“Eu quero sobreviver”

“O que eu devo fazer?”

“O quão longe eu posso ir por isso?”

Pensamentos como estes passavam pela cabeça de Mike, que se encontrava deitado numa cama de lençóis e travesseiros brancos. As paredes eram vermelhas, cor de vinho, com flores bege. Havia uma pequena mesinha ao lado da cama e uma televisão presa em uma base de ferro na parede em frente à Mike, estava passando um episódio da série “Hannibal”, possivelmente era um quarto de hotel. Mike aponta o controle para a televisão e a desliga, logo em seguida cruza os braços embaixo da cabeça e fica observando o teto. Mike estava ali, mas seus pensamentos estavam a milhares de quilômetros de distância. Pelo canto do olho, o rapaz percebe a presença de alguém sentado numa cadeira num canto escuro do quarto.

Mike: Oi Mandy.

Mandy: Mike...

Pela janela do quarto, uma luz passa, possivelmente de um carro, e ilumina Mandy, revelando-a. Com uma regata preta, calça jeans escura, uma jaqueta de couro preta e uma bota da mesma cor.

Mandy: Vim até aqui apenas para te avisar que seu prazo está acabando. Esta é a ultima semana.

Mike: Você acha que eu não sei disso?

Mandy: Grosso. Aliás, eu esqueci de te avisar há muito tempo atrás, eu lhe dei uma segunda chance de viver, então uma alma não é o suficiente, tem que ser um sacrifício.

Mike: Sacrifício? Que tipo de sacrifício?

Mandy: Você ganhou sua vida novamente, você ganhou uma segunda chance e pode viver ainda melhor. Um simples assassinato não é o suficiente. Preciso de algo maior, algo mais importante, como por exemplo a alma de alguém muito próximo de você, ou que você ame.

Mike ficou pensativo e deitou-se de costas para Mandy. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Mike: Tudo bem, aceito os termos.

Mandy: Ótimo!

Depois de um sorriso cínico e ao mesmo tempo malicioso, Mandy some nas sombras. A cena muda e mostra HappyEater, Madame Samy, Gustavo, Keylla e Dani sentados numa mesa redonda, como se fosse uma reunião de grandes executivos.

HappyEater: O circo Fannark está em crise! Recentemente tivemos mais duas perdas. Alessy e Marcel.

Keylla: Como se não bastasse já havíamos perdido Nilla e Mike.

Gustavo: Não diga o nome desse traidor em voz alta.

Madame Samy: Ainda temos muitos números interessantes, mas para o circo reerguer precisamos acabar com aqueles policiais de uma vez por todas.

Dani: Mas e depois? Vamos continuar o circo com um numero reduzido de apresentações?

HappyEater: Já pensei sobre isso. Teremos que fazer uma nova turnê em busca de talentos, como na primeira vez.

Gustavo: É um ótimo plano, mas não se esqueçam de que os policiais não são os únicos que querem nos matar.

Keylla: O que você quer dizer com isso?

Gustavo: Mike está vivo e quer vingança, além dele, ainda tem alguns jovens que escaparam de nossas mãos.

HappyEater: Esses jovens são o de menos, em relação ao Mike... Não me preocupo, ele não ousaria voltar aqui.

Dani: Mais uma coisa... Seu filho, HappyEater.

HappyEater: O que tem ele? Funner pode ser um rapaz difícil, mas não é traidor.

Dani: Não foi o que vimos na noite da fuga de Mike e do policial.

HappyEater: Você está blefando!

Dani: Na verdade, não posso dar certeza nenhuma, mas vimos alguém os ajudando, só poderia ser ele, já que sempre odiou o circo.

HappyEater: Retire o que disse ou irá provar o gosto do próprio sangue!

Dani deu de ombros e saiu da sala. HappyEater bateu as mãos fortemente sobre a mesa e fez um sinal para que o restante saísse da sala. O palhaço sentou-se e ficou ali, parado, pensativo e sozinho. A cena muda e já era a noite do dia seguinte, Stive caminhava em um estacionamento escuro, havia poucos carros. Ele não estava fardado, mas sim com roupas simples, uma camiseta polo azul escura, uma calça jeans justa e um sapatênis preto. Ele coloca a chave para abrir a porta do carro, mas ouve um ruído.

