionária nascia. A antiga Bo-Katan, uma dama da realeza, estava morta.

A vida palaciana nunca tinha sido um prazer para ela, mesmo...

— O que você quer? – Bo-Katan perguntou, sem olhar para a irmã, instantes antes, quando essa abriu a porta de seu quarto.

— Eu estou partindo – respondeu Satine de forma gentil, muito diferente da Satine do dia anterior.

— E espera o que de mim? – Bo-Katan rebateu, aos gritos. – Um abraço?

— Seria pedir muito?

As duas permaneceram em silêncio por alguns instantes.

O coração de Bo-Katan batia em seu peito como um animal tentando escapar de uma jaula. Até momentos antes, ela tinha certeza de que o nó em sua garganta era a manifestação física de sua raiva, mas, ao ouvir a voz da irmã, ela sabia que havia uma parcela de amargor também. Um arrependimento que ela sabia que apenas aumentaria se o pior acontecesse durante o exílio de Satine.

Bo-Katan era orgulhosa. Muito orgulhosa. Mas, mais do que isso, ela tinha medo desse sentimento de arrependimento. Um arrependimento que poderia acompanha-la pelo resto da vida. Um arrependimento que poderia arruiná-la.

Quase que contra a sua própria vontade, Bo-Katan estava se preparando para se levantar e abraçar a irmã, quando uma voz chegou aos seus ouvidos.

— Lady Kryze, temos que partir agora – Bo-Katan ouviu o mestre Jedi dizer. – Não temos muito tempo.

E, então, ela não se virou. Por alguns instantes, Bo-Katan sabia que Satine ainda estava parada à porta de seu quarto, esperançosa em ver a irmã mais nova se virar e ir até ela. Mas isso não aconteceu. Talvez... Talvez, se ela se virasse... Se ela a abraçasse... Talvez ela ficasse. Talvez ela desistiria disso tudo. Ainda poderia manter Satine em Sundari. Se ela ficasse, lutaria para defendê-la.

Mas, quando Bo-Katan finalmente se virou, Satine já não estava mais lá.

Apenas com suas peças de roupas íntimas, Bo-Katan saiu de seu quarto, marchando pelos corredores do palácio de Sundari. Não abandonaria Mandalore. Não como Satine abandonara. Não como Satine a abandonara.

Deixando uma trilha de fios de cabelos ruivos mal cortados por onde passava, Bo-Katan adentrou o quarto da irmã. Muito mais amplo e mais aconchegante que o seu. Mas ela não estava ali para reavivar disputas infantis. Ela estava ali para se tornar uma guerreira.

A jovem avançou até o armário da irmã, abrindo-o com ferocidade.

E ali estava ela.

A armadura mandaloriana de Satine Kryze.

Quase como se estivesse em um sonho, Bo-Katan avançou lentamente, deslizando os dedos pelo metal gélido e sentindo a pele formigar com o contato. Era quase como se a armadura a chamasse. Quase como se quisesse que ela fizesse aquilo. Quase não... A armadura queria. Porque, diferentemente de Satine, Bo-Katan era digna de usá-la.

Não havia mais lugar para ela na corte de Sundari.

Vestindo a armadura da irmã, Bo-Katan avançou pela varanda do quarto e pulou, caindo em um gracioso mergulho de cabeça. Instantes antes de tocar o solo, ela ativou a jetpack.

Estava livre.

E iria libertar Mandalore de Satine.