Foi como se eu tivesse sido sugado por um tornado ou um aspirador de pó gigante. E eu levei um susto com aquela voz grave atrás de mim. No mesmo momento em que eu fui eu voltei! Estranho, eu sei. Mas foi exatamente assim que aconteceu. Eu estava no terminal de ônibus e, de repente, estava em algum lugar. Estava tudo escuro. Mais do que na escola. Eu estava apavorado. Chegava a suar como um porco. Se eu não tivesse vomitado antes, teria vomitado ali mesmo. Estava com muita falta de ar, que mais parecia que meus órgãos iriam explodir! Estiquei meus braços e mãos pra tentar encostar em algo. Nada. Estava sozinho. Merda... Quando eu finalmente parei de suar e consegui recuperar a minha respiração, senti outro vulto perto de mim. Foi tão súbito, que eu cheguei a dar um grite “levemente” roço... E agudo! Igual ao de uma garotinha! Estou imensamente arrependido de ter deixado aquele grito ter saído da minha boca.

– Ai! Não grite, Lucas! Sou eu. Isabella.

– Onde estou?! O que ouve?! – eu disse gritando em pânico.

– Lucas, se acalme, por favor! – uma voz grossa e familiar disse bem alto.

Eu congelei na mesma hora. Cheguei a me arrepiar. Mas aí eu me lembrei de quem era àquela voz.

– Robson? Quero dizer... Pai?

Aí uma luz verde-esmeralda foi se acendendo bem devagar. Estava saindo das mãos da Isabella. Era a sua habilidade, projetar rajas de energia. E lá estava ele. O tal homem misterioso do ônibus. Um olho verde-acinzentado e outro azul-marinho, como antes. De certo modo, eu parecia um pouco com ele, só que ele era mil vezes mais bonito que eu. Ele me olhava de um jeito meio... Ansioso.

– Ah Lucas. Que bom que esse dia finalmente veio.

– Onde eu estou? – eu perguntei.

Daí luzes brancas acenderam por toda parte. Eu estava em uma espécie de toca ou esconderijo de concreto e sustentado por ferro por todo lado. Parecia um daqueles abrigos subterrâneos anti-apocalípse que eu tinha ouvido falar. Havia escadas de metal por toda parte, iguais aquelas escadas de emergência que vemos nos prédios da cidade de Nova Iorque. Era por toda parte, que levava a várias outras portas grandes de metal. Olhei para cima, e a escadaria e as luzes continuavam a levar para vários lugares e cantos. Elas chegavam até a se cruzar, iguais as do Harry Potter. O esconderijo estava mais para um poço grande e profundo num formato de um pentágono, se fosse visto de cima. Eu me sentia uma formiga ali. Olhei em volta mais uma vez e vi que não estava apenas eu, meu possível pai e Isabella. Havia outros garotos, que chegavam lentamente para ver quem eu era.

– *Eu te disse que esse dia chegaria! – comentou um garoto que apareceu de uma porta atrás de Robson, animado. Ele estava falando em inglês.

– *Ah, você sempre acerta, Jonas. Por que será? – disse um garoto asiático, que falava o que parecia ser coreano – *Não, espera aí! Lembrei! Você pode ver o futuro!

Achei aquilo muito estranho. Um francês conversando naturalmente com um coreano, mas falando suas próprias línguas de origem. Como isso, minha gente?

– Ah, esqueci. Ele ainda não está devidamente familiarizado. Todos! Prestem atenção! Este aqui é o MEU filho, Lucas Candor! E ele é um de nós agora!

Todos começaram a me aplaudir e sorridente, até mesmo a Isabella. Eu só consegui ficar corado de vergonha, estava com tanto medo que nem consegui pegar minha lista de agradecimentos ao Oscar... Traduzindo: Nem sabia o que dizer ou o que fazer.

– Bem, ele deve estar meio confuso no momento. Jake, leve ele para um dos quartos e faça aquela “coisa” com ele, tudo bem? – disse Robson, que agora eu acho que devo chamar de pai... Sensação estranha essa, descobrir que tem um pai desse jeito.

– *Sim, Sr. Rangel! – disse Jake que logo foi em minha direção e indicou com a cabeça para me seguir. Fiz de imediato. Subimos uma escadaria e durante o caminho, tentei conversar com ele. Como eu sabia falar inglês, não foi um problema tentar puxar conversa.

– *É Jake, certo?