Stive: Olá? Alguém aí?

Só havia silencio. Stive franziu a testa e entrou no carro, o policial colocou a chave e antes de ligar o carro, ajustou o espelho retrovisor interno. Nesse exato momento ele avistou alguém sentado no banco traseiro do carro, era Mike.

Stive: Mike! Meu Deus! Você tá vivo!

Stive estava aparentemente feliz, um sorriso enorme estava estampado em seu rosto, já Mike... Estava com um sorriso cínico e um olhar profundo.

Stive: O que houve? Você tá diferente, não aparenta ser o mesmo.

Mike: E eu realmente não sou o mesmo. Reparou que estou sem o boneco?

Somente nesse momento que Stive percebeu que o rapaz não estava mais com o boneco de ventríloquo.

Stive: O que aconteceu? Você tá bem?

Mike: Depois que você me abandonou, eu fui assassinado, mas fiz um pacto e aqui estou.

Stive: Eu não te abandonei, mas que história é essa de ser assassinado e de pacto?

Mike: Isso mesmo, digamos que ganhei mais uma chance, mas por um preço muito alto.

Stive: Como assim? O que você pretende fazer?

Enquanto dizia isso, Stive desliza a mão para a lateral esquerda do banco onde havia uma arma, porém Mike já tinha percebido o movimento.

Mike: Não pense nisso, estou um passo a frente.

Foi então que Stive percebeu que Mike pressionava uma arma nas costas do banco em que o policial estava sentado.

Stive: Olha Mike, podemos resolver isso, você não precisa fazer isso.

Mike: É mesmo? E quando você me abandonou, não pensou em nada não é mesmo? Só em você!

Stive: Não Mike, eu fugi por você. Você que pediu, logo que encontrei por pessoas, pedi ajuda, queria te salvar, mas eu fiquei internado e logo em seguida, fui preso.

Mike estava surpreso, não imaginava que ele tinha feito isso por ele.

Mike: Não... não pode ser.

Stive: Eu voltei até o lugar em que te vi pela ultima vez, mas você não estava lá. Foi difícil pra mim.

Apesar de tentar segurar as lágrimas, ainda assim, algumas rolaram pelo rosto de Mike.

Mike: Você pode até ter feito a coisa certa Stive, mas eu quero sobreviver, eu preciso sobreviver.

Stive: Eu também quero, com você!

Mike: Chega! Aliás, qual o preço desse pacto? A alma de quem eu amo!

Mike começou a chorar, mas mantinha a arma firme.

Stive: Então... Você... Me ama?

Stive parecia incrédulo, mas irradiava alegria de seu olhar.

Mike: Por favor... Me perdoe, mas preciso fazer isso.

Então, um barulho ensurdecedor do tiro ecoou por todo o estacionamento. Stive olhou para o buraco em sua barriga, suas mãos estavam sujas de sangue, logo em seguida olhou no espelho retrovisor interno e olhou fixamente nos olhos de Mike.

Stive: Eu... Também... Te amo, Mike.

As palavras saíram aos poucos, sua voz estava fraca, até que ele tombou sobre o volante. Mike saiu do carro, com as duas mãos nos olhos, limpando as lágrimas. Ao abrir os olhos, deu de cara com Mandy que estava encostada num pilar de concreto do estacionamento.

Mandy: Ótimo trabalho, cena digna de um Oscar.

Mike: Cale a boca! O que eu fiz não foi certo! Ele tinha buscado ajuda por mim! Ele me amava!

Mandy: É claro que o que você fez foi o certo. Agora está livre. Vá viver sua vida.

Mike: Que vida? Não tenho família, amigos e agora matei a pessoa que eu amava. O único que eu amei na verdade. Não tenho nada pra viver!

Mandy: A escolha foi sua.

Mandy virou-se e saiu caminhando, enquanto ela caminhava pelo estacionamento as luzes iam explodindo, até que ela sumiu totalmente na escuridão.

O rapaz começou a chorar, escorou-se no carro e deslizou até cair sentado no chão, chorando, sozinho num estacionamento escuro, com Stive morto dentro do carro.