Tales of Star Wars

Negligência (Qui-Gon x Dookan)


Os jardins do Templo Jedi em Coruscant eram uma bolha de paz em meio a agressividade dos prédios cinzas que ocupavam toda a superfície do planeta. Além dos próprios Jedi, poucas pessoas sabiam que aquele lugar existia e muito menos ainda tinham o privilégio de ir até lá. Era o lugar perfeito para meditar sem ser incomodado. Pelo menos era o que ele achava, até sentir a presença de seu antigo mestre se aproximando dele, a passos curtos, como se não quisesse ser percebido.

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A simples presença do homem o retirara de seus pensamentos, interrompendo o fluxo de sua meditação. Isso poderia tê-lo deixado irritado, mas, naquele momento, não era um problema: ele não estava conseguindo se concentrar o suficiente para meditar. Sua cabeça estava tomada por pensamentos que, apesar de saber precisar evitar, ele não conseguia. Como mais uma vez o Conselho havia sido injusto com ele e com suas decisões.

Seu mestre se sentou ao se lado no banco, embaixo de uma grande árvore florida, mas o Jedi permaneceu na mesma posição, fingindo ainda estar imerso em um mundo muito além de Coruscant e dos Jedi. Mas, em todo o seu silêncio e inquietude, ele sentia estar sendo observado de perto, pelo homem, que parecia estar se divertindo com a sua tentativa frustrada de manter sua mal feita atuação.

— Até quando nós vamos fingir que você está meditando? – perguntou Dookan.

— Até você desistir de puxar a minha orelha e ir embora – Qui-Gon respondeu, imediatamente, sem abrir os olhos.

— E quem disse que eu vou puxar a sua orelha por isso?

Foi nesse momento que Qui-Gon abriu os olhos, finalmente, olhando para seu antigo mestre.

— Não vai?

Dookan fez que não com a cabeça.

— Então, não acha que o que eu fiz foi errado?

— Eu nunca disse isso! – Dookan rebateu imediatamente. – Apenas disse que não vou brigar com você por isso. Você agiu contra o Código e desobedeceu o Conselho. Mas... – Dookan arqueou as sobrancelhas – salvou todas aquelas vidas em Dantooine, não? – ele piscou para Qui-Gon e os dois riram.

Dookan parecia descontraído com toda aquela situação. Havia um sorriso irônico em seu rosto e Qui-Gon quase não o reconhecia. Aquele não era seu antigo mestre. Seu antigo mestre jamais falaria com aquele desdém do Conselho, muito menos assumiria que um ato de desrespeito ao Código podia ter resultado em bons frutos. Isso, inclusive, fora motivo de muitas brigas entre os dois, tantos anos antes, quando Qui-Gon era apenas um aprendiz.

— Você está bem, mestre? – perguntou Qui-Gon. – Bateu a cabeça?

Dookan riu levemente, mas, então, o sorriso dele desapareceu de seu rosto. O Mestre Jedi quebrou contato visual com seu antigo Padawan e observou o pôr do sol de Coruscant, uma faixa alaranjada que se perdia em meio aos arranha-céus do planeta.

— Eu queria que você soubesse por mim do que por outra pessoa – ele começou a dizer. – Não foi uma decisão fácil, mas é uma decisão que eu tomei e me orgulho dela.

— O que aconteceu, mestre?

Houve um curto silêncio no qual Dookan inspirou fundo antes de, por fim, anunciar:

— Eu estou deixando a Ordem Jedi.

Dookan olhou para Qui-Gon a tempo de ver o queixo de seu antigo aprendiz cair. Internamente, ele queria rir, mas se conteve, pensando que isso poderia desmoralizar sua decisão diante de Qui-Gon e, de alguma forma, ele pensasse que era apenas uma brincadeira de mau gosto.

Mas não era uma brincadeira.

— Mestre, você... Eu não... O quê?

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Dessa vez, Dookan não se conteve. Um pequeno riso escapou de seus lábios.

— Há muito tempo eu não estou satisfeito com os Jedi – ele começou a se explicar. – O Conselho se isolou tão fortemente dentro de sua doutrina que se esqueceu que ainda faz parte da galáxia. Os mestres do Conselhos estão tão obcecados no Código que eles mesmos escreveram que se esqueceram de olhar para os problemas reais, de pessoas reais e em lugares reais. A punição que deram para você hoje é apenas a prova disso. Você ofereceu a eles o resultado que eles pediram, apenas utilizou de uma via não prevista pelo Código e, por isso, resolveram te punir. Eles não ligam mais para as vidas que foram salvas, apenas querem que as regras sejam exaltadas, mesmo que isso leve à morte de inocentes. E eu já não posso mais compactuar com essa negligência.

— Você está fazendo isso por mim?

Nesse momento, Dookan praticamente gargalhou.

— Mas é claro que não – ele respondeu. – Tudo isso envolvendo você foi apenas a gota d’água.

Era nítido que a notícia abalava Qui-Gon. Mas, tendo as suas próprias frustrações com o Conselho e com o Código, ele realmente compreendia a decisão de seu mestre. Ele até poderia tentar convencer Dookan do contrário, a pensar melhor. Mas, talvez, aquela era a melhor decisão possível a ser tomada. Irreversivelmente insatisfeito, Dookan jamais seria o mesmo Jedi incrível que sempre fora.

— Posso te pedir uma coisa? – disse Dookan.

— Qualquer coisa, mestre.

— Seja a pedra no sapato deles por mim – Dookan piscou para Qui-Gon.

Qui-Gon riu e confirmou com a cabeça.

— Com todo o prazer, mestre.

Imediatamente, Dookan se levantou do banco.

— Mas, eu tenho um último trabalho como Jedi a fazer – ele disse. – Venha comigo. Vou te apresentar a um dos Iniciados. Ele vai se tornar Padawan em breve. Talvez seja a Força, mas algo me diz que você será o mestre ideal para ele.

— Acha mesmo que eu tenho condições de treinar alguém, mestre?

A relutância de Qui-Gon era evidente em sua voz. Se o próprio Conselho não o via como um Jedi que servisse de modelo para outros, como ele poderia ensinar alguém nos cainhos da Ordem?

— Nunca estive tão certo em minha vida – Dookan respondeu.

Apesar dos pesares, Qui-Gon sorriu. Ele se levantou e seguiu seu mestre para o interior do Templo Jedi.