– *Olha só! Você fala inglês. Bem, meu nome de verdade é Jacob Jonas. Então agora você de ser chamado de Lucas Rangel, já que conhece seu pai, né?

– *Não tenho muita certeza sobre isso. Primeiro, eu ainda me considero Candor, e não Rangel. Segundo, não sei se Robson é meu pai de verdade.

– *Bem, eu sei que é... E eu vou te explicar agora mesmo – na mesma hora ele parou de andar, se virou para mim e mostrou uma porta.

Quando ele a abriu, vi um quarto. Uma cama com dois travesseiros e um edredom com listras vermelhas, roxas e pretas. O chão era de xadrez preto e vermelho, algo que eu sempre gostei. Havia uma estante branca de livros multicoloridos e um guarda-roupa cor de chocolate amargo (ou moca) enorme, com detalhes lindos, que eu jurava: se eu entrar nele, eu vou sair em Nárnia!

– *Lucas? Pode se sentar na cama por favor? – pediu Jake - *Melhor ainda, acho melhor você deita nela. Aproveite e veja se está confortável para você!

Aquele pedido foi meio estranho. A gente acabou de se conhecer (muito pouco, alias). Mesmo assim...

– *Nossa, vai me levar pra cama sem nem me pagar um jantar?

Jake deu uma gargalhada.

– *Não, não vou fazer esse tipo de coisa. Só vou dar um jeito na sua mente para que você entenda os outros.

– *Como assim? – eu disse assim que eu me deitei na cama. E então, assim que ele colocou as duas mãos na lateral da minha cabeça, o mais estranho aconteceu: ELE COMEÇOU A FALAR EM PORTUGUÊS!

– Acontece, Lucas, que eu tenho telepatia. Eu faço leitura, projeção e manipulação mental. Além de ataque psíquico e projeção astral, eu posso fazer com que você entenda outros idiomas como se estivessem falando a sua língua de origem com você, entendeu? Ou seja, no momento, você deve estar me escutando falar em português, mas na verdade, eu estou falando em inglês. E se você falar algo em português entenderei em inglês. Então, o que achou? - Jake disse tirando as mãos de minha cabeça e me olhou animado. Minha resposta? Bem...

– Puta que pariu! Isso é incrível! O que mais você consegue fazer? – eu fiquei meio ansioso. Aquilo era muito fantástico para não ficar surpreso.

– Ah, enquanto eu estiver vivo, os outros também entenderão você nos seus devidos idiomas e vice-versa.

– Quantos anos você tem? – perguntei.

– 22 anos. Você tem 16 anos, nascido no dia 27 de agosto de 1996. Seus poderes são: telecinese, manipulação de campos cinéticos, super-regeneração, capacidade de vôo supersônico agilidade sobre-humana e grito sônico! – ele disse, de repente.

– Já estava vasculhando minha mente? – eu disse meio surpreso e irritado. Ele poderia dizer qualquer coisa secreta sobre a minha vida para alguém.

– É que eu tenho psicometria. Se eu tocar num objeto, por exemplo, posso ver o que aconteceu com ele durante toda sua jornada. Posso ler todas as impressões psíquicas deixadas no objeto, como, por exemplo, verificar os seus donos ou os eventos ocorridos ao seu redor.

Ou seja, Jacob Jonas, além de ser muito boa pinta, era o fodão! Sabia que ele era capaz de fazer muitas coisas assim como eu. Robson tem sorte de que Jake era uma pessoa de bom coração, porque se ele fosse, assim, do mal, o mundo estaria na palma da sua mão. Então era melhor ninguém pisar no calo dele. Comecei só então a notar que seus olhos, ainda mostrando sua empolgação: um era castanho, sua cor natural, e o outro era verde claro, quase em tom pastel.

– Impressionante. Então poderia me contar a história desse guarda-roupa? – perguntei.

Ele sorri, mas muda de assunto.

– Vamos descer, vou te apresentar adequadamente o pessoal, se bem que você já conhece a Isabella. Agora, me diga; Que treta coisa tensa que aconteceu na sua escola, hein!

– Para de ficar xeretando minha cabeça a partir de agora, viu? – eu disse, meio incomodado. Aquilo já estava me irritando, eu estava muito a fim de esquecer esse episódio.

– Nem precisei. O Oráculo já estava sabendo disso, e foi por isso que seu pai te procurou...

– Quem? – eu disse.

– Ai, estou vendo que teremos uma longa conversa...