"Mas não havia um momento em que ela não tivesse Carol em seu pensamento, e tudo o que ela via parecia lembrar-lhe de Carol." Lendo a última frase, fechei o livro rapidamente quando senti que as palavras começavam a comparar-se demais com a realidade em que eu vivia. Sorri ao pensar nas semelhanças assustadoras, mesmo sabendo que não deveria, de maneira nenhuma, me surpreender por tais coincidências. Eu já havia lido aquele livro diversas vezes, mesmo antes de traçar os rumos da minha própria história.

Olhei através da janela para a chuva fina caindo. A visão da água e da leve neblina me deu calafrios e, instantaneamente, me enrolei mais nos cobertores sobre a cama.

- Aff... A Lindsay está completamente gripada e, mesmo assim, quer ir brincar lá fora! Na chuva, no frio! – Catherine apareceu no quarto com sua melhor expressão de mãe preocupada.

Hoje seus olhos pareciam estar ainda mais azuis que o habitual. Como eu não havia notado isso o dia todo?

- A garota pegou a maior gripe da história! Por que ela continua sendo tão teimosa? Crianças doentes não são teimosas, certo? – a loira continuou seu discurso, sentando-se ao meu lado na cama.

- Ela é sua filha, Catherine! O que você esperava? – respondi entre risos.

- Será que você está me chamando de teimosa, Sidle? – Catherine perguntou com fingida mágoa.

Mordi o lábio e enviei-lhe um sorriso.

- Quem era? – Ela perguntou de repente.

Franzi o cenho em confusão, sem saber exatamente sobre o que estávamos conversando no momento.

- Quando eu cheguei, você tinha aquele olhar bobo de adolescente no rosto. Então, comecei a falar da Lindsay e você suspirou como se eu estivesse interrompendo algo importante. Só quero saber em quem você estava pensando – ela explicou.

- Nada... Eu só... Eu tinha acabado de ler mais um capítulo do meu livro, só estava tomando coragem pra sair da cama nesse frio.

- Ah... Claro... – ela concordou, ainda que sarcástica – Então, eu espero que você tome coragem para sair da cama logo. A minha mãe e a minha irmã já vão chegar para a ceia de Natal e elas gostam ainda menos de você quando a encontram na minha cama – Catherine pontuou a frase com seu sorriso desafiador.

Num movimento rápido, circulei meus braços ao redor de sua cintura e suas pernas, puxando-a para trás, fazendo com que caísse deitada sob meu corpo. Ela deixou escapar um gritinho agudo de surpresa.

- Bem... Você é minha garota agora. Já passou da hora da sua mãe e da sua irmã aprenderem a lidar com isso – reclamei, sem realmente parecer incomodada pela situação.

Catherine alargou ainda mais seu sorriso.

- Sua garota?

- Completamente minha! – exclamei, pousando um beijo casto em seus lábios, momentos antes de levantar da cama.

Parei no beiral da porta antes de sair do quarto.

- Catherine... – falei, virando-me em direção a cama, onde ela ainda estava deitada – Amanhã faz um ano – concluí como se acabasse de perceber aquele fato completamente novo.

Catherine sorriu.

~xXx~

Um ano antes...

Andei depressa pelos corredores do laboratório com um punhado de relatórios em minhas mãos. Eu precisava urgentemente chegar ao DNA; uma idéia havia chegado a minha cabeça como em um estalo de compreensão e, se eu estivesse correta quanto ao palpite, poderia ter solucionado aquele caso.

- Oi, Wendy! Lembra das amostras de sangue que eu enviei anteontem? – perguntei. Ela continuou olhando-me sem dizer nada, provavelmente tentando lembrar – Roubo e assassinato, lembra?

- Oh, sim! Você deve estar falando das cinqüenta e sete garrafas que vieram daquela briga de bar na Strip. Aquela era a sua cena de crime? – concluiu ela. Por um momento ponderei se Wendy estaria muito brava comigo, afinal eram cinqüenta e sete garrafas!

- Era. Pode me fazer um favor?

- Desde que você não apareça com mais nenhuma garrafa para ser processada...

- Eu preciso que você compare o sangue que encontramos no barman morto com este aqui – entreguei-lhe as amostras.

Wendy começou seu trabalho prontamente. Resolvi ficar por ali mesmo e esperar os resultados: era uma noite tranqüila para se trabalhar. Na véspera de Natal, acidentes de carro tendiam a matar muito mais do que assassinos e ladrões.

- Então, Sara... Você vai sair com a gente?

- Sair? Pra onde exatamente?

- O Hodges está organizando. Ele está convidando todos no laboratório para passar o Natal no Angel's.

- Angel's não é um bar?

- Sim, e está todo enfeitado com pisca-piscas pra qualquer lado que você olhe. Também tem uma árvore gigante bem ao lado da porta de entrada! – a morena explicou entusiasmada – Vamos nos encontrar lá às dez da noite... Nick já me ofereceu uma carona, se você quiser ir junto, eu falo com ele.

- Ok... Tudo bem – murmurei displicente. Eu nunca planejava nada de importante para estas datas; minha família não era o que se podia chamar de "comum", estes dias acabavam me deixando sentimental demais o que me fazia invariavelmente buscar certa distração em minha vida profissional.

O barulho da impressora despertou-me dos devaneios. Wendy apanhou os papéis lendo os resultados de seu próprio trabalho.

- O resultado bate – disse ela, entregando-me uma das folhas –A pessoa que machucou as mãos na garrafa quebrada é a mesma da amostra que você me deu.

- Ótimo – sorri, vitoriosa – Quem diria que a vovó Smith mataria o próprio neto?

- Espere aí... A vovó Smith não tem 78 anos?

- Tem.

- Uau.

Chegamos ao bar às dez e meia. Nick pegou um engarrafamento que acabou nos deixando atrasados mesmo tendo saído quinze minutos antes das dez horas. A cidade parecia estar ainda mais iluminada do que de costume – se é que isso era possível -, o jogo de cores natalinas particularmente me atraía, havia vermelho e verde em todos os lugares, e, como haviam me informado, o grande pinheiro colorido de enfeites podia ser avistado ao lado da porta de entrada do Angel's.

Confesso que não havia pensado muito sobre o que exatamente esperar dessa comemoração, mas, com certeza, a última pessoa que imaginava ver ali era Catherine.

No entanto, foi ela a primeira que enxerguei quando entrei no bar. A loira estava sentada ao lado de Warrick, seu sorriso inconfundível iluminando as feições delicadas. Mais tarde, acabaria descobrindo que seu sorriso sempre teria aquele efeito sobre mim – a sensação de estar embriagada demais para andar, o medo de fazer qualquer coisa que pudesse mudar sua expressão.

- Vai ficar aí olhando ou vai até lá falar com ela? – Nick falou, chegando mais próximo de mim e piscando um olho. Depois, continuou andando até a mesa onde estavam praticamente todos os nossos colegas de trabalho. Tentei segui-lo.

Cumprimentei as poucas pessoas que ainda não tinha visto naquele dia. Catherine era uma delas. Ela levantou de sua cadeira e beijou minha bochecha.

- Não esperava encontrar você aqui – disse ela, voltando a sentar ao lado de Warrick.

- É... Eu também não esperava encontrar você aqui.

- Não me julgue, Sidle. Eu não estaria aqui se minha mãe não tivesse convencido a minha filha teimosa a viajar com ela no Natal – Catherine explicou-se. Depois, continuou a falar com o moreno ao seu lado sobre algum assunto que já estava em decorrência no momento em que eu cheguei.

Tomei um lugar exatamente à frente de Catherine e passei a próxima meia-hora um tanto hipnotizada com sua imagem, com as ondas loiras de seu cabelo caindo sobre os ombros, com seus olhos que brilhavam a cada vez que alguém a fazia rir. Em dado momento, percebi que aquela distância a nos separar tornava-se cada vez mais difícil de aceitar, eu precisava tanto dela. Eu percebi que queria sentir sua pele, seu cheiro e tudo nela que me fizesse amá-la ainda mais.

De repente, Greg que estava sentado ao meu lado, prostrou-se em pé chamando a atenção dos seus amigos que conversavam distraidamente.

- Ei! Querem saber de uma coisa? Vocês são um bando de desanimados, isso sim! Esse vai ser o Natal mais chato da minha vida se continuar como está – o tom do CSI mais novo era de brincadeira, mas suas palavras não deixavam de ter um certo toque de verdade.

- Greg, eu acho que já bebi o suficiente pra ter vontade de dançar – Cath sugeriu, levando mais um gole da bebida em seu copo.

Greg sorriu feito uma criança. Ambos foram até a minúscula pista de dança no centro do bar. Pouco a pouco os homens da mesa foram tomando coragem e animando-se com o incentivo do amigo. O maior problema deles era que Hodges não deixava que mais ninguém dançasse com sua amiga, Wendy, e... Bem, eu não era uma grande dançarina. Sobrando para Catherine a missão de dançar uma música com cada um... Não que ela não se divertisse com isso.

"Spend all my days with a woman unkind"

- Oh! Eu amo essa música! – exclamei.

- Você não vai mesmo falar com ela? – Nick sorriu, lembrando de seu comentário anterior.

- Você está falando sério?

- O que você acha? – o texano disse, carregando a frase de ironia.

- Eu acho que já tem homens demais dançando com ela – respondi sua retórica.

"Someone told me there's a girl out there

With love in her eyes and flowers in her hair"

Ouvi mais alguns versos da música que tocava, servindo de trilha sonora para a imagem da loira a poucos passos dali que se embalava nos braços de Warrick.

- Sara, existe uma razão para o fato de Catherine estar sempre por perto. Além disso, qualquer um sabe o que você sente, você não pode esperar que justo ela não saiba também – Nick voltou a argumentar.

Suspirei pesarosamente. Catherine era um sonho. Um sonho tão bom que parecia irreal certas vezes.

Continuava a encarar o copo quase vazio a minha frente, debruçada na mesa tentando dissimular os olhares instintivos que eu enviava a Catherine. Segundos depois, um homem aproximou-se dela falando qualquer coisa para Warrick que sorriu sem graça antes de dar dois passos adiante e deixar que o loiro desconhecido seguisse a dançar com Cath.

- O que foi isso? Quem é ele? – fui logo perguntando quando meu colega de trabalho voltou à mesa.

- Não faço idéia. O branquelo ali chegou com um papinho de que ficou olhando pra ela a noite toda e mais alguma coisa que eu não entendi. Desculpe Sara... Eu não pude fazer nada – ele respondeu, encolhendo os ombros.

- Como eu disse: qualquer um sabe – Nick intrometeu-se, destacando as palavras.

- É claro que sabem – bufei, levantando do meu lugar em direção ao casal mais loiro da pista de dança.

Dei dois tapinhas no ombro do homem, enquanto agarrava uma das mãos de Catherine para colocar certa distância entre os dois.

Ele me olhou confuso, até que comecei a falar:

- Cara, sabe aquela morena ali no bar? – apontei para Wendy que, distraidamente, tomava sua bebida ao lado de Hodges – Ela disse que quer conhecer você. Por que você não vai lá pagar uma bebida pra ela?

Eu sabia que Hodges iria querer me matar quando descobrisse meu planinho maligno, mas, infelizmente, o ciúmes era um monstrinho dentro de mim que me assustava muito mais do que qualquer ataque de histeria que Hodges viesse a ter.

De qualquer maneira, aquilo não funcionou. O cara não tirava os olhos de Catherine, relutando em deixála, e ainda me olhava como uma inconveniência estranha e constrangedora.

Ok. Plano B.

- Olha... Pelo menos, a Wendy não está comprometida – fiz nova tentativa. Para acompanhar o comentário, puxei Catherine mais perto envolvendo sua cintura em meus braços. O loiro ficava cada vez mais constrangido; mas, desta vez, deu certo, ele já olhava para Wendy como uma opção muito melhor.

- Bom... Er... Nesse caso, eu acho que vou ter que deixar as senhoritas aqui sozinhas – completou ele, virando as costas e saindo dali o mais rápido que pode, deixando para trás uma Catherine genuinamente divertida.

"To find a queen without a king

They say she plays guitar and cries and sings la la la la"

A música continuava a inundar o ambiente, enquanto eu segurava o corpo de Catherine contra o meu. Ela movia-se devagar ao ritmo dos dedilhados da canção, seus braços jogados as voltas do meu pescoço.

- Desculpe estragar seu encontro – falei em seu ouvido.

- Você é meu encontro agora, Sidle – ela disse, procurando separar nossos corpos ligeiramente com o objetivo de olhar em meus olhos, não que eu a desse muito espaço para fazer isso.

Contudo, ela aproximou seu rosto do meu... Sua boca tão perto da minha que eu podia sentir sua respiração quente fazendo cócegas na minha pele. A sensação do sangue pulsando forte em minhas veias, a adrenalina correndo por todo meu corpo, minha respiração irregular... Aquilo, sim, parecia irreal. Aquele exato momento.

Então, a loira em meus braços aproximou ainda mais sua boca, mas no milésimo de segundo a mais que demorei para tocar-lhe os lábios, ela desviou-se, voltando a descansar o rosto em meu ombro.

- A música já acabou, Sidle – declarou, pousando um beijo suave na pele nua do meu pescoço. Depois, afastou-se em direção a mesa em que os rapazes ainda estavam sentados.

Me juntei aos demais CSIs com alguns segundos de atraso, chegando apenas em tempo de ouvir Nick dirigir-se a Catherine com um sorriso irônico, dizendo-lhe "Caramba! Isso foi cruel!"

Aquilo não estava certo. Não estava mesmo... E merecia um ponto final. Foi o que fiz: sentei na cadeira ao lado da CSI loira e planejei tudo naquele minuto que se seguiu.

- Rapazes, vocês podem virar de costas, por favor – pedi à dupla de amigos.

- Mas o que...? – Nick protestou, sem entender.

- Por favor, rapazes? – insisti. Ainda sem compreender, ambos fizeram o que pedi e olharam para o lado oposto.

Você sabe que esta perto de ganhar uma batalha quando tem Catherine Willows nervosa, bem a sua frente... Foi isso que eu orgulhosamente constatei ao aproximar nossos rostos novamente.

- Cath, ninguém ensinou a você que não se termina um encontro sem um beijo de boa noite na sua namorada?

- Eu não sou sua namorada, Sidle.

- Não... ainda não é – repliquei, finalmente beijando-lhe os lábios. Catherine não fugiu como já fizera, nem mesmo hesitou antes de responder ao meu toque com fervor.

E naquele momento mágico, a única coisa que podia ouvir além da minha respiração, era a voz de Nick como um eco ao fundo:

- Sara... Nós já podemos olhar agora? ... Sara?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